Vila Rica (Cláudio Manuel da Costa)/IX

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Vila Rica por Cláudio Manuel da Costa
Canto IX


Matéria é de coturno, e não de soco,
O que a Ninfa cantava; eu já te invoco,
Gênio do pátrio Rio; nem a lira
Tenho tão branda já, como se ouvira
Quando a Nise cantei, quando os amores
Cantei das belas Ninfas e Pastores.
Têm os anos corrido, além passando
Do oitavo lustro; as forças vai quebrando
A pálida doença; e o humor nocivo
Pouco a pouco destrói o suco ativo,
Que da vista nutrira a luz amada:
Tampouco vi a testa coroada
De capelas de louro, nem de tanto
Preço tem sido o lisonjeiro canto,
Que os mesmos que cantei me não tornassem
Duro prêmio; se a mim me não sobrassem
Estímulos de honrar o pátrio berço,
Deixara de espalhar pelo Universo
Algum nome, deixara... mas Eulina
Me chama já: soava a voz divina,

E aos bustos discorrendo, assim cantava:
Aquele (e no primeiro se firmava),
Aquele que na frente traz gravado
O caráter de um ânimo empregado
Em contínuas fadigas, que inda sua
Por entre a espessa brenha e serra nua,
Vencendo ásperos riscos e as correntes
Dos rios não cortadas de outras gentes
Mais que do hirsuto e bárbaro Gentio,
É Rodrigo, que junto àquele rio
Que acabas de pisar a vida entrega
Às mãos de uma ousadia infame e cega.
Em vão tentou ao Rei dar novo aumento
Das Minas no feliz descobrimento,
Que atalhando seus passos duro fado
Aqui lhe tinha a urna preparado:
Em vez de roxos lírios e açucenas,
Bárbaras flores lhe derrama apenas
Piedosa mão, se acaso Monstro enorme
Seu túmulo não pisa, e nele dorme.
Artur é quem sucede mais ditoso,
Pois que atraindo ao Borba generoso,
Que ao centro dos Sertões se retirara,
Com ele emprende ver a terra avara,
Onde jaz de Rodrigo a sepultura:
Vê qual próvida mão dar-lhe procura
O luzente metal, que em longos anos
Se negara à fadiga dos humanos.

O terceiro é Fernando, que sustendo
Dificilmente as rédeas se está vendo
Entre os insultos da rebelde gente;
Desde longe o ameaça a bala ardente,
A crua espada e o punhal ferino,

Se não volta e obedece ao seu destino:
É prudente o Varão; vê-se arriscado
Sem armas, sem defesa, e profanado
O respeito não quer e a autoridade,
Que sustenta do Rei a Majestade.

De vendicar o mando a empresa toma
O famoso Albuquerque, e a grande soma,
Dos tesouros que guardo eu lhe preparo.
Melhor do que nos mármores de Paro,
Ou nos polidos bronzes de Corinto,
Ele o seu nome levará distinto,
De uma vez as cabeças decepando
Da Hidra venenosa, que soprando
Ainda o fogo está da rebeldia.
Fará subir com nobre valentia
De choupanas humildes a altas torres
Essas povoações, que a ver discorres
Desde esta margem te meu fundo centro;
Quanto do seio meu se encerra dentro
Liberal eu virei dar-lhe em tributo;
Da grande cópia do amarelo fruto
Os curvos lenhos em fecundas frotas
Irão levar às regiões remotas
As preciosas porções, que nunca vira
Em tal grandeza o Rei, que dividira
As águas do Eritreu, e desde o Tiro
Ao claro Ofir voou com longo giro.

