Paraíso Perdido/Livro V

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Paraíso Perdido por John Milton, traduzido por António José de Lima Leitão
Livro V
Chega a manhã. Eva relata a Adão o seu perturbado sonho: ele não o aprova mas anima e consola a esposa inocente. Vão-se entregar a seus trabalhos quotidianos: seu “Hino da Manhã” à porta do aposento. Deus, para fazer indesculpável o homem, envia Rafael a admoestá-lo a que permaneça obediente, — e a declarar-lhe que seu estado é livre, que seu inimigo está perto, quem ele seja, e o mais que a Adão convém saber. Rafael desce ao Paraíso; descreve-se o seu porte; Adão percebe-o de mui longe, estando assentado à porta do seu aposento, adianta-se para recebê-lo, acompanha-o até ali, e oferece-lhe os melhores frutos do Paraíso colhidos então por Eva: seus discursos à mesa. Rafael propõe a sua mensagem, e avisa Adão do seu estado e de seu inimigo; relata (respondendo a perguntas do primeiro homem) quem seja este seu inimigo, o modo e razões por que ele o é, — começando desde a primeira revolta no Céu, narrando o que deu ocasião a ela, como o inimigo arrastou consigo para as regiões do norte as suas legiões, e ali as incita a rebelarem-se com ele persuadindo todos, exceto o serafim Abdiel, que por argumentos pretende dissuadi-lo e se lhe opõe, e depois o abandona.

ENVOLTA em róseo brilho a manhã bela
Já pelas plagas orientais avança,
E com pérolas junca ovante a Terra.

Desperta Adão às horas do costume:
Das aves o gorjeio matutino
Que de todos os ramos sai alegre,
O ruído dos arroios fumegantes,
Da aurora almos refrescos, só lhe bastam
Para tirá-lo do ligeiro sono,
Assim devido aos sóbrios alimentos
E à boa digestão só deles filha.

Espanta-se de ver que, não desperta,
A face em fogo, as tranças em desordem,
Eva se achava como em sonho inquieto.

Levantando-se então sobre um dos braços
Com ternos olhos de cordial afeto,
Inclina-se iminente à linda esposa
Que acordada ou dormida é toda graças.
E com tão meiga voz, como ouve Flora
Quando mimoso Zéfiro a bafeja,
Com mansa mão tocando a mão querida,
Diz-lhe assim devagar: — “Meu bem, acorda,
Dos Céus meu dom melhor e o mais recente;
Acorda, meu deleite sempre novo,
Meu amor, minha esposa idolatrada.
Brilha a manhã, convida-nos o fresco
A gozarmos dos campos as delícias,
Notando como nascem, como crescem
Essas plantas que assíduas cultivamos;
Como se desabrocham perfumadas
As flores na latada das cidreiras;
Do bálsamo e da mirra o puro alambre;
Com que arte e gosto a Natureza pinta;
Como a abelha, pousada sobre as flores,
Delas extrai a líquida doçura.”

A tão meigas razões abre Eva os olhos;
Porém, neles mostrando escrito o susto,
Fita Adão e lhe lança os braços logo:

