O Sertanejo/I/X

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O Sertanejo (Primeira Parte, Capítulo X: O rosário)
por José de Alencar
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Era por formosa manhã de dezembro, a terceira que raiava depois da chegada do fazendeiro à sua casa da Oiticica.

Assomando sôbre o capitel da floresta erguida no oriente como o pórtico do deserto, o sol coroado da magnificência tropical dardejava o olhar brilhante e majestoso pela terra, que se toucara de toda a sua louçania para receber no tálamo da criação ao rei da luz.

Na umbria da serra e da espêssa mata que a cinge, a fazenda ainda permanece no crepúsculo da alvoroçada, quando já o dia fulgura pelas várzeas e campinas dalém.

Mas ao fluxo da luz, que sobe e a inunda como a corrente de um rio caudal, aquela zona ensombrada vai rapidamente imergindo-se nos esplendores da aurora.

Com a irradiação da manhã derrama-se a aura que anima a solidão. Dessa terra combusta por longo e abrasado estio, já reçumam os viços que anunciam a poderosa expansão de sua fecundidade.

Na noite seguinte à chegada, como previra Arnaldo, tinha caído a primeira chuva. Desde então, com pequenos intervalos, passavam os aguaeiros do natal que são os repiquetes do inverno.

Embora falhem muitas vezes essas promessas, o sertanejo, como os animais e toda a natureza que o cerca, recebe sempre com intenso prazer as alvíçaras de bom ano.

A primavera do Brasil, desconhecida na maior parte do seu território, cuja natureza nunca em estação alguma do ano despe a verde túnica, só existe nessas regiões, onde a vegetação dorme como nos climas da zona fria. Lá a hibernação do gêlo; no sertão a estuação do sol.

A primeira gota d’água que cai das sempre virgem e sempre mãe.

Nunca vi o despertar da natureza depois da hibernação. Não creio, porém, que seja mais encantador e para admirar-se do que a primavera do sertão. Aquí a transição se opera com tal energia que assemelhava-se de certo modo à mutação.

Aquela várzea que ontem ao escurecer afigurava-se aos vossos olhos o leito nu, pulverento e negro de um vasto incêndio, bastou o borraeiro da noite antecedente para cobrí-la esta manhã da virescência sutil, que já veste a campina como uma gaze de esmeralda.

Não há em cada uma das raízes do capim sêco e triturado mais do que um brôto imperceptível; porém rebentam os gomos com tanto luxo e abundância que, à guisa dos tênues liços de uma teia cambiante, formam êsse gaio matiz da primavera.

Aquela árvore também que ainda ontem parecia um tronco morto já tem um aspecto vivaz. Pelos gravetos secos pulula a seiva fecunda a borbulhar nos renovos para amanhã desabrochar em rama frondosa.

Que prodígios ostenta a fôrça criadora desta terra depois de sua longa incubação! Dela pode se dizer sem tropo que vê-se rebentar do solo o grêlo e crescer, assistindo-se ao trabalho da germinação como a um processo da indústria humana.

Nas abas da serra onde as árvores tinham conservado a verdura, sentia-se passar pela floresta um estremecimento como de prazer. A brisa da manhã enredando-se pela ramagem rociada não mais arranca os murmúrios plangentes da mata crestada. Agora o crepitar das fôlhas é doce e argentino, como um harpejo sorridente.

Não eram somente as matas, os silvaçais e as várzeas que se arreavam com as primeiras galas do inverno. O espaço, até ali mudo e ermo na limpidez de seu azul diáfano, começava por igual a povoar-se dos pássaros, que durante a sêca se refugiam nas serras e emigram para climas amenos.

Já se ouviam grazinar as maracanãs entre os leques sussurrantes da carnaúba e repercutirem os gritos compassados do cancã, saltando pela relva. O primeiro casal de marrecas, naquele instante chegado das margens de Parnaguá, a centenas de léguas, banhava-se nas águas de um alagado produzido pela chuva.

D. Flor, retida em casa no primeiro dia pela fadiga da jornada e no segundo pelos chuvisqueiros que tinham encharcado o terreiro, aproveitou a bonita manhã para rever os sítios da infância depois de longa ausência.