Do Carmo a Vila, e a Vila do Ouro
Preto Formarão das conquistas o projeto;
Junto ao Rio, a que as Velhas deram nome,
A terceira erguerá, que o foral tome.
lá vens cortando o mar para rendê-lo,
Magnânimo Silveira; do teu zelo

Fia o
Rei se adiante o novo Empório:
Em trinta arrobas de ouro faz notório
Por esta vez o Povo o seu tributo,
E agradecido o Rei conhece o fruto
Da tua persuasão, sem que a violência
Arrastasse os esforços da prudência.
Do teu Antecessor seguindo a estrada,
Passas a ver com glória edificada
A Vila que escondida o Fado tinha
Com o precioso nome da Rainha;
E no distante Serro se levanta
A outra, que do Príncipe se canta;
Ditosas povoações, que hão de algum dia
Encher de lustre a Lusa Monarquia.

Criadas as três Vilas, já demarcas
Os distintos limites das Comarcas:
Dás com próvida mão leis, e moderas
As discórdias civis; já consideras
Domado o povo, e em sucessão gloriosa
Ao claro Almeida entregas a preciosa
Porção das Minas do Ouro: ó tu, mil vezes
Digno filho de Marte, que os arneses
Acabas de romper entre os Iberos;
Que ousados braços, que semblantes feros
Te não cabe aterrar! Ao longe eu vejo
Erguer-se a multidão, que em vão forcejo
De atrair e render; vem arrastando
Infames Chefes o atrevido bando:
Chegam, propõem, disputam; nem se nega
Teu intrépido rosto à fúria cega
Do fanático orgulho. Ah! não se engane
O Vassalo infiel; bem que profane,
Que ataque e insulte a Régia Autoridade,
Ao destroço da vil temeridade

Será o campo teatro, e em sangue escrito
Chorarão sem remédio o seu delito.

Cai a sublevação, e restablece
Outro Almeida o real decoro; cresce
A opulência no Estado; um Melo e Castro,
Da esfera lusitana feliz astro,
Já sucede ao bastão que Almeida empunha;
Deste Herói as virtudes testemunha
Itália toda, e as suas glórias soma,
Cheia de tanto nome, a ilustre Roma.

Mas qual te chamarei, ó sempre digno
Sucessor de Galveas; o benigno
Céu, que te envia a nós, de riso cheio
O seu semblante inculca; ah! que do meio
Do Guadiana te arrancou! Pendente
Lá vejo a espada, e vejo a areia quente
Do sangue derramado! Que destino
Tão fausto para nós! Já imagino
Que eternos os teus dias lograremos!
Dos Tritões sobre as costas levaremos
Ao luso Atlante, nunca tão pesados,
Os Reais Cofres; vinde, ó dilatados
Sertões, vinde montanhas, vinde rios;
Chegai também, ó bárbaros Gentios
Do bravo Cuiabá, do Mato Grosso,
De Pilões, de Goiases, vede o vosso
Destro Governador, que desde as
Minas Sustenta a rédea, e manda as peregrinas
E sábias direções, com que reparte
Em uma e outra dilatada parte
Sua próvida mão, com que segura
O bem do Rei, dos Povos a ventura!
Já do pardo Uraguai busca a corrente;
O Irmão o substitui;

o sangue ardente
Lhe lembra a imitação de heróicos feitos,
Generosos A Andradas, dignos peitos!
Este alimpa os Sertões da gente ociosa,
Que do roubo se nutre; a deliciosa
Margem do Rio Grande é povoada.
Toda a larga campina que pisada
Fora do cafre vil ao Régio Erário
Rende os tributos; pode o Céu contrário,
Sim, roubar-vos, ó Freires, mas na idade
Há de ser imortal nossa saudade.
Vês ora o grande Lobo: este caminha
Seguindo a Serra, que lá tem vizinha
De Paulo a Capital; impede os passos,
Que abre o extravio; pronto aos ameaços
Da Guerra acode, a Terra fortalece
De militares tropas, e a guarnece
De bélicos petrechos: já fundido
Sai da fornalha o bronze, e convertido
Em raios de Vulcano atroa os montes.

