As Mulheres de Mantilha/V
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| As Mulheres de Mantilha (Capítulo V) por |
Havia sarau e ceia esplêndida que bem se pudera chamar almoço pela hora adiantada da noite; mas na noite dos Reis a mesa não tinha hora, estava sempre posta e renovada até o amanhecer.
Apesar de sua má reputação, e graças à sua riqueza, ao seu espírito e à sua influência, Maria tinha círculo numeroso e agradável, embora não formado por senhoras de classe elevada e de educação escrupulosa. Os mancebos mais distintos, muitos homens ricos, e os oficiais dos regimentos da guarnição da cidade freqüentavam a sua casa, e não faltavam às suas reuniões; por isso mesmo acudiam também a estas muitas jovens de procedimento equívoco, e algumas famílias sem protetor zeloso, e pouco exigentes e melindrosas, ou por dependência da bela e rica libertina, ou pelo desejo de atrair noivos para as filhas, ou enfim pelas aparências e exterioridade de boa companhia, que a elegante pervertida zelava em sua casa.
Alexandre Cardoso e seus companheiros entraram na sala, quando Maria dançava o minuete com um requinte de enlevadora e provocante graça que nenhuma outra possuía como ela.
Maria contava então vinte e quatro anos e não parecia ter vinte; era de estatura regular, esbelta, ligeira e um pouco lasciva, não afetada, naturalmente lasciva nos movimentos; seus cabelos eram louros, seus olhos grandes e de celeste azul, o rosto oval, branco, as faces docemente coradas, o nariz pequeno e bem-feito, os lábios admiráveis de suave rubor e não finos nem demasiadamente grossos, bordando pequena boca, escondendo lindíssimos dentes, e servindo a sorrisos cheios de magia; tinha o colo alto e elegante, como a fronte, o peito encarnado a não deixar adivinhar as clavículas, e de alvura deslumbrante, os seios pequenos, a cintura fina, os braços admiráveis, as mãos e os pés de maravilhosa delicadeza, e em seus modos e na expressão móbil de sua fisionomia certo que de graça indizível, de inocência que ela não tinha, de malícia que lhe sobrava, de contradição caprichosa, de mistura do bem que se adora e do mal que cativa, de anjo cujos pés se devem beijar e de demônio a cuja tentação se obedece à força de encantamento irresistível.
Maria chegara nessa época ao apogeu da sua formosura e à consciência experiente do poder dos seus enfeitiçadores dotes físicos.
Sem interromper o seu minuete ela viu entrar Alexandre Cardoso e em vez de saudá-lo com um sorriso, encrespou passageira e levemente os supercílios e a fronte, como se um ressentimento do ânimo lhe viesse ondear nos supercílios e na fronte; logo porém serenou e seu rosto foi todo, como pouco antes, espelho de bonança, e céu de alegria.
Acabado o minuete no meio de palmas batidas em aplauso, conforme era de uso, Maria recebeu as saudações dos recém-chegados, e logo depois conduziu todos os seus convidados para a mesa da ceia que foi longa e ruidosamente festejada.
Entre os brindes que se faziam, falaram todos dos divertimentos da noite, comparando as diversas sociedades dos cantadores dos Reis disputando sobre o merecimento de cada uma delas para o ganho da primazia.
Cada qual referia os episódios interessantes ou grotescos que havia observado; só Maria, um pouco pensativa, ouvia e não falava, e Alexandre Cardoso e seus companheiros discorriam sobre tudo, guardando porém reserva acerca do tumulto do pátio do convento da Ajuda, porque não lhes convinha propalar o improviso injurioso do poeta que atacara o bispo e o vice-rei antes de comunicarem a este o insólito caso.
— Faço um protesto, disse Alexandre Cardoso elevando a voz.
— Um protesto?
— Sim; contra o silêncio obstinado da encantadora fada que nos hospeda.
— Ah! disse Maria, interrompendo-o; são tantos os que protestam contra o oficial-de-sala do senhor vice-rei, que bem se lhe pode permitir que ele também proteste alguma vez.
Alexandre Cardoso corou e prosseguiu:
— Aqui cada um de nós tem contado o que viu de melhor e de pior nesta noite de folia e de divertimentos característicos: que viu, que sabe e guarda consigo a bela Maria?... Aposto que ela dirá o que ninguém disse ainda, porque seus lindos olhos vêem sempre mais do que os dos outros com a luz divina que radia neles.
— Eu?.. pobre mulher que não saiu de sua casa, o que eu dissesse agora, vinte bocas já o têm repetido.
— Fale! fale!
— Vós outros que tão tarde chegastes, sois os que tendes mais a contar; tenente-coronel Alexandre Cardoso, capitão Aires de Brito, alferes Constâncio Lessa, vós todos, que chegastes tão tarde, dizei-nos: que aconteceu por aí?...
— Responda, quem pergunta.
— Posso eu adivinhar?
— Como fada que é.
Maria sorriu:
— Pois bem, disse ela; ensaiarei um sortilégio...
