As Mulheres de Mantilha/XXVIII

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XXVIII)
por Joaquim Manuel de Macedo
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O conde da Cunha estava na verdade penhorado pela recepção que tivera na visita a Jerônimo, o conserto do caminho, o recebimento pelas senhoras no terreiro, a oração religiosa no oratório brilhantemente ornado e iluminado, a riqueza do banquete, a alforria dos dois escravos que o serviram à mesa, a dança e o canto das meninas, e tudo isso combinado e realizado em cinco horas, tinham sido trabalhos e festas de improviso, e de cortesia delicada, que obrigam a gratidão.

Mas fazendo promessas de obséquios e de graças na mesma ocasião e com evidente falta de bom e melindroso gosto, o vice-rei talvez tivesse a idéia de dominar pela vaidade e pela ambição de distinções os sentimentos e a vontade do austero e teimoso velho português.

— Senhor Jerônimo, disse ele; desde que me fiz seu hóspede, conheci-me seu amigo.

— Eis ai a minha ufania, e o meu maior galardão, senhor vice-rei

— Pois bem; falemos, conversemos, como amigos que somos devemos ser, e vamos direto à questão de que desejo ocupá-lo.

Jerônimo esperou silencioso que o vice-rei anunciasse a questão.

— Que juízo faz do meu ajudante oficial-de-sala?

— O pior possível, respondeu com segurança o velho negociante.

— Por quê?

— Eu já tive a honra de dizer ao senhor Vice-Rei, que em caso algum me farei denunciante.

— Aqui não está o vice-rei, está o amigo que interroga o amigo para oferecer-lhe ou não oferecer-lhe uma proposição importante.

Jerônimo adivinhou o pensamento e o empenho do conde da Cunha, e disse com ampla franqueza:

— O dia mais glorioso da minha vida vai acabar desconsolado e triste; porque o senhor vice-rei veio distinguir-me altamente com a honra da sua visita para dar-me uma ordem a que não poderei obedecer.

— Então...

— Senhor, eu sou como pai responsável a Deus pelo futuro e pela felicidade de minhas filhas, e em nome de Deus jamais convirei em que alguma delas seja esposa do tenente-coronel Alexandre Cardoso.

— Entretanto ele é cavaleiro nobre.

— Não é porém nobre cavaleiro.

— Ainda!...

— E sempre, senhor vice-rei: pelo chefe supremo da sala respeito quanto devo e posso ao seu ajudante oficial; mas a consciência e o amor paternal não me permitem fazer de Alexandre Cardoso marido de minha filha.

— E se eu respondesse por ele?.

— Oh! Com todo o respeito digo que o senhor vice-rei já responde demasiado por ele no governo da colônia: é um vassalo fiel de el-rei nosso senhor que fala assim; agora o que como pai sei e posso dizer, é que esse homem jogador frenético, libertino sem freio, sedutor que tem feito a vergonha e o infortúnio de não poucas famílias, não está no caso de merecer a minha confiança.

— É então inexorável com um jovem fidalgo, que apenas tem exagerado mais do que devia os defeitos próprios da sua idade?

Jerônimo Lírio respondeu sem mudar de tom.

— Sei bem que não passo de humilde peão de baixa classe; pela minha honra porém declaro que me senti ultrajado, quando senti que esse fidalgo ousava levantar os olhos para minha família.

O vice-rei tinha feito voto de paciência, e via bem que tratava com um português velho e cabeçudo; insistiu pois, dizendo:

— Mas, levantando os olhos para sua família, Alexandre Cardoso o fez com as mais puras intenções, e a prova é que o fim desta conversação confidencial foi ainda há pouco adivinhado. Vim pedir-lhe, e peço-lhe a mão de sua filha Inês para o meu.

— Ah, senhor vice-rei!... perdão!... exclamou Jerônimo.

— Suas prevenções contra Alexandre Cardoso o tornam injusto: ele joga, mas deixará de jogar; tem freqüentado demais a casa de uma cortesã lamentavelmente célebre: não continuará porém a fazê-lo. Eis aí os graves senões, as tristes desculpas que com verdade se atribuem ao meu ajudante oficial-de-sala; eu as condeno; mas vão lá achar um santo entre mancebos e principalmente entre os dos regimentos velho e novo! São os erros repreensíveis; todavia desde que são corrigidos, esses erros não desonram o futuro, porque não perpetuam a desonra, ou antes as nódoas do passado.

