O Jesuíta (Junqueira Freire)

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O Jesuíta
por Junqueira Freire
Poema publicado em Inspirações do Claustro.


(século XVIII)


Deus é que dirige estas coisas: ele permite que existam imperadores e al­gozes para que haja santos e mártires: ele eleva os impérios para que haja lágrimas, castiga para regenerar.
LACORDAIRE.

Era longe — bem longe: e eu vim primeiro
Cindindo as ondas desse mar profundo.
E por amor da Cruz vaguei sozinho
Nas ínvias matas desse novo mundo.
 
O tamoio gentil hervava as setas,
Quando pelos vergéis, tão seus, me via:
E co'os olhos fosfóricos ardendo
A taquara fatal a mim tendia.
 
E tendia a taquara, —mas ao ver-me
Quão sem temor e quão inerme estava,
Trocando em doce o seu olhar fogoso,
O arco e a seta pelo chão rojava.


 
De mim as tribos bárbaras, indômitas,
De mim o verbo do evangelho ouviram.
E ergui a cruz nos píncaros dos montes,
E após o verbo os povos me seguiram!
 
Eu disse às tribos: — Todas vós sois ricas, —
Que o ouro e a prata o solo vosso esmalta.
Sois ricas tribos, — mas não sois felizes,
Porque uma crença de um só Deus vos falta.
 
E eu dei às tribos uma crença doce,
Qual uma chuva de maná celeste:
E as tribos foram desde então felizes,
Qual flor pomposa que os jardins reveste.
 
E quando os reis da terra se esqueceram
Das tribos dadas a seu cetro forte,
Eu levantei-me, e disse aos reis da terra,
— O povo geme: transmudai-lhe a sorte.—
 
Eternos templos eu ergui sozinho,
Eternos como a duração da terra.
E sozinho sagrei altares tantos
Ao Deus que aos ímpios c'o trovão aterra.
 
Eu dei às tribos uma crença doce,
Eu levantei alcáceres eternos.
Deram-me os homens prescrição e morte,
Deram-me em premio as fezes dos infernos.