Vida Ociosa (2ª edição)/8
O dr. Formiguinha
Batendo rijamente no assoalho a peroba do Americo annunciou-lhe a chegada. Suas primeiras palavras deram-nos a agradavel segurança de que o José viria. Depondo o chapéo e o porrete, fez menção de sentar-se, para debater commigo um de seus themas favoritos; mas um tinir de nickel no balcão da vendinha, chamou-lhe a attenção.
Era a freguezia dos tostões de pinga, que reclamava Americo. Nada o molestava tanto como essas quédas no real, que lhe entrecortavam as altas locubrações scientificas.
— Se soubesse como esta vida me aborrece, dr. Felix...
E lá se foi, displicente.
Siá Marciana, por sua vez, desceu á horta, a mexer-se para o almoço, que costumava ser em hora bastante matinal. De caminho cruzou Prospero, que já voltava da lagoa, com um bolo de redes sob o braço. Entrando a sala, o velho accommodou-as a um canto.
— Poucas se podem aproveitar. disse elle; mas depois do almoço vou ver se restauro algumas.
E, ainda offegante da empinada ladeira da horta, sentou-se no estrado, onde se poz a arrancar rabos-de-burro e amores-seccos adheridos á calça ensopada de orvalho.
Entrementes, eu revia, meio desattento, as figuras de peixe debuxadas na parede. Conhecia-lhes a historia, como foram apanhados, a quem os enviaram, pois o melhor das pescas era sempre destinado a presentes a amigos. Deleitava-me ouvir Prospero recontar-lhes a historia; punha-se o velho em pé, com o dedo apontava uma das effigies e começava a narrar; e duma passava a outra, até correl-as todas, memorando incidentes antigos, surpresas gratas de pescador: uma linha que amarfanha violentamente as capituvas num farfalhar tempestuoso que indica uma grande presa a debater-se na agua; um formidavel mandy amarello colhido em pescaria de rodada, certa vez que levara a canoa rio acima, bem longe, e viera depois suavemente, trazido na correnteza frouxa, com uma das mãos a temperar a canoa, a outra empunhando a longa vara de vinte e cinco palmos, e graduando-lhe a altura de modo a trazer o anzol de arrasto pelo thalweg, onde se alapam os grandes mandys triangulares, de pelle dourada pintada de preto.
Com o dedo em alvo e acompanhando a parede, figura por figura, e com seu ar ancestral e barba longa, o sr. Prospero suggeria-me Paulo da Gama a explicar ao malabar os fastos portuguezes, bordados nas bandeiras da armada lusitana:
"Este que vês, pastor já foi de gado,
Viriato sabemos que se chama..."
A mais recente representava um dourado de tres palmos, que fôra dado ao medico que tratara a ultima doença da velha. E Prospero contava o prodigio: pegara-o num anzol pequeno, destinado a peixe de menor porte. Ao correr, de madrugada, as varas de espera espalhadas pelas duas margens, vira nagua um grande rebojo e uma larga forma refulgente que por momentos prancheava... Avizinhou a canoa, febricitante, em risco de cahir; e, sem mais nem mais, foi-se abraçando ao bicho, quando o pilhou de geito. Houve uma trovoada no fundo da canoa onde o atirara; o dourado, espinoteando com valentia, queria saltar a borda; tornou-se preciso, para conter-lhe os assomos, que o velho se sentasse sobre sua grande massa viscosa e o sangrasse, acto continuo, á faca.
Siá Marciana subiu a escadinha do terreiro com o concavo da saia repleto de vagens e xuxús.
— Não muda a calça, primo? Tão molhada! — exclamou, entrando na varanda.
O sr. Prospero meneou a cabeça, num trejeito de indifferença: "Para que? Estava acostumado com a agua. A humidade nunca lhe fizera mal". Siá Marciana falou-me então das imprudencias do velho. Julgava-se moço, não usava resguardos. Lidando nagua, tinha estouvamentos perigosos: no anno ultimo cahira duas vezes no rio, e todo o dia era uma porção de "quasis” de inspirar apprehensões...
— Um dia cae a casa — sentenciou.