Jerônimo não respondeu, e o conde prosseguiu:

— Fora disso, bem sei, amontoam-se ainda tremendas acusações, a décima parte das quais bastaria para levar Alexandre Cardoso à forca: a sedução de donzelas, as extorsões e as violências em nome do governo, o peculato, formariam a lista dos seus crimes; donde porém as provas?

— As provas, senhor vice-rei... as provas?

— Acabe... sei que não tem intenção de ofender-me...

— As provas... o senhor vice-rei deve procurá-las.

— O vice-rei tem recebido cem cartas anônimas, como as que se escrevem contra o conde de Bobadela; o povo desta capitania foi sempre mais ou menos altaneiro, e sofre de má vontade e morde o freio do governo; daí mil calúnias arrojadas para tormento e descrédito daqueles que governam, e a pior é que os próprios homens de bem, como o negociante Jerônimo Lírio, acabam por acreditar nos aleives multiplicados e repetidos.

— E porque o senhor vice-rei duvida sempre, o povo é vítima do ajudante oficial-de-sala.

— Um fato com a prova...

— Senhor, eu cuido só da minha vida, e nunca pensei em recolher provas dos atentados e dos abusos do tenente-coronel Alexandre Cardoso.

— Eis aí!...

Jerônimo Lírio cruzou os braços e disse:

— O senhor vice-rei me fez a honra de dizer há pouco: "conversemos como dois amigos que somos"; se pois mereço o nome de amigo, assiste-me o direito de falar franco.

— Sem dúvida.

— O senhor vice-rei deve vigiar melhor o seu ajudante oficial-de-sala.

O conde da Cunha turbou-se.

— Vossa excelência tem confiado nele além dos limites da prudência...

O vice-rei encrespou as sobrancelhas.

— Perdão, senhor; é o amigo que fala.

— Tem razão, disse o conde, serenando: continue.

— Se o senhor vice-rei, sem desconfiar do seu ajudante oficial de sala, mas também não confiando demasiado nele, ouvir com paciência os queixosos, e por si aprofundar o estudo dos fatos de que se fazem pontos de acusação, não precisará pedir provas dos crimes de Alexandre Cardoso, a pessoa alguma, e reconhecerá que ele tem sido fatal ao seu governo.

— Senhor Jerônimo Lírio, pela segunda vez e agora ainda mais clara e positivamente acaba de dirigir-me grave censura.

Jerônimo curvou-se e não se desculpou.

— Insiste no que disse? perguntou o conde.

— Insisto, senhor vice-rei, e digo mais; ousei e ouso desobedecer a v. exª, não concedendo a mão de minha filha Inês ao ajudante oficial-de-sala de v. exª.

O conde fez um movimento de despeito.

Jerônimo continuou:

— Mas se o senhor vice-rei quiser vigiar mais cautelosa e atentamente o seu secretário, e no fim de dois meses não se achar convencido das minhas respeitosas prevenções de amigo, comprometo-me a aprovar e a realizar o casamento de minha filha com o tenente-coronel Alexandre Cardoso.

O rosto do conde expandiu-se.

— Senhor Jerônimo Lírio, disse ele; aceito o compromisso e farei o que me aconselha; tenho nisso maior interesse; pois queria condição que me oferece, compreendo a profundeza das suas convicções contrárias ao meu secretário do governo, e a grandeza da sua amizade à minha pessoa.

E dando a mão a Jerônimo, acrescentou:

— Retiro-me, levando a segurança da sua palavra.

— Eu, senhor vice-rei, fico tranqüilo com a certeza de que o casamento não se realizará.

O conde da Cunha que havia já dado alguns passos, voltou-se e ainda ajuntou:

— Não preciso recomendar-lhe segredo sobre o seu compromisso condicional: quero que todos absolutamente o ignorem; é matéria de que nem nós mesmos teremos de falar até o prazo de dois meses; direi a Alexandre Cardoso que não pude vencer a sua oposição ao casamento de sua filha com ele.

Jerônimo acompanhou o vice-rei, e no terreiro recebeu a última despedida, e não se esqueceu de segurar no estribo, quando o conde montou a cavalo.

O vice-rei partiu; quatro pajens de Jerônimo, levando lanternas, galopavam adiante, esclarecendo o caminho.

Eram dez horas da noite, quando o conde da Cunha apeou-se à porta principal da casa dos vice-reis, que aliás ainda não se chamava e só para clareza chamamos palácio.