Paraíso Perdido/Livro I

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Paraíso Perdido por John Milton, traduzido por António José de Lima Leitão
Livro I
Proposição do assunto do poema: a desobediência do homem, resultando-lhe daqui a perda do Paraíso em que fora colocado; a Serpente, ou antes Satã dentro da Serpente, motivou esta desgraça, depois que ele, revoltando-se contra Deus, e metendo em seu partido muitas legiões de anjos, foi expulso do Céu e arrojado ao Inferno com toda essa multidão por ordem de Deus. Depois lança-se logo o poema para o meio do assunto, e mostra Satã com seus anjos dentro do Inferno, descrito não no centro da criação (porque Céu e Terra devem então supor-se ainda não feitos), mas nas trevas exteriores mais propriamente chamadas Caos. Ali Satã, boiando com seu exército num mar de fogo, crestados todos pelos raios e perdido o tino, afinal torna a si como de um letargo, chama pelo que era o seu imediato em dignidade e poder, e que ali perto jazia; conferem ambos acerca de sua miserável queda. Satã brada por todas as suas legiões que até então se conservavam na mesma confusão e letargo: levantam-se elas; mostra-se o seu número e ordem de batalha; dizem-se os nomes de seus principais chefes que correspondem aos ídolos conhecidos depois em Canaã e países adjacentes. Satã dirige-lhes a palavra, anima-os com a esperança de ainda reconquistarem o Céu, e ultimamente noticia-lhes que vão ser criados um novo mundo e nova qualidade de criaturas, atendendo a uma antiga profecia ou rumor em voga pelo Céu (pois que, segundo a opinião de muitos antigos Padres, existiam os anjos muito antes da criação visível). Para achar a verdade desta profecia e o que se há de fazer depois, ele convoca uma plena assembléia. Procedimento de seus sócios. O Pandemônio, palácio de Satã, ergue-se subitamente construído no Inferno; os pares infernais ali se assentam em conselho.

Do homem primeiro canta, empírea Musa,
A rebeldia — e o fruto, que, vedado,
Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo
A morte e todo o mal na perda do Éden,
Até que Homem maior pôde remir-nos
E a dita celestial dar-nos de novo.

Do Orebe ou do Sinai no oculto cimo
Estarás tu, que ali auxílios deste
Ao pastor que primeiro aos escolhidos
Ensinou como do confuso Caos
Se ergueram no princípio o Céu e a Terra?
Ou mais te agrada Sião e a clara Síloe
Que mana ao pé do oráculo do Eterno?
Lá donde estás, invoco o teu socorro
Para este canto meu que hoje aventuro,
Decidido a galgar com vôo inteiro
Muito por cima da montanha Aônia,
De assuntos ocupado que inda o Mundo
Tratados não ouviu em prosa ou verso.

E tu mais que ela, Espírito inefável,
Que aos templos mais magníficos preferes
Morar num coração singelo e justo,
Instrui-me porque nada se te encobre.
Desde o princípio a tudo estás presente:
Qual pomba, abrindo as asas poderosas,
Pairaste sobre a vastidão do Abismo
E com almo portento o fecundaste:
Da minha mente a escuridão dissipa,
Minha fraqueza eleva, ampara, esteia,
Para eu poder, de tal assunto ao nível,
Justificar o proceder do Eterno
E demonstrar a Providência aos homens.

Dize primeiro, tu que observas tudo
No Céu sublime, no profundo Inferno,
Dize primeiro a causa irresistível
Que mover pôde os pais da prole humana,
Em tão próspera sina, ao Céu tão caros,
A apostatar de Deus que o ser lhes dera
E a transgredir a lei que lhes ditara,
Sendo só num objeto restringidos,
No mais senhores do universo Mundo:
Quem lhes urdiu a sedução malvada
Que os lançou em tão feia rebeldia?
O Dragão infernal. Com torpe engano,
Por inveja e vinganças instigado,
Ele iludiu a mãe da humana prole,
Lá depois que seu ímpeto soberbo
O expulsara dos Céus coa imensa turba
Dos rebelados anjos, seus consócios.

Confiado num exército tamanho,
Aspirando no Empíreo a ter assento
De seus iguais acima, destinara
Ombrear com Deus, se Deus se lhe opusesse,
E com tal ambição, com tal insânia,
Do Onipotente contra o Império e trono
Fez audaz e ímpio guerra, deu batalhas.
Mas da altura da abóbada celeste
Deus, coa mão cheia de fulmíneos dardos,
O arrojou de cabeça ao fundo Abismo,
Mar lúgubre de ruínas insondável,
A fim que atormentado ali vivesse
Com grilhões de diamante e intenso fogo
O que ousou desafiar em campo o Eterno.

Pelo espaço que abrange no orbe humano
Nove vezes o dia e nove a noite,
Ele com sua multidão horrenda,
A cair estiveram derrotados
Apesar de imortais, e confundidos
Rolaram nos cachões de um mar de fogo.
Sua condenação, porém, o guarda
Para mais fero horror: e vendo agora
Perdida a glória, perenal a pena,
Este duplo prospecto na alma o punge.

Lança em roda ele então os tristes olhos
Que imensa dor e desalento atestam,
Soberba empedernida, ódio constante:
Eis quando de improviso vê, contempla,
Tão longe como os anjos ver costumam,
A terrível mansão, torva, espantosa,
Prisão de horror que imensa se arredonda
Ardendo como amplíssima fornalha.
Mas luz nenhuma dessas flamas se ergue;
Vertem somente escuridão visível
Que baste a pôr patente o hórrido quadro
Destas regiões de dor, medonhas trevas
Onde o repouso e a paz morar não podem,
Onde a esperança, que preside a tudo,
Nem sequer se lobriga: os desgraçados
Interminável aflição lacera
E de fogo um dilúvio alimentado
De enxofre abrasador, inconsumptível.

A justiça eternal tinha disposto
Para aqueles rebeldes este sítio:
Ali foram nas trevas exteriores
Seu cárcere e recinto colocados,
Longe do excelso Deus, da luz empírea,
Distância tripla da que os homens julgam
Do centro do orbe à abóbada estrelada.
Oh! como esse lugar, onde ora penam,
É diverso do Céu donde caíram!