“Ó tu (lhe diz a bela) em quem minh’alma
Acha o repouso seu, único e todo, —
Tu, minha perfeição e glória minha!
Quanto me alegro de encarar de novo
A face tua e da manhã o brilho!
Esta noite (não tive outra como esta)
Sonhei (se sonho foi)... mas não contigo,
Nem co’os trabalhos de amanhã ou de ontem,
Como costumo; ofensas e desordens,
Ao pensamento meu desconhecidas,
Com tropel horroroso o perturbaram.
Pareceu-me que junto ao meu ouvido
Alguém, com voz tão doce como a tua,
Me chamava a passear, assim dizendo:
“Eva, inda dormes? Vê quão fresco e grato
“O tempo está: tudo é silêncio, exceto
“Onde das sombras o cantor alado,
“Agora já desperto, aos ares solta
“Suavíssimas canções que amor lhe inspira.
“Fulge de todo cheia a Lua agora,
“Com mais sombria luz e assim mais grata
“Adornando das coisas o prospecto,
“Mas em vão se ninguém põe nela os olhos.
“O Céu atento vela para ver-te
“A ti, da Natureza ó doce encanto.
“Todas as coisas vendo-te se alegram;
“Pela beleza tua arrebatadas,
“Cedendo a teu influxo, em ti se enlevam.”
Crendo que me chamavas, logo me ergo;
Mas não te achei, e para achar-te avanço.
Julguei que ia passeando solitária
Por caminhos que súbito corridos
Me levam junto da árvore vedada,
Que mais formosa então se me afigura
Ao brando luar do que ao fulgor do dia:
E, quando absorta os olhos nela cravo,
Reparei que uma alígera figura,
Como as vindas do Céu que a miúdo vemos,
Ali se achava; seus cabelos de ouro
Ambrosia rescendente destilavam;
E contemplando extática entretinha,
Na mesma árvore, vista e pensamento.
“Bela planta de frutos carregada,”
(Então diz-lhe), “ninguém, nem Deus nem homem
“Esse peso se digna aligeirar-te
“E provar teu sabor delícias todo!
“Justo é que assim a ciência se despreze?
“Qual dos dois, ou inveja ou despotismo,
“Nos proíbe gozar tua doçura?
“Proíba quem quiser!... ninguém consegue
“Dos mimos teus, que pródiga me ofertas,
“Invejoso privar-me dora em diante:
“Por que motivo aqui se me apresentam?”
Disse; e com mão audaz e insano arrojo
Apanha e come o proibido fruto.
Tão petulantes vozes escutando
Por tão hórrida ação verificadas,
Gélido susto as forças me decepa.
Mas ela assim de gosto se arrebata:
“Fruto divino, que, de ti tão doce,
“Muito mais doce inda és assim colhido!
“Vedam-te aqui como, segundo entendo,
“Só para os altos Deuses reservado,
“Podendo homens erguer ao grau de Numes.
“Se pela transmissão o bem se aumenta,
“Se nisto nada perde o autor de tudo,
’’Se mais louvores deste modo o incensam.
“Por que dos homens não se fazem Numes?
“Criatura feliz, Eva formosa,
“Participa também do excelso fruto:
“És feliz, muito mais sê-lo inda podes;
“Ninguém mais do que tu de o ser é digno.
“Come, dele, e entre os deuses dora em diante
“Deusa serás, não confinada à Terra,
“Mas, ora no ar subida, ora entre os astros,
“Verás, por teu poder único e próprio,
“A vida que no Céu os deuses passam.
“Que tu também alcançarás como eles.”
Disse, vem para mim, chega-me à boca
Porção do mesmo fruto que apanhara:
Seu grato aroma arrebatou-me tanto
Que libertar-me de o comer não pude.
Súbito vôo coa figura alada
Muito acima das nuvens, donde observo,
Lá baixo a Terra extensa em longo, em largo,
Muito variado, amplíssimo prospecto.
Maravilhei-me da mudança minha,
Do vôo meu a tão remota altura...
Eis, nisto o guia meu desaparece,
E eu caio: o mais se confundiu no sono.
Mas quão alegre despertei agora,
Vendo ser isto fábula sonhada!”

