Vida Ociosa (2ª edição)/18
O sentenciado Lourenço
A vastidão dos campos sem veios d՚agua, dera-me sêde. Avistei um rancho á beira da estrada. Defrontando a porta, defendida por um cancello, gritei pelos moradores. No mesmo instante vi agitar-se no commodo da entrada, que tambem servia de cozinha, uma mulata obesa e velhusca.
— Um pouco d՚agua, faça favor?
Trouxe-m՚a numa cuia, pedindo desculpas: casa de pobre...
Regalei-me com a frescura nevada da bebida.
Nesse momento uma voz de homem chamou da horta:
— Frederica!
Frederica! Este nome lembrou-me o sentenciado Lourenço, que matara um homem por ciumes. Aquelle escombro de gente, aquellas roscas de toucinho velho com figura humana, aquella creatura fôra a fatal inspiradora do gesto homicida, no frescor de seus dezoito annos tentadores, que tinham a virtude de açular os homens uns contra os outros, em furia de morte, na disputa de sua posse. Que descalábro! O que os annos levam de graça e provocantes attractivos!
E, com o vivo interêsse que me causara a narrativa das duas roceiras no dia do temporal, borbulhavam-me á bocca muitas perguntas sobre o encontro com o Lourenço após trinta annos de carcere; recalquei-as, porêm. De certo fôra banal e desinteressante. Duas respostas que me désse, e lá se me desenflorava a mente do romance que eu tecera sobre a volta do sentenciado. Era melhor não saber.
Entreguei a cuia, agradecendo; e prosegui.
Fôra melhor não perguntar. Porque, afinal, bastava-me a minha visão interior, que sobrepujaria, certo, a realidade. E evoquei a figura do Lourenço, demandando a casinhola, meio inchado, deslumbrado do sol a que se deshabituara, arrastando de uma perna. Passara trinta annos a antegozar aquelle momento. Nelle via a razão de ser de sua vida, o ponto de convergencia de seus mais caros pensamentos. Pela illusão da ausencia, acarinhara todo o tempo a imagem da mulata, como a vira pela ultima vez. Nos primeiros annos esperava com ansia a sahida; entretinham-no as appellações, o perdão em festas nacionaes... De cada vez era um alvoroço. Via-se chegando de surpresa; e, na alegria do amor reatado, causa della, desfechava o romance de sua vida.
Mas os annos se escoavam, os ultimos recursos foram baldos e o perdão não viera. Sem esperança, aquietaram-se os assomos de sua mocidade insoffrida, recalcitrante entre as grades e começou a ganhar uma calma philosophia de conformidade. Sua vida não era mais um romance com desfecho e sim uma interminavel biographia incolor, que, decepada em qualquer ponto, ahi ficaria bem rematada, sem que se lhe notasse descontinuidade. A Frederica, se pousava de ordinario na sua imaginação, nella chumbada indelevelmente, não lhe accelerava o rythmo do sangue. Evocava-a melancholico, como um bem inattingivel, raio de luz que tangenciou o deserto polar de sua vida com uma promessa e presto se eclipsou esquivo. Se a sorte houvera sido outra! Se não lhe truncassem o encadeamento da vida! Porque a liberdade era uma porta longinqua, a tremeluzir baçamente no cerraceiro da velhice, como uma luzita hesitante na sombra vasta.
Volveram-se os tempos e elle sahiu. Eil-o trôpego, aturdido pelo ar livre e espaço desempeçado, buscando, em terras longes, o paradeiro da mulata. Porque o fizera? Ultimo anseio pela felicidade? Attracção? Monomania de pobre diabo um pouco virado do juizo? E o ar livre o opprimia, o mundo aberto e immenso dava-lhe vertigens. Talvez lhe passassem pela imaginação scenas de outr՚ora e, permixto, os sorrisos feiticeiros duns dezoito annos turgidos de seiva, boleados em tentações de carne, inspiradores da acre tonteira que o arrastara ao desvario e ao sangue. Velhas exhalações...
E trôpego, arrastando a perna, chega, afinal. O sol abrasa. Esbaforido pousa o bordão e a trouxa, limpa o suôr. Que canseiras de estradas longas!
Antes de bater olha o céo e o arredor. Não tem pressa. Fere fogo, remexe a cinza do cachimbo e chega a isca. Devassa outra vez o arredor e o céo, puxando a primeira fumaça. Ainda arqueja. Que estradas sem fim! Que mundo immenso! 0 pensamento lerdeia-lhe com as baforadas indolentes. Bambo, acocora-se, cravando os olhos hypnotizados numa volta da estrada coruscante de luz. Revê a prisão, o carcereiro de sorriso amavel, os outros sentenciados. Boa gente! Sentira deixal-os. O coração ainda apertava-lhe a essa nova ruptura do encadeamento de seus dias. Ia encetar uma terceira existencia, elle que se contentaria com a embriaguez da primeira ou com o tedio somnolento da segunda. Má cousa, o recomeçar!