Logo o monstro descobre a turba vasta
Dos tristes que na queda tem por sócios
Arfando em tempestuosos torvelinos
Do undoso lume que hórrido os flagela.
Próximo dele ali coas vagas luta
O anjo, imediato seu em mando e crimes,
Que foi chamado nas vindouras eras
Belzebu, nome à Palestina grato.

Então o arqu’inimigo, que no Empíreo
Foi chamado Satã desde esse tempo,
O silêncio horroroso enfim quebrando,
Nesta frase arrogante assim lhe fala:

“És tu, arcanjo herói! Mas em que abismo
Te puderam lançar! Como diferes
Do que eras lá da luz nos faustos reinos,
Onde, sobre miríades brilhantes,
Em posto tão subido fulguravas!
Mútua liga, conselhos, planos mútuos,
Esperanças iguais, iguais perigos
Uniram-nos na empresa de alta glória;
Mas agora a desgraça nos ajunta
Deste horrível estrago nos tormentos!
Caídos de que altura e em qual abismo
Nos achamos aqui tão derrotados!
Co’os raios tanto pôde o que é mais forte.
Té’gora quem sabia ou suspeitava
Dessas armas cruéis a valentia?
Mas nem por elas, nem por quanta raiva
Possa infligir-me o Vencedor potente,
Não me arrependo, de tenção não mudo,
Posto mudado estar meu brilho externo.
Rancor extremo tenho imerso n’alma
Pela alta injúria feita a meu heroísmo:
Ele impeliu-me a combater o Eterno,
E trouxe logo às férvidas batalhas
Inúmera aluvião de armados Gênios
Que dele o império aborrecer ousaram,
E, a mim me preferindo, opor quiseram
Nas planícies do Céu, em prélio dúbio,
As forças próprias às opostas forças
Fazendo-lhe tremer o empíreo sólio.
Que tem perder-se da batalha o campo?
Tudo não se perdeu; muito inda resta:
Indômita vontade, ódio constante,
De atras vinganças decidido estudo,
Valor que nunca se submete ou rende
(Nobre incentivo para obter vitória),
Honras são que jamais há-de extorquir-me
Do Eterno a ingente força e inteira raiva.
Perdão de joelhos suplicar-lhe humilde,
Acatar-lhe o poder, cujo alto império
No âmbito inteiro vacilou há pouco
Pelo impulso e terror das minhas armas,
Fora abjecta baixeza, infâmia fora,
Muito piores que este infando estrago.
Já que, segundo ordenam os destinos,
Não pode ser em nós aniquilada
Esta empírea substância e empírea força,
Já que pela experiência desta ruína
Muito ganhado em previsão nós temos,
Condição que na guerra é de alta monta,
Tentar podemos com mais fausto agouro,
Por força ou por ardis, sem fim, sem pausa,
Contra o excelso Inimigo eterna guerra,
Ele agora que, em júbilos nadando,
Nímio se ufana, vencedor soberbo,
Porque dos Céus no sublimado trono
Administra absoluto a tirania!”

Deste modo o anjo apóstata se expressa;
Alta jactância as penas lhe não tolhem:
Mas atroz desespero o rala e punge.
Logo assim lhe responde o ousado sócio:

“Príncipe, chefe dos imensos tronos
Que às batalhas trouxeste em teu comando,
Tu que, por feitos da mais nobre audácia,
Querendo conhecer a quanto avonda
Do Rei dos Céus a grã supremacia,
Em p’rigo lhe puseste o império e a glória,
Vejo, e punge-me assaz, o atroz sucesso
Com que o Céu (seja força, acaso, ou sorte)
Em tão pesada perdição nos lança
Com tamanha vergonha e tanto estrago;
Vejo, e punge-me assaz, que a tal baixeza
Chegasse nosso exército tão forte,
A ponto de sofrer quanto é possível
Que substâncias do Céu e Deuses sofram.
Porém, quanto ao valor e aos brios d’alma,
Invencíveis nós somos; dentro em breve
Recobraremos o vigor antigo,
Inda que extinta jaz a nossa glória,
E aqui a nossa dita se sepulte
Nesta horrível miséria interminável.
Mas, se o Conquistador (que hoje não posso
Deixar de reputá-lo Onipotente,
Pois que com força pôs em plena ruína
Nossas forças, que invictas eu julgava),
Se ele, digo, nos quis deixar quais eram
Nossos grandes espíritos e forças
Para podermos suportar o peso
Dos flagícios cruéis com que nos punge,
Para podermos a medida toda
Encher-lhe da vingança em que se abrasa,
Ou fazer-lhe um serviço mais penoso
Como cativos seus por jus de guerra
(Seja aqui trabalhar em vivo fogo
No doloroso coração do Inferno,
Seja levar-lhe as hórridas mensagens
Pelas mansões do tenebroso Abismo),
Então... aproveitar-nos como podem
Nossos grandes espíritos e forças,
Posto que tais quais eram as sintamos,
Eternas só para castigo eterno?”

O arqu’inimigo prontamente o atalha:
“Degenerado querubim! Faz pejo
Não ter constância na paciência e lidas.
Podes seguro estar que jamais, nunca,
Fazer um bem qualquer nos é possível;
Mas que sempre será da essência nossa
Fazer todos os males que atormentam
A alta vontade do Opressor ovante.
Se acaso intenta a Providência sua
Algum bem extrair dos males nossos,
Busquemos perverter-lhe o fim proposto
Fazendo de tal bem fonte de males.
Muitas empresas destas são possíveis
Que hão de por certo o coração ralar-lhe,
E muitas vezes no estudado plano
Hão de turbar-lhe o entendimento irado.

No entanto vê que o Vencedor lá chama
Para as portas do Céu esses ministros
De seus furores, da vingança sua:
A sulfúrea saraiva que impelida,
Qual tufão torvo, atrás de nós correra,
Acalma-se e minora os ígneos jorros
Que desde os altos Céus nos flagelavam;
O alado raio rubro, ardente, iroso,
Talvez que exausto tendo agora as farpas,
Suspende o seu horríssono estampido
Que através troa do infinito vácuo.
Seja desprezo do Inimigo nosso,
Seja que de furor se creia farto,
Não deixemos fugir tão fausto ensejo.

