Vida Ociosa (2ª edição)/20
A cachoeira
Emquanto reino sobre meu sofá como unico e indisputavel senhor, a vida parece-me amavel; mas o velho peorou e o curandeiro que o trata veio arraigar-se a meu lado, refugindo do enfermo, cuja loquela interrogativa não se compadece com sua veia philosophante. Se meu vizinho fosse um ser inoffensivo, eu poderia toleral-o; mas o homem fala, fala, fala... Procuro, dispersar-me; numa fuga de attenção analyso-lhe a cabecinha ruiva de formiga e orço-lhe trigonometricamente a proeminencia do nariz pontuda; minha attenção, porêm, resvala para a perlenga ininterrupta e eis-me de novo a ouvil-o:
— E՚ como lhe digo — sou carimbamba por muito fuçador e querer saber cousas que não me competem. Sou peneireiro, fazedor de pilão, de colher de pau e de gamella, e devia ficar só nisso, porque é como lá diz: "Quem é mão não faz pé" e "quem nasceu p՚ra cachorro hade morrer latindo". Pois eu, o senhor sabe, não tive principio nenhum; o pouquinho que aprendi foi escutando aqui e alli e conversando com os entendidos, que eu, Deus louvado, sei pôr-me no meu logar. A՚s vezes sou poeta e gosto de especular os medicos; foi assim que, pedindo uma explicação a um d՚elles, do que me disse comprehendi que a saluva é a graxa do estamo. Guspir é um vicio. Veja as creações, que não gospem. A՚ proporção que a saluva vae marejando na bocca, a gente deve engulir, porque assim ella vae desenvolvendo p՚ra dentro e não faz falta para a digestão. Creio que é por isso que meu estamo é bom. Aquillo que cahiu dentro d՚elle, vara. Como de tudo. Só não gosto de caça de rabo, porque é parente de cachorro. E como, sempre que meu estamo pede. Numa comparação: um moinho, se tem milho na moéga, vae moendo; se não tem, azanga. Assim tambem o estamo: é preciso ter nelle sempre alguma cousinha p՚ra não trabalhar em secco.
Abundei na mesma opinião e o meu interlocutor proseguiu:
— Sou peneireiro e lavro madeira, mas não tenho mais tempo p՚ra dar ao officio; são muitos os doentes e vivo da casa deste p՚r՚a daquelle. Ainda agora... ainda agora...
Veio esta repetição porque comecei a abstrahir noutras cousas e o homem o percebeu. Com o segundo "ainda agora" elle exigia que me fixasse na sua exposição. Concentrei-me a escutal-o e elle continuou:
— Ainda agora venho de traz da serra, onde fui ver um compadre com um berne arruinado; e dei volta pelo Engenho, por causa duma esporada de mandy na mão do Zé Vicente. Ahi estão duas doencinhas que parecem de nada e ameaçam levar os doentes. Dou mais por sô Quim Capitão, que não é homem de ir assim entregando a palha com a rapadura. Esse é dos antigos, a vida nelle está mais agarrada. Porque hoje, sr. doutor, com a descoberta desses vapor e desses automovel, a gente anda mais depressa, mas tambem vive mais depressa. Tudo vem mais cedo, até a morte. No meu tempo creança começava a adentar depois de um anno; hoje, com cinco, seis mezes... Antigamente as creancinhas nasciam de olhos fechados, feito cachorrinho; só os abriam no fim de oito dias; hoje tudo nasce arregaladinho e esperto, como se já entendessem as cousas. Sô Quim é duro, não vae assim em dois arrancos. Se me attendesse, eu o punha bom, porque doença que entra com a friagem, cura-se pelo systema antigo, com tartaro em folha de laranja; se o estamo não acceita, a gente põe uma chave na mão, p՚r՚a não vomitar; no dia seguinte, sangria, p՚ra força da doença sahir; depois, qualquer cordial cura. Emfim... emfim...
Soffreou de novo minha attenção erradia, proseguindo:
— Emfim, se faz bem ou mal, não seguindo meus conselhos, só Deus sabe, porque tudo neste mundo é o destino. Eu, na minha comprehensão, sr. doutor, acho que Deus creou o mundo com tudo o que é necessario para nós, e deu, a cada um, um destino. Veja, numa comparação, uma gata que acaba de parir. As mamiquinhas são umas coisas de nada, umas berruguinha que a gente custa a enxergar. Se der, cada uma, meia colher de leite por dia, é o mais. No entanto, os gatinhos, quando nascem, a mãe vae ficar deitada, e elles vão fuçando no pêlo da gata, até dar com as berruguinhas. Durante dois mezes só vivem d՚aquella miseria de leite. E assim mesmo ficam gordos, lustrosos. Que é isso? E՚ o destino. Noutra comparação... noutra comparação, sr. doutor...
