Vila Rica (Cláudio Manuel da Costa)/VI

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Vila Rica por Cláudio Manuel da Costa
Canto VI


Na diáfana máquina presente
(Diz Filoponte) todo o continente
Vês, Albuquerque, das buscadas Minas.
São estas, são as regiões benignas,
Onde nutre a perpétua primavera
As verdes folhas, que abrasar pudera
Em outros climas o chuvoso inverno.
Dos mesmos Deuses o poder eterno
Não se atrevera a combater os montes

E as serras, que em distintos horizontes
Murando vão pelos remotos lados
Mares e lagos, com que ao Sul marcados
Seus limites estão: a forma, o nome
Variam serra e rio, e sem que tome
Firmeza alguma o prolongado vulto,
Sempre o princípio te há de ser oculto,
Quando chegues ao fim do rio ou serra.
Levados do fervor que o peito encerra
Vês os Paulistas, animosa gente,
Que ao Rei procuram do metal luzente
Co'as próprias mãos enriquecer o Erário.
Arzão é este, é este o temerário,
Que da Casca os sertões tentou primeiro.
Vê qual despreza o nobre aventureiro
Os laços e as traições, que lhe prepara
Do cruento Gentio a fome avara.

A exemplo de um contempla iguais a todos,
E distintos ao Rei por vários modos
Vê os Pires, Camargos e Pedrosos,
Alvarengas, Godóis, Cabrais, Cardosos,
Lemos, Toledos, Paes, Guerras, Furtados,
E os outros, que primeiro assinalados
Se fizeram no arrojo das conquistas,
Ó grandes sempre, ó imortais Paulistas!
Embora vós, Ninfas do Tejo, embora
Cante do Lusitano a voz sonora
Os claros feitos do seu grande Gama,
Dos meus Paulistas louvarei a fama.
Eles a fome e sede vão sofrendo,
Rotos e nus os corpos vêm trazendo;
Na enfermidade a cura lhes falece,
E a miséria por tudo se conhece.

Em seu zelo outro espírito não obra
Mais que o amor do seu Rei: isto lhes sobra.
Abertas as montanhas, rota a Serra,
Vêconverter-se em ouro a pátria terra;
O Etíope co'os Índios misturado
Eis obedece ao próvido mandado
Dos bons Conquistadores: desde o fundo,
De ouro e diamantes o país fecundo
Produzas grandes, avultadas somas.
Tu por empresa, nobre engenho, tomas
Fabricar inda o esférico instrumento,
Que o trabalho fará menos violento.

Já dos rebeldes o esquadrão ferino
Se conjura afazer o roubo indigno,
Tomando outro partido esses, que devem
Respeitar um só Rei; ímpios se atrevem
A lançar desde os lares, que têm feito
Os míseros Vassalos: o preceito
Intimado na voz do Rei lhes tira
As armas, um e outro se conspira,
E em vários choques, em ataques vários,
Ou morrem já, ou buscam solitários
E fugitivos o seu pátrio berço.
Ide, infelices; o ânimo perverso
Cessará uma vez de maltratar-vos;
O Rei sabe puni-los, sabe dar-vos
Justa satisfação, justa vingança.
Sobre eles vem Fernando; mas o lança
Inda o furor da levantada gente;
Volta a munir-se o Capitão valente,
E a vosso beneficio já protesta:
Fará cair ao chão mais de uma testa.


Já dos parentes, dos amigos vossos
Se vão juntando e vêm correndo os grossos
Esquadrões, que pertendem desde a Serra
Fazer aos ímpios a sangüínea guerra;
Mas tu sucedes, Albuquerque invicto,
No bastão a Fernando; o Rei prescrito
As ordens te tem já, porque temperes
O orgulhoso furor: não consideres
Tão segura porém a tua entrada;
A vil conspiração mal apagada
Inda ao longe te forja e te fulmina
Nos levantados Chefes a ruína.