Vês além essa tétrica planície,
Mansão de ruína e dor, só manifesta
Pelo fusco clarão que hórrido exalam
Estas lívidas chamas truculentas?
Vamo-nos para ali, saíamos fora
Do furor destas ondas abrasadas;
Descansemos ali, se ali descanso
Pode encontrar-se algum: eia! tornemos
A juntar nossas forças profligadas;
Busquemos modo como de hoje em diante
Faremos ao tremendo Imigo nosso
O maior mal que esteja ao nosso alcance,
Como repararemos nossas perdas,
Como suplantaremos nossos danos;
Indaguemos que auxílios nos compete
Ganhar pela esperança, — e, em caso oposto,
Qual a resolução que achar podemos
Do desespero nos terríveis lances.”

Assim falou Satã ao companheiro
Que ali mais perto estava. Sobre as ondas
Alevantava então a fronte enorme,
E dos olhos vertia horrendo lume:
O mais corpo, boiando ao longo, ao largo,
Por essas ígneas águas se estendia
Muitos estádios, sendo no volume
O que a Fábula diz das vastas moles
De Briareu e de Tifon (que ocupa
Junto da antiga Társea um antro ingente),
Filhos da terra que investiram Jove;
Ou como o Leviatã, marinho monstro,
Que Deus fez o maior dos entes vivos
(O qual, dormindo da Noruega em mares,
Ilha o crê o piloto de chalupa
Colhida em vendaval noturno, — e lança,
Como é dos nautas voz, no escâmeo dorso
Da âncora o dente, e a sotavento escapa
Enquanto é noite e pelo dia almeja).

Tão vasto assim, o arqu’inimigo alonga
Seus membros encadeado ao lago ardente,
Donde nunca teria erguido a fronte
Se do grão Deus a permissão suprema
Lhe não desse azo aos infernais desígnios
Para que, à força de contínuas culpas,
Toda a condenação a si chamasse
Enquanto males para os outros busca;
Para que, ardendo em raiva, percebesse
Como sua malícia inteira e astuta
Servia só a patentear do Eterno
A bondade, o favor, o amparo imensos,
Vistos no homem que pérfida enganara,
E no seu próprio coração maldito
Ira, vingança, confusão tresdobres.

Logo a monstruosa corpulência eleva
Vertical sobre o lago; as fluidas chamas,
Lançadas para trás, eis que se inclinam
Em agudos debruns de novo ao centro,
E desabando encapeladas formam
Um vale, todo horror. Abrindo as asas
Dirige para cima um leve vôo,
Equilibrado em ferrugíneos ares
Que sob o peso não usual gemeram;
Depois se foi pousar na seca terra,
Se era terra o que ardia em duro fogo
Como ardia a lagoa em fogo fluido.

Neste comenos se afigura o monstro
Penedo enorme que tufões subtérreos
Expelem do Peloro derrocado
Ou do horríssono bojo do Etna em fúrias,
Cujas entranhas, que abrasadas dentro
Té’li ferviam em cachões de fogo,
Erguem-se agora de tufões pungidas
Furibunda explosão jogando aos ares,
Crestando largo espaço que povoam
De mefítico cheiro e negro fumo;
Tais os malditos pés ali pousaram!

Seu imediato sócio logo o segue,
Gloriando-se ambos por se verem salvos
Do lago Estígio, como deuses que eram,
Sem permissão do onipotente Nume,
Mas pela própria força recobrada.

“Eis a região, o solo, a estância, o clima,
E o lúgubre crepúsculo por que hoje
Os Céus, a empírea luz, trocado havemos!
(O perdido anjo diz). Troque-se embora,
Já que esse, que ficou dos Céus monarca,
O que bem lhe aprouver mandar-nos pode.
É-nos melhor estar mui longe dele:
Se a sublime razão a nós o iguala,
Suprema força o põe de nós acima.

Adeus, felizes campos, onde mora
Nunca interrupta paz, júbilo eterno!
Salve, perene horror! Inferno, salve!
Recebe o novo rei cujo intelecto
Mudar não podem tempos, nem lugares;
Nesse intelecto seu, todo ele existe;
Nesse intelecto seu, ele até pode
Do Inferno Céu fazer, do Céu Inferno.

Que importa onde eu esteja, se eu o mesmo
Sempre serei, — e quanto posso, tudo?...
Tudo... menos o que é esse que os raios
Mais poderoso do que nós fizeram!
Nós ao menos aqui seremos livres,
Deus o Inferno não fez para invejá-lo;
Não quererá daqui lançar-nos fora:
Poderemos aqui reinar seguros.
Reinar é o alvo da ambição mais nobre,
Inda que seja no profundo Inferno:
Reinar no Inferno preferir nos cumpre
À vileza de ser no Céu escravos.

Mas os amigos nossos, que tão fidos
Nosso hórrido infortúnio partilharam,
Não deixemos assim jazer às tontas
No olvido destas ondas inflamadas;
Chamemo-los dali, não para serem
Nesta mansão conosco desditosos,
Mas para uma vez mais, todos reunidos,
Ver o que recobrar no Céu podemos,
Ou minorar de horror nestes abismos.”

Assim falou Satã. E assim lhe torna
O fero Belzebu: “Augusto chefe
Destes vastos exércitos brilhantes
(Que só Deus, mais ninguém prostrar podia!)
Assim que tua voz eles ouvirem,
(A tua voz que, nas batalhas todas,
Nos mais feridos e arriscados lances,
A seu valor marcou da glória a estrada,
Foi de sua esperança o firme esteio),
Assumirão de pronto um novo brio,
À vida voltarão, posto que jazam
Neste ígneo lago, como nós há pouco,
Atônitos, estáticos, imersos,
Baqueado havendo de tão grande altura.”