Neste momento desce esquiva e ligeira os degraus da varanda e desaparece por entre o arvoredo do pomar, volvendo um olhar na direção da casa, para certificar-se que não se apercebiam de sua ausência.

Não entrava nesse cuidado da donzela o receio de uma falta. A ingênua altivez de sua índole não a deixaria nunca praticar ato que ela julgasse repreensível, nem recorrer a disfarces para esconder suas intenções.

O que a fizera esgueirar-se pelo quintal não passava de uma fantasia de moça. Quando saía a passear pela fazenda era costume abalar-se meia casa para ter o contentamento e a fortuna de acompanhar a doninha.

Não havia agregada ou escrava que não disputasse a honra de abrir-lhe o caminho, levá-la à sua palhoça, para oferecer-lhe o presente que lá tinha guardado. As mais moças brigavam a quem lhe daria a fruta mais bonita ou lhe descobriria o ninho de beijaflor. Depois vinham as crias que também porfiavam nas cabriolas e algazarras com que festejassem a marcha triunfal.

Em outras ocasiões D. Flor deleitava-se no meio dessa procissão, que lhe formava uma côrte de princesa daqueles sítios; nessa manhã desejou passear só, talvez que para estar mais presente nos sítios queridos que ia percorrer, e dos quais andara separada tantos meses.

Trajava a donzela um roupão de sarja, guarnecido de fraldelim pardo, que debuxava a galba palpitante de seu talhe gracioso. A fímbria ao de leve arregaçada por causa da orvalhada, mostrava o pé de menina calçado por um borzeguim preto com o salto escarlate.

Trazia, ainda na mão, uma capelina de soprilho com rocais da mesma fazenda e franjas de alvas rendas de Guimarães. Logo que chegou ao quintal cingiu a cabeça com êsse toucado, que abrigava-lhe a cútis mimosa dos raios do sol, moldurando-lhe o rosto gentil, como uma grande magnólia silvestre de cuja corola surgisse sua beleza.

A donzela, deixando o pomar, deu volta ao redor do edifício e foi sair próxima ao casalinho da Justa, para onde se encaminhou.

A sertaneja estava neste momento sentada na soleira da porta; acabava de ordenhar suas cabras. Perto dela via-se um alguidar onde ia deitando a conta de cada uma. As chuvas das últimas noites haviam enchido as têtas, que já dificilmente apojavam com a sêca.

Quando a Justa viu a poucos passos sua filha de criação, levantou-se com ímpeto de contentamento e abriu os braços de modo a receber Flor, que lancçou-se-lhe ao colo. Para estreitá-la ao peito, a sertaneja, que não tivera tempo de se desvencilhar do tarro seguro na mão esquerda, nem de lavar a mão direita úmida de leite, cruzou os pulsos, afastando-os de modo a não tocar a menina.

Êste movimento aproximou da espádua de D. Flor o púcaro no qual a donzela, enquanto deixava-se abraçar, punha os lábios e bebia a rir uns goles de leite.Justa, a quem os brincos da filha querida faziam mais menina que ela, prestou-se à travessura e prolongou-a para gozar da ventura de conservar a moça por mais tempo abraçada.

— Que bom leite, mamãe Justa! E que saudades que eu tinha dele! O de lá é aguado, não se parece com o nosso! De qual é? Da Cambraia?

— Não, meus carinhos, é da Mochincha. A Cambraia está amojada.

Esqueceu tudo quanto tinha que fazer a boa sertaneja, no alvorôço de receber a filha. Não havia no casalinho maior festa, desde a Circuncisão até São Silvestre, do que lhe trazia D. Flor sempre que aí vinha.

A cabana constava de três peças: uma servia de varanda, outra de dormitório, a última era a cozinha. Todas as portas e janelas estavam abertas, de modo que o ar e a luz entravam francamente com a fragrância dos campos. O chão era de massapé, mas tão rijo e varrido que não se via sinal de poeira.

À exceção da cozinha, cada aposento tinha uma rede de algodão muito alva. No dormitório a rede faz as vezes de cama; na varanda faz as vezes de sofá, e é o lugar de honra que o sertanejo, fiel às tradições hospitaleiras do índio seu antepassado, oferece ao hóspede que Deus lhe envia.

