São Cristóvão/VI

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São Cristóvão por Eça de Queirós
Capítulo VI


Durante um ano viveu na serra. E pouco a pouco, naquela solidão, longe de toda a vida humana, ele quase perdeu a sua humanidade, e foi como um pedaço da montanha que o cercava. Sentado durante dias, imóvel, os seus grossos membros broncos não se distinguiam das rochas: o mesmo vendaval esguedelhava-lhe os cabelos e as ramarias das árvores: e a sua voz, quando se erguia, confundia-se com rugir das torrentes. As feras não tinham medo dele; as aves pousavam sobre os seus braços como sobre os troncos dobrados. A serra era solitária. Outrora vivera lá um ermita, mas as penitência tinham-no extenuado. Um anjo descera a buscá-lo, e a cabana que ele habitava desfizera-se, prancha a prancha, sob os chuveiros de Inverno. Durante um ano Cristóvão não vira um olhar humano pousar-se nele, nem uma voz humana tinha alegrado o seu coração.

Quase esquecera os homens: e no seu espírito simples apenas muito confusamente restava a memória dos casais, dos lugares e das crianças rindo atrás da sebe. Os seus dias passava-os imóvel, olhando: por vezes movia um braço com a lentidão de um ramo sacudido da aragem: e quando os trovões estalavam, erguia um instante a face para o céu; depois, recaía na sua imobilidade.

Um dia, porém, sentiu tilintar guizos, e vozes que falavam. E por trás de umas rochas surgiu uma fileira de mulas carregadas que homens armados conduziam. Como a noite descia, os homens pararam numa clareira: daí a pouco ardia um fogo claro, tapetes juncavam o chão, e os homens sentados em roda, passavam de mão em mão um pichel de vinho. Cristóvão toda a noite, de entre a floresta, os espreitou: - e uma curiosidade infinita tomava-o de ouvir de perto as suas falas, beber do pichel, aquecer-se do fogo claro. Se eles quisessem , ele conduziria alguns dos fardos.

Um estranho, singular impulso o levara a querer bem àqueles homens – e toda a noite rondou para que as feras não atacassem o rancho.

De manhã, eles enrolaram os tapetes: a longa fila de machos desceu a encosta, e os guizos que tilintavam perderam-se pelas quebradas.

Então, um frio estranho, um frio que ele não compreendia, que não vinha do vento, nem da neve, arrefeceu Cristóvão até o coração. E, através da sua simplicidade, sentia que não teria tanto frio, se ouvisse outras vezes vozes humanas, e os passos de animais conduzindo fardos, e uma fogueira acesa por mãos de homens.

Começou então a percorrer a serra, os desfiladeiros, os barrancos, os vales, os bosques, as rochas que conhecia. E de cada vez aquela sensação de frio o mordia tanto, e tanto, que subitamente se sentiu como exausto: a cabeça pendeu-lhe entre as mãos e grandes lágrimas rolaram-lhe pela face. A tarde caía; a noite veio, cheia de estrelas. E Cristóvão, imóvel, sentia, através das lágrimas, surgirem-lhe como visões de coisas desvanecidas, uma velha carregada de lenha, e arquejando sob o fardo; crianças que não podiam passar um rio; uma junta de bois que não podia puxar um carro carregado e pedras. E um desejo imenso vinha-lhe de sacudir aquele frio, trabalhando, carregando o fardo da velha, ajudando a junta de bois. Tomou o seu cajado e começou a descer a serra.