Disse; e já para a margem segue altivo
O monarca infernal. Do ombro lhe pende
O escudo que enrijou têmpera etérea.
Largo, pesado, orbicular, maciço,
E que assemelha a lua (quando a encara
Pelo óptico instrumento, à prima noite,
Do Fésolo no tope ou no Valdarno,
O hábil Toscano para ver se pode
No maculado globo descobrir-lhe
Novos rios, mais terras, mais montanhas).
Empunha a lança (junto à qual seria
Tênue vara o pinheiro o mais gigante
Que da Noruega em montes é cortado
Para mastro de altiva capitânia),
E nela os passos trabalhosos firma
Por tão ardente chão, mui diferentes
Do que eram percorrendo os Céus cerúleos:
Para abatê-lo mais, concorre o clima
Sobrepondo-lhe abóbada de fogo.

Contudo ele os suporta e às praias chega
Do ígneo mar. Seus angélicos guerreiros
Chama então, que sem tino ali jaziam,
Bastos como do outono as folhas juncam
De Valumbrosa as plácidas ribeiras
(Sobre as quais densa arcada sempre enramam
Da bela Etrúria os altos arvoredos),
Ou qual no Rubro-Mar bóia o carriço
Quando Órion lhe fustiga iroso as margens,
Capitaneando os ventos iracundos
(No Rubro-Mar que em si tragou inteira
De Busíris a audaz cavalaria,
Indo com atraiçoado e ardente impulso
De Gássen sobre os fidos viajantes,
Que salvos viram da fronteira praia
Flutuar, presa das ondas, morto o imigo
E os carros todos seus desmantelados):
Tão bastos por ali jazendo abjectos
Cobriam esse mar, cheios de espanto,
Vendo a mudança hedionda a que chegaram.

Quando soltou a voz, fez tal estrondo
Que do Orco retumbou no inteiro espaço:
“Ó príncipes! ó tronos! ó guerreiros!
Vós, flor do Céu — já nosso, e hoje perdido
Se de eternos espíritos se apossa
Tão horrível terror! — acaso tendes,
Depois de tão aspérrimas batalhas,
Escolhido este mar para repouso
De vosso lasso brio, dormitando
Aqui tão ledos, quais dos Céus nos vales?
Ou tendes em postura tão abjecta
Resolvido adorar vosso Tirano
Que, rindo-se, contempla nestas vagas
Querubins, serafins rolando às tontas
De envolta com troféus e inúteis armas,
Té que vos vejam dos celestes muros
Os satélites seus aqui prostrados,
E ousem, descendo, vir de vós zombando,
Mais para dentro vos calcar do Abismo,
Ou c’os buídos farpões de presos raios,
Deste ígneo golfo vos cravar no fundo?
Despertai, levantai-vos, companheiros,
Ou ficai para sempre aqui submersos!

Ouvem-no e coram: logo sobre as asas
Vai-se erguendo cada um, qual sentinela
Que apanhada a dormir por duro cabo
Logo insta pressurosa em pôr-se alerta.
Conhecedores de seu triste estado,
Em que as mais sevas penas têm curtido,
Cumprem do chefe o mando inumeráveis.
Quando no dia mau da Egípcia terra
De Arão o filho, em torno às ímpias praias,
Vibrou a vara portentosa e trouxe
Dos gafanhotos a terrível nuvem
Que, sobre os ventos orientais arfando,
A pairar veio, semelhante à noite,
Do tredo Faraó sobre os domínios,
E do Nilo as regiões cobriu de trevas, —
Tão sem conto os maus anjos eram vistos
Sob a cúpula do Orco arfar pairando;
Fogo os abrange nos sentidos todos.

Eis que o sultão do Inferno lhes indica,
Por um sinal de lança, o trilho próprio,
Pelo qual em tranqüilo vôo descem,
E sobre o chão de enxofre ardente pousam
Cobrindo essa planície em tal quantia,
Qual nunca deu o populoso Norte
Quando seus filhos bárbaros, transpondo
Do Danúbio e do Reno as níveas águas,
Todo o Sul inundaram, qual dilúvio,
Do Calpe além, do Atlante até às faldas.

Dos bandos, das legiões cabos e chefes
Vêm receber do general as ordens;
Semelhantes a deuses na figura,
Muito excediam a estatura humana;
No Céu primeiras dignidades foram,
Ali em tronos nítidos sentadas,
Posto que hoje o registro de seus nomes
Nos celestes arquivos se não ache,
Que dos livros da vida a traição negra
Fez que apagados para sempre fossem.

Inda entre os filhos de Eva eles não tinham
Novos nomes obtido, até que no orbe,
Por concessão de Deus, vagando infrenes
Para tentar os míseros humanos,
Puderam com mentiras, com embustes,
Corromper deles a maior quantia
Para deixarem Deus (que o ser lhes dera)
Tachando de não vista a sua glória,
E para preferir-lhe imagens brutas
Que de púrpura e de ouro se adornaram.
No gentilismo assim se conheceram
Por vários nomes e ídolos diversos
Os anjos maus; e assim os mesmos homens
Lhes deram culto que a seu Deus negaram.

Como então se chamavam dize, ó Musa;
Por que ordem, do grão rei ao fero brado,
Se ergueram do torpor desse ígneo leito;
Quais os de mais valor que prontos logo,
Um após outro, vieram onde o chefe,
Na praia nua estava, enquanto ao longe
Inda confusa a multidão boiava.

Eram tais cabos os que, do imo inferno
Indo de sua presa em busca no orbe,
Se atreveram fixar por soma de evos
Os templos seus do Eterno junto aos templos,
Suas aras contíguas dele às aras,
Sendo adorados como grandes numes
Por imensas nações, e mesmo ousaram
Raios lançar de Sião, quais Deus soía
De querubins cercando-se no trono.
No divinal santuário, muitas vezes,
Suas relíquias torpes colocaram:
Com ímpias cerimônias poluíram
Os sacros ritos, as solenes pompas,
E conseguiram insultar malignos
A luz empírea com as trevas do Orco.

