São Cristóvão/IV

Wikisource, a biblioteca livre
< São Cristóvão
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
São Cristóvão por Eça de Queirós
Capítulo IV


A cerejeira na horta estava coberta de cerejas: o lenhador outra vez trabalhava nos soutos, desde o cantar da calhandra: - e a viúva de um carvoeiro da mata vinha, todos os dias, cuidar da cabana e guardar Cristóvão. Era uma velha muito magra e sombria, que surdia de entre os pinheiros, encostada a um bordão, acompanhada por um gato negro. Nos primeiros dias, a cada passo, agachada sobre o lume, ou fiando à porta, voltava para os membros imensos de Cristóvão com inquietação os seus olhinhos luzidios, que os grossos pêlos das sobrancelhas cobriam. Aquele ser disforme, que o pai chamava “o menininho”, e que ela vinha guardar, enchia-a de espanto, quando erguia até à boca o enorme cântaro cheio de água, ou tapava toda a porta da horta, parado, a chupar o dedo, a olhar para o Sol. Debalde o bom lenhador lhe afiançara a sua mansidão a sua simplicidade: a velha serradeira temia aquela mansidão muda, como uma toca escura e sem ruído, de onde podia surtir uma fera. Mas quando, durante longos dias, ela o viu quieto sob a cerejeira, sorrindo às formigas que lhe trepavam pelas pernas já peludas, ou, encruzado diante da horta, pasmar, chupando um teto, para o fuso que ela fiava – a velha reconheceu a sua simplicidade, e considerou que ele era como um animal caseiro, porco gordo ou borrego, que pertencesse à choupana. Para não sentir mesmo pousados nela aqueles olhos azulados e sem brilho, e aquele corpo disforme atravancando a cabana, tapando a luz, empurrava-o para a horta, e lá lhe levava, ao bater do meio dia, a sopa e a ração de broa, numa grande malga, que pousava no chão: e Cristóvão ali passava os seus dias, sentado, remexendo a terra com os dedos lentos e vagos, seguindo o ramalhar das folhas, ou, a passos lentos, rente da sebe, alongava para os campos, para os arvoredos de além, o olhar pasmado e sem brilho, com a quietação do boi farto. A serradeira, no entanto, varria o chão, areava as ferragens do armário, batia o colchão do catre, ou sentada à porta fiava até que, às Trindades, soavam no caminho os guizos da égua branca, que o bom lenhador trazia à rédea.

Logo à porta a velha, apertando as mãos, contava como Cristóvão se conservava quieto, e tão bom, brincando na horta ou atento às histórias, que ela sabia, de fadas e de mouros. O lenhador, coçava a barba, contente: - e Cristóvão, diante da lareira, onde a lenha estalava, sorria, pasmadamente, sacudindo as mãos cheias de terra.

Quando os frios vieram, a serradeira, às vezes, ao lidar na cabana, gemia, esfregando os joelhos. Cristóvão arregalava para ela os olhos compadecidos. E um dia que ela coxeava, gemia mais, saindo para a fonte, Cristóvão timidamente tocou na asa do grosso cântaro de barro, murmurando, muito vermelho: “Eu vou”. Espantada, ela deixou, ficou à porta vendo Cristóvão desaparecer entre os olmos e logo voltar, subindo a vereda, sob a chuva fria, com o cântaro que lhe pesava menos no braço estendido que uma malga ligeira. Todo ele sorria, com um contentamento profundo. A velha limpou-lhe os cabelos molhados – e, pela vez primeira, desde que guardava a cabana, tomando Cristóvão como um ser humano, falou das dores dos seus pobres ossos, no seu homem que lhe deixara a velhice sem pão, na morte que vinha perto com uma grande foice. Mas a face que Cristóvão erguia para ela, agachado à lareira, voltara à imobilidade, sem alma e sem calor, de uma face feita de pedra. E foi para o seu velho gato, que tomara no regaço, não para Cristóvão, que a serradeira prolongou, no silêncio, os queixumes da sua velhice. Nessa tarde, porém, Cristóvão varreu a cabana com a vassoura que a velha, coxeando e gemendo, lhe metera nas mãos.

