São Cristóvão/XIII

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São Cristóvão por Eça de Queirós
Capítulo XIII


Assim pensando, caminhava Cristóvão. Todo o dia caminhou. Desde a véspera não tivera pão, nem água: - e ao fim do dia, sentado numa pedra à beira do caminho, ele pensava onde encontraria o pão dessa ceia. O sítio em torno era deserto e triste. Nenhum caminho conduzia a moradas humanas. Ao lado, estendia-se uma grande lagoa dourada. Altos canaviais erguiam as suas maçarocas negras. E a água parecia dourada, tocada do sol que descia. Um bando de patos bravos voava no alto. E o silêncio era triste e profundo.

Cristóvão ia seguir, marchar, quando o rumor de uma cavalgada ressoou ao longe, e uma comitiva apareceu, caminhando com lentidão. Dois besteiros a pé, marchavam na frente. Um servo trazia molhos de archotes, para a primeira escuridão da noite. E logo atrás caminhava uma vasta liteira, com cortinas de couro vermelho e topes de plumas aos cantos. Duas damas, ao lado, montavam mulas brancas. Em roda vinham cavaleiros com lanças. E as arcas das bagagens carregavam duas fortes mulas, emplumadas de vermelho.

Cristóvão, logo de pé, tirou humildemente o seu barrete. E vendo aquela forma enorme, esguedelhada, negra, na claridade da tarde, os dois arqueiros, estacando, retesavam o arco, uma das damas deu um grito. A liteira parara, e de entre as cortinas uma dama muito velha, envolta em peles, espreitou, pondo ante os olhos a mão, coberta com um guante de caça. Mas Cristóvão, humildemente, caíra de joelhos. Então a dama deu uma ordem: - e um escudeiro, rudemente, mandou aproximar o homem enorme. Ele veio por entre os cavaleiros, cujas altas lanças direitas, nas selas, não lhe chegavam aos ombros largos. E pelas cortinas da liteira, descerradas, a velha dama, outra mais nova e pálida, e uma criança loura como um anjo, olhavam com espanto. Cristóvão caiu de joelhos junto da liteira. E como lhe perguntassem a que terra senhorial pertencia, e porque andava só nos caminhos, Cristóvão, na sua simplicidade, só pode murmurar que vinha de além e tinha fome. A dama mais nova palpou a sua escarcela – e a criança gritou: “É o gigante que servia Roldão!” Em roda os cavaleiros riram com respeito. E subitamente o pequeno fidalgo, sentado sobre os joelhos da velha, pediu, com um lindo mimo, para ter ele também um gigante, que o seguisse, com uma clava. A velha sorria. E, sem hesitar, deu ordem aos cavaleiros para que trouxessem Cristóvão. Com um gesto foi mandado marchar ao lado das bagagens. E de novo os guizos dos machos tilintaram, e a comitiva seguia lentamente. O Sol descera. Os escudeiros acenderam os archotes. E a cada instante, de entre as cortinas da liteira, aparecia a cabeça loura da criança que espreitava, queria ver se vinha o seu gigante. E Cristóvão soube, pelos estribeiros, que aqueles eram os senhores do castelo de Riba Dona, que ficava para além das lagoas.

Bem depressa, no alto de uma colina, entre os grandes bosques que desciam para o vale, surgiram as altas torres. Na mais alta ardia uma chama, que se torcia ao vento. Longas buzinas soaram. E à entrada da ponte levadiça, apareceram tochas inumeráveis, que os escudeiros erguiam alto.

O intendente, o senescal, dois frades com hábito, outros cavaleiros esperavam no pátio. Nas janelas ogivais brilhavam claridades. E o sino da capela repicava alegremente. Um escudeiro, cuja barba branca caía sobre um corpete de couro branco, recebeu nos braços a criança loura, que as damas cortejavam, mergulhando nas suas longas saias de cauda, orladas de peles. Um tapete fora desenrolado sobre a vasta escadaria. Os cães latiam alegremente. E sob a grande porta, que sustentava um escudo de armas, uma camareira esperava, com um jarro de prata na mão, enquanto outras ao lado tinham uma bacia que rebrilhava, e uma branca toalha fina. A cauda enorme da velha que levava a criança pela mão, desapareceu sob o alto portão. Os estribeiros levavam os cavalos à rédea, outros recolhiam as lanças. E os cavaleiros, cujas esporas retiniam sobre os lajedos do pátio, contavam ao intendente e ao padre como a jornada fora boa, com a ajuda do Senhor, sem encontro de touros, nem de lobisomens.