Moloch adiante vem, monarca fero,
Tinto de humanas vítimas no sangue,
Nunca farto de lágrimas maternas,
Posto que — dos tambores, dos adufes
C’o turbulento estrondo, — não se ouvissem
Os gritos das misérrimas crianças
Arrojadas (oh! dor!) às labaredas
Em honra do seu ídolo iracundo!
O Amonita cruel o adora em Raba
E em seu longo distrito aquoso e plano.
Em Basã, em Argobe, até às fontes
Donde o longínquo Árnon se forma e mana.
Cioso por ver de Deus o altar vizinho,
Com fraudulenta sedução pôde ele
De Salomão levar o peito egrégio
(Salomão o mais sábio dentre os homens)
A edificar-lhe um majestoso templo
Na montanha do Opróbrio, bem defronte
Do Templo do grão Deus, e a consagrar-lhe,
Como parque, de Hinon o vale ameno
Que ficou desde então, sob o atro nome
De Tofet e Geena, emblema do Orco.

Segue-o Camos: de Moab a impura estirpe
Obsceno acatamento lhe tributa
Desde Aroar até Nebo, e mesmo alcança
Do distante Abarim o austral deserto:
Em Hesebon e Horonaím sujeitos
De Seon às leis, jazendo além das várzeas
Da florescente, pampinosa Sibma;
De Eléale até às águas do Asfaltite.
Pelo nome de Pior foi adorado
Quando, em Sitim, de Deus o povo eleito,
Que das margens do Nilo se afastava,
Instiga a dar-lhe desonestos cultos
E o mete assim num pélago de males.
Suas lascivas orgias inda estende
Té ao monte do Escândalo que fica
De Moloch homicida junto ao parque;
Eis da fereza próxima a luxúria!
Vagou assim até que no atro Inferno
O virtuoso Josias o sepulta.

Com estes vêm os que por nome tinham
Baalim e Astarote: o seu império
Era dos lagos junto ao velho Eufrates
Té ao rio que é meta à Síria e Egito.
Estes têm fêmeo o sexo, aqueles o outro:
Os espíritos podem, quando querem,
Um dos sexos tomar, e ambos num tempo;
A essência que os compõe presta-se a tudo,
Tão pura e simples é, tão branda e dócil!
Qual do gênero humano a inerte carne,
Não a estorvam nem membros, nem junturas,
Nem dos ossos o esteio quebradiço;
Mas para a forma, que a seu gosto escolhem,
Crescem, minguam, fulguram, escurecem,
Seus rápidos desígnios executam,
Já de ódio ultimam, já de amor os atos.
Por estes de Israel a miúdo a prole
Do seu altar sagrado se deslembra,
Curvando-se humilhada a deuses brutos;
Nas batalhas assim suas cabeças,
Como vis, se abateram derrotadas
Por lanças de inimigos vergonhosos.

Com estes, tendo em torno larga turma,
Vem Astorete a que os Fenícios chamam
Astarte, que se diz do Céu rainha,
Toucada de hástias lúcidas, curvadas,
A cuja imagem as sidônias virgens
Cantos e votos dão no albor da lua;
Em Sião também se acata, onde alto templo
Na montanha do Escândalo possui
Edificado pelo rei lascivo
Que, ilustre em tudo o mais, só nisto falho,
Por idólatras belas iludido
Prostrou-se diante de ídolos imundos.

Chega Tamuz depois: anual ferida
Em Lebanon ostenta, e assim atrai
As virgens sírias a chorar-lhe a morte
Em cantigas de amor um dia estivo,
Enquanto as águas do tranqüilo Adônis
De seu natal rochedo ao mar purpúreas
Vão correndo, tingidas (como é crença)
Pelo sangue que verte da ferida
Todos os anos o ídolo falsário;
Este amoroso canto o ardor ateia
De Sião nas filhas (cujos vícios torpes
Viu Ezequiel dos templos nos alpendres,
Quando, pela visão de todo abertos,
Seus castos olhos de Judá insana
Presenciaram a negra idolatria).

Segue-se outro, que em lágrimas se banha
Quando a arca prisioneira lhe espedaça
A imagem bruta do seu próprio templo:
Por terra ei-la de bruços, mãos e fronte
Rolando para longe decepadas!
Os seus adoradores envergonha:
Dagon por nome tem; monstro marinho,
Homem do cinto acima, o resto é peixe.
Possui inda em Azoth um templo altivo;
Gath e Ascalon, da Palestina as praias,
Acaron e de Gaza os fins fronteiros,
A tímida cerviz ante ele curvam.

Após este, Rimon se lhe apresenta:
Ofertou-lhe morada deliciosa
Damasco bela, que orna as férteis margens
Onde as límpidas ondas se espreguiçam
Que do Abana e Farfar vertem as urnas.
Muito insultou de Deus os templos sacros;
Uma vez perde um servidor leproso
Que recupera c’um monarca bronco,
Aaz, que há pouco conquistado o havia,
E faz que ele derroque o altar do Eterno
E outro construa ali de sírio modo,
Onde queimou ofertas execrandas,
E deuses adorou que escravizara.

Logo aparece a multidão imensa
Que ao fanático Egito ilude tanto
Com feias caras, com feitiços rudes,
E induz seus sacerdotes a buscarem
Seus vagabundos deuses revestidos
De forma bruta e não de humana forma:
Osíris, Ísis, e Hórus a precedem,
Nomes que muito entoa a prisca fama.
Não se isenta Israel do influxo deles,
Quando o ouro seu franqueou para fundir-se
No alto do Orebe o estúpido bezerro;
E o monarca rebelde inda duplica
Em Betel, logo em Dã, esse atentado.
Cultos negando ao Criador do Empíreo
Para dá-los ao boi que pasta e muge:
Mas Jeová, o Egito atravessando,
Matou, numa só noite e num só golpe,
Todos os primogênitos viventes
E todos esses deuses mugidores.

