O Sertanejo/I/III

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O Sertanejo (Primeira Parte, Capítulo III: Chegada)
por José de Alencar
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Quando o capitão-mór reconheceu os primeiros sinais do incêndio, preveniu a gente de sua escolta.

— Queimada, Agrela? disse êle surpreso. Neste tempo e nestas paragens, não pode ser.

— É que vem de longe, observou o tenente fincando as esporas no cavalo. Toca avante a escolta.

O trôço de cavaleiros disparou com a machada em punho, desbastando o mato de uma e outra banda para formar um largo aceiro que impedisse o fogo do propagar-se pela floresta.

Enquanto êles abatiam as maravalhas e ramadas altas que facilmente concebiam a chama e a comunicavam, os peões, chamados a tempo, arredavam para longe todo êsse chamiço, isolando os grossos troncos, que se não podiam facilmente derrubar na ocasião.

No meio dessa faina que o capitão-mór dirigia em pessoa e animava com a palavra e o exemplo, soou um grito de aflição. Partira de D. Genoveva, a quem de repente acudiu a idéia do perigo que podia correr a donzela nesse instante, se é que já não fôra vítima da horrível catástrofe.

— Minha filha!... Flor!... bradava a desolada mãe.

E ora queria atravessar por dentro da mata abrasada, levada pelo desespêro à busca da menina; ora voltava-se para o marido com as mãos postas, suplicando-lhe que a amparasse naquela ânsia.

Rápida contração frisou o rosto grave e plácido do capitão-mór, que logo dominou-se. Podia medir-se a energia que recalcou a primeira impulsão, pela fôrça com que o velho se firmou na sela, vergando ao seu pêso o espinhaço da cavalgadura à feição de um arco.

— Não se assuste, D. Genoveva! disse com voz sossegada. Nossa filha não corre perigo.

— De-certo, acudiu Agrela; a doninha passou antes que o fogo chegasse ao caminho, senão teria voltado.

— Esteja descansada, minha mulher. D. Flor já chegou à nossa casa, observou o capitão-mór e tomou ao serviço: Aguenta, rapazes!

— Quem sabe, sr. Campelo; Flor é tão animosa! Talvez teimasse em passar para mostrar que não tem mêdo.

— Mas, senhora dona, insistiu o Agrela, se tivesse acontecido alguma coisa, do que Deus nos livre e guarde...

— Amém! disse a dama.

O capitão-mór tirou o chapéu, gesto que toda a escolta imitou.

— Por fôrça que se havia de ouvir!

— Com êsse barulho do fogo, que parece uma trovoada!...

— Lá o grito da doninha, não digo nada, mas o rincho do cavalo chega longe; e então quando o fogo começasse a chamuscar-lhe a pele!

— Convença-se do que lhe digo, senhora, acrescentou o capitão-mór.

— A prova aí está! Não ouve, senhora dona? Um cavalo que está rinchando lá em casa?

— É verdade! exclamou D. Genoveva.

Agrela aplicou o ouvido.

— E não é outro senão o baio!

— Está vendo, D. Genoveva?

A inquietação da mãe abrandou um tanto, mas não serenou de todo. Nessas ocasiões, quando um grande susto abala profundamente o coração, deixa uma incredulidade, que se não desvanece com palavras e muitas vezes resiste à própria realidade.

É só depois que ao coração, como ao lago revôlto pela tempestade, volta a bonança, que êle recobra sua limpidez, na qual espelha as celestes esperanças.

— Enquanto meus olhos não virem Flor, eu não fico sossegada, sr. Campelo.

O capitão-mór voltou-se para Agrela. Minha senhora dona já pode passar, disse o tenente. Olá, o Xavier e o Benteví!

— Pronto! disseram dois sequazes acudindo à ordem do cabo.

— Ordena o sr. capitão-mór que acompanhem à casa a sra. D. Genoveva? perguntou Agrela.

— Ordenamos!

— Até logo, sr. Campelo. Não se demore; já basta de aflições.

O capitão-mór fez à mulher uma respeitosa cortesia, e enquanto ela se encaminhava à fazenda, tomou ao serviço que sua gente empreendera para atalhar o incêndio e salvar as matas vizinhas, ameaçadas de ficarem reduzidas a cinzas.

O trabalho avançara rapidamente a ponto de poder D. Genoveva atravessar para o outro lado sem necessidade de fazer grande volta. O aceiro aberto na direção da fazenda tinha cortado a tromba do incêndio que o vento impelia naquele rumo, de modo que não foi difícil ilhá-lo nessa porção de terreno já devastada, onde brevemente, consumido pela chama todo o combustível, começou a apagar-se, ficando apenas o brasido.

Todavia, não era prudente abandonar êsse imenso borralho, donde o vento a cada instante levantava enxames de fagulhas, que inflamavam-se no ar e podiam atear novamente o fogo no mato cheio de gravetos e chamiços.