E, desde então, ele começou a fazer pouco a pouco todos os trabalhos domésticos. Através do longo inverno a serradeira não se moveu mais do canto da lareira, fiando na sua roca, com o gato agachado aos pés. Cristóvão ia encher a bilha à fonte, acendia a lareira, areava as panelas, polia as ferragens do armário, batia os colchões dos catres – e mesmo aos sábados, numa dorna cheia de água quente e cinza, fazia a barrela da roupa. E, em todos estes serviços, punha uma aplicação, um interesse profundo. Todo o seu imenso corpo se tornava mais ágil, mais pronto. Já dos seus grossos lábios, que só se alargavam num sorrir pasmado e morto, saíam murmúrios vivos: “Está bem! Ficou bem... Cristóvão limpou!”

À noite, à ceia, esfarelando com lentidão a broa no caldo, o lenhador contemplava com espanto o seu Cristóvão, que lhe parecia diferente, mais atento, desentorpecido, conhecendo já que ele abatia árvores numa floresta, que a égua branca, e as terras, e os gados que pastavam, pertenciam a um Senhor, e que aos domingos se descansava para visitar Deus na sua casa, onde os sinos cantavam no ar. Mas o que encantava o bom lenhador era o cuidado novo de Cristóvão em o servir – desejo que lhe nascera no coração de repente, sem que ninguém lá o semeasse. Mal o sentia subindo das terras, ia, com o seu andar embalado e lento, tomas as rédeas da égua, para a levar ao curral, onde a palha estava serrotada, e o balde cheio de água; na cabana, de joelhos, desapertava-lhe os cordões das grossas botas de couro, que a lama cobria; e estendia diante do lume, com cuidado o seu surrão de estamenha, trespassado das umidades da mata. O bom lenhador murmurava, radiante, como um bem-aventurado: “Foi Deus que te mandou, filho meu!” E nos olhos com que Cristóvão lhe sorria, ele, apesar de rude e simples, percebia uma claridade, um brilho desacostumado. O seu inocente já pensava, já compreendia. Pálida e ainda hesitante, mas certa e de todo visível, uma almazinha despontava naquele corpo imenso, como uma pequena luz numa grande torre.

Depois da ceia, aproveitando o resto do candil, o lenhador tinha já o contentamento inefável de conversar com o seu filho, como outrora com a sua boa companheira – contar o seu duro dia na mata, a árvore que fora derrubada, as madeiras vendidas para as obras do Mosteiro, as queixas dos serradores contra o senhor senescal. O seu pobre lar perdia a frialdade e o silêncio, que até aí, engolido tristemente o caldo, o fazia estirar no catre viúvo; tão triste que até o ramalhar dos sobreiros lhe parecia como um gemer humano. Agora tinha um companheiro humano – e podia, com felicidade, começar a envelhecer.

Teve então orgulho do seu filho, desejou que aldeia o conhecessem. Cristóvão crescia sempre – e era já, antes dos dez anos, como um homem de grande corpo e de grande força, que conservasse, na face lisa e sem barba nem penugem, a candidez de uma criança, alta apenas como uma sebe. Um cabelo ruivo e encaracolado, que lhe nascia nas sobrancelhas cerradas, cobria-lhe a cabeça pequenina, como um barrete muito justo de lã de carneiro, até o pescoço, onde os músculos tinham a saliência, a rijeza, a amplidão dos de um touro. A boca larga constantemente se alargava mais num sorrir para tudo, de candidez e pasmo. E os seus olhinhos, pequeninos como contas azuis, tinham uma doçura que se derramava, em redor, como uma carícia vagarosa e compassiva. Todos os seus vastos membros se moviam com uma lentidão tímida: e, mesmo para descer à fonte ou contornar a sebe da horta, se acostumara a trazer um bordão, a que apoiava, quando parado, as duas mãos enormes, e por cima o queixo pesado, marcado com uma cova funda. De uma peça de camelão azul, que o pai há muito guardava na arca, o alfaiate dos pajens do castelo talhara-lhe um capuz de romeira, e um gibão direito como um saco que, franzido na cinta por uma tira de couro, caía em pregas longas e grossas sobre as botas escarlates, com relevos cosidos de cordovão amarelo. E, assim enroupado e limpo como um filho de mercador, o levava o pai todos os domingos, sorrindo de orgulho, pelos caminhos, à missa na aldeia.