Mas, no entanto, todos os criados cercaram Cristóvão, com espanto. Ele torcia o seu barrete nas mãos, humildemente. Os pajens riam da sua grenha hirsuta, da imensidade dos seus pés cheios de terra. Os mesmos cozinheiros tinham corrido, para o admirar. Os cães, assustados, latiam.

Mas um pajem veio correndo chamar Cristóvão à sala de armas: - e através de um corredor abobadado, por onde ele tinha de caminhar todo vergado, e de portas de carvalho que mal podia passar, levou-o a uma sala que era grande como a nave de uma igreja. Pelas paredes estavam encostados molhos de lanças. Das traves do teto pendiam bandeiras, e ao fundo, numa vasta chaminé, ardiam troncos de árvores, a que os cavaleiros, de pé, aqueciam as mãos. Uma cortina ergueu-se e as duas damas apareceram com a criança no meio delas, e seguidas dos pajens, que traziam tochas de cera.

O pequeno Senhor do castelo (porque seu pai morrera, havia dois anos, na guerra do rei da Ocitânia) tinha feito seis anos pelo Natal, e era tão delicado e louro, que pareceu a Cristóvão o Menino Jesus que havia no altar da capela. Mas, desde criança, fora educado para ser um cavaleiro forte: todas as manhãs lhe esfregavam os lábios com um pedaço de ouro bento, para que suas falas fossem honestas e brilhantes; a sua roupa era secada ao lume sobre o fio de uma grande espada, para que crescesse forte e amigo das armas; e trazia ao pescoço uma pedaço do Santo Lenho, para que o seu coração se enchesse de amor do Céu. O seu encanto fora sempre ouvir as histórias dos Paladinos. De noite sonhava com Roldão, e estendia os braços para empunhar a grande trompa que soara em Roncesvales. E desejava libertar damas presas em torres, domar dragões e ser servido por um gigante armado de uma clava.

E ali o tinha, o seu gigante, maior de que todos aqueles de que ouvira falar, nos serões de Inverno, aos trovadores de passavam esmolando, ou aos peregrinos que tinham visto as maravilhas da Terra Santa. Direito, a mãozinha assente na cinta, o olhar rebrilhante, estava diante de Cristóvão – que sorria, com a vasta face barbuda toda pendida e enternecida para ele. Então, erguendo o dedo para o alto, onde estava o ombro de Cristóvão, disse muito sério:

— Quero subir lá cima.

O seu aio ergueu-o nos braços, mas não chegava àquela altura. As damas riam; os cavaleiros também, metendo os dedos entre os fios das barbas. Então Cristóvão agarrou delicadamente na criança, e pousou-a no seu grande ombro. Lá no alto, a criança sorria, vendo todos embaixo, tão pequenos, junto dos joelhos do gigante. Espicaçou o ombro de Cristóvão, gritou: “Caminha!” E Cristóvão marchou, através da sala. Para passar, a criança afastava as bandeiras que pendiam. Os seus olhos, cheios de orgulho, reluziam como estrelas, mas a mãe inquieta erguia as mãos, chamava: “Ruperto! Ruperto!” – E o aio, todo erguido na ponta dos pés, estendia os braços para as alturas de Cristóvão, para receber Ruperto que se atirara de lá, rindo e sem medo.

Então a dama velha deu suas ordens ao senescal. Cristóvão foi levado às cozinhas – onde os pajens, os criados, correram para ver Cristóvão, sentado no chão, com uma bacia de barro nos joelhos, cheia de vinho, esfarelar dentro grandes broas, que um criadito lhe trazia, ajoujado.

Deitado, nessa noite, numa velha cavalariça abandonada, Cristóvão sentiu uma grande paz, e como um calor que o envolvia, vindo menos da palha fresca em que jazia do que do sentimento vago de que alguém o estimava, o queria, necessitava dele. Era aquela criança tão linda, tão nobre, com os seus longos cabelos de ouro. E toda a noite sonhou que uma criança assim, cujos cabelos louros caindo sobre a camisa branca o envolviam num brilho de ouro, vinha desde a ponta dos seus pés, caminhava ao comprido do seu corpo, como por uma estrada desigual que galga montes e vales: os seus pezinhos mal pousavam; e chegada junto da sua face, a criança parava, e debruçada sobre os seus grandes olhos, parecia contemplar dois lagos tranqüilos e claros como espelhos. Depois no mesmo silêncio, e caminhando sobre o seu corpo, recuava até a ponta dos seus pés, de onde se elevava para o ar, resvalando num raio oblíquo da Lua, que entrava por uma fenda.