E accrescentou em alvoroço, como quem torna a si:
— E eu que estou a parolar, esquecendo o almoço! Quando o sr. vem ver-nos, dr. Felix, nós todos ficamos com a cabeça á roda. Não avalia a falta que sentimos quando custa a apparecer! E՚ só o nosso assumpto de conversa... O Americo, esse que o diga! Trepa num cupim e ahi fica horas, espiando a estrada...
Americo, que vinha de attender á inculta freguezia, confirmou que sim — mas com uma certa circumspecção que denotava condemnar fraquezas sentimentaes e expansões excessivas. Acrescentou que a amizade que tinha por mim era um sentimento nobre e elevado, como a affeição que votava aos livros.
Eu achava graça nessas declarações amistosas e sentia-me bem, assim festejado e adorado por aquellas creaturas simples. Mas, para escandalizal-os, puz-me a narrar:
— Acredito que sintam essa falta... Nossa capacidade affectiva é tão grande, que ás vezes se estende a cousas minimas. Lembra-me o caso de uma formiga doceira, cujo desapparecimento muito me penalizou. Apparecia em certa hora da noite, á hora em que habitualmente escrevo. Surgia de um angulo da mesa, atravessava-a em diagonal, passando sobre o papel, e quebrava alem outra aresta, sumindo-se até o dia immediato. Foi assim muitas noites. Acostumei-me á formiguinha e, ao avizinhar-se a hora de seu apparecimento, tornava-me inquieto, expectante, fugiam-me as idéas, e nada mais podia fazer, até que surgisse, lépida, ligeira, alegrando o papel com seu passinho miudo, a minha querida amiguinha. A՚ sua passagem eu movia a penna em continencia, arredando-lhe a ponta da trajectoria conhecida. Era tão fragilzinha minha amiga! o mais leve de meus movimentos podia causar-lhe a morte. Nesses instantes eu interpellava-a: "Onde vaes tão apressada, minha diligente formiga? Parece que tens a cabecinha cheia de preoccupações. Detem-te um pouco, conversemos! Queres assucar? Reservar-te-ei toda a noite uma boa porção. Anda ao menos mais devagar! Repara que ha vinte e quatro horas não te vejo, e sem te ver tenho que passar outras tantas. Vê bem: um oasis de meio minuto entre dois desertos immensos! Vou com a mão interceptar-te a passagem; para seguires, terás que transpor o obstaculo, ou esperar que eu te deixe continuar teu atarefado destino. E՚ muito cedo! Não receies que te extranhem a falta, no formigueiro onde moras; são tantas as formiguinhas trabalhadeiras, e tão parecidas! Faze de conta que hoje foi tua excursão mais longa... Não me attendes, formiguinha ingrata? Então... até amanhã!" Não me attendia. Era uma pressa, um phrenesi de seguir... Não via a trilha de assucar com que eu lhe pulverizava o caminho; se a mão lh՚o cortava em barreira, não hesitava: subia por ella e descia do outro lado, deixando-me na pelle um tenue prurido, que era como uma caricia affectuosa. E não se detinha. Toda ella era uma pressa nervosa, um andar afflictivo, uma celeridade de pequeninos meneios, que pareciam dizer-me: "E՚ impossivel! não posso, meu tempo está contado, só tenho prazo para vir ver-te de passagem e muito depressa. Posso apenas conceder-te uma visitinha de instantes, para matar a tua e a minha saudade. Não me detenhas! Tenho muito que fazer..." E, acabando de atravessar obliquamente a mesa, quebrava a quina e desapparecia. Um dia... ella não veio mais. Fiquei imprestavel, tive que depor a penna. Enchiam-me tristes apprehensões. Que seria feito de minha formiga doceira? Aborreceu-se de mim? Esqueceu-me? Afogou-se numa gota de orvalho? Um passo brutal esmagou-a inconsciente? Eu sentia infinitos receios. Esperei-a uma noite, muitas noites. Nada! Nunca mais voltou...
Todos escutaram sorrindo minha historia. Quando terminei, siá Marciana exclamou:
— Que graça, a da comparação! Vou agora mudar seu nome — d՚hoje em deante é o dr. Formiguinha.
Riu-se alto e foi para a cozinha com a arregaçada de vagens e xuxús.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