De todos foi Belial o derradeiro:
Espírito nenhum mais torpe que ele
Dos altos Céus caiu no fundo do Orco,
Nem mais grosseiro para amar o vício
Só por ser vício. Em honra desse monstro
Não se erguem templos, nem altares fumam;
Porém, com refinada hipocrisia,
É quem templos e altares mais freqüenta
Chegando a ser ateus os sacerdotes,
Bem como de Heli sucedeu aos filhos
Que de Deus os alcáçares encheram
De atroz fereza, de brutal lascívia!
Reina ele pelas cortes, nos palácios,
E nas cidades onde os vícios moram.
Onde a devassidão, a infâmia, o ultraje,
Sobem por cima das mais altas torres.
Ali, assim que tolda a noite as ruas,
Os filhos de Belial nelas divagam
Pela insolência e pelo vinho insanos:
Testemunhas as ruas de Sodoma
E a noite em Gabaá quando a virtude,
Por amparar os hóspedes, decide
Dar às torpezas a infeliz matrona,
Para evitar mais feios atentados!

Eis, na apresentação do poderio,
Os primeiros de todos. Quanto ao resto,
Tão noto no orbe, a história extensa fora,
Qual a dos jônios numes — confessados,
Como tais, de Javã pela progênie,
Posto que mais recentes os aclama
Que Céu e Terra de que os crê nascidos.
Foi Titã que do Céu nasceu primeiro,
E descendência enorme dele parte;
Porém Saturno, seu irmão mais novo,
Da primogenitura o desapossa;
E Jove, de Saturno e Réia filho,
Fez-lhe violência tal por ser mais forte.
É como usurpador que Jove impera.
(Foi conhecido e sua imensa prole
Primeiro em Creta e no Ida, e logo invade
Os frios cumes do nivoso Olimpo,
O délfico rochedo a ampla Dodona
E da dórica terra o longo espaço,
Donde a média região, partilha sua,
Que encerra os altos Céus, rege e domina).
O ancião Saturno e os seus fugiram todos,
Atravessando do Ádria as torvas ondas,
Para os campos da Hespéria, e se espalharam
Na plaga Celta e nas remotas ilhas.

Já toda a multidão as praias enche:
Nos macerados, abatidos olhos
Inda mostram uns longes de alegria,
Vendo que o chefe seu não desespera,
E que eles mesmos não estão perdidos
Dentro da própria perdição imersos.

Em seu porte Satã descobre indícios
De dúvida e receio, mas ostenta
Sua soberba usual; e, em frase altiva,
De brio tendo a cor e não a essência,
Com garbo ateia seu valor mortiço,
E os temores dos sócios afugenta.
Ordena logo que ao guerreiro toque
De ruidosos clarins, de feras tubas,
Seja erguido seu válido estandarte:
Por jus antigo tão soberbas honras
Azael pede, serafim gigante,
Que pronto da hástia refulgente solta,
Ao mavórcio clangor do cavo bronze,
A bandeira imperial que no ar subida,
Qual meteoro que os ventos arrebatam,
Brilhou co’o lustre do ouro e ínclitas gemas,
Com troféus, com seráficas divisas.

E ao mesmo passo o exército levanta
Um aplauso estrondoso que enche os ares,
Penetra o fundo Inferno, e vai dar sustos
Ao Caos tenebroso, à Noite antiga.
Num momento, através dos fuscos ares,
Dez mil bandeiras tremular se viram
Fazendo fulgurar do oriente as cores;
E floresta vastíssima de lanças,
Bastos escudos, apinhados elmos
Apareceram num maciço corpo
Que ostenta profundez imensurável.

Em perfeita falange lá se move,
Ao dório som dos pífanos, das flautas,
O exército infernal. (Assim se ergueram
Às alturas do brio o mais ilustre
Os antigos heróis, indo às pelejas;
Assumiam assim, em vez de raiva,
Meditado valor, firme, inconcusso,
Que por igual detesta e repudia
Da morte o medo, a vergonhosa fuga.
Tinha este som, por variações solenes,
O poder de induzir serenidade
Nas torrentes de idéias impetuosas,
E de expulsar a dor, tristeza e medo,
A aflição torva, a dúvida terrível,
Dos corações dos homens e dos Numes).
Deste modo os espíritos do Averno,
Possuindo força, união e plano fixo,
Marcham em ordem no maior silêncio,
Ao som das brandas flautas que mitigam
No chão ardente os passos dolorosos.

Eis fazem alto: o exército apresenta
Hórrida frente de extensão medonha,
E despede das armas luz maligna;
Tais os guerreiros dos antigos tempos,
Tendo em ordem as lanças e os escudos,
Aguardavam a voz do ínclito chefe.

Satã, pelas fileiras em parada,
Lança os previstos olhos; logo abrange
Os batalhões do exército quais eram,
Disposição, fisionomias, portes,
Estaturas parelhas coas dos Numes;
E por fim todo o número lhes conta.
Então, enchendo o coração de orgulho,
Por ser tão poderoso se gloria;
E por certo, depois de feito o Mundo,
Nenhum corpo se uniu que merecesse
Com este comparar-se, nem juntando
Todos os que houve nos diversos tempos.

A infantaria dos Pigmeus que em Trácia
Com os grous sustentou renhida guerra;
A inumerável prole dos Gigantes
Que em Flegra aos altos Numes se arrojaram;
Os ilustres heróis que pró e contra
Em Tebas e em Dardânia combateram,
Juntos os Deuses partidários de ambos;
De Bretanha e de Armórica os valentes
Que no conto de Artur figuram tanto;
Os campeões, quer infiéis, quer batizados,
Que talaram os campos de Aspramonte,
De Trebisonda, Montalbã, Marrocos;
Os que do afro país mandou Bizerta,
Lá quando Carlos Magno e os pares todos
Em Fontarábia a perdição acharam:
Desses todos, num corpo assim reunidos,
Fora o cêntuplo o exército infernal.

Em muito maior grau sendo esforçados
Do que quantos mortais podem supor-se,
Obedecem contudo ao torvo chefe
Que acima deles todos se sublima,
Soberbo em forma, em atitude, em porte,
Igual de torre às casas iminente.