Emfim, repousa na derradeira etápa; e, daquella soleira terminal, como dum pincaro sobranceiro, aprazia-lhe olhar ao longe o caminho andado e balancear as fadigas retrospectivas. E, assim, quêda largo tempo. E՚ com esforço que resolve reentrar no presente. Ergue-se a custo e dá "ô de casa".
Chegando do fundo, Frederica assoma á porta.
— Boas tardes.
— Boas tardes.
Ella entreabre a cancella e espera, de pé, no limiar. Elle observa-a em silencio. O silencio demora-se. Por fim rompe-o:
— Vacê é a Frederica?
— Sou.
— Eu sou o Lourenço.
Recae o silencio. Observam-se longamente.
— Entra.
Frederica escancara a cancella, dando-lhe passagem.
— Senta.
Apresenta-lhe uma tripeça, indo accommodar-se no tóro do pilão. Continuam a observar-se mudamente. Ella, primeiro, quebra a mudez:
— Antão vacê é o Lourenço?
— Sou.
O sentenciado atiça o fogo do cachimbo e recomeça a baforar. Seu pensamento tambem bafora, em visões esparsas. Era a mesma necessidade de relançar, ao cabo da jornada, o caminho feito. Sentia uma grande calma, o sedativo bem estar de quem chegou e pode, afinal, espairecer. Mas a vida sabia-lhe amarga. Precisava conformar-se. O que a gente se illude, sequestrada entre grades! Cá fóra tambem a roda do tempo não pára de gyrar. O mundo, para seguir seu curso, não espera trinta annos a libertação de um qualquer Lourenço. Seu pensamento fluctuava, de reminiscencia em reminiscencia. Cousas antigas!
Grita de crianças, no terreiro, chamou-o á actualidade.
— Vacê mora com homem? perguntou.
— Com o Martinho. Tenho onze "familias" delle.
A vida sabia-lhe amarga. Havia mudanças. Não lhe haviam de embalsamar o passado, immutavel, aguardando os trinta annos. A roda do tempo gyrava igual em toda a parte, e em toda a parte a vida revezava seus cambiantes aspectos, em aggregamentos e desintegrações. Invadiu-o então um grande cansaço.
Bamboleando a custo o corpanzil anafado, Frederica tirou o coador do arco, espetado na parede. O condemnado seguia-lhe os movimentos; viu-a enxaguar o panno, assoprar as brasas arrefecidas, ageitar a chocolateira no borralho, depois sentar-se na taipa, á espera, sem desprender os olhos das brasas, que a fascinavam.
O pensamento de Lourenço esvoaçou frouxo, para a prisão. Revia o carcereiro, de sorriso amavel, bom homem. Envelhecera na faina e o mistér lhe não empedernira o coração. Longas prosas tiraram ambos, separados pelo engradado da porta. O tempo fizera-os amigos. O sr. Pedrosa, que assim se chamava, poupava-o na faxina e facilitava-lhe a venda de seus artigos de trançador, officio aprendido na cadeia — o que procurava o encarcerado compensar-lhe com a prestação de pequeninos adjutorios. E a cada momento reciprocavam-se desses miudos obsequios que, mesmo impalpaveis e infimos, firmam a amizade, sem a onerar com o compromisso de obrigações que captivam. Era o Pedrosa, por ter melhor cabeça, quem fazia o calculo do tempo a cumprir: "onze annos, dez mezes e cinco dias, Lourenço..." Uma folhinha animada, impaciente por não soltar mais prestes os folhellos, exulando-os ao vento em revoada, ao rythmo do seu desejo, para soltar o amigo. Depois a despedida: não houve prantos, mas intima agonia rebuçada de phrases vulgares. "Você sabe, aqui um criado para o servir". "Disponha, sem cerimonia". "Até um dia!"
E ahi começara a odysséa do preso, a angustiosa freima com que tentava recolher os restos do passado, para com elles recompor sua existencia mutilada.
Primeiro a Frederica. Vagara de déo em déo recolhendo noticias. Tudo vago. "Leguas alem..." E, sublinhando esse vago, as mãos acenavam mollemente, significando distancias sem fim. Felizmente havia economias. Com parcimonia nos gastos poderia correr muitas terras. E, ademais, tinha pernas. Meio inchado, e perro, o andar muito talvez lhe destravasse as juntas e adelgaçasse a compleição. Provavelmente não seria logo — um mal andado em annos, levaria outros tantos a desandar. Era tambem um modo de desforrar-se da clausura. E mettera-se longanime pelas estradas. Mesmo pequena, contentava-se com a acquisição do dia, desde que significasse mais umas braças trilhadas. Assim vae-se longe, embora arrastando um membro imprestavel. Pois trinta annos, infinitamente lentos, não passaram?