— Arreiem já meu cavallo! — ordenei ás tres mudas, que passavam.
Arreado, despedi-me, montei e fugi.
E foi assim que num dia de sol quebrou-se o encanto e pude despegar-me daquella deleitosa mansão.
Toca para a cachoeira. Receei recomeçar experiencias para pôr o animal em andadura acceitavel; por seu lado, tambem receoso, offereceu-me elle o accordo de um galope macio que, jubiloso, acceitei.
Carrascaes de candeias tortas bordejavam agora a estrada, interpoladas de asperos pés de fructa de lobo. Não temesse eu melindrar a montada, apearia para colher gabirobinhas do campo, que rescendiam convidativamente da orla do caminho. O chão arenoso e declivado pouco empapara a agua cahida nos ultimos dias, que decorreram num chuveiro pertinaz. A aragem era fresca e, o sol, doce; e, contrastando a penumbra de meu prolongado encêrro, sorria-me a natureza o melhor de seus sorrisos.
Aqui e alli fugiam roscas do rio, que carregava aguas barrentas. A՚s suas margens multiplicara a vasante espraiados tranquillos, que scintillavam ao sol. Já audivel, o rumorejar da cachoeira encorpava-se a cada passo ávante; era uma cortina de sons que se erguia numa nesga do horizonte e que, em pouco, alastrando, ganhava todo o circuito da paisagem, estrondejando compactamente.
Metto-me por um trilho que se desgarra da estrada, em direitura da cachoeira. Cruzo pedestres, já de volta, com saccos e jacás atestados de peixe. Conversam gritando como surdos, para fazerem-se ouvir. Avisto por fim, constringidos entre paredões de rocha, os rôlos de agua, despenhando-se. São os degraus em que a torrente rabeia, fustigando o leito, como serpente assanhada a encrespar a cauda nervosa. Muita gente: homens nus, ou com tanga, ou só de calças, munidos de toda a sorte de utensilios de pesca, ou outros objectos momentaneamente adaptados a esse uso — balaios ou coadores na ponta de bambús, guarda-chuvas, balaios sustidos nas mãos, peneiras, redes ondeantes como bandeiras, na extrema de varas longas.
A torrente despeja-se aos fluxos e refluxos. Quando a ondada passa, pulam os peixes em cada poço, innumeraveis, projectando-se para o ar, a despedir chispas de prata dos corpos retorsos nervosamente ennovelados e vibrateis. E aquelles apparelhos visam todos colhel-os no salto. Se recresce o rôlo liquido, aquieta-se o peixe um momento, esperando que passe, para, em cada socalco, entre o esfervecer dos borbolhões tumultuosos, recomeçar o seu projectar incessante, que o caipira compara a pipocas arrebentando. Abaixo da cachoeira, onde a caudal se rebalsa e retoma a majestade de seu curso lento, a agua é torva, quasi negra; e, ao olhar que lhe escruta a profundeza, essa negrura revela-se feita de cardumes de dorsos escuros, que esfervilham, evolucionando processionalmente no bojo dos remansos, esperando o seu turno de lançar o salto. Lembram correição de formigas, faixas migratorias de gafanhotos, perpassando innumeraveis. Lateralmente derivam fios escassos, delgadas fitas que traçam sinuosidades no lagedo, fazendo escala em caldeirões cavados na rocha. Esses filetes que mal humedecem a pedra, são o varadouro dos peixes infimos, dos embryões de pollegada para menos, que sobem, miniaturas de peixes, por aquellas miniaturas de rio. Nos caldeirões enxameiam aos milhares, negrejando em espiraes — simulácro de nebulosas movediças, que são, em vez de formigamento de astros, um rebolir de germens. Sobem como vermes, reptando, e aos pequeninos arrancos; e, nas intercadencias dos éstos, que estancam os exiguos manadeiros, adherem ao limo, expectantes, em fórmas glutinosas de sanguesugas.
