Thereza

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Thereza
por Álvares de Azevedo


Je l’ayme tant que je n’ose l’aymer.
Clément Marot.



Quando junto de mim Thereza dorme,
Escuto o seio della docemente:
Exhalâo-se dalli notas aereas,
Não sei que de amoroso e de innocente!

Coração virginal é un alaúde
Que dorme no silencio e no retiro...
Basta o roçar das mãos do terno amante,
Para exhalar suavissimo suspiro!

Nas almas em botão, nesse crepusculo
Que da infante e da flor abre a corolla,

Murmurão leve os trémulos sentidos,
Como ao sopro do vento uma viola.

Diz — amor! — essa voz da lyra interna,
E’ suspiro de flôr que o vento agita,
Vagos desejos, ancia de ternura,
Uma briza de aurora que palpita.

Como dorme innocente esta criança!
Qual flôr que abriu de noite o niveo seio,
E se entrega da aragem aos amores,
Nos meus braços dormita sem receio.

O que eu adoro em ti é no teu rosto
O anjelico perfume da pureza;
São teus quinze annos n’uma fronte santa
O que eu adoro em ti, minha Thereza!

Sào os loiros anneis de teus cabellos,
O esmero da cintura pequenina.
Da face a rosa viva, e de teus olhos
A saphyra que a alma te illumina!

E’ tua fórma aerea e duvidosa
— Pudor d’infante e virginal enleio;

Corpo suave que nas roupas brancas
Revela apenas que desponta o seio.

Eu sei, mimosa, que tu és um anjo
E vives de sonhar, como as Ondinas,
E és triste como a rola, e quando dormes
Do peito exhalas musicas divinas!

Ah! perdoa este beijo! eu te amo tanto!
Eu vivo de tua alma na fragancia...
Deixa abrir-te n’um beijo as flores d’alma,
Deixa-me respirar na tua infancia!

Não acordes táo cedo! emquanto dormes
Eu posso dar-te beijos em segredo...
Mas, quando nos teus olhos raia á vida,
Nâo ouso te fitar... eu tenho medo!

Emquanto dormes, eu te sonho amante,
Irmã de seraphins, doce donzella;
Sou teu noivo... respiro em teus cabellos
E teu seio venturas me revela...

Deliro... junto a mim eu creio ouvir-te
O seio a suspirar, teu ai mais brando,

Pouso os labios nos teus; no teu alento
Volta minha pureza suspirando!

Teu amor como o sol apura e nutre;
Exhala fresquidâo e doce briza;
E’ uma gota do céo que aroma os labios
E o peito regenera e suavisa.

Quanta innocencia dorme alli com ella!
Anjo desta criança, me perdôa!
Estende em minha amante as azas brancas,
A infancia no meu beijo abandonou-a!