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Vida Ociosa (2ª edição)/14

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O aguaceiro

 

Numa transição inesperada, o dia começou de embruscar. A atmosphera tornava-se dormente e abafada. A gente parecia mover-se num fundo oppresso de agua mórna.

— E os velhos! preoccupou--se Americo. Entretidos na pesca, talvez nada vejam...

Ia grital-os; mas, da janella das fuchsias, que meneavam os flexiveis caules florescidos, divisamol-os açodados, a vingar cansadamente a ladeira da horta.

Já os cabritos, salvando a cerca, recolhiam. As bafagens do vento, que levantava, encrespavam num sussurro as folhas do feijoal, embalançando as campânulas que sobrenadavam nas ondulações da verdura.

— Quantos dourados? gracejei, á fala com os velhos anhelantes, já entrados no terreiro.

Siá Marciana, de rosto quasi encoberto pelo chapeirão de palha desabado, tirou do cesto piriforme um peixe de palmo:

— Não caçôe, que aqui trago uni dourado legitimo. Mas filhote muito novo.

A pesca fôra má, explicou Prospero. Talvez por que o ceveiro estivesse rondado por algum pirata dos poços profundos. Por seguro, lá ficara um anzol, iscado com lambary vivo.

— E que seria esse pirata? indaguei.

— Talvez um dourado dos grandes, que breve terá o Americo que desenhar na parede. Não se trata, Deus louvado, do minhocão ou do boi d՚agua — sorriu o velho.

Disse-me do primeiro, que é crença ser enorme serpente que solapa as ribanceiras, mudando o curso aos rios; e muitos supersticiosos juravam já ter visto o boi d՚agua, monstro que ama espapaçar-se ao sól, fazendo seu pouso em lagedos ilhados no meio das correntes profundas; em avistando alguem, atufa-se no abysmo; a agua catadupeja e espirra, fechando-se em sorvedouro sobre seu gigantesco costado.

— Feche a janella! — interrompeu-se, a um subito pegão de vento que revolveu a casa, despregando da parede velhos chromos de folhinhas.

Fóra, a lufada assobiava numa cerquinha de bambús novos, arrancando-lhe uma assuada de mil silvos agudos e graves. Vastos turbilhões de folhas e poeira revoluteavam no ar. De volta aos beiraes andorinhas retardatarias luctavam com o vento; ás guinadas d՚aqui p՚r՚alli, debatiam-se, buscando o rumo; por momentos, perdido o equilibrio, descahiam, para, rasteiras, com o chão, recomeçarem o vôo e a lucta, numa afflicção d՚asas que traduzia o anseio pelo ninho; e, ás vezes, como vencidas, levava-as o vento, cousas inertes, espaço em fóra.

Pela porta do negocio, aonde eu fôra acudir a batidas urgentes, de envolta com a ventania embarafustaram aos gritinhos duas mulatas, meio cegas do pó, acolhendo-se do temporal. Uma dellas, papuda, trazia uma pequenita acavallada na cinta. A՚ minha vista acanharam-se.

— Siá Marciana?

— Entrem, disse-lhes, apontando a portinha de communicação.

Uma atraz da outra entraram. Observei-lhes o andar desengonçado, bambaleante, tão peculiar aos roceiros, e que é a adaptação do passo humano ás desigualdades do chão habitualmente trilhado.

A tromba passou quasi instantanea, como viera. Mas o dia sombreou ainda mais. Da porta do negocio, onde me deixara ficar, inspeccionei o arredor. A poeira erguida fluctuava immota, toldando a perspectiva com a sua côr suja; e revoadas de folhas, largadas na altura, desciam aos corropios, ou em lentos vaevens, juncando a estrada. Suava-se. A pelle, titilante, pedia o refrigerio d՚uma affusão gelada e o calmo espasmo das prolongadas immersões. Tudo gritava pela agua, ansiava por aguaceiro diluvial que abeberasse o solo calcinado e em farta ablução abstergesse a natureza. No abafo abochornado da hora, havia uma como concentração de expectativa. A terra voltava-se para o céo negro, num boquear generalizado de poros sequiosos, supplicando a gotta d՚agua de Lazaro; e, nessa dilatação de seccura e anseio, o boleado dos campos parecia intumescer-se, para que mais facil a fresquidão os filtrasse e embebesse, restituindo aos colmos estanques de lympha o alegre rugitar alvoroçado da seiva.