Por toda a parte é a obsessão do peixe. O ambiente tresanda a peixe podre. Ao andar, patinham os pés numa lama mucilaginosa de peixes esmagados. Nas mãos, nas vasilhas, aos montes na margem, ha o contorsionar epileptico de fórmas prateadas. Só se vè peixe e só se pensa em peixe. E՚ a lucta sem trégoas declarada aos pobres viajeiros. Onde os esquece o homem, caçam-n՚os siriemas, socós, marrecas, espécimens sem conto de parasitas do rio.
— Pode ser bello, mastiguei; mas monotono e repisado como uma descripção de Zola. Havendo satisfeito uma velha curiosidade, eis-me enfarado, com a saciedade da posse. Isto me confirma a commoda philosophia...
Está visto. Agora, rumo da cidade. Já míngua ao longe o trapejar da cachoeira. Desobstruidos daquelle som e daquella vista, meus sentidos se deixam impregnar da suavidade da hora. E՚ um dia precioso, tocado discretamente a ouro e repassado do perfume do assapeixe branco, cujos capulhos rescendem ás margens da estrada. Meu animal chouta intelligentemente. Já diviso, espapaçada e immensa, a fazenda da Paineira, que dormita no silencio dos vastos campos, alheada da vida, num infindavel coma de gestação.
Quando fronteio o curral, ouço berros e a porteira rechina, dando passagem a alguem, que nesse dia viu demais. E՚ Sontonho-do-olho-furado, com dois saccos na mão.
— Sô doutor Felix! grita estentoricamente.
Tive um arrepio de terror. Se a tentação vencia, e me ia esquecer de novo alli, outra temporada! Enrijei minha vontade com a evocação do curandeiro terrifico.
— Pois o fubá, dr. Felix! Não é que já ia sem elle?
— Ora, Sontonho! não é preciso... Até outro dia!
Piquei de esporas, ou, mais propriamente, de calcanhares, tentando fugir; mas, implacavel, meu amigo travou solidamente do freio.
— Neste sacco — disse e apontou ― está sua encommenda: meio alqueire; neste outro, mais meio, que lhe dou como lembrança de amizade; porque não é por estar em sua presença — fiquei gostando muito do senhor.
— Obrigado, Sontonho... Mas, co՚os diabos! não hei de levar isto commigo.
— Puz em dois saccos para fazer um picoá — explicou a creatura.
E, mau grado minha reluctancia, depois de atar, uma na outra, as boccas dos saccos, atravessou-os na cabeçada dos arreios.
— Então, como não quer portar, boa viagem — disse elle.
— Adeus, Sontonho.
E, dando aos calcanhares, afastei-me precipitadamente.
Agora já não me corria a viagem tão bem. Sentindo o accrescimo de peso, o animal resingava, soccando-me com um trote duro e ameaçando-me com varias acrobacias. Eu deixava-o ir, encolhendo-me na sella, para evitar movimentos que irritassem o bucephalo. O que não parava, eram os saccos. Sacudidos d՚aqui pr՚alli, batiam-me em compasso os joelhos, polvilhando-me de branco as calças. Tive a idéa de largal-os á beira da estrada; mas receei consequencias imprevistas, dado o genio incerto e esfogueteado da montaria. Achei melhor deitar fatalismo. A viagem, com aquelles saccos, já estava, por sem duvida, prevista na minha pagina do Livro do Destino. Todavia, se assim me vissem a recovar fubá, eu, o juiz municipal do termo! — receei.
Se viram! Comecei a cruzar gente da cidade. O medico, acudindo a um chamado. Os irmãos Faria. A familia Gonçalves. A familia Guimarães. Diabo! Todo o povoado se baldeava nesse dia para outra parte. Cruzou-me o meirinho, um advogado. Santo Deus! Mais duas familias... Agora o interminavel cortejo de um casamento: um cavalleiro, dois, tres, vinte, trinta... Santa Barbara!
Uns cumprimentavam-me, todos observavam-me obliquamente, a maior parte ria-se sob capa, cochichando entre si o que quer que fosse. A face, esbraseando, ardia-me. Suava. E com o suôr o corpo penicava-me, dando-me uma coceira infernal, principalmente no fio da espinha, no ponto exacto onde as mãos não alcançam.
Um estirão deserto — graças a Deus! — e a fazenda do Corrego Fundo.
Apeio, tiro os saccos e entro pisando duro, para desemperrar as pernas.
— Ô de casa!
— O dr. Felix! O homem sumido! exclamam os velhos.
— Sim, meus amigos! Mas que reapparece com um presentinho para siá Marciana!
Entrego-lhe a saccaria. E assim liberto-me, radiante, do picoá de má morte.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