Do brilho original inda conserva
Boa porção, — nem menos parecia
Do que um arcanjo a que somente falta
De sua glória o resplendor mais vivo
(Tal é o sol nascente, quando surge
Por cima do horizonte nebuloso,
De sua coma fúlgido privado;
Ou quando posto por detrás da lua,
E envolto no pavor de escuro eclipse,
Desastroso crepúsculo derrama
Pela metade do orbe, e os reis consterna
Em seu poder temendo algum desfalque).
Obscurecido, mesmo assim fulgura
Mais que os outros arcanjos, seus consócios;
Mas dos raios profundas cicatrizes
Aram-lhe o rosto macerado, aonde
Mil cuidados contínuos se aposentam
Sob o ouropel de intrépida coragem,
De ultriz tenção, de refletido orgulho.

Tem os olhos cruéis; mas dão indícios
De paixão, de remorso, quando observam
Os seus sectários (de seu crime os sócios,
Vistos no Empíreo tantas vezes antes,
Agora para sempre condenados
A ter quinhão na decretada pena),
Quando observam do Céu, do eterno gozo,
Tanto milhão de espíritos expulsos
Pela revolta em que os meteu insano,
E que inda assim fidelidade ostentam
Vendo-lhe a glória murcha, — quais se mostram
Na selva o roble, na montanha o pinho,
Depois que os estragou do Céu o lume,
Crestada a rama inteira, mas erguidos
Com toda a corpulência nua e enorme
Muito por cima das queimadas urzes!

Eis se apresta a falar: em roda dele
Ladeado de seus pares, se recurvam
Do exército, em fileiras dobres posto,
As alas ambas que a atenção faz mudas.
Tenta o discurso começar três vezes;
Três vezes, todo irado de vergonha,
Pára, — e em torrentes lhe rebenta o pranto
(Mas do que os anjos derramar costumam),
Té que por fim, cortadas de suspiros,
Podem romper caminho estas palavras:

“Coluna imensa de imortais poderes!
Espíritos, que sois incomparáveis
Menos a par do Altíssimo! A batalha
Que lhe hemos dado não nos foi inglória,
Inda que perda horrível nos arrasa,
Como estes sítios lúgubres atestam
E esta mudança que só dita enraiva.
Mas... que mental vigor, que altiva ciência,
O presente e o passado combinando
Co’os presságios incertos do futuro,
Temer podia que tamanha força
De Numes imortais composta e unida,
Como a que estamos vendo aqui agora,
Havia ser de estragos susceptível?
E quem pode inda crer que estas falanges,
De valentia tal, de tanto vulto
Que sua falta fez no Céu vazios,
Recusaram, depois mesmo da queda,
Subir de novo e conquistar a posse
Dos pátrios reinos, doação dos fados?
Quanto a mim, digam as celestes hostes
Se riscos, se outras táticas mostraram
Que jamais eu perdesse esta esperança.
O monarca dos Céus té’li sentado
No trono seu, unicamente firme
Por consenso, por fama, por costume,
Sim nos mostrava sua imensa pompa,
Mas suas forças ocultou-nos sempre:
Deste modo incitou a empresa nossa
E a queda nos urdiu. De agora em diante
A sua e a nossa força conhecemos;
Que provocar a guerra nos não cumpre,
Nem temê-la, uma vez que a provocarmos.
Nosso melhor recurso hoje consiste
Em formar, no segredo o mais severo,
De enganos e de ardis um firme plano,
Já que efeituá-lo não é dado à força.
O tirano por fim de nós aprenda
Que vencer só por força um inimigo
É somente vencê-lo por metade.
Podem nascer no espaço novos mundos;
E corria nos Céus notória fama
Que ele um ia criar ali em breve,
Onde poria geração ditosa,
A quem daria, com prazer ingente,
Favor qual o que obtêm do Céu os filhos.
Sobre esse Mundo, para vê-lo ao menos,
A primeira irrupção julgo precisa,
Ou noutro rumo; o tudo é pô-la em obra,
Que aos infernais abismos não é dado
Deter na escravidão entes celestes,
Nem muito tempo em trevas obumbrá-los.
Mas estes ponderosos pensamentos
Numa plena assembléia se discutam,
Nada de paz! e quem se atreveria
Pensar em submeter-se? Guerra, guerra,
Seja por força aberta ou trama oculta!”

Disse. Em apoio do que ao chefe ouviram,
Todos os querubins rápido arrancam
Das bainhas milhões de ígneas espadas,
Que iluminam do Inferno ao largo os reinos
Co’o súbito fulgor delas partido:
Altas imprecações vibram raivosos
Contra Deus; e, coas armas empunhadas
Batendo feros nos escudos, tocam
O rebate estrondoso das batalhas,
E impelem insolente desafio
Do Céu contra as abóbadas brilhantes.

Perto dali se erguia uma alta serra,
Cujo medonho tope vomitava
Rolos de fumo e borbotões de fogo;
Luzente crusta revestia o resto,
Firme sinal de que no bojo tinha
Virgens metais que produzira o enxofre.

Eis dela em direção voa ligeira
Uma brigada forte; guarnecidos
De pás, de picaretas, de machados,
Tais o grosso do exército precedem
Os corpos de pioneiros, tendo a cargo
Campos fortificar, erguer redutos.

Tem por chefe a Mamon: de quantos anjos
Expele o Céu, o menos nobre é este,
Porque seus olhos sempre e a mente sua,
No chão atentos, mais prazer achavam
Dos Céus no pavimento todo de ouro
(Porém aos pés dos querubins pisado),
Do que no mais augusto dos mistérios
Pela visão beatífica provados.
(Por seu ensino e sugestão foi ele
O que primeiro habilitou os homens
A esquadrinharem da mãe Terra o centro.
E a lhe rasgarem ímpios as entranhas,
Por obterem tesouros que a virtude
Quisera que inda ali ocultos fossem.)

Em breve tantas mãos aberto haviam
Com ferida espaçosa a grande serra
E de ouro rudes massas extraído.

Ninguém admire que as riquezas nasçam
No Orco profundo: só podiam no Orco
Brotar venenos que fingissem néctar!
Os que das obras dos mortais se espantam,
E de Babel as maravilhas narram
Ou as empresas reais da Egípcia terra,
Aprendam, observando o Inferno agora,
Que todos os mundanos monumentos
(De força e de arte célebres prodígios,
Em que empregaram séculos os homens,
Inumeráveis mãos, perene lida)
Pelos demônios excedidos foram,
Mui facilmente, num espaço de hora.