Ao primeiro alvor da madrugada, antes que a buzina das sentinelas anunciasse o dia, Cristóvão, saindo por uma porta aberta, foi rondar em torno do castelo. Nunca ele vira construções tão magníficas. Uma longa muralha envolvia toda a colina. Os nenúfares cresciam na água dos fossos. E para além eram arvoredos, terras de cultura, por onde um rio, coberto àquela hora de névoa, serpeava por entre grandes choupos.

Desde tanto tempo havia paz naqueles feudos senhoriais, que a erva crescia nas fendas da ponte levadiça. A forca patibular, sob a clemência da damas que governavam, tinha as vigas apodrecidas e verdes de musgo. E sobre o torreão erguia-se uma lança, com um morrião espetado, e uma cabaça. significando que ali se dava hospitalidade a cavaleiros e peregrinos. As torres, de telhados agudos, eram inumeráveis, tendo todas bandeiras ou flâmulas, vermelhas e verdes, que esvoaçavam na brisa. Dragões, debruçados das ameias, vomitavam a água das chuvas. E em cada janela ogival, com brasões nas vidraças, havia um vaso escarlate, onde crescia uma açucena.

Dentro das muralhas, tudo era magnífico. Os lajedos dos pátios, polidos como os de uma igreja, eram cercados de uma bordadura de terra onde cresciam roseiras. O poço era encimado por um pombal que terminava por uma imagem de S. Marcos, onde as pombas vinham pousar, beijando-se sobre o seu grande livro aberto. Por trás da negra torre isolada, que servia de tesouro e de arquivo, havia um jardim em flor: e aos lados a um coberto para o jogo da bola, uma aléia para o jogo da lança.

E na tranqüilidade daquele solar de damas, alheias a coisas de guerra, respeitadas nas longas léguas dos arredores, as sentinelas, sobre as ameias, jogavam os dados, ou dormiam como frades repletos.

Cristóvão pasmava destas maravilhas, quando um pajem o chamou à presença de um intendente. Numa sala abobadada, sentado numa vasta cadeira de carvalho lavrado, diante de uma mesa coberta de rolos de pergaminhos, de in-fólios com armas estampadas, o intendente marcou a Cristóvão as suas obrigações, que consistiriam em acompanhar o Senhor sempre que ele saísse, a pé, ao lado do seu ginete, e armado de um clava. Depois um homem, um corcunda entrou, e trepando vivamente a uma cadeira mediu Cristóvão com um côvado de madeira, desde a cabeça aos pés, e saiu, recuando e saudando, com um molho de tesouras e de agulheiros tinindo à cinta.

Quando o fato que ele assim medira ficou pronto, Cristóvão recebeu ordem para talhar uma maça um tronco de árvore, e, vestido, acompanhar o Senhor, que ia visitar as suas florestas: e enquanto o esperava, na clara manhã de Agosto, Cristóvão não cessava de se mirar na água clara da cisterna, pasmado das bragas de pano às listas azuis e vermelhas, que lhe cobriam as pernas, e do gibão vermelho e azul, que lhe cobria o peito, tendo bordadas as armas da senhoria.

Bem depressa o Senhor apareceu montado num potro branco, com plumas brancas na gorra, sob a qual caíam os seus cabelos louros. Um aio, ao seu lado, levava o falcão no punho. E dois cavaleiros seguiam, de lança alta. Vendo Cristóvão, o menino gritou de alegria: e três vezes fez correr o potro, que se espantava, em torno de Cristóvão imóvel, com a sua maça no ombro. Depois, atravessando a ponte levadiça, correu pelo caminho largo, voltando-se na sela, airoso e vivo, para ver Cristóvão, que trotava com as suas vastas passadas, a longa guedelha ao vento. Pelas portas dos casebres, os vilões do castelo ajoelhavam à passagem do Senhor, que lhes atirava moedas de cobre, da sua escarcela; depois, em grupo, com os braços estendidos, ficavam a olhar o gigante que corria atrás.

