O Deus-Verme

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O Deus-Verme
por Augusto dos Anjos
Poema publicado em Eu
O Deus-Verme
 

Factor universal do transformismo,
Filho da teleológica materia,
Na superabundancia ou na miseria,
Verme — é o seu nome obscuro de baptismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diaria occupação funerea,
E vive em contubernio com a bactéria,
Livre das roupas do anthropomorphismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hydrópicos, roe visceras magras
E dos defuntos novos incha a mão.

Ah! Para elle é que a carne pôdre fica,
E no inventario da materia rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!