São Cristóvão/IX

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São Cristóvão por Eça de Queirós
Capítulo IX


Longos dias são passados, e Cristóvão, na aldeia, é o servo de todos. As portas do convento nunca mais as transpôs: porque lá habitam a paz e a abundância, o celeiro está cheio de trigo, a adega está cheia de vinho, uma grande alegria e orgulho reinam nos corações – e para lá não iriam decerto os passos de Jesus, nem os seus a seguir o seu Senhor. Mas na aldeia há os velhos, os mendigos, os tristes, os órfãos, as viúvas; e a força dos seus braços pertence a esses, como o amor do seu coração, porque assim mandava o seu Senhor.

Simples e tímido, Cristóvão impõe os seus serviços: mas toda a fraqueza, que recorre à sua força, ganha a gratidão da sua alma. E pouco a pouco, sentindo nele um amparo, todos os fracos vieram a ele - de sorte que, desde que nasce a estrela de alva até que a noite cobre o vale, Cristóvão trabalha com tanta alegria, que o pesar dos maiores fardos lhe parece uma carícia, e nas feridas piores de curar sente um perfume inefável. Ele lavra a terra dos velhos; desbasta as florestas a grandes golpes de machado; seca os pântanos, com grossas pipas que carrega às costas; puxa os carros para que os bois não se esfalfem; transporta aos ombros os coxos; guia os passos dos que não vêem; vai ao longe mendigar o pão e a lenha dos pobres; embala os berços; cava a sepultura dos mortos: - e quando não há vento, ele, retesando os braços, faz girar a mó dos moinhos. Constantemente o seu nome é gritado por cima da sebe dos casais. Este tem o burro doente, e é Cristóvão quem transporta os fardos; aquele precisa de um ceifeiro, e Cristóvão parte com a foice; aquele teto precisa de colmo, e Cristóvão trá-lo às braçadas; para fazer o casebre da viúva não há pedra, e Cristóvão chega de remota pedreira, gemendo sob os blocos da rocha. É Cristóvão quem sopra o fogo do ferreiro; é Cristóvão quem sacode, a matinas, a corda do sino; é ele que, sozinho, abre nos lameiros a calçada nova; é ele quem escava os poços nos pátios dos casais. À noite estava prostrado. Quando os grandes invernos alagavam a aldeia, abrigava-se num vasto alpendre que mal o cobria de todo: de Verão estendia-se junto ao cruzeiro, e os primeiros pássaros, chalrando de madrugada, pousavam sobre os seus ombros, como sobre colinas escuras.

Aos domingos repousava, e esse era o seu dia melhor, porque as crianças brincavam com ele. Sentindo-o doce e paciente, todas corriam para ele como para um grande bicho que os divertia: e trepando por ele, era como o vivo prazer de trepar a árvores e a torres. Por vezes, com as mãos pousadas na terra, ele oferecia o seu vasto dorso, em que cavalgavam, presos pela cinta, uma longa fileira de corpinhos ágeis e vivos: e dando corcovos, imitava, entre as risadas alegres, o urro do leão ou o heróico relinchar de um corcel. Além disso sabia fazer, com as suas mãos cabeludas e cheias de terra, todas as sortes de brinquedos – flechas de caça, pequenos carros que rodavam no pó, barcos com velas para vogar no pego. Para tudo as crianças o tinham pronto – e só se recusava quando eles tentavam estragar a fruta verde, ou fazer mal aos melros.

Mas, de todas as crianças da aldeia, uma governava superiormente o seu coração. Era a filha de uma viúva – daquela que Cristóvão ouvira chorar, e à porta de quem batera, como mandado por Jesus, seu amo. O pai morrera nesta noite – e à pobre mulher não restava ninguém no mundo para tratar as terras, cuidar das ovelhas. Mas, desde essa noite, uma grande força útil entrara no casebre. Cristóvão foi o servo fiel: - e nenhuma horta na aldeia andou mais bem regada, nenhum gado apascentado em prados melhores, nenhum torrão mais fundamente arado. Um riso da criança (que se chamava Joana), o seu jeito de lhe puxar as barbas, recompensava-o de todo o trabalho. Mesmo brincando com as outras, era em Joana que pensava. De noite rondava a porta do casebre, a escutar se ela chorava no seu berço. Cedo, de manhã, ia postar-se na horta entre os limoeiros, à espera que ela corresse de dentro com o seus bracinhos abertos: e todo o dia ficava sentindo nos cabelos, nas barbas, a doçura das suas mãozinhas, que o arrepelavam. Ele amava-a por toda a sua pessoa – a covinha da face quando ria, a graça da sua voz hesitante, os seus pés mal seguros sobre a terra lavrada. Amava-a sobretudo pela sua fraqueza – e não antevia vida melhor do que passar eternamente a servi-la, e a ser alegremente arrepelado. O seu prazer maior era trazê-la escarranchada aos ombros; ela ria, agarrada aos seus longos cabelos; e ele caminhava grave e vaidoso, como se conduzisse a sagrada hóstia.

