Fausto/XXVII

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                                    CENA IV
FAUSTO, e MEFISTÓFELES, que entra correndo da porta do fundo

MEFISTÓFELES (açodado)
Fuja, que já vem perto.

FAUSTO
E é de repente. Juro
nunca mais arriscar-me a semelhante apuro.

MEFISTÓFELES
Aqui lhe trago um cofre, e não é nada leve.
Pilhei-o onde eu cá sei. Meta-o no armário, e breve!
Afirmo-lhe que a moça em vendo o conteúdo,
fica fora de si. Não faço rol miúdo
por não no demorar. São certas prendasitas
que vencem geralmente a feias e a bonitas,
Sei que esta é doutra massa... Adeus! toda a criança
é criança, e um bonito é sempre uma festança.

(Abre-o e mostra-o de relance a Fausto, sem que os espectadores vejam o conteúdo)


FAUSTO
Não sei se devo ousar...

MEFISTÓFELES
E inda o pergunta?... salvo
se prefere deixar a rapariga em alvo,
e fugir co’o presente; e acho que assim faria
muito melhor negócio: o tempo que perdia,
gasta-o a passear; e eu cá lucro igualmente
em não aturar mais um amo impertinente.
Dou que isso no Doutor não vem de ser avaro.
À fé de diabo amigo, eu já não sei, meu caro,
o que lhe hei-de fazer, por mais que esfregue a testa.

(Põe o cofre no armário e dá volta à chave)

Abalar! abalar! Agora o que nos resta
é deixar livre o campo, e tempo à jovem fada
para se lhe mudar de esquiva em namorada.

(Fausto tem-se ido fazendo sorumbático)

Que é isso, meu Doutor? Porque se pôs mazombo?
que chega a atarantar-me? É tal e qual, não zombo,
a carranca de um lente, indo tomar assento
no claustro pleno, e ao dar co’os olhos no espavento
do corpo catedral, que é ter diante a Física
toda como um fantasma, e toda a Metafísica.
Ponhamo-nos ao fresco. Aí vem a nossa bela
já perto desta porta.

(Apontando para a porta do fundo)

Aquela! por aquela!

(Vão-se precipitadamente, enquanto Margarida abre da parte de fora, a porta do lado, e entra.)