As primeiras gotticulas, ainda invisiveis, disseminaram-se escassas; depois esboçaram-se, menos espalhadas, em tracinhos finos cahindo. O céo mostrava-se taciturno, como fechado num rancor reconcentrado, rosnando. A subitas um estampido secco explodiu nas entranhas das nuvens; e, em longo echoar, uma cauda rumorosa de sons fez o circuito do horizonte, passeando pelas quebradas das montanhas seu rugido mordaçado.

Foi o signal. Grossos pingões precipitaram-se em atropello, empelotando a poeira, cerrando-se, premendo-se, a espipocar balofamente no chão; em pouco a bátega despejava-se em ondadas cheias. Columnas brancas corriam no horizonte, como batalhões de reforços, succedendo-se num assalto. Despenhavam-se dos beiraes as gotteiras tensas, parallelas, estralando nas pedras da calçada; e, formando um reticulado de innumeraveis veios, a agua confluia para o meio da estrada em enxurro barrento, que abria carreira morro abaixo.

Eu estava salvo. Não me lynchariam, aquelle dia. Fui logo avisar siá Marciana.

— A sra. tem hoje um hospede para pousar.

Os velhos ficaram encantados. Americo irradiou, antegozando longas horas da noite fecundas em sciencia pura: naturalmente eu seria seu companheiro de quarto.

Na varanda reinava penumbra, a que logo meus olhos se affizeram. Vi as duas mulatas sentadas na beira do estrado.

— O sr. deve sentir fome — disse siá Marciana. Vou buscar-lhe uma cousa de que gosta muito...

Suas chinellas arrastaram-se, encaminhando-se para a cozinha. Trouxe-me um pedaço de mogango coberto com uma poça de melado. Cada um teve o seu naco e sua colher. Fez-se na sala um silencio de mastigação. Fóra, as gotteiras trapejavam, em abafado escachôo. O feijoal, sob a corda d՚agua, abria um acachoeirado rumor, que nos chegava amortecido, atravez das janellas fechadas.

— Phenomeno curioso, um chuveiro assim repentino, murmurou Americo, cogitativo.

— O dr. não adivinha sobre que falavamos, disse siá Marciana noutro rumo, lançando um olhar malicioso á companheira papuda..

— Não seja linguaruda! pediu a mulata, bufando de riso e escondendo a cara.

— Não é segredo, riu a velha; diz a Clemencia que implica quando encontra qualquer pessoa, porque a primeira cousa que olham é a barriga della, e que o sr. foi mais delicado.

— Gente! a sra. diz tudo! torceu-se Clemencia, engasgada de riso. A falar verdade, pois decerto! é coisa que implica, porque não foi roubado. Ha creaturas que parece que nunca viram pança de mulher! Sabe, o sô Gaspar? Traz-ant՚hontem teve o desaforo de perguntar-me se comi muita abob՚ra.

Olhei-lhe o abdomen, que de facto era um monumento notavel. Trazia sua possuidora as mãos enclavinhadas sobre o embigo, talvez com a pretenção de dissimular-lhe o volume.

— Tem mesmo muita gente desaforado, grunhiu a papuda. Desde que fiquei com o pescoço grosso, é um gosto de reparar... Esta grossura...

Contou-lhe a historia desde remotos antecedentes, fugindo, com euphemismos, á propriedade da expressão. Ouvindo a conversa, a menina, ainda enganchada na ilharga, poz-se a brincar destrahida com o par de cabaças.

— Fica quéta, demoninho! — rugiu a creatura, estortegando-lhe a nadega.

A pequenita confrangeu-se, largando os pendurelhos.