Por vezes comparava-o ao Menino, ao Menino divino, que ria no seu curral, e aprendia a ler no grande livro de Santa Ana. Os seus olhos claros e largos deviam ser como os de Joana. E o seu pesar era não saber ler, para abrir sobre os joelhos um livro, onde o seu dedinho espetado fosse seguindo as letras grossas. Decerto, Jesus, se conhecesse, Joana, a devia amar. Ela era inocentinha como uma flor do valado: e o seu anjo da guarda esperava quieto, quando ela parava no caminho, a remexer na terra, à procura de bichos. Por mais longe que andasse trabalhando, sentia a voz de Joana se ela o chamava, como se a voz viesse de cima, do Céu – e apressava então a obra, à força dos braços, para correr ao seu encontro, não se esquecendo de trazer as amoras que ela gostava, ou medronhos, menos corados que a sua facezinha. Durante horas então acamaradavam – e Cristóvão era tão simples que, para a entreter, só sabia repetir a voz dos bichos, dançar pesadamente como um urso. A mãe dizia:

— Cristóvão, Cristóvão, muito tempo gastas com a menina... Olha a lenha... Olha o gado...

Ele baixava a cabeça, abria a cancela: e ainda se voltava, já longe, para sorrir, com a sua vasta face iluminada.

Ora no meio desta felicidade, começou um murmurar na aldeia. O guardião do convento não perdoara a Cristóvão por ter ele abandonado os seus serviços à ordem: e os frades que passavam, ou que vinham pregar à tarde no adro, diziam depois que, segundos os livros, todos os gigantes tinham pactos com o Satanás. Decerto, este era doce e serviçal, mas assim eram as artes do Demônio, que durante um tempo se faziam doces e afáveis, para melhor se apoderarem das almas. As mulheres, ouvindo isto, ficavam pensativas. Era então em Maio: já as macieiras tinham flor, e as primeiras espigas dos trigos saíram da terra, e os prados enverdeciam. Mas eis que, uma noite, grandes relâmpagos luzem sobre o vale, um trovão rola sobre as serras – e subitamente, com o estalido de lanças entrechocando-se, caiu o granizo. Longo tempo caiu, arrasando o colmo dos casebres, matando os rebentos novos, esmagando as frutas, devastando o gado nos apriscos. De manhã toda a aldeia estava pobre: - e os homens corriam pelos campos, a olhar os destroços, enquanto as mulheres, juntas no adro, carpiam como num funeral. Um padre veio logo do convento, e estendendo a mão, demonstrou que, por causa do endurecimento das almas viera aquela visitação. Por que persistiam eles em acamaradar com um servo do Demônio? Cristóvão, como todos os gigantes, era um emissário de Belzebu: - via-se-lhe o Inferno nos olhos, nas barbas que o fogo crestara, e na sua fingida humildade. Mas eles continuavam a dar-lhe o pão e o sal, e aí estava que o Senhor lhes devastara as sementeiras. Toda a tarde assim falou – enquanto Cristóvão andava no campo, atando os ramos caídos, secando os charcos, compondo os tetos dos casebres.

Os homens, no entanto, tomavam os seus cajados. O balio, chamado, tocou a trompa para reunir os seus arqueiros. As mulheres escondiam as crianças: outras plantavam cruzes à porta da casa. O abade mandara tocar o sino. E era como quando na aldeia aparecia um bando de lobos.

Cristóvão devia vir por uma azinhaga, onde se postaram os homens com os cajados, os arqueiros com os seus arcos retesados, e o padre, atrás, alçando a cruz com mão trêmula. E um bando de mulheres da aldeia, até as velhas trôpegas, esperavam para ver o feiticeiro espancado e expulso. Todos eles tinham recebido os serviços de Cristóvão; a todos ele cavara a terra, transportara os carretos, rachara a lenha, tosquiara o gado. Mas, em cada um desses serviços, cada um via agora como um ardil de Satanás. Mil coisas lembravam, que o condenavam. Uma noite aparecera um velho desenterrado. Quem o desenterrara senão Cristóvão? Às vezes, de noite, luziam na treva da aldeia dois grandes olhos vermelhos. De quem seriam senão de Satanás, que vinha alta noite conversar com Cristóvão? Por que não rezava ele nunca no adro? Outros acudiam, afirmando que ele tinha, nas costas, pintada uma caveira. Era decerto o sinete da Morte. E alguns, que duvidavam, lembrando-se da sua doçura, da sua bondade, receavam defendê-lo para que não parecessem diante do frade, ter inclinação pelo Inimigo.

Assim o esperavam, quando, pelo caminho que descia da serra, ele apareceu, vergado sob o imenso molho de troncos. O padre imediatamente ergueu alto o crucifixo, e os arqueiros retesaram o arco – e do bando um clamor súbito, enquanto se abaixavam a apanhar as grossas pedras.

Cristóvão parara espantado: - e tão certo estava do amor de todos, que se virou para trás, para ver que inimigo ruim ou homem de temer subia o caminho e despertava assim a cólera da aldeia. Mas o caminho estava vazio, já escuro. E era contra ele que o frade erguia a cruz, os besteiros apontavam os dardos, e os punhos tremiam de cólera no ar!