Tens ao teu lado a próvida influência
Do pátrio Gênio; contra uma violência
Outras suscitarei; lá desde o seio
Das mesmas Minas, um incêndio ateio
Nos ilustres Pereiras: estes passam
A disputar co'os outros e se enlaçam
Em vingar os domésticos insultos.
Vós e os mais vossos passareis ocultos
E disfarçados aos distritos, onde
Dos rebeldes o número se esconde.
Lá convosco estarei, e... prosseguia,
Mas de uma e outra parte concorria
Buscando o Herói a comitiva, crendo
Que aos matos se entranhara e que,
perdendo Talvez o rumo, duvidoso errava.
Faria já com eles se ajuntava,
E Garcia, que o rosto traz magoado
Do sucesso infeliz que tem notado.

Tudo desaparece neste instante
Ao assombro da nuvem, que diante
Da penha condensara o Gênio astuto.
Um chuveiro cerrado desde o bruto

Cume da rocha se estendia, e nada
Mais que a sombra na lôbrega morada
Se deixa perceber por tudo quanto
Detivera ao Herói no estranho encanto.

Ao passo que se assusta e se entristece
Das imagens que vira, restablece
O espírito no amparo prometido
Do Gênio, em quem contempla introduzido
O influxo de alguma alta inteligência,
Que se encobre dos homens na aparência.

Alegre sai da nuvem, que desata,
E no arcano mais íntimo recata
O que ouve e vê, notando os companheiros;
Que é isto, diz, chegastes mui ligeiros,
Vós, Padre, e vós, Garcia! A vossa empresa
Talvez se conseguiu com mais presteza
Do que eu tinha esperado: em doce laço,
Dizei, já vive Aurora? Vive Argasso?

Ah! Senhor, diz Fialho (que Garcia,
Os olhos rasos d'água, mal podia
Falar, e quase absorto o Herói saúda),
O caso é tão funesto, que na muda
Mágoa só pode cabalmente ouvir-se.

Saímos há seis dias; descobrir-se
A Aldeia pouco já se começava;
Aos acenos de Argasso festejava
O Monaxós alegre a nossa vinda;
Não tardou de saber a crua Eulinda,
Rival de Aurora, o firme pensamento
Do meditado Santo Sacramento;
Conspirou em seu dano, e de ira cheia
A cova

foi buscar de Teriféia:
Esta a superstição teve por nome,
Inocentes meninos traga e come.

Dous arrancados dos maternos peitos
Lhe leva a crua Indiana; ela desfeitos
Os tem já entre as presas aguçadas:
"Eu vi (contou algum) que sufocadas
As cãs estavam de seu sangue, e quentes
Brotavam dentre os beiços as correntes."
Do destroço fatal contente a velha,
Nas vítimas, que Eulinda lhe aparelha,
A dar-lhe ajuda alegre se convida.

A instâncias de Garcia está rendida
Em breve instante Aurora; nem se assusta
Ao proposto Himeneu, e crê que é justa
A persuasão, ao ver que afaz Garcia.
Do antigo amor de todo se esquecia
Um e outro; e a virtude só pertendem
Acreditar no estímulo, que acendem
Dentro em seus corações, de propagada
Ver uma vez a religião amada.

Ao Índio instruo nos mistérios Santos
Da ortodoxa doutrina; e longe encantos,
Superstições e mágicas, já creio
Que tenho descoberto nele um meio
De derramar por entre os mais a cura
Da radicada antiga desventura.

Contentes andam todos pela Aldeia,
Festejando o consórcio; qual passeia,
Calçados pés e mãos de várias plumas,
Qual faz soar o apito (nem presumas)