Cristóvão penetrava na velha igreja, de muros severos como os de uma cidadela, com um enleio, um medo vago. Ele sabia que aquela alta casa de pedra, com lâmpadas que rebrilhavam, era de Deus Nosso Senhor, que tinha uma assim em cada aldeia, onde, nos dias quietos e silenciosos em que não se trabalhava, o povo, vestido de panos novos, o vinha visitar e louvar. E desde o domingo de Maio, em que ele descera da cabana, através dos campos verdes, entre as sebes de madressilvas, para ouvir a sua primeira missa, sempre aquela casa de Deus Nosso Senhor deixara, na sua alma simples, o terror de um lugar muito rico, muito triste, e todo cheio de mistério. Uma grande sombra fria caía das abóbadas escuras. Todas as imagens, sobre os altares, lívidas, emaciadas, pareciam sofrer: - o moço nu que torcia o corpo amarrado a uma árvore, e trespassado de flechas; a rainha, tão triste, sob a sua coroa de ouro, e no seu manto de cetim, com o coração varado por sete espadas; o monge, com um resplendor de prata, que mostrava as chagas das mãos abertas. Em tocheiros de ouro lavrado ardiam longos lumes de tristeza. Panos de veludo, de seda, com recamos rebrilhantes, tapavam recantos de onde por vezes saía como o murmúrio de um gemido. Toda a multidão dobrava para as lajes as faces cheias de um pensar triste. E a faixa de luz de uma fenda, aberta na muralha, alumiava a melancolia maior, o Homem pregado numa cruz com pregos, com sangue vivo nos joelhos, no peito, nos pés, que erguia a face atormentada para o Céu e parecia chamar, num abandono. E assim, pois, era a casa do Senhor, cheia de ouros, de sangue que escorria, de veludos magníficos, de tristeza e de mudez!

Diante do altar maior, no entanto, um velho, todo calvo, coberto com uma capa resplandecente, alargava os braços, beijava a toalha bordada da ara, voltava as folhas de um grande livro, ofertava para as alturas um bolo de farinha muito alva, bebia por um copo onde jóias faiscavam. Voltado para ele, ao lado do pai, Cristóvão ajoelhava como o pai sobre as lajes, traçava uma cruz sobre a testa, martelava o peito com os seus punhos duros: - mas permanecia tão insensível e alheio à adoração que ante ele se desenrolava, como o pilar de uma pedra escura, a que findava, por se encostar, fatigado daquela melancolia da casa de Deus. Os olhos então embebiam-se numa grande pomba branca, que se conservava imóvel, com as asas abertas, por cima do sacrário, e que cada domingo o atraía mais, sempre ali, fiel, paciente, sem que uma das suas peças estremecesse: só ela era doce, alegre, natural, na sua brancura adorável, e macia à vista: com um bico claro, patas rosadas, só ela não tinha, no seu corpo de pomba, nem ouro, nem sangue: natural, e igual às outras pombas, só ela o não assustava, nem deslumbrava: - e Cristóvão não compreendia porque se conservava ali naquela sombra fria, entre granitos, ao lado de agonias e dores, e não vinha voar e arrulhar com as outras, sobre os castanheiros do adro.

O seu incerto pensamento ia então para os prados que atravessara, descendo das cabanas, para a verde frescura do choupal, para o sol que aquecia os lagartos dormindo nas pedras brancas. Teria decerto gostado de ficar lá, pelos campos, pela beira do rio, todo o longo domingo, sentindo a erva fresca entre os joelhos, roçando a mão pela frescura das ramagens baixas. Mas nos domingos era necessário visitar, louvar a Deus Nosso Senhor. Só assim, como lhe afirmava o pai, se subia depois ao Céu. Ele, decerto, iria uma dia para o Céu. E uma inquietação passava na sua alma, porque o Céu, como a Igreja, se lhe afigurava escuro, pesado, com ouros, grandes panos de seda. Homens cobertos de sangue, Rainhas com o pobre coração varado de espadas – um sítio, além, nas alturas, muito rico, e muito triste. Quanto melhor a horta em que vivia, com a cerejeira, a sebe de madressilva, e a salsa junto da dorna! Um rumor passava entre os pilares de pedra, todas as faces sorriam, mais claras. O senescal descia do seu banco, a missa findara. E um contentamento enchia o coração de Cristóvão, tornando a ver os castanheiros do adro.