Vade retro! Vade retro! – gritava o frade.

— Aos corvos! Aos corvos, o malfazejo! – exclamava a multidão.

Deixando escorregar dos ombros o molho de troncos, que tombou esmigalhando a sebe, Cristóvão ergueu a face, alargou os braços: - e durante um momento o espanto fez tão feia a sua face, que o bando recuou, as mulheres fugiram alçando os braços. Mas o frade, com o crucifixo trêmulo no ar, acumulava os exorcismos; o balio, com a vara, acirrava a multidão – e as pedras partiram, arremessadas com tanto medo, que todas se perderam no mato, em redor. Então, sem temor, Cristóvão deu um passo lento. Os seus olhos esbugalhados sondavam a turba ruidosa: viu ali, gritando contra ele, todos os que auxiliara: o moleiro, a quem servira de alimária, e carregara os fardos, brandia contra ele um cajado; a viúva do ferreiro, a quem soprara a forja, tinha duas pedras nas mãos; - e as crianças, que ele acariciara no adro, gritavam: “Aos corvos! Aos corvos!” Então uma grande dor varou o seu coração simples. A aldeia não o queria mais. Como um bicho malfazejo, como um lobo, ele era escorraçado. Duas lágrimas enevoavam as suas vastas pupilas, que reluziam: e baixando a cabeça, com humildade, Cristóvão desceu o caminho. Então a multidão ganhou ânimo. As pedras, voando, bateram nas suas espáduas, cansadas de todos os fardos; uma seta entranhou-se na sua guedelha hirsuta. Cristóvão desapareceu.

Diante dele estava a serra: para a serra subiu lentamente. E uma só dúvida tumultuava seu coração: - por que o tinham perseguido? que fizera ele? Amava a todos, servia a todos. Era o que o seu trabalho não parecia bastante útil? Ele não podia tirar mais força dos seus músculos, nem fazer que, para a labutação, os dias fossem maiores. Por que o apedrejavam então? E uma recordação entrou na sua alma, a memória de Jesus, que só fizera o bem, e que os homens tinham flagelado contra uma coluna de pedra. Ele era, pois, como o Senhor, um perseguido. E um amor maior crescia na sua alma por Jesus, sentindo confusamente que houvera entre os seus destinos uma igualdade de sofrimento... Os seus braços erguiam-se para a Lua que subia. Ali, nas alturas, estava o Senhor. E mesmo vendo a Lua tão brilhante e triste, ele pensava se não seria essa a face do Senhor!

Assim pensava, sentado numa rocha. Os olhos de um lobo luziram entre o mato. Ele pensou que talvez, esfomeado,o lobo descesse à aldeia. E erguido, deu um bardo, espantou a fera para os altos, para longe dos caminhos que desciam à aldeia. Ele via-os, esses caminhos, por entre os pinheiros. E, em baixo, as luzes mortiças, mais longe o Pego da Dona, brilhando como um disco de prata. Aí era o casebre onde, a essa hora, Joana dormia. Nunca mais ele a veria deitada na sua canastra, coberta com o mantéu negro da mãe. Nunca mais as suas mãozinhas lhe arrepelariam as barbas. E uma tristeza imensa tomava-o, uma vontade de se deitar para sempre na serra, e ficar ali até que os seus ossos brancos se não distinguissem mais das rochas brancas. Mas quem faria rir Joana, como ele, quando a erguia nos braços até a rama dos mais altos pinheiros? E quem lavraria o campo da viúva? Essa, decerto, lamentava a sua saída da aldeia. Nela sempre encontrara doçura, e um rosto que sorria na sua tristeza. Se ela o visse, decerto diria: “Cristóvão, olha o gado: Cristóvão olha a lenha!...” Se os outros o perseguiam, ela ao menos o acolheria. E agora Cristóvão esperava a madrugada para descer ao casebre de Joana.

Tênue e fresca, a madrugada nasceu por fim na serra. Rastejando entre os arvoredos, agachado para que a sua cabeça não fosse vista acima das árvores, rodeou a terra, veio ao casebre da viúva. A cancela estava fechada. O galo cacarejava, sobre o monte de mato. Já decerto o lume se acendera dentro, porque da telha vã saía fumo: e as cotovias cantavam muito alto no céu claro. Cristóvão apareceu por trás, defronte da porta do aido. Um grito assustado cortou o ar. A viúva vira Cristóvão, e arrebatando Joana, que brincava no chão, fugiu para dentro do casebre, gritando como o padre: Abrenuntio!

Cristóvão ficou imóvel. Também ela, pois, o temia, não o queria mais! Não havia em toda a aldeia já um coração que lembrasse. As crianças fugiam dele. Por quê? Lentamente afastou os passos, tão triste que o canto das cotovias quase o fazia chorar. Ao lado o pego da Dona rebrilhava, como um espelho redondo. Debruçado sobre ele, olhou a sua face. Então, pela primeira vez, sentiu a sua fealdade. Decerto o repeliam por ser disforme. Esse era o seu pecado. E carregado com o peso da sua fealdade, Cristóvão para sempre deixou os lugares onde nascera.