O primeiro cuidado de Justa foi correr ao quarto e tirar da sua mala de couro uma rede também de algodão, porém de ramagens encarnadas, com dois palmos de renda na franja matizada. Imediatamente substituiu a outra por esta, que ela ainda não achava bem chibante para sua filha querida.

— Agora pode sentar-se, meu bem, disse a sertaneja abrindo as dobras.

D. Flor encostou-se à aba da rede, e fincando no chão a ponta do borzeguim, começou a embalar-se, enquanto a ama ia buscar tudo que tinha de melhor em casa para oferecer-lhe:

— Prove dêste queijo que está tão fresquinho! É o primeiro dêste ano. Agora com as chuvas as cabrinhas sempre deram para um coalho.

Depois do queijo fresco, que ainda estava no chincho, vieram os balaios de biscoito, as rosquinhas de carimã, flores de alfenim, em suma toda a provisão de gulosinas que a sertaneja havia feito à espera de sua filha de criação.

D. Flor beliscou em tudo como uma rôla para dar à sua mamãe, de cada coisa que provava, um novo prazer.

— Agora basta, mamãe Justa; não faça de sua filha uma gulosa que é muito feio.

— Iche!... respondeu a sertaneja com o seu muchocho especial. Em D. Flor tudo é bonito.

— Está me deitando a perder.

— Torno a dizer! O que nos outros é feio e não se atura, se meu querubim fizesse, todos haviam de ficar encantados.

— E se eu não lhe quisesse mais bem? Era bonito, diga, mamãe Justa?

— Isto não pode, ainda que queira! disse a sertaneja sorrindo.

Justa arrastara um estradinho coberto de couro e sentara-se defronte da donzela para conversar. Enquanto falava, levada pelo hábito de sua vida laboriosa, tirara um fuso da cintura, e por distração mais do que para aproveitar o tempo, começara a fiar as pastas de algodão que estavam dentro de uma cabaça suspensa à parede.

D. Flor abandonou a rede, e tirando das mãos de mamãe o fuso, acomodou-se mui sem cerimônia no colo da sertaneja, que já não cuidava em outra coisa senão em ninar o seu querubim.

— Espere, mamãe; deixe-me ver seu rosário, disse D. Flor, desatando o pequeno ramal de contas pretas que a sertaneja trazia ao pescoço.

Deitando-o no regaço de seu roupão, tirou do bolso um pequeno embrulho de tafetá, atado com um torçal de prata. Havia dentro um grande rosário, todo êle de contas de ouro, com os padre-nossos de coral e as coroas de marfim. A cruz era de azeviche com o Cristo de Jaspe.

A donzela cingiu o pescoço de sua mamãe com cinco ou seis voltas do rosário e deixou-lhe afinal pender sôbre o peito a cruz, que teve o cuidado de colocar de chapa, mostrando a imagem do Redentor.

— Aquí tem! É um rosário completo com duas coroas e mais um mistério. Assim não carece de passar duas vezes, quando rezar sua novena.

Justa não dava sinal de si. Ficara maravilhada com a riqueza e formosura daquele mimo e estava em êxtase, imóvel como uma estátua, receosa de que o seu menor gesto maculasse aquele primor.

Acabando de arranjar o rosário, afastou-se D. Flor para observar o efeito:

— Está uma dona, mamãe!

Foi então que Justa despertando correu à menina, e como costumava em seus momentos de efusão, suspendeu-a nos braços, tomando-a ao colo da mesma forma que fizera quando a trazia aos peitos, e afogando-a de beijos e carícias.

No dia seguinte ao da chegada, quando se arrumou a bagagem, tinha-se feito uma distribuição geral de presentes pela gente da fazenda. Cada uma das pessoas que ficaram havia recebido uma peça de vestuário, um traste de uso, ou qualquer outra lembrança. Os homens o receberam da mão do capitão-mór; as mulheres da mão de D. Genoveva; as moças e meninas da mão de D. Flor.

Mas a donzela, além daqueles presentes, tinha três especiais, que havia reservado para mais tarde: um era o de Alina, sua companheira de infância, outro era o da sua mãe Justa. Faltava-lhe dar o terceiro.