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COISAS DO MEU DIARIO

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de desapparece e o carrinho intalla-se de vez no primado.

Esta questão de primazias não vem ao caso, entretanto. Porque o caso é a perturbação do Silencio, determinada pelo carrinho.
Esse facto se dá da seguinte maneira: como o carrinho tem pouco serviço e passa a mór parte do tempo a cochilar no deposito, a ferrugem, insidiosa inimiga da inacção, vem subrepticiamente pintar de vermelho o eixo das rodas, de modo que, mal sae á rua o vehiculo, o pobrezinho do eixo grita e ringe — atroando os ares, perturbando lamentavelmente o Silencio de Oblivion.
Quando o Isaac-Fac-Totum — um mulato retaco, grosso e curto como uma tatorana — recebe ordem da Camara para ir a tal parte formicidar um olheiro de saúva, o rolete d'homem mette uma garrafa de capanema, uma enxada e uma caixa de phosphoros dentro do carrinho e, imagem da Compenetração, symbolo da Convicção Inabalavel, parte, nhem, nhim, nhem, nhim, através das rias principaes da cidade em busca do mal aventurado olheiro.
Isaac, de sobrecenho carregado, leva o olhar attentamente fito no caminho — para evitar algum desastre.
Nas ruas desertas um ou outro cachorrinho estira-se ao sol. Isaac, a vinte passos, divisando-lhe o vulto, pára, leva a mão á viseira, firma os olhos.
— Diabo! A' mó' que é o joli do Pedro Surdo? — e com uma pedra o espanta:
— Sae, <<porquêra>>! Não ouve o carro? Não tem medo de <<morrê masgaiado?>>
E convencido de que salvou a vida a um christão, Isaac-Garrafa-de-Licor-de-Cacáo retoma os varaes e lá segue, nhem, nhim, nhem, nhim, por Oblivion afóra, com a solemnidade de um sacerdote.
A's janellas acode gente. Crianças repimpadas no peitoril gritam para dentro:
— Mamãe, o carrinho << evem >> vindo!
Muita mocinha nervosa deixa a costura e tapa os ouvidos, exclamando:
— Que inferneira! Não se póde com esta barulhada!
Não obstante, o terrivel vehiculo passa, indiferente á admiração como á censura, garboso, todo de ferro e ferrugem, nhem, nhim, nhem, nhim, empurrando pela dignidade infinita de Isaac-Toco-de-Vela-Clichy.
E emquanto não torna ao deposito, o silencio não reentra na posse dos seus dominios...

O DEDO DE DEUS

O Pinto é porteiro do theatro á noite, é remendão de guarda-chuvas de dia, e é de noite e de dia um portuguez retaco, de um metro e sessenta de altitude acima da sola dos pés.
Muito teso, conserva sempre um aprumo de quem enguliu sem mastigar um bom cabo de vassoura.
No mento traz cavanhaque, e bigodes pontudos entre a bocca e o nariz.
O papel importante da sua vida é, nos dias de dramalhão, ao fim do Epilogo, concretizar de modo palpavel o dedo de Deus interventor em prol da virtude conspurcada.