Mas ai! que já do Tejo os horizontes
Se vêem escurecer! Já deixa a praia
Aquele Herói saudoso, que se ensaia
De verdes anos a ganhar vitórias!
Já nos demanda e busca: nas memórias
Seu nome impresso guardarão as Minas.
Oh! e de que influências tão benignas
Seu governo não é! Ao conquistado
Quanto de novo tem acrescentado!
Domésticas aldeias reconhecem
A proteção do Rei; já obedecem
As distantes regiões; vem o Tapuia
Do escuro Cuieté, ou do Urucuia

Beijar o Santuário: qual se esconde
Rio, ou montanha tão remota, aonde
Não se investigue por seu mando o ouro?
Que crime há tão seguro, que ao vindouro
Com o exemplo profane? Oh! singulares
Dotes do Conde meu de Valadares!

Assim cantava a Ninfa, arrebatada
Do profético espírito; dourada
E sonorosa a trompa já se ouvia
Entre um tropel de brutos, que feria
A praia oposta; a luminosa sala
Se ia negando aos olhos; já não fala
Itamonte, e o Mancebo já se esconde;
E Garcia (oh! prodígio!) se acha aonde
Há pouco antes se achara, e adverte, e nota
Que para ali com plácida derrota
Vêm chegando Albuquerque e os companheiros.
Já festivos clarins pelos oiteiros
Se deixam perceber, louvando a vinda;
Em vivas tudo soa; e corre ainda
O mesmo bando que turbara a entrada
A protestar a fé, já detestada
A torpe idéia, que o arrastara um dia.

Alegre o Herói se abraça com Garcia;
Alegres dão-se as mãos Borba e Camargo;
Conta o Mancebo do feliz letargo
As horas; conta o Herói o que passara,
Como um e outro Chefe ali o buscara;
Como já com certeza achado tinha
O sítio, aonde levantar convinha
A Capital das Minas: vem Fialho,
Afirma que, seguindo um breve atalho,
O fundo registrara de Itamonte;

Que vira o vale e a aprazível fonte,
Onde de Eulina inda a memória vive.
Presente, diz o Herói, também eu tive
Toda esta noite quanto viu Garcia.
O Gênio celestial, que pôde um dia
Descobrir-me o segredo deste empório,
Tudo aos meus olhos, tudo pôs notório;
Vi este sítio, o Vale, o Rio, a Serra,
E os tesouros, que o monte ao longe encerra;
Aqui entre estes povos se levante
A Vila, e já passando mais avante
Se erija a Capital: isto dizendo,
Reparte as ordens; todos concorrendo
A um tempo vão na fábrica luzida
De um e outro edifício! Da ferida
Que abria o ferro em um robusto lenho,
Cômodo à obra, por notícia tenho
Que um cheiroso licor se derramava
Da cor do sangue; absorto o Herói estava,
E vendo a maravilha, diz a Bueno:

Acaso crera que o país ameno
Lembra o sucesso das irmãs piedosas,
Que inda choram no Erídano as saudosas
Memórias do abrasado irmão; coalhadas
Assim se vêem as lágrimas brotadas
Dos moles choupos. Bueno, que não perde
A oportuna ocasião, do tronco verde
Toma argumento e diz: A antiga história
Desta árvore, eu a guardo de memória,
Desde a primeira vez que um índio velho
Encontrei nos Sertões, e de conselho
Saudável quis que eu fosse socorrido.
Nestes montes me conta que nascido
Fora um mancebo: Blázimo era o nome,

Que a corrupção do tempo em vão consome,
De bálsamo guardando inda a lembrança.
Este, tão destro em sacudir a lança,
Como em matar às mãos o tigre ousado,
Da formosa Elpinira namorado,
E seguro no cetro que mantinha
De trinta aldeias que a seu mando tinha,
A demandava esposa: disputava
Argante um tal amor; a grossa aljava
Dos ombros lhe pendia, e sempre em guerra
Fumar fazia a ensangüentada terra.
Elpinira, que causa se conhece
De tanto estrago, entre ambos se oferece
A dar a mão ao que a ganhasse em sorte
(Por que caminhos não buscava a morte!).
Convêm os dois rivais, e o pacto aceito,
Um dos dias do ano têm eleito,
Em que o seu Paraceve festejavam.
Brancas e negras pedras ajuntavam
Em uma concha e, em roda juntos todos,
Ao grande ato concorrem; vários modos
Inventam já de baile, jogo e dança,
Coroando cada um sua esperança.
Preside às sortes o bom velho Alpino,
Pai de Elpinira e Rei: vem o ferino
Argante, pés e mãos tendo cercado
De verdes penas, onde amor firmado
Traz a esperança da vitória; a frente
Blázimo adorna de um laurel florente,
Que tecem muitas rosas, misturadas
De suavíssimo cheiro; estão sentadas
Várias índias, cercando em meio a bela
Elpinira; orna a testa uma capela
De rosas, e folhetas pendem de ouro