E deitando no cálice algumas gotas de vinho, fingiu que murmurava palavras cabalísticas, depois tocou com os lábios no vinho, e exclamou:
— Vejo longe daqui, e é a vós que eu vejo, senhores oficiais recém-chegados!
— E então?
— Jogastes a banca até às dez horas da noite; o senhor tenente-coronel Alexandre Cardoso ganhou mais de mil cruzados; mau sinal; feliz no jogo, infeliz no amor.
— Sinistro agouro!
— Saístes a correr a cidade e a visitar os presepes; tenente Gonçalo Pereira, não foi decente nem digno que na ladeira de Santo Antônio abraçasses à força uma mulher de mantilha: recebeste justo castigo nas risadas dos teus amigos, quando descobrindo o rosto da vítima, encontraste em vez de um fresco semblante de moça, a cara enrugada de uma velha.
— Ah! um espião nos seguiu!...
— Poupo-vos a muito mais que estou vendo e que pudera dizer, e agora vos observo na vossa última estação...
— Onde?
— Há apenas uma hora, no pátio do convento da Ajuda. Os oficiais começavam a perturbar-se.
— Ali Alexandre Cardoso estava embevecido a contemplar um dos dois lírios... feliz no jogo, infeliz no amor... o lírio indiferente não pendia para ele, que perdido e cego não viu, não soube ver, se bem perto para alguém a furto pendia o lírio... eu também não sei se houve pendor.. mas é tão natural...
Alexandre Cardoso fingiu sorrir; mas estava confundido.
— É saber muito e até demais! disse o tenente Gonçalo Pereira.
— Se eu sou fada! respondeu sem olhar o interruptor a soberba moça. — Depois continuou:
— As freiras davam motes, e os poetas glosavam..
— Basta... basta...
— Não; agora hei de ir até o fim, e hei de dizer-vos o que não sabeis, embora estivésseis lá, e eu não saísse daqui.
— Ouçamo-la, disse Alexandre Cardoso, seriamente.
Maria compreendeu a seriedade do oficial-de-sala, e sem constrangimento aparente, mediu suas palavras para não dizer mais do que lhe convinha.
Uma freira deu por fim o mote:
Viva o bispo e o vice-rei.
E um poeta que não se quis mostrar glosou do meio da multidão, improvisando com voz fanhosa uma décima assim:
Maldito seja quem diz
Viva o bispo e o vice-rei.
— Ah!... exclamou com hipócrita horror a assembléia.
— Vós, nobres oficiais, vos atirastes de espada em punho contra o poeta audacioso, houve tumulto, desordem, ferimentos, contusões de inocentes, e tudo em vão, porque o misterioso improvisador escapou sem ser ao menos conhecido, e, o que foi ainda pior...
— Acabe...
— Quando Alexandre Cardoso voltou ao seu posto de embevecida contemplação, o lírio tinha fugido com o poeta... feliz no jogo, infeliz no amor... paciência!
Evidentemente os mal disfarçados ciúmes de Maria saíam-lhe do coração para cair dos lábios transformados em epigramas pelo ressentimento.
Alexandre Cardoso sentiu a natureza dos golpes que sobre ele descarregava a terrível e ciumenta amante; mas dominado pelo desejo ardente de conhecer o desconhecido, aquilo que Maria sem sair de casa sabia do que se passara no pátio do convento da Ajuda, mais do que os oficiais lá tinham estado, disse:
— A história do poeta e do nosso empenho para castigá-lo é exata, confesso-o; mas que é que podemos ignorar e que a bela fada adivinha?...
— Vós não pudestes saber e eu sei quem foi o poeta que improvisou a décima revoltante...
— Quem foi?... perguntou Alexandre Card
— Uma mulher de mantilha.
— Não...
— Sim; eu nunca minto, nem quando erro, ou me comprometo: o poeta que improvisou a décima foi uma mulher de mantilha.
— E o seu nome?...
Maria fez um movimento com o braço, e tocou no cálice encantado, que caiu sobre a mesa e quebrou-se, entornando as gotas de vinho.
— Ah! exclamou a pérfida sereia, cobrindo o rosto com as mãos mimosas, que o não podiam esconder de todo.
— O nome dessa mulher de mantilha... tornou a perguntar, alterado, Alexandre Cardoso.
— Não viu que se quebrou o copo?... respondeu Maria; agora acabou o encanto; não adivinho mais, esqueci tudo.
Uma hora depois, todos os convidados tinham-se retirado; o último, Alexandre Cardoso, teimava em demorar-se.
— Tenho sono, disse-lhe Maria; quero ficar só e dormir.
— Maria!
— Feliz no jogo, infeliz no amor...
— Não jogarei mais...
— Não me importa que jogues ou não!...
— Mas o resto desta noite?...
— Disse a palavra: é um resto... e eu rejeito o resto...
— Maria!...
— Vá sonhar com o lírio.
Alexandre Cardoso beijou a mão gelada da amante ciumenta e colérica, e retirou-se.