Desta noite Eva assim contava o sonho.
E Adão assim lhe torna pensativo:
“Ó imagem de mim a mais formosa,
Minha querida intrínseca metade,
Dos pensamentos teus também me aflige
A desordem que em sonhos suportaste;
Estranha me parece e me horroriza:
Receio muito que do mal provenha.
Mas donde vem o mal! Em ti não pode
Nenhum haver que vens de origem pura.
Porém reflete que residem na alma
Diversas faculdades subalternas:
Tem domínio a razão sobre elas todas,
E logo se lhe segue a fantasia.
Das externas imagens que lhe mandam
Nossos sentidos, esta às soltas forma
Disparatadas, movediças séries;
E depois a razão pondo-as em ordem,
Estas juntando, separando aquelas,
Da negativa e afirmativa as bases
Para nós determina, a que chamamos
Nossa opinião, conhecimentos nossos.
No tempo em que descansa a Natureza,
Recolhe-se a razão em seu retiro,
E a fantasia mímica bem vezes
Vela para imitá-la; mas sem tino,
Mas julgando as figuras quase sempre,
Obras produz, principalmente em sonhos,
Baralhadas em forma e graus diversos,
(Tanto faz em ações como em palavras).
Creio em teu sonho ver alguns vislumbres
Do objeto sobre que ontem conversámos;
E, inda que tenham adição estranha,
De maldade não dá contudo indícios.
O mal no entendimento do anjo e do homem
Entrar pode, não deles aprovado;
Não deixa assim depois ou culpa ou nódoa:
Por isso espero que acordada fujas
Do que sonhando aborreceste tanto.
Mas não te aflijas, nem teus olhos nubles
Que muito mais risonhos, mais serenos,
Soem ser que a manhã quando formosa,
Começando a sorrir-se, alegra o Mundo.
Levantemo-nos: vamos esmerados
Cuidar das nossas últimas fadigas
Entre fontes e umbrosos arvoredos,
Entre flores que no ar agora expandem
Seus melhores, recônditos aromas,
Juntos por toda a noite em plena cópia
E para ti decerto reservados.”

Assim Adão desassombrar procura
Da esposa bela o coração mavioso:
Ela se desassombra, mas calada
Escapar deixa de cada um dos olhos
O aljôfar de uma lágrima que alimpa
Co’o pronto auxílio da fulgente coma:
Assomam-lhe outras duas, já se inclinam
Das amorosas cristalinas fontes...
Eis Adão com dois beijos lhas enxuga,
Vendo nelas indícios agradáveis
De virtuoso remorso e pio susto,
Que, mesmo na mais cândida inocência,
Teme que alguma ofensa perpetrasse.

Tudo pois serenou, — e vão-se ao campo.
Assim que saem do aposento arbóreo,
Dão co’o prospecto do nascente dia
E do Sol que, arrasado no horizonte,
Balanceando inda o fulgurante carro
Sobre as abas azuis do argênteo oceano,
Vem dardejando ao globo paralelos
Seus raios de ouro que rocia o orvalho;
E mostra na mais ampla perspectiva
Do Éden ditoso a grande Eoa plaga.

Em santa adoração curvam-se humildes:
Suas ferventes orações começam
Que em todas as manhãs com vário estilo
Tinham lugar. Sempre eles abundavam
De estilo vário e de êxtase divino,
Para o Senhor louvar em próprios termos,
Cantando ou recitando de improviso;
Sempre corria em prosa ou doces versos
Dos lábios seus harmônica eloqüência,
Mais sonora que da harpa e do alaúde
As gratas vozes com que realça o canto.