Então, pouco a pouco, tomou mais familiaridade com florestas e prados. Já corria a sua grossa mão sobre a doçura dos musgos; trepava aos troncos para espreitar para dentro da densidão das folhagens; estirava-se no meio das relvas altas, rolando os seus cabelos crespos pela brancura das margaridas. E ao mesmo tempo descobria, dentro de toda esta natureza, uma vida múltipla, vasta, ativa e maravilhosa. A terra, que ele remexia com seus dedos grossos, estava toda mole dos vermes que a habitavam; cada hastezinha de relva abrigava um povo de insetos, mais numerosos que a gente da aldeia, aos domingos, sob os castanheiros do adro; cada folha cobria uma asa; nas espessuras, longos dorsos peludos roçavam as suas pernas lentas; olhinhos brilhantes espreitavam de entre a negrura das tocas; o restolhar dos matos dizia a passagem das feras. Um confuso, obscuro amor por todos estes seres, crescia no seu coração simples. Passava horas encantadas, estirado nas ervas à beira de uma poça clara, admirando os insetos de grandes patas que riscam a água lisa; chamava com as mãos, sorrindo, todos os veados que, à orla das clareiras, subitamente mostravam a face majestosa e séria, entre os troncos dos castanheiros; e parava nos carreiros verdes de umidade e musgo para acariciar o dorso dos sapos.

Assim a floresta se lhe tornava familiar e íntima, e nela passava os dias, nos retiros mais densos, enterrado entre as verduras, agachado contra uma rocha, de bruços sobre uma poça de água, sem se mover, vegetando na doçura infinita de sentir os seus longos cabelos emaranhados nas folhas, os ombros aquecidos pelo mesmo sol que batia nas pedras, as rãs saltando sobre os seus pés como sobre troncos meio enterrados nas ervas úmidas. Só a fome o fazia recolher à cabana. Os seus passos desprendiam-se a custo, como se já tivesse raízes: todo ele cheirava a torrão e umidade, e era, na penumbra da tarde, como um tronco que se separava dos outros troncos. Crescera tão prodigiosamente que se agachava para transpor a porta da cabana. Como nenhuma tripeça sustentava o seu peso, sentava-se no chão diante da lareira aos pés do pai, embebido no espanto, na admiração daquela força.

O bom lenhador então já lhe não dizia ao partir para a mata: “Cristóvão, não saias da nossa horta, que te pode vir mal”. E pouco a pouco começou então a percorrer, maravilhado, os prados, as bordas do rio, os densos arvoredos, para que tantas vezes da porta da cabana se tinham alongado os seus olhos pasmados e vagos. Lento e incerto, como uma rês tresmalhada, descia pelos caminhos abertos, orlados de sebes, parando a cada passo, ficando a pasmar para os trigais altos, para os longos prados, macios e doces à vista como veludo verde, todos avivados de margaridas, papoulas e botões-de-ouro; cortando pelos choupais, ia admirar, durante longas e mudas horas, o correr e o brilhar do grande rio; ou penetrava sob os pinheirais, onde se esquecia até o entardecer, vago e pensativo, respirando com espanto e amor a frescura, o silêncio e o aroma das resinas. Depois recolhia à cabana devagar, com os braços caídos, a face no ar, risonha e contente.

De noite sonhava com ramagens tenras que lhe acariciavam a face, com águas claras e frias que fugiam, cantando, entre os seus pés nus, enterrados na areia. E quando de manhã outra vez, fechando o loquete de pau da cabana, descia para os campos, era em todo o seu coração como um desejo de abraçar, num abraço inteiro, toda a terra que via, desde as flores silvestres dos caminhos até a vasta floresta que cobria as colinas, magnífica e sombria. Mas era nele como uma timidez, um pudor, que o retinha mesmo de tocar nas amoras...