Das orelhas; por tudo um triste agouro
Respirou: muitas árvores tremeram,
Os pássaros do dia se esconderam,
Só os da noite sussurrar se viram.
Juram, dando-se as mãos os dois, e tiram
Cada qual sua pedra; a branca expunha
Sorte feliz; a negra testemunha
A perda da consorte; está jurado
Sofrer com paz o que não for premiado.
Blázimo vence, Argante se retira,
E simulando a dor, geme e suspira.
"Viva Blázimo!", dizem: logo as vozes
A Argante vão ferir, e tão atrozes
Passam a ser as fúrias em seu peito,
Que desde aquele instante faz conceito
De vingar sua dor, roubando a glória
Ao mesmo que o privara da vitória.

Com rosto disfarçado quer contudo
Lograr o golpe; um meditado estudo
Lhe lembra a ocasião, o sítio, e a hora
De banhar toda em sangue a mão traidora:
"Eu, diz Argante, eu devo entrar em parte
Nas vossas glórias; todo o esforço d'arte
E do engenho porei, por que se veja
Que cedo alegre, e não me arrasta a inveja.
Na minha aldeia, e entre os meus povos quero
Festejar vossas núpcias; nela espero
Dar-vos provas do gosto e da alegria
Que me sabe trazer tão fausto dia.
Ali de firme paz e de aliança
Farei novo concerto, e da vingança
Cederá de uma vez o vil projeto"
(Oh! dura força de um mentido afeto!).
Aceita Alpino: Blázimo é contente,

E Elpinira também, que já presente
Crê a ventura que esperava ansiosa.
Três dias pede Argante, e a insidiosa
Idéia lhe propõe um torpe meio
De executar o dano sem receio.
Manda alimpar a estrada, funda cava
Faz abrir no mais plano, que abarcava
Ambas as margens; desde o centro ao alto
Mete a aguçada estaca, e quanto falto
De terra está cobre de ramo brando;
Sobre ele moles folhas vai deitando,
Que a mesma terra entaipa, e já figura
A superfície igual, e limpa, e pura.

Chega a terceira Aurora; desde a Aldeia
Alegres vêm saindo, e os lisonjeia
Argante, tendo em fronte aparelhado
Do lugar da traição o costumado
Baile, com que na paz se festejavam
De muitos dos seus índios. Já pisavam
A estrada os dois amantes: o Pai vinha
De um lado, e de outro lado da mão tinha
Blázimo presa a idolatrada Esposa
(Que alegre vista, que ilusão faustosa!).
Todos diante vêm; este o costume
É da nação; nem teme, nem presume
Algum dos três, e inda o povo todo,
A urdida morte por tão novo modo.

Com Argante e seus índios se avistavam,
Em vivas desde longe se saudavam.
Infelizes (que dor!) as plantas punham
Sobre a coberta cava, e já supunham
Que os braços ao amigo se estendiam,
Quando passados os seus peitos viam

Das aguçadas farpas: volta Argante
Colérico, soberbo e triunfante
Sobre os desprevenidos que acompanham
Sem armas ao seu Rei; todos se apanham
Presos às mãos das emboscadas; morrem
Imensos índios; a fugir recorrem,
Mas a gente que às costas lhes ficava,
O resto, o infeliz resto destroçava.