Assim às orações princípio deram:
“Por tuas mãos edificado existe
Belo e maravilhoso este Universo,
Ó Pai de todo o bem, Senhor de tudo!
Tu mesmo — que estupenda maravilha! —
Destes Céus muito acima tu te assentas
Invisível a nós, só vislumbrado
Nas obras tuas de menor valia,
Que, inda assim, teu poder divino mostram
E de tua bondade a cópia imensa.
Di-lo-eis melhor, ó vós, que sempre o vedes,
Anjos, filhos da luz, e que o seu trono
Cereais em coros com gentis concertos
De instrumental e canto, em dia eterno!
No Céu, na Terra, criaturas todas,
Juntai-vos para dar louvor sublime
Ao Primeiro, ao Central, ao Derradeiro,
Ao que fim não terá. nem tem princípio!
Tu, das estrelas a mais bela, que andas
Cobrindo à noite o lúcido cortejo
(Se é que melhor não és da aurora ornato),
Certo penhor do dia, que adereças
Com teus esmaltes a manhã risonha,
Louva-o na tua esfera quando o dia
Na deleitosa madrugada assoma!
Tu, Sol, vida e fanal deste Universo,
Por teu Senhor o reconhece, e entoa
O seu louvor em teu perpétuo giro,
Quando sobes dos mares majestoso,
Quando as alturas do zênite alcanças,
Quando te entranhas nas ocíduas sombras!
Lua, que ora te opões ao Sol nascente,
Ora lhe foges coas estrelas fixas,
Fixas contudo em movediça esfera;
Errantes orbes, que girais fulgentes
Com harmônicos sons, místicas danças;
Proclamai seus louvores inefáveis
Porque extrair a luz soube das trevas!
Elementos, os mais anciãos produtos
Do seio maternal da Natureza,
Que em quádrupla mistão ides voltando
Por multiforme círculo perpétuo,
Que formais e nutris as coisas todas,
Variai em honra do Arquitipo eterno
Sempre um novo louvor, manifestado
Nas que fazeis transformações contínuas!
Névoas e exalações (que ides agora
Dos vaporosos lagos, das montanhas,
Pouco e pouco a subir, pardas ou negras,
Até que o Sol com cercadura de ouro
Vossos debruns lanígeros enfeite),
Do Onipotente em honra levantai-vos:
Ou de enroladas nuvens, raras, densas,
O firmamento diáfano cobrindo, —
Ou da sequiosa terra o grêmio entrando
Em despenhadas, abundantes chuvas, —
Ou subindo, ou descendo, — ao Ser eterno
Não cesseis de tecer louvor exímio!
De o louvar não cesseis nem vós, ó ventos,
Que, já bonança, já tufão medonho,
Soprais dos quatro horizontais quadrantes!
Balanceai vossos cumes, ó pinheiros,
E plantas todas, em sinal de aplauso!
Fontes, que ides correndo e murmurando,
Pronunciai seu louvor nesse murmúrio!
Formai coro, viventes criaturas:
Vós, aves, que dos Céus até as portas
Subis trinando, seu louvor excelso
Levai nas asas e no etéreo canto!
Vós todos quantos vos moveis nas águas,
Vós todos quantos percorreis a terra,
Grandes, pequenos, mínimos, enormes,
Testemunhai se, de manhã, de tarde,
Eu deixo de em meu canto repeti-lo
Fazendo ouvir seu nome sacrossanto
Ao monte, ao vale, à fonte, à luz, às sombras!
Salve, Senhor de tudo! Sê grandioso
Para todos os bens fazer-nos sempre;
E, se a noite deixou haver-se a ocultas
Juntado contra nós algum desastre,
Dispersa-o, como a luz dispersa as trevas.”

Tais do par inocente as preces foram:
Logo nas almas suas se instauraram
O sossego habitual, a paz segura.

Entram com zelo nas rurais fadigas
Por entre folhas, sob ameno orvalho:
Ali uma ala de árvores de fruto
Nímio longos estende opressa os ramos,
E os convida a que próvidos lhes vedem
Os estéreis abraços: noutro sítio
Estão videiras para unir-se aos olmos
As quais, em torno deles alongando
Seus núbeis braços, levam-lhes o dote
Nos adaptados cachos com que enfeitam
Da árvore estéril a pomposa rama.

Empregados assim os vê piedoso
O Rei dos altos Céus. E a si chamando
Rafael, esse espírito sociável
Que se dignou viajar co’o bom Tobias
E válido lhe fez o seu consórcio
Coa virgem sete vezes já casada,
“Rafael”, — diz-lhe então, — “vê como no Éden
Desordens fez Satã saído do Orco
Atravessando o tenebroso Abismo:
Turbou de noite os pais da prole humana.
Neles de um golpe quer com trama astuta
Aniquilar a inteira humanidade.
Vai pois ao globo: com Adão conversa
Toda a metade do presente dia,
Conforme amigos dois têm por costume.
Da meridiana calma fugitivo
À sombra da frondífera latada
Achá-lo-ás co’o descanso, ou coa comida
Deste dia os trabalhos reparando.
Mostra-lhe ao vivo o seu ditoso estado:
Faze-lhe ver que inteiramente livre
Foi essa dita em seu poder deixada,
Deixada à discreção de seu arbítrio;
Mas que é, por livre ser, também mudável.
Avisa-o de que nunca se desvie
Julgando-se em perfeita segurança.
Conta-lhe o p’rigo seu e donde se urda;
O inimigo que tem; como do Empíreo
Foi ele ultimamente despenhado;
E que conjura agora a ver se expele
De semelhante estado venturoso
A estirpe da nascente humanidade
Não por força, que força a opor-lhe havia,
Mas por vis seduções e arteiro engano.
Tudo lhe explana a fim que não alegue,
Se transgredir por contumaz vontade,
Somente por surpresa ser vencido,
Que avisado não foi de precaver-se.”