Agrela não descansou enquanto não extinguiu de todo o fogo na largura de umas dez braças, e ainda assim postou de espaço a espaço vigias que aí deviam ficar durante a noite, para dar aviso de qualquer acidente, quando por si não o pudessem remediar.

Durante essa arriscada e árdua tarefa, a gente da escolta e do comboio não deixava de torcer-se com a impaciência de Agrela, mas alí estava o capitão-mór que não somente não se poupava para dar o exemplo, como não duvidaria esborrachar com um murro a cabeça do primeiro que respingasse contra o seu tenente.

Com pouco apareceu o refôrço da gente da fazenda, que avisada pela chegada de D. Genoveva, corria em socorro e deu a última demão ao serviço.

— Podemos seguir, sr. capitão-mór, se V. S. não manda o contrário.

— Vamos!

Só então o capitão-mór Campelo resolveu-se a deixar aqueles sítios para dirigir-se à sua casa da qual se achava ausente havia meses, e a que tão a propósito voltara para salvá-la da ruína de que não escaparia com certeza, se o fogo continuasse com a violência em que ia.

Entretanto havia chegado D. Genoveva ao terreiro, onde a aguardava novo susto.

Toda a gente da casa, agregados e servos, apinhada no meio do pátio, em frente ao caminho, esperava ansiosa que aparecesse a cavalgada para recebê-la com as alvíçaras, toques e aclamações de prazer, que eram de uso em tais ocasiões.

D. Genoveva, apenas entrou no terreiro, sem atender às festas com que a saudavam, foi em altas vozes perguntando pela filha às primeiras pessoas que lhe saíam ao encontro.

— Flor?... onde está Flor!...

Esta pergunta instante deixou a todos surpresos. Não podiam compreender como a dona lhes pedia novas de uma pessoa, que devia estar a essa hora em sua companhia e chegar juntamente com ela e o marido.

A hesitação que se pintava em todos os semblantes, o espanto que já assomava nos gestos de alguns, lançou outra vez a mãe extremosa na mesma, senão mais cruel aflição.

— Minha filha!... gritou com um clamor de angústia. Não viram minha filha?... Ela não chegou?... Então, meu Deus, está morta! O fogo a queimou!...

A dama se arremessara da sela ao chão, e estorcendo os braços convulsos, arrancava os cabelos que se desgrenhavam revoltos pelas espáduas.

Nem uma das mulheres presentes, crias de sua casa e fâmulas, se animava a consolar a dôr suprema da mãe, que perdera a filha. Limitavam-se a acompanhá-la com o pranto e a velar sôbre ela, para ampará-la, se afinal desfalecesse com o atroz suplício.

Foi o capelão, o padre Teles, quem no exercício do santo ministério dirigiu palavras de confôrto à mãe aflita.

— Lembre-se a dona que mais sofreu a mãe de Cristo, vendo seu filho não só morto e crucificado, mas coberto de baldões. E ela bebeu resignada êsse cálice de amargura!...

Mas outro grito soou aí perto, que a todos estremeceu:

— Minha mãe!

Na janela da casa assomara o vulto de D. Flor, que também inquieta pela sorte dos pais a quem estremecia, soltava uma exclamação de desafôgo, avistando sua mãe.

D. Genoveva caiu de joelhos, dando graças a Deus que lhe restituia a filha; e quando ergueu-se foi para estreitar ao peito a donzela que se lançara em seus braços.

— E meu pai? interrogou a menina assustada.

— Não lhe aconteceu nada; sossega; ficou atrás para apagar o fogo; eu é que não podia descansar enquanto não te visse perto de mim, livre do perigo... Que desespêro, quando cheguei, e ninguém sabia de ti! Como não morrí, meu Deus!

— Já passou! murmurava D. Flor. Agora sossegue, que aqui está sua filha querida.

— Sim, sim; parece-me que ainda mais te quero depois que te chorei perdida.

A êsse tempo já toda a gente de serviço corria para o lugar do fogo.

Entre as mulheres que cercavam a dama e sua filha, nem uma tomara maior parte nas aflições, como nas alegrias maternais, do que uma sertaneja alta e robusta sem corpulência, que mostrava no semblante rude, porém amorável, uma franqueza de cativar.

Era essa a Justa, a ama de D. Flor, cujo amor pela menina às vezes causava ciúmes a D. Genoveva, tamanha era a devoção da carinhosa aldeã por sua filha de criação.

Apenas se desprendeu dos braços de sua mãe, D. Flor se atirou com efusão à Justa, que esperava essa carícia, como seu foro e juro de segunda mãe. A alentada sertaneja não se contentou com qualquer afago dos que se costumam fazer às moças; tomou a menina ao colo, e conchegando-a a si como fazia outrora quando a trazia aos peitos, comeu-a de beijos desde as macias tranças dos cabelos até à ponta dos pequeninos pés, calçados de coturnos de setim escarlate.