Já mortos os três índios, lançam terra
Sobre os seus corpos; uma só urna encerra
O mísero despojo. O Céu procura
Vingar o grave horror: da sepultura
Vê-se brotar uma árvore, que verte
Cheiroso sangue. O caso se converte
Em fabulosa história, e se acredita
Que Blázimo, a quem segue esta desdita,
Das mesmas flores de que a testa ornara,
E do seu sangue a cor e o cheiro herdara;
E que o Céu testemunhos multiplica,
Multiplicando os troncos; assim fica
A tradição nos nacionais guardada;
O Índio que me conta a dilatada
História diz-me, então, que mal segura
É sempre a fé que o inimigo jura.

Ouve Albuquerque o caso, e não ignora
Que alto mistério dissimula agora
Em suas vozes Bueno; tem previsto
Quanto o nome do Rei se vê malquisto
Entre os Chefes do povo levantado;
E trazendo em memória o já passado
Encontro adulador, que de Fernando
Acobardara a entrada, então chamando
Os membros principais, que arrebatava
A fanática idéia, assim falava:


Vassalos sois de um Rei, que não vos deve
O cetro, ou a coroa; a origem teve
Já dos vossos Senhores; por herança
O Reino Augusto em suas mãos descansa.
Sendo assim, bem sabeis que é só tributo,
E não dádiva vossa aquele fruto
Que adquirem vossas forças; dou que fosse
Vossa a conquista; o seu domínio e posse
Só cede ao vosso Rei; causa comua
Seja ela embora, é nossa, porque é sua.
Ele os seus braços para nós estende,
Nos manda e rege; e tudo compreende
O seu Império na maior distância;
Nós juramos das Leis toda a observância,
E do primeiro pacto não devemos
Apartar-nos, pois nele nos prendemos.
Do castigo e do prêmio ele confia
Das minhas mãos o arbítrio; eu deveria
Usar do meu poder; porém cedendo
À piedade o rigor, de vós pertendo
Só dignas provas de obediência pura.
Não quero crer a sem-razão perjura,
Que dominou em vós; a caluniosa,
Torpe mentira, cuido que enganosa
Fez voar tudo quanto é já notório
Que tem feito a ruína deste empório;
Enfim perdôo a todos o passado;
Firma o Rei o perdão que tenho dado.

Conheço (e com Viana só falava)
Que em vós, e em vosso peito dominava
Um zelo justo pelas leis que guardo;
De dar as providências já não tardo
Sobre os dous ímpios, que influir puderam
Nas discórdias civis: eles se alteram

Com a minha chegada, e vão buscando
Estranhos climas, libertando o bando,
Que atraíram talvez, ou que arrastaram:
Os poucos membros, que entre nós ficaram,
Farei por conservar na paz, que espero;
Mas da vossa obediência aprova quero
Mais sólida e mais firme; ao longo centro
Dos Sertões passareis, e ali dentro
Dos seus limites contereis seguros
Na doce paz os ânimos impuros;
Que os não manche outra vez o humor nocivo
Da infame Rebeldia; o braço ativo
Saberá, esgotando todo o empenho,
Destroçá-los, puni-los: mas que venho
A meditar? De vós tudo confio;
De vós, do vosso zelo, esforço e brio.

Isto dizendo, os braços estendia
Para Viana: neles recebia
Logo a Francisco, a quem recomendava
O mesmo, e muitas vezes protestava
Que do seu Rei poria na presença
Um tal serviço; ordena sem detença
Que partam desde logo; têm por dita
Os dous Vassalos ver que os acredita
O conceito do Herói; as mãos lhe beijam,
E o desterro político desejam
Cumprir, mais que por força, por vontade.

Conrado e outro conspirado Frade
Ao longe vão marchando; e dão as costas
À torpe Hipocrisia, que dispostas
Tinha em vão as idéias do atentado;
A Rebeldia ao centro tem baixado;

Cheio de fúrias mil vomita fogo
O Interesse, que o guia e arrasta logo
O falso Engano e a Traição malvada,
Que vêem tanta fadiga malograda.