O Pai Onipotente assim se exprime
Cumprindo tudo que a justiça pede.

Nem mais se demorou o alado arcanjo,
Depois que recebeu sua mensagem:
Dentre milhões de espíritos celestes,
Onde ele em pé estava respeitoso
Nas esplêndidas asas embuçado,
Logo se ergue e dos Céus no âmbito voa:
Dão-lhe lugar por toda a estrada Empírea,
Dividindo-se então dos lados ambos,
As séries dos angélicos poderes:
Chega dos Céus às portas que, rodando
Em quícios de ouro, por si mesmo se abrem
Imensas como cumpre às grandes obras
Que o Supremo Arquiteto fabricara.

Nuvem nenhuma ali, nenhuma estrela
Para lhe obstar a vista se entrepunha:
Posto que mais pequena, assim distinta,
Vê, como outro qualquer dos ígneos astros,
A Terra, — e aos montes todos sobranceiro,
Todo delícias, o jardim do Eterno.
(Assim de Galileu o vidro insigne
De noite observa menos luminosos
Os montes e as regiões cridas na Lua:
Assim o nauta vê Delos ou Samos
Mostrando-se entre as Cícladas primeiro
À maneira de mancha nebulosa).

Dali se atira a vôo quase a prumo,
E, pelo vasto etéreo firmamento,
Entre mundos e mundos corta o espaço,
Batendo o dócil ar com asas firmes,
Seja forte ou macio o dúbio vento.

No alcance entrando das aéreas águias,
Parece às aves todas uma fénix
Como aquela que (a só na espécie sua)
Voa direita à nobre, egípcia Tebas,
Para depositar as próprias cinzas
Do fulgurante Sol no templo augusto.

Eis do Éden pousa no oriental rochedo,
E, recobrando a prístina figura,
Qual é se mostra serafim alado:
(Assim consta que foi de Maia o filho).
O corpo divinal seis asas lhe ornam:
As duas que dos largos ombros saem,
Cobrem-lhe o peito em teor de régio manto:
Do meio corpo as duas lhe decoram
Toda a cintura té chegar-lhe aos joelhos
Com penas de ouro e celestiais matizes
Larga zona estrelada afigurando:
Dos pés as duas com extrema graça
Lhos ataviam, ostentando airosas
O etéreo Azul, a púrpura brilhante:
Logo sacode as asas com que ao longe
Lança nos ares celestial fragrância.

Então dos anjos todos as coortes,
Que as avenidas do jardim guardavam,
Conhecem-no e lhe acatam respeitosos
A excelsa jerarquia, reputando
Ser a mensagem sua de alta monta.

Assim que passa as tendas fulgurantes,
Vai avançando nos ditosos prados,
De nardo, mirra, e cácia entre lamedas,
De aromas deliciosos perfumadas.
Ali ria-se ingênua a Natureza
Como em sua mais bela juventude,
E ostentava com livre exuberância
Os seus mimosos virginais caprichos,
Mostrando-se mais suave, inda que inculta,
Do que depois o foi coas regras da arte:
Ali sem termo tudo eram delícias.

Já das especiarias na floresta
Avista-o Adão que de seu fresco albergue
Sentado à porta estava, quando erguido
No zênite disparava o Sol a prumo
Seus mais férvidos raios sobre a Terra
Que no íntimo introduz calor mais vivo
Do que havia mister a espécie humana;
E Eva lá dentro, às costumadas horas,
Preparava o jantar com doces frutos
Que vista, olfato, e gosto lisonjeiam, —
Não esquecendo os líquidos nectários,
O leite, os sumos vegetais mimosos
Que tão gratos a sede lhes mitigam.