Que se ignora da música o concerto
Entre os crus Monaxós); já vinha perto
O dia ao caro laço destinado;
O Cacique, do amor estimulado
Que tem pelos seus hóspedes, destina
Que divididos vão pela colina,
E que desçam ao vale os que destreza
Têm no dardo e na flecha; encher a mesa
Intenta com a caça, que sepulta
Nos seus seios a gruta mais oculta;
Brindar quer os mais índios deste modo:
Convida desde já ao povo todo.
Ele próprio à fadiga não se nega;
Arremessa-se ao mato. Aurora pega
No seu arco também; todos se atiram
Ao fundo espesso, e pelas brenhas giram.
Teriféia a ocasião julga oportuna,
Põe os olhos no Céu, alta coluna
Levanta e firma em terra; já sobre ela
Se ergue e murmura, e nota cada estrela
Com o dedo; depois desce, e riscando
Muitas vezes em roda, vai tocando
A coluna, que treme e que se move:
Tolda-se em sombra o ar, troveja e chove;
E o tronco, dentre a nuvem que o cobrira,
Sai figurando um tigre, que respira
Fogo e veneno pelos olhos; passa
Com ele ao monte, e o guia aonde a caça
Se tenta e busca: aqui dormia Aurora;
Dormia; e junto aos pés branda e sonora
Fontezinha o repouso convidava;
O peito em grande parte debruçava
Sobre uma penha, e ao gesto brando e lindo

De encosto o mole braço está servindo.
Chega a Maga cruel, põe-lhe diante
A fera que conduz, e ao mesmo instante
Se oculta em parte onde o sucesso veja.
O cuidado de a ver, ou fosse a inveja,
Àquele sítio encaminhava os passos
Do destemido Argasso; entre embaraços
De mal distintos ramos, já descobre
O mosqueado tigre, ao braço nobre
O crê despojo, e de matá-lo espera;
Firme o pé desde longe aponta a fera,
E atrás puxando o braço a seta envia,
Que vai cravar no monstro aponta fria.
Corre gritando - oh! Céus! - e vê passado
De Aurora o peito; em vão busca assombrado
O tigre, que não há; já desfalece
A pouco a pouco a bela; a mágoa cresce
No mísero homicida, clama e grita,
Atroa os Céus, e contra os Céus se irrita;
Nem mais a vida, que estimara, preza;
Arroja o arco, e à infeliz beleza
Consagra de seu corpo o último resto.
"Amor, disse, cruel, pois que funesto
Foi o fim de um princípio tão ditoso,
Pois que cortastes o vínculo gostoso
Que a dita, a mesma dita ia tecendo;
Bem que inocente o impulso inda estou vendo,
Que animou este braço, acabe o peito,
Onde ele se forjou; roto e desfeito
O véu que cerca esta alma, ela se aparte,
Indiana adorada, ou a pagar-te
Com seu eterno pranto a dura ofensa,
Ou a pôr de teus olhos na presença,
A mágoa enfim de um erro involuntário."

Disse; e trepando a penha, ao chão contrário
Desesperado já se precipita.
Teriféia de longe aos índios grita,
E alegre da vitória deixa o monte;
Não há quem visse, ou quem a história conte:
Mas da homicida bárbara informada
Já torna Eulinda; furiosa brada
A Aldeia, por vingar tanta maldade;
Sobre nós faz cair a atrocidade
Do delito, e abrasando a Aldeia inteira
De oculta chama, que ateou ligeira,
Ministros nos faz crer deste atentado:
A fuga nos salvou, nem avisado
Serias de um tão trágico sucesso,
Se de Argasso um rival, que a tanto preço
Eulinda amava, então não descobrira
Tudo o que a Eulinda e a Teriféia ouvira.

Calou Fialho; em vão susteve o pranto
Albuquerque; e notando que o quebranto
De Garcia a rendê-lo se avançava,
Consolando seu mal, assim falava:
Jamais se viu segura uma alegria,
Nem estável jamais pôde algum dia
Sustentar-se a fortuna de um ditoso:
Espere sempre o inverno proceloso
Aquele por quem passa a primavera;
Amor que em brandas almas só pudera
Empregar toda a força de seus tiros,
Fará que troque as glórias em suspiros
Aquele que em vão crera aos desenganos;
Ó vós, felices, vós, que os doces anos
Entregais à virtude, eu vos agouro
O sempre imarcescível, fresco louro,
Que vos há de levar na longa idade
Muito além da cansada humanidade.