Ao fim do passeio, tendo parado numa clareira onde se erguia uma torre, o menino não quis montar no potro, mas voltar ao castelo, cavalgando Cristóvão. Debalde o aio, com um joelho em terra, o potro pelas rédeas, lhe pediu para montar. Com o olhar vivo, ele disse só: “Mas quero!” E, suspirando, o velho aio ajudou-o a trepar até ao pescoço de Cristóvão, onde ele montou, com as suas esporas fixadas no peito de couro.

Então a sua alegria foi extrema. Era como se estivesse no alto de uma torre que caminhasse. Ora o fazia parar para apanhar as mais altas flores dos medronheiros, que atirava ao chão; ora queria espreitar os ninhos; ora, espicaçando o peito de Cristóvão, corria agarrado aos seus cabelos, como as rédeas de um ginete. E assim voltou ao castelo, onde a mãe e a avó, na grande varanda de pedra, apertavam as mãos, entre inquietas e agradadas, ao ver assim o menino cavalgar o gigante, como nos contos dos menestréis.

E desde esse dia a melhor alegria do menino foi cavalgar Cristóvão. Eram então grandes correrias em torno às muralhas, ou em volta dos fossos, por vezes mais longe, até a floresta, Cristóvão sempre trotando, o menino sempre rindo. E assim pouco a pouco o menino se afeiçoara a Cristóvão, como um cavalo que o compreendia, o fazia rir, com corcovos violentos, ou passos largos e ondulados, como os de um vasto dromedário. Cristóvão também, pouco a pouco, se dera de todo o coração à criança. Quando o sentia sobre os ombros, toda a sua face se alumiava. Por mais fortemente que lhes puxasse os cabelos, só sentia a carícia das suas mãos. Para o fazer rir, relinchava como um corcel de guerra; ou fingia medo, não queria avançar, e as esporas do menino rasgavam o couro do seu tabardo. Nos dias em que chovia e o menino não saía do castelo, todo o dia Cristóvão rondava tristemente pelos pátios, com a melancolia da sua ociosidade: e de noite não recolhia à sua estrebaria, com os olhos na janela onde luzia a luz que alumiava o menino.

Por vezes, porém, o menino queria que Cristóvão viesse assistir ao seu jantar: - e então dois pajens abriam mais largos os grandes reposteiros de tapeçaria para que Cristóvão penetrasse na vasta sala, onde o teto era pintado de azul, e salpicado de flores que brilhavam como recortadas em ouro. Imóvel a um canto, ele contemplava o menino, que se sentava ao lado da avó, numa cadeira de alto espaldar como a dela. Por trás, o seu aio tomava os pratos da mão do escudeiro. Sobre a mesa, coberta de linho fino, retiniam os copos de prata. Os bufetes vergavam ao peso das baixelas. Uma grande fogueira bailava na chaminé, onde estava representado o cerco de Antioquia: - e sobre os poleiros de ferro polido, os falcões afiavam o bico.

Mas, por vezes, o menino queria Cristóvão mais perto. Então a mãe, resignada, fazia um gesto seco: - e Cristóvão, muito humilde, assustado dos esplendores senhoriais, vinha, vergando os ombros, com o seu barrete na mão. O menino queria-o de joelhos, com as mãos no chão, e batia-lhe nas costas, estendia-lhe pedaços de carne, que ele comia com ruído para o divertir mais.

Outras vezes, à noite, um pajem vinha buscar Cristóvão às cozinhas, e entrava na grande sala, onde ardia uma fogueira na chaminé. Sentada na sua cadeira, a avó tinha um livro de horas aberto nos joelhos, com o menino ao lado. Defronte a mãe fazia tapeçaria. E um trovador, ao pé, sentado num escabelo, contava um longo romance de cavalaria e de amor. Era sempre um paladino de armas negras, uma dama encerrada nalguma alta torre, um gigante guardando a porta de um castelo encantado. O menino exclamava:

— Também eu tenho um gigante!

E fazia então erguer Cristóvão, que parecia monstruoso, com os grossos joelhos vivamente alumiados pela chama dos trocos ardendo, a cabeça quase perdida na sombra das altas vigas. O frade erguia as pálpebras dormentes; a dama ficava com a longa agulha suspensa sobre a tapeçaria; e todos, olhando Cristóvão, sentiam mais real e viva a longa história de fadas e cavaleiros. Depois os escudeiros serviam bolos secos, e as grandes canecas do hipocraz.