Então assim Adão por ela chama:
“Eva, depressa vem: olha quão lindo
Por entre aquelas árvores Eoas
Para nós se encaminha um ser ilustre:
Parece a aurora que ao mei’-dia se ergue.
Talvez nos traz do Céu mensagem grande;
Nosso hóspede hoje ser talvez se digne.
Vem tu depressa; as provisões guardadas,
Põe-nas todas aqui em lauta mesa:
Recebamos assim com justas honras
O núncio celestial que nos visita.
Bem devemos dos bons por nós gozados
Dar a quem no-los deu; com mão profusa
Os profusos presentes repartamos, —
Aqui onde jucunda a Natureza
Os seus férteis produtos multiplica, —
Onde eles.. quanto uns mais se vão colhendo,
Tanto mais abundantes nascem outros,
E a que não os poupemos nos convidam.”

Eva lhe torna: — “Adão, primor da Terra,
Feito, inspirado pelo imenso Nume,
Mui poucas provisões reservam-se onde
Nas quadras todas sazonados frutos
Em pinha pendem dos curvados ramos:
Os que ficam melhores quando secos
O nímio suco perdem, sós eu guardo.
Mas dou-me pressa e colherei cuidosa
Das balseiras, das árvores, das plantas,
Os frutos de sabor o mais mimoso
Para obsequiar dos Céus o hóspede insigne,
De modo tal que vendo-os assegure
Que Deus como no Céu também na Terra
Os benefícios seus prodigaliza.”

Disse e parte. Levando a idéia imersa
Nas civis cerimônias da hospedagem,
Examina de que ordem, de que escolha
Elegância mais fina lhe resulte,
De sorte que os sabores não se arrisquem
A confundidos ser por não bem juntos;
E, com perita gradação dispostos,
Coloca os frutos a melhores sempre.

Então começa: os vegetais pesquisa
Todos que nutre a terra, mãe de tudo,
Nas plagas orientais e ocíduas plagas,
Na Líbia e Ponto e nos vergéis de Alcínoo:
De todas as espécies colhe frutos:
Nuns é felpuda a pele e noutros lisa;
Estes têm casca dura, aqueles vage:
Põe-nos depois com profusão na mesa
Em forma de pirâmides vistosas.

O doce sumo de diversas bagas,
Dos rubros cachos o inocente mosto,
Para gratas bebidas ela espreme;
E, as gostosas pevides machucando,
Nectários cremes com primor prepara,
Deles enchendo convenientes urnas
Que a Natureza próvida lhe oferta.

O pavimento então junca de rosas
E de ramos que aroma ao longe espalham
Sem que no fumo lho desprenda o fogo.

Já para receber o hóspede augusto
Se adianta o pai dos homens: por cortejo
Leva inocência, perfeições, virtudes:
Em si mesmo possuía a sua pompa
Mais solene que o insípido aparato
De que os príncipes vãos cercar-se folgam
Quando um vaidoso trem, longo, opulento,
De pajens áureos, de corcéis de estado,
Ofusca a multidão embevecida.

Assim que dele Adão se chega perto,
Faz-lhe submissa, afável reverência,
Não com temor mas co’o respeito próprio
A outra mais elevada jerarquia.
“Prole dos Céus (lhe diz), — que tanta glória
Só pode tê-la um ser nos Céus nascido, —
Já que, dos tronos empireais descendo,
Estes sítios honrar te dignas hoje,
Serve-te de fazer-nos companhia
Nesta ampla terra a nós por Deus doada,
Além entrando no vergel sombrio
Onde os mais doces frutos te ofereço
Neste agradável Éden produzidos,
E descansas também até que abrande
Da meridiana calma a força ingente,
E pela fresca tarde o sol decline.”