Siá Marciana entrou a perguntar sobre as conhecidas das bandas dellas. Miseria, doenças... Havia uma grande novidade: voltara de cumprir trinta annos na cadeia o Lourenço da Frederica. Lembravam-se? Da Frederica, que andava com o Martinho, de longos annos. Lourenço namorava-a. Num accesso de "cannelagem" pica de faca um caboclo, que deitara vistas cúpidas á mulata. Não houve appello nem perdão — gramou todo o tempo entre grades. Chegara avelhuscado, quietarrão̟ com inchação de membros, e arrastando de uma perna. Não sabiam que viera cheirar para alli. Estivera na casa da Frederica uma hora, e depois seguira p՚r՚as terras delle que, parecia, eram além de Uberaba — cousa de leguas e leguas.

Interessei-me pelo caso e fiz perguntas. Nada sabiam... A Frederica era quem poderia contar.

— Ella mora no caminho da cachoeira, dr. Felix — explicou Prospero. O sr. ver-lhe-á o rancho quando fizer a viagem planejada. Falar nisso — não pode ser na quinta-feira proxima?

Assenti, de corpo molle; como quizesse...

Continuou a falar nesse passeio. Disse algo sobre cavallo arreado, e não sei que mais, o que ouvi desattento. Pois esse projecto pouco tentava-me a lesmice. Eram castellos no ar, pensava.

A chuva ainda cantava na coberta, coando fino pulverisco pelos intersticios das telhas. Com a garoa rarefeita, a temperatura refrescava, no interior fechado. Já as projecções das cordas d՚agua eram menos rumorosas. Cedia, o temporal. De gotteiras aqui e alli, aparadas em latas, pingo-pingava a agua com mais espaço.

Com satisfacção attentaram as mulatas em seu declinio.

— Vae passar, sá Clemencia — resmungou a dos papos.

— Deixe chover, disse a velha. As senhoras estão em abrigo. Esperem a janta.

— Impossivel, sá Marciana! E՚ ida de muita urgencia... Precisamos estar logo na cidade.

Cousas de doença. O marido da Clemencia estava com febre e empachado.

— Será do logar... Porque estamos mudados de pouco tempo. E aquella morada não me está quadrando nada. E՚ na beira da estrada e, na estrada, a sra. sabe, passa bom e passa rúim. Desde que fui p՚r՚aquella casa não tive um dia de alegria. Nem a gente pode crear. Tenho uma paixão quando gavião come um pintinho meu, e lá já comeram oito, só esta sumana. E não combino com o novo patrão. Assim, a sra. vê ― meu homem na cama, entregue, e elle passa p՚r՚a lá e p՚r՚a cá e não vae lá nem uma vez perguntar se morreu, se viveu.

E ainda insolencias, "ridiquices"...

— Mamãe, quero agua... — choramigou a pequenita.

— Fica quéta, coisa rúim! — ralhou a papuda, com um repellão. Tu não qué agua nenhum.

— Vou buscar, nenen... espere!

E siá Marciana, tomando um copo, apressou-se para o, pote. Destapou e tirou agua com a caneca de borda repicada e cintada de furinhos sob as pontas — precaução para o asseio da bebida.

Mas o tempo estiara. Só se ouvia o pingar lento das abas do telhado e o rumor distante da enxurrada decrescida, afastando-se.

Perras de movimento as mulatas puzeram-se em pé, gemendo a preguiça.

— Bem, vacês até outro dia.

Despediram-se de um em um.

Pela porta que lhes deu sahida entrou uma aragem fresca e a pallidez do dia ennevoado. Abertas todas as portadas, a casa alegrou-se com a suave claridade exterior. Frouxeis de nuvens brancas tapetavam docemente o céo. Ouvia-se ainda um murmurejar de aguas remotas, perdidas ao longe. Escasqueada a paisagem de seu tisne poento, todas as côres se fixaram, lavadas, nitidas. O proprio som tinha um timbre mais claro e musical. Da terra, emfim saciada, brotava como um sorriso esparso, que cascalhava, argentino, nas surriadas dos caracarás pousados num sassafraz fronteiro, sorriso feito em frescor na aragem, em brando frêmito nos pendões pennugentos dos campos e em alvura cariciosa nas lentas vaporações que já despegavam do solo, acamando-se maciamente nos refolhos dos valles.

 

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.