Jornadeara mezes, em rumos incertos. A obsessão das estradas rubras, colleando infindaveis, tornara-se-lhe dolorosa; era o supplicio perenne do eterno recomeçar; a reverberação da luz dava-lhe offuscações ophtalmicas; os incommodos não melhoravam, antes aggravavam-se. Tudo, porêm, tem seu termo. Descobrira a mulata. "Adeus, canseiras de estradas longas!" E, chegando, ao enxugar da testa as bagas de suôr, era como se se despedisse do longo azar que o tolhera na vida e, depondo a trouxa e o bordão, depunha o passado. Mas as cousas haviam mudado. Isso é que era mau.
Soerguendo a cabeça, assoprou para o alto uma lenta baforada.
— O Martinho é bom sujeito?
— Bebe, ás vezes. Do mais não tenho queixa.
Emfim, a vida é a vida. Cada um tem lá a sua sorte, como diz o outro, e da sorte de cada um só Deus sabe. E՚ quem ajunta e separa, trama e destrama. A Frederica parecia remediada a seu gosto della.
Então encarou-a melhor, analysando-lhe as feições. Estava bem differente. E a esse ponto evocou os velhos tempos de namoro. Viu-a provocante e roliça, na graça dos seus annos floridos. Estimava um collar de grandes contas douradas, que lhe dera elle num caxambú. Adornava-se sempre com o singelo adereço, cuja côr fulgente casava bem com o seu collo de ambar; e, quando ella sorria, brilhavam harmoniosamente o seu sorriso e as contas. Furtara-lhe beijos á bocca rosada, que lhe sabia a polpa de fructos. Certa vez, num abraço, sentira contra o peito aspero de cavador o suave premer de seus seios turgentes. O sangue fervera-lhe aos borbolhões, incendido de desejo. Era rapariga de virar a cabeça e fôra má sorte do outro vir cobiçar-lhe a creatura. O que tem de ser! Mas tudo, velhos casos. O passado, passado.
Desligou-se da recordação. Todavia, uma lembrança puxa outra. Acudiu-lhe a mãe, já por aquelles tempos velhinha, a bater roupa, e os manos pequenos. Não vira mais a familia e nem tivera noticias. Na sua memoria, porêm, vivia ella embalsamada, sempre a mesma, no mesmo rancho, com as mesmas idades e a vida enquadrada na mesma paisagem da roça. E vieram-lhe saudades da mãe e dos irmãos. Trinta annos longe! E fôra ingrato, poucos pensamentos lhes dera nesse trajecto de tempo. Tinha economias — iria levar á velhinha um pouco de descanso. Tanto bater roupa na fonte ha de dolorir o braço, inda mais a ella, que soffria de rheumatismo. Parecia que ainda a ouvia queixar-se das juntas, em phrases gemidas, quando o frio ennevoava o ar, acamando geada brancacenta nos campos. Boa mãe! dar-lhe-ia elle o que economizara, tudo, tudo! não queria um vintem para si. Fariam uma casinha de telhas no logar do rancho velho e haviam de morar juntinhos.
Já ansiava pela chegada. Mas uma duvida doeu-lhe no coração: trinta annos!
— Vacê, tome café.
Frederica apresentou-lhe uma tigela fumante. Para si aparou noutra vasilha, sob o bico do coador suspenso da parede. Beberam. Ouvia-se no silencio o gluglutar espaçado dos goles. De longe vinha vozearia de creanças, garrulando.
Lourenço depoz a tigela e reatiçou o cachimbo.
Trinta annos! Os irmãos pequeninos, que via como um bando trefego a derriçar pitangueiras, estavam já homens maduros. Talvez nem todos fossem vivos. E a pobre mãe, que deixara de cabellos algodoando-se de velhice... Mas onde quer que houvesse farrapos do passado, cumpria ir recolhel-os, em romaria piedosa, para ver se do acervo esparso reconstituiria um simulácro de vida. Era alheio aquelle lar onde pensara repousar, apenas soffrendo em retrospecto mental as canseiras sentidas; nelle não podia acolher-se. Era vomitado dalli como o fôra da prisão, em cujo vegetar achava mais suavidade, que naquelle jornadear sem paradeiro. Era mistér seguir ávante. Procurou entrever os dias vindouros. Tremeluziu-lhe outra vez na imaginação, numa fulgencia doce, a casinha materna. A velha, os irmãosinhos... Mas a fulgencia desbotou. Tantos annos de permeio! Invadiu-o de novo um tedio infinito. A vida pesava-lhe.
Cumpria, porêm, partir. Eugueu-se penosamente.
— Antão, adeus.
— Adeus, Lourenço.
A custo deslocou a perna enferma, buscando a porta. A inchação, aggravando-se, punha-o oppresso. Era um mal estar, um sibilo no peito... A՚ soleira, defendendo a vista, sondou a estrada, assumptando concentradamente, como se sondasse o futuro. Lonjuras infinitas, sol escaldante, o impreciso alem...
— Adeus, repetiu.
— Adeus, Lourenço.
Guardou o cachimbo, retomou a trouxa e o bordão, e afastou-se, trôpego, paciente, rebocando a custo a perna enferma, como um casco desarvorado, sem rumo, toando ao léo...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