Assim os dias tranqüilos passavam no castelo tranqüilo. O vigia, invariavelmente, ao anunciar, com um longo toque de buzina, o nascer do Sol, içava no mastro da torre de menagem a grande bandeira de seda com as armas do Senhor. As janelas do castelo abriam-se; o sacristão varria a capela; o servo dos currais chegava, ajoujado com os seus cântaros de leite; e os pajens, cantando como pássaros que acordam, desciam correndo para o jogo de bola, ou para a liça coberta, onde o mestre de armas já experimentava as espadas, vergando as lâminas, ou examinava os ferros das lanças.

Se o tempo era claro, as damas e os meninos davam um passeio pelos altos terraços. O menino, por vezes, debruçando-se, gritava por Cristóvão, enquanto as damas respiravam o ar fresco, ou seguiam o vôo dos falcões novos, que os falcoeiros adestravam.

Ao meio dia dois trombeteiros anunciavam o jantar dos Senhores; ao portão do castelo iam-se juntando os pobres das terras senhoriais, pare receberem depois nos salões estendidos o resto dos pães, ou a carcaça das aves.

Às vezes, pela tarde, um repique de pandeiretas, de guizos, anunciava a chegada de uma companhia de menestréis e jograis: um deles, com o barrete na mão, pedia permissão para dar uma representação no pátio. As damas vinham ao balcão; todos os pajens corriam, o arquivista deitava a cabeça fora da janela da torre, os cozinheiros espreitavam de entre as reixas de feno: - e no pátio os jograis, atirando bolas, dançando na corda, erguendo pesos, ou representando farsas, levantavam grandes ah!, ah! lentos e maravilhados. Quando saíam, sempre algum deles chamava Cristóvão com um gesto discreto – e fora da ponte levadiça, persuadiam-no a vir com eles, na vida livre e alegre, a percorrer castelos, visitar as feiras, entrar nas cidades, ganhar dinheiro para a velhice. Ele recusava, com um mover lento da cabeça. E eles seguiam voltando-se ainda para o ver, calculando os ganhos que teriam com a exibição daquele gigante.

Outras vezes era uma comitiva de fidalgos que chegava em visita. O pátio estava todo sonoro com o relinchar dos corcéis. Os pajens corriam azafamados. Nas janelas batiam-se as alcatifas: - e nas cozinhas, o mestre, mais afogueado e vermelho que um pimentão, preparava grandes empadões, de onde sairiam pombas vivas. Nesses dias o menino tinha orgulho em mostrar o seu gigante: e diante dos cavaleiros pasmados, Cristóvão corria em torno com o menino a cavalo no ombro. E o capelão dos hóspedes tomava sempre as medidas de Cristóvão, para relatar nas histórias.

Outras vezes, já por noite escura, ressoava às portas do castelo um trombeta de guerra. E um cavaleiro entrava, silencioso, coberto de ferro, seguido por seu escudeiro. Uma camareira corria com o gomil de água perfumada para lhe derramar nas mãos; um pajem desembaraçava-o de sua lança; outro marchava adiante, com uma tocha de cera; - e o cavaleiro, com o seu elmo na mão, sacudindo os cabelos, lançava um nome sonoro de paladino, famoso já naquelas terras. Ou então era um peregrino, que os escudeiros levavam primeiro à cozinha, onde ele alargava o seu manto diante do lume, para o secar da umidade dos caminhos. Cristóvão segurava com respeito o seu bordão, de onde pendia uma cabaça. Em breve um capelão o conduzia às damas, a quem ele contava as suas jornadas, as maravilhas do Santo Sepulcro: - e Cristóvão esperava, para lhe beijar a orla da sua esclavina, que tocara no túmulo do Senhor.

Assim os anos passavam. O menino crescia – e agora começava a ser ensinado em tudo o que respeita às coisas da caça e às coisas da guerra. Todos os dias o monteador trazia cães, para completar a matilha do Senhor: e chegavam, às costas das mulas, caixas contendo armas tauxiadas, para o menino lhes aprender o manejo. Mas, por desejo da avó, que era dada às coisas do alegre saber, o menino passava longas horas com o capelão, que lhe ensinava a conhecer as letras, os números, a traçar o seu nome num pergaminho. Pouco a pouco, o menino perdera a sua curiosidade por Cristóvão. E já por vezes passava diante dele sem lhe sorrir, ou lhe acenar com a mão, já calçadas com o guantezinho de caça.