— Olhem só, gentes!... como veio bonita!... Está-se rindo, hein!... Teve saudades de sua mamãe?... Teve!... Teve?... Não havia de ter!... Por que não voltou logo?... A gente tanto tempo aqui penando!... Pois agora há de pagar! Tome! Um, dois, três... cem!... Ah! cuida que não me hei de desforrar?

Tudo isto interrompido por mil carinhos e entremeado dessa ingênua garrulice com que as mães falam aos filhinhos de colo, e que êles parecem entender: misteriosa linguagem do mais sublime afeto, formada de arrulhos, de carícias e de ternos balbucios.

D. Flor deixava-se acariciar; e cheia de risos, mostrava no semblante o contentamento que sentia banhando-se nessas efusões de amor.

— Então lembrou-se muito de mim, mamãe Justa? disse D. Flor.

— Nem se fala, gente!

A donzela pôde enfim receber as festas das companheiras da Justa. Com todas mostrou-se afetuosa, porém mais especialmente com uma moça que no seu tímido receio não ousava aproximar-se.

— Adeus, Alina, vem abraçar-me.

Entraram afinal as duas senhoras na sala principal.

— Ainda não me disseste, Flor! tomou D. Genoveva, sentando-se no sofá e chegando a filha para junto de si, como que ainda receosa de que lha arrebatassem. O fogo assustou-te muito, ou não havia nada quando passaste?

— Pensei morrer! exclamou D. Flor erriçando-se à lembrança do transe horrível que passara. Está bom; não fique outra vez aflita! Para que falar mais destas coisas?

— Não; conta, Flor!

— Foi um milagre. O baio espantadiço empacou; a princípio não sabia o que era; quando descobrí o fogo, quis voltar. Estava cercada; via as labaredas correrem para mim, e pareciam-me estarem folgando e rindo do mêdo que me causavam. Mas a fumaça de repente sufocou-me, e não soube mais de mim!... Vi que era chegada a minha última hora e encomendei-me a Deus.

— Jesús! pôde afinal proferir D. Genoveva em quem se repetia a ânsia já passada da filha. E como escapaste, Flor?

— Não sei, minha mãe; respondeu a menina ingenuamente. Disse-lhe já que foi um milagre; não pode ser outra coisa. Nossa Senhora quis valer-me!

— Pois foi mesmo Nossa Senhora da Penha de França! afirmou a Justa, que ouvia de pé. E porisso há de ter a sua novena de arrôjo êste ano, que foi a minha promessa, se trouxesse a minha filha e todos a salvamento.

— Obrigada, mamãe!

— Mas, Flor, como chegaste à casa sem que te acontecesse nada?

— Não posso lembrar-me! respondeu a menina pensativa e evocando do íntimo as vagas impressões que lhe flutuavam no espírito. Desde que a fumaça cobriu-me toda, como se fosse a minha mortalha, não vi mais nada; sé dei acôrdo de mim aqui, neste canapé!...

— Neste canapé ! exclamou D. Genoveva atônita.

— E deitada, como se tivesse dormindo.

— Foi a minha Senhora da Penha, que a trouxe nos braços. Porisso ninguém viu quando chegou.

— É verdade! exclamaram outras vozes de mulher.

— Eu tinha acordado; não sabia onde estava, nem tinha idéia de quê me acontecera. Erguí-me e começava a reconhecer a casa, quando ouví gritos no terreiro; corrí à janela e dei com minha mãe.

A moça proferindo estas últimas palavras lançou os braços ao pescoço da mão, e ambas ficaram enlaçadas naquela ardente efusão com que novamente se restituiam uma à outra.

A maneira por que a donzela fôra salva do incêndio, ficou sendo um mistério. A maior parte da gente da fazenda atribuiu o caso à intervenção divina, e acreditava que Nossa Senhora da Penha fizera um milagre em favor da menina e pela intercessão da Justa. Outras, sem afirmar, supunham que a menina, trazida a casa pela disparada do cavalo, que se encontrou atado ao pilar da varanda, apeara-se fora de si e caíra desmaiada de susto no sofá, não se recordando dessas circunstâncias pelo abalo que sofrera.

Quanto a D. Flor, cogitando depois sôbre o acontecimento que ameaçara a sua existência, recordava-se de um grito que ouvira ao perder os sentidos e de um vulto que surgira de repente a seus olhos já anuviados pelas sombras da morte.

Mas essa impressão que ao despertar exalava-se em um nome murmurado à flor dos lábios, seria a fugaz reminiscência deixada por confusa realidade, ou ilusão apenas da fantasia turbada pela vertigem?