As Mulheres de Mantilha/XI
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| As Mulheres de Mantilha (Capítulo XI) por |
Eram seis horas da manhã, quando Maria procurou no leito o descanso e o sono; na noite que acabava de passar, sofrera muito em sua vaidade e nos seus cálculos: não amava Alexandre Cardoso, nunca se dera a ele nem por paixão, nem por capricho; mas essa mulher inconstante e louca que se reservava o direito de atraiçoar seus amantes e de mudar de amantes, sempre e logo que isso lhe aprazia, não tolerava o ser deixada, e menos que por outra algum amante quebrasse suas cadeias; então a ciumenta elevava-se a inimiga terrível que não poupava, nem escolhia generosa os meios e a natureza da vingança.
Alexandre Cardoso não só começava a mostrar-se menos cativo dos encantos de Maria, como não fazia mistério da sua paixão por Inês, chegando a declarar-se no círculo de seus amigos disposto a tomá-la por esposa.
Maria estava habituada a perdoar a Alexandre seus deboches, suas seduções imorais, seus crimes de concupiscência malvada; mas o desprezo que a ameaçava, e a hipótese do casamento com Inês eram o primeiro um ultraje à sua vaidade de formosa, e também e ainda mais com o segundo a ruína da sua influência que ela sabia fazer valer.
A amante do conde de Bobadela provara por vezes a importância do patronato exercido pelo domínio do coração daquele que governa: Gomes Freire nunca escravizara com escândalo o governador à amante, sempre porém que o pôde fazer sem desar público, servira-lhe aos empenhos.
O oficial-de-sala do conde da Cunha, perdido de paixão durante muito tempo e até 1765 pela encantadora e voluptuosa moça, obedecia cego aos seus desejos e preceitos, e Maria dispunha de empregos e de favores, governando o governo pelo poder de sua beleza e pela magia das suas graças o ter que fascinavam Alexandre Cardoso.
O amor que a inocente Inês sem pensar e sem querer inspirava ao oficial-de-sala do vice-rei, viera dar a Maria a certeza do que ela já pressentira no arrefecimento da paixão de Alexandre, isto é, o próximo termo do seu reinado no coração do poderoso secretário do governo da colônia.
Esta convicção encheu de cólera e de ódio a alma da soberba e ambiciosa Maria, que jurando a si vingar-se de Alexandre Cardoso, destruindo os fundamentos da sua influência oficial que em breve não mais a ela poderia aproveitar, abafou seus furores, e fingindo-se ora ciumenta, ora terna e apaixonada, e retendo ainda com prodígios de lascivos laços o amante arrefecido e infiel, cercou-o de espionagem segura e vigilante que ela sabia alimentar, pagando-a a preço de ouro e de favores de natureza diversa.
Às onze horas da manhã Maria saltou do leito, como arrependida de haver dormido tanto; após demorado e perfumado banho, entregou-se ainda mais aos próprios cuidados, do que aos de duas habilíssimas escravas, que por acordo com o espelho lisonjeavam à porfia a formosa moça, que à uma hora da tarde achando-se primorosamente vestida, toucada e fresca, e bela como a aurora, que ela tinha saudado antes de dormir, foi sentar-se na sala, tendo aí mesmo tomado por almoço meia chávena de chocolate.
— O jantar?... perguntou ela.
— Está pronto.
— Às duas horas precisas deve estar na mesa.
As escravas retiraram-se.
Maria esperava sem dúvida alguém. Meia hora depois entrou na sala o tenente Gonçalo Pereira, aquele mesmo que na ceia da precedente madrugada fora objeto das zombarias e do ridículo dardejado pela formosa moça pelos abraços dados à velha de mantilha na Ladeira de Santo Antônio.
Gonçalo Pereira era um elegante oficial português desde dez anos mandado para o Brasil com o posto de alferes e incorporado ao regimento novo, entre este e o regimento velho havia ciúmes e pontos de vaidoso antagonismo, que cada vez mais acesos e irritados, contudo se concentraram temerosos pela elevação de Alexandre Cardoso, tenente-coronel do regimento velho, a oficial-de-sala do vice-rei conde da Cunha.
Os oficiais do regimento novo queixavam-se de que os do outro por mais protegidos os preteriam na escala dos postos, o que foi sempre e é motivo de grande desgosto no exército; Gonçalo Pereira, apesar de exato e ativo no cumprimento de seus deveres militares, e de ser muito mais instruído do que o eram então em geral os oficiais das tropas portuguesas, conseguira em dez anos apenas passar de alferes a tenente; no regimento novo todos o apresentavam como exemplo de injustas preterições; entretanto o tenente não se queixava, e o que mais é, alegre e folgazão, devoto do belo sexo, e dos prazeres da mesa, do amor e do jogo, era o mais infalível companheiro, desde alguns meses ao menos do chefe das orgias famosas, de Alexandre Cardoso, a quem antes o supunham justificavelmente adverso.
No regimento novo todos lamentavam a indigna e aduladora ligação de Gonçalo Pereira com o comandante do regimento velho, e nenhum tinha adivinhado que ele era o mísero escravo do amor mais ardente a que até então rendera cultos, ajoelhando aos pés da falsa amante de Alexandre Cardoso.
Em 1765 as primeiras relações de fácil intimidade de Gonçalo Pereira com Alexandre Cardoso marcaram a época das primeiras e misteriosas relações do tenente do regimento novo com a amante do chefe do regimento velho.
Maria, vendo entrar o elegante oficial, correu para ele, exclamando:
— Tardavas-me!
Gonçalo Pereira recebeu-a nos braços e com fervor que aliás não encontrou resistência, beijou-a duas vezes nos lábios.
Sentaram-se ao lado um do outro com as mãos dadas, e com os olhos a gozarem-se.
— Tardavas-me, repetiu Maria.
— Cheguei meia hora antes do prazo marcado...
— Eu te esperava há uma hora.
— Obrigado! disse Gonçalo, beijando-a outra vez.
— Conversemos. .. tornou Maria, procurando esquivar-se às carícias do amante amado.
— Sobra-nos tempo, respondeu o oficial, insistindo.
A bela moça recuou, ameaçou Gonçalo com o leque, e fugiu a rir-se pela sala, enquanto ele a perseguia, rindo-se também.
Como duas crianças, uma corria, outro cercava, correndo também: Maria ligeira e viva escapava rodeando o cravo e as cadeiras; mas por fim, deixando-se enganar ou enganada pelo falso ataque simulado por um lado, foi pelo outro cair nos braços de Gonçalo Pereira, soltando um fraco grito evidentemente de alegria menos pudica.