Mas Cristóvão não vivia ocioso. Os pajens davam-lhe as armas para limpar. O sacristão, velho e trôpego, pedia-lhe para varrer a capela – e mesmo era ele quem acendia os fornos da cozinha, ou lavava a baixela suja. Depois, um dia, a avó, lendo uma história em que um gigante guardava um tesouro, quis que Cristóvão guardasse a torre onde estavam os arquivos e as arcas de dinheiro. A torre, então, foi o seu cuidado: constantemente vigiava para a limpar dos musgos ou das ervas. Todas as manhãs e todas as tardes batia as reixas das janelas esguias, para que nenhum ferro estivesse frouxo ou dessoldado. Era ele que levava o jantar, a ceia, ao arquivista, sempre debruçado sobre os seus pergaminhos. E agora dormia à porta da torre, com a grande chave de ferro toda fechada na mão. Todavia o menino, às vezes, ainda queria ser seguido por Cristóvão. Eram esses os seus dias alegres. Como um cão meio abandonado, os seus olhos simples e bons imploravam uma carícia. Mas em breve, o menino, com um gesto, o despedia: agora só se interessava por armas, por falcões, por ginetes de guerra. E Cristóvão, suspirando, com o coração pesado, ia estirar-se junto da torre, com a sua grossa chave sobre os joelhos.

Depois, um dia, um parente chegou ao castelo, trazendo de presente ao menino um anão disforme, pouco mais alto que uma seta, com uma cabeça enorme de olhos maus, e um longa barbicha rala, que lhe fazia como o queixo de um bode. O menino teve então a paixão do seu anão. E nunca mais reparou em Cristóvão.

A dor de Cristóvão foi imensa. E o castelo tornou-se-lhe subitamente tão frio e deserto, como um cerro que as nortadas bate. Todo o dia seus olhos espreitavam os terraços onde o menino passeava, a porta por onde saía, a liça onde ele vinha jogar a seta. E quando ele aparecia, Cristóvão escondia-se por entre os ângulos das torres – não se querendo mostrar por sentir que não era desejado, ou pelo receio de ver que não era chamado com o riso alegre de outrora. E na sua simplicidade pensava: “Que lhe fiz eu? Por que me não quer?” Todas as noites sonhava com ele. Era sempre a mesma criança, com os cabelos louros sobre uma camisa muito branca, que caminhava sobre o seu corpo, mas, em lugar de vir espreitar a sua face, só vinha para lhe enterrar a ponta da sua seta, no sítio onde sentia bater o coração, com um jeito que era seco e cruel.

Sentado à porta da torre, pensando naquela ingratidão, soltava grandes suspiros: e o arquivista debruçava a cabeça calva pelo postigo, aos ruídos daquela dor. Para ao menos estar misturado às coisas do menino, era ele quem limpava o seu potro favorito: mesmo por vezes lhe beijava o focinho; e a sela em que o menino montava, as rédeas cobertas de veludo, os seus estribos de prata, eram como coisas sagradas, em que tocava com devoção.

Por esse tempo, uma manhã, houve um grande rumor no castelo. O menino estava doente. Bem depressa dois pajens partiram galopando – e não tardou a chegar, montado na sua mula, o Físico, com a sua caixa de drogas. Foram então dias de inquietação. A capela estava todo o dia acesa, e as aias rezando. De um convento vizinho vieram as relíquias de S. Teódulo. Os pajens, sem jogar, sem lutar, cochichavam com medo pelos cantos: - e outros iam procurar pelos caminhos peregrinos, ou mercadores ambulantes, que trouxessem de longe alguma receita nova e ignorada. Cristóvão não dormia. Toda a noite, os seus olhos estavam cravados na janela dos aposentos do menino. Interrogava, tremendo, as camareiras. Ia pelos casais de colmo, dos servos, perguntando por ervas. Foi muito longe consultar um pastor feiticeiro. E para que nenhum rumor inquietasse o menino, ia de noite, com uma grande vara, bater a água dos fossos, para fazer calar as rãs.

Um dia, porém, o menino apareceu no terraço do castelo, apoiado às duas senhoras, pálido ainda, sorrindo ao sol de Inverno. Todos os criados, os servos, correram, saudando-o de longe com os barretes. A sineta da capela repicava alegremente. E Cristóvão, com as mãos postas, esperava ansiosamente que os olhos do menino se pousassem nele. O menino acercou-se da beira do terraço – e os seus olhos, ainda vagos e tristes, pareceram nem reparar no seu gigante. Cristóvão foi recolher à sua torre, com duas grossas lágrimas rolando-lhe por entre as barbas.