Logo ali na planície outra falange,
vários cadinhos preparado havendo
Sobre torrentes ígneas que do lago
Encaminhara ali, perita funde
As brutas massas dos metais, e logo
De todas as escórias os apura,
E também uns dos outros os separa.

De terceira falange o tino, há pouco,
Vários moldes no chão formado havia,
E dos rubros cadinhos vaza agora
Os luzentes metais que vão correndo
De teor estranho, até que se insinuam
Nos vácuos todos e ângulos mais tênues:
Pelo fole impelidas vão dest’arte
As ondas do ar, que elásticas penetram
Num órgão toda a sorte de canudos.

Logo a compasso de um concerto insigne
De suave instrumental, de magas vozes,
Uma fábrica imensa sobre a terra,
Em ar de exalação, eis vai surgindo;
E fica em breve um templo majestoso
Rodeado de pilastras, que sustentam
Vasta série de dóricas colunas
Com arquitrave de ouro guarnecidas;
De relevos magníficos se adorna
Da cornija e do friso o brilho ingente;
É todo o teto de ouro cinzelado;
E o suntuoso edifício, altivo, imenso,
Tem fixa a base em rocha de diamante.
(Nunca o Grão-Cairo, Babilônia nunca
Tal riqueza, tal pompa, tal grandeza
Puderam igualar nos altos templos
Dos pátrios deuses seus, Belo e Serápis,
Nem de seus reis nos paços estupendos
Quando um mais que outro na riqueza e luxo
A Assíria, o Egito, se julgavam ambos.)

Eis se abrem, par em par, as brônzeas portas:
Lá dentro espaço amplíssimo se avista
Sobre o polido e plano pavimento.
Da cúpula lustrosa penduradas
Por magia sutil descem brilhantes
Em fileiras diversas, como estrelas,
Candelabros e lâmpadas fornidas
De asfalto e nafta que de si produzem
Luz semelhante à que dos Céus se espalha.

Rápida a multidão entra e se espanta:
Estes aplaudem os primores da obra;
Aqueles, a perícia do arquiteto,
Conhecido nos Céus por ter formado
Torreadas construções, altas, diversas,
Onde arcanjos ceptrígeros residem
Sentados como príncipes em tronos,
Tão exaltados pelo Rei supremo
A fim de seus distritos governarem,
Cada um conforme a jerarquia sua.

Muito falado foi e teve altares
Na Grécia antiga, pela inteira Ausônia:
Múlciber se chamou. E dele narram
As fábulas que foi dos Céus expulso,
Sendo atirado pelo iroso Jove
Por cima das muralhas cristalinas
De um remessão, — e que a cair esteve
De um dia estivo pelo inteiro espaço.
Té que ao sol posto, despenhado a prumo
Como vagante estrela, em Lemnos pára.
Mas foi tal crença errônea, que muito antes
Com seus sócios revéis fora ele expulso,
Sem que lhe aproveitasse haver no Empíreo
Soberbíssimas torres fabricado,
E no infortúnio nem valer-lhe pôde
Tudo que tinha em si de engenho e de arte.
Lá foi arremessado de cabeça
Com todo o bando seu, fértil de indústrias,
Para erguer torres no profundo Inferno.

Os arautos alígeros no entanto,
Cumprindo as ordens do infernal monarca,
Ao som pregoam de canoras tubas,
E em préstito pomposo, um grão conselho
Que logo deve em Pandemônio unir-se,
Paços imensos do tirano do Orco.
De cada jerarquia os mais distintos,
Ou por seus graus ou porque o rei os ama,
O chamamento designava, e logo
De numerosas turbas vêm ladeados.
Estão cheias de todo as avenidas,
Os átrios cheios; mas a régia sala
(Inda que em vastidão qual campo aberto
Onde os campeões valentes, cavalgando
Corcéis airosos, desafiar costumam,
Do Soldão junto ao trono, os mais nomeados
Dos cavaleiros que Mafoma adoram,
A mortais golpes, ou quebrar as lanças),
A régia sala espessamente ferve
Dos querubins co’os réprobos enxames
Que, pelo solo e no âmbito esparzidos,
Das asas co’o estridor no éter sussurram.

As abelhas assim na primavera,
Quando em Tauro entra o Sol, tanto se agitam,
Das colmeias lançando fora aos bandos
Inteira a populosa juventude:
Em diversos sentidos ora voam
Entre flores que enfeita o fresco orvalho;
Ora passeiam na polida prancha,
Subúrbio da colmada cidadela,
Perfumada de fresca mangerona,
De seu governo os planos conferindo.
Exatamente assim tão bastos eram
Os espíritos maus na sala voando.

Eis ao dado sinal (que maravilha!)
Eles, — que até então no vulto excedem
Os enormes Titãs, da Terra filhos, —
Agora decrescendo se reduzem
Ao só tamanho dos anões mais tênues,
Cabendo deste modo inumeráveis
Em pouco amplo circuito: tão pequenos
Se dizem os Pigmeus na plaga Indiana,
Ou os duendes que o crédulo campônio,
Por fora na alta noite demorado,
Vê ou crê ver à beira do caminho,
Em selva umbrosa ou junto à fresca fonte,
Retouçar em galhofas prazenteiras,
Enquanto a Lua, próximo da Terra
Levando o coche seu de albor macio,
Eminente preside a seus folguedos
Compassados por música mimosa
Que, ao campônio os ouvidos encantando,
De gosto e susto o coração lhe abala.

Deste modo os espíritos do Averno
Sua imensa estatura reduziram
A tênue vulto, — e à larga se acomodam,
Sendo sem conto, no salão da cúria.

Mais além, alta câmara formando,
Da multidão por teia separados,
Os pares infernais, subidos tronos,
Em número de mil, no teor de numes,
Conservando dos vultos a grandeza,
Ali se assentam em cadeiras de ouro.

Depois de algum silêncio, houve a leitura
Do decreto que ali ajunta as cortes;
E logo o alto conselho principia.