As Mulheres de Mantilha/XIII

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XIII)
por Joaquim Manuel de Macedo
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No principio do mês de fevereiro, uma série de resoluções tomadas pelo conde da Cunha, algumas das quais inspiradas pelo oficial-de-sala, que com a sua enérgica atividade ia pô-las em execução, encheu de cuidados a capitania e especialmente a cidade do Rio de Janeiro.

Foi ordenado o alistamento dos habitantes da capitania para organização de quatro novos terços de infantaria auxiliar, milícia ainda mais opressora do que o é a própria guarda nacional dos nossos dias.

Determinou-se e abriu-se recrutamento geral para companhias de cavalaria ligeira da guarda do vice-rei.

Deu-se começo às obras de uma grande casa para recolher o parque da artilharia, e estabelecer aí fábricas e oficinas respectivas, e de um quartel para a cavalaria na Ponta da Misericórdia.

E enfim, retiraram-se da comunicação da cidade os míseros afetados de morféia, que foram reunidos na antiga casa dos Jesuítas, em São Cristóvão, mandando-se preparar ali um hospital suficiente, sendo em favor deste caridoso estabelecimento lançado sobre a cidade um imposto anual de 480 réis por casa de sobrado e 240 réis por casa térrea.

Apesar do tributo, a providência relativa aos morféticos agradou à população; mas as obras do hospital, e ainda os militares da Ponta da Misericórdia, anunciaram novos vexames e violências, como o alistamento e o recrutamento levaram o susto e o terror aos moços de todas as paróquias da capitania, onde os capitães-mores e seus delegados eram déspotas impiedosos.

O oficial-de-sala sabia, por experiência, os lucros que lhe trariam o recrutamento com as dispensas, os novos terços de infantaria auxiliar, com as nomeações de mestres de campo, de sargentos-mores e de outros postos, e as obras com a modificação e a eximição de custosas imposições.

Toda a cidade se preocupava, alterada e temerosa, dos vexames que acompanhavam semelhantes medidas.

Nos governos absolutos e opressores o desgosto público, a quem falta a válvula da imprensa, antes de chegar a revolta, manifesta-se nas zombarias e nos insultos do pasquim, e nos versos e cantigas, de que não se conhece o autor, e se espalham e se decoram, e se repetem, a despeito da autoridade.

No domingo do entrudo, amanheceram nas portas da casa da Câmara Municipal, da Misericórdia, do Convento do Carmo, e em vinte outros, pasquins injuriosos, que antes de arrancados e despedaçados, foram lidos e tomados de cor, passando a correr em cópias confidenciais pela cidade. Um deles dizia assim:

O vice-rei os leprosos
Da cidade desterrou;
Mas a lepra mais horrível
Na cidade conservou!

Se a morféia o apavora,
E quer de nós afastá-la,
Vá o vice-rei embora
Com o oficial-de-sala.

Outro era o seguinte:

A nau Sebastião está no estaleiro,
Há obras novas e recrutamento,
Para terços geral alistamento,
Povo a servir governo caloteiro;
A explicação quereis?...
Vós todos o sabeis:
Alexandre Cardoso quer dinheiro.

Eis ainda outro:

Senhor conde da Cunha,
De vós muito se fala;
Tem brio?... corte a unha
Do oficial-de-sala.

Como estes, muitos outros pasquins que não chegaram até nós.

O furor de Alexandre Cardoso, que espalhou soldados e espiões pela cidade toda, a cólera do vice-rei, que mandou proibir o entrudo, as prisões dos rapazes que andavam com seringas e tintas, molhando-se e pintando-se uns aos outros, os gritos das negras, que em tabuleiros vendiam os famosos limões-de-cheiro, isto é, pequenos globos com paredes finas de cera e cheios de água cheirosa, os quais foram esmagados nos tabuleiros pelas patrulhas rondante, a privação de um divertimento, rude e perigoso sem dúvida, mas arraigado aos costumes do povo, o pesar das moças e dos mancebos, que adoravam o entrudo por mil razões injustificadíssimas, derramaram a tristeza e quase a consternação na cidade.

As casas se fecharam e em cada família falava-se em voz baixa e temerosa da ousadia dos pasquineiros e da reação excessiva do governo.