Meigo o poder angélico responde:
“Para isso venho, Adão; a tua essência,
Este lugar encantador que habitas,
Podem decerto convidar a miúdo
Espíritos do Céu a visitar-te.
Entremos, sim, no teu vergel sombrio:
Hoje tenho por minha a inteira tarde.”

Encaminham-se à câmara silvestre
Que, parelha à latada de Pomona,
De flores se orna perfumando os ares.

Eva, em sua nudez que não conhece,
Mostrando-se mais linda, — mais amável
Que uma Napéia ou que essa ínclita Deusa
Das três que no Ida a Fábula coloca
Pleiteando nuas qual será mais bela, —
Esperava de pé, fora da porta
Para cumprimentar o hóspede ilustre:
Não precisa de véu, virtudes traja;
Nenhuma incasta idéia a cor lhe muda.

O anjo lhe deu a saudação sagrada
Com que se apresentou, passadas eras,
À ditosa Maria, Eva segunda.

“Salve (lhe diz), ó mãe da humana prole!
O inteiro Mundo povoarão teus filhos
Em número maior que os vários frutos
Nas árvores do Eterno produzidos,
Quais os que ostentas nesta mesa agora.”

Amplo quadrado de relvosa leiva,
De musgosos assentos circundado,
Era a mesa: em toda ela frutos, flores
O outono e a primavera em montes punham.

Por algum tempo em conversar se aprazem
Sem temer que o jantar se lhes esfrie,
Até que deste modo Adão se expressa:

“Hóspede celestial, comer te digna
Destes dons com que Deus nos cria e nutre;
Ele, de todo o bem perfeita origem,
Faz com que imensos os produza a terra
Para alimentos e delícias nossas.
Talvez que para angélicas essências
Sejam eles comidas desgostosas:
O que eu sei é que a todos os franqueia
O nosso único Pai, autor de tudo.”

“Por isso mesmo (o arcanjo assim lhe torna)
Pode pelos espíritos mais puros
Ser achado agradável alimento
O que Deus cria para dar ao homem,
Que espiritual porção em si encerra.
E, na verdade, as celestiais substâncias
De manjares tão puros se sustentam:
Demos portanto a Deus louvor contínuo.
A angelical essência, a essência humana,
Ambas têm faculdades sensitivas,
Em virtude das quais possuem ambas
Ouvido, vista, gosto, cheiro, tato;
Corpóreos alimentos se assimilam
E em substância incorpórea enfim os mudam.
Quanto é criado nutrição exige:
Servem os alimentos mais grosseiros
De outros alimentar que são mais puros:
A terra nutre o mar; o mar e a terra
O ar nutrem ambos; o ar os astros nutre.
Quando da Lua, que por ser mais baixa
Obtém primeira exalações terrenas,
O semblante redondo of’rece manchas,
Crassos vapores são que inda não foram
Na substância da Lua convertidos;
Também ela de seu mádido globo
Não deixa de exalar algum sustento
Para esses orbes que mais alto giram.
O Sol, que fulgurante se reparte
Por todos eles, deles todos colhe
Nutritiva exalada recompensa
E haure do Oceano as vespertinas ondas.
Se lá nos Céus as árvores da vida
Com frutos ambrosiais se condecoram,
E almo néctar os pâmpanos produzem, —
Se nas manhãs o orvalho sacudimos
Dos ramos feito mel, e o solo achamos
De doces grãos de pérolas coberto, —
Contudo, aqui seus dons o Eterno mostra
Com tanta variedade e tanto brilho
Que podem co’os do Empíreo comparar-se:
Deles comer portanto não duvido.”

Sentam-se e a refeição começam logo.
Sombra, ilusão não era o anjo comendo,
Fácil glosa comum da Teologia;
Com gostoso apetite saboreia
As iguarias que depois transmuta
Em substância celeste, transpirando
Quanto não pôde nela assimilar-se:
(Desta maneira o empírico alquimista
Pode mudar, ou crê que mudar pode,
Co’o fogo do carvão fuliginoso,
Brutos fragmentos dos metais mais baixos
Em nativas porções de ouro brilhante).

Da mesa por então fazia as honras,
E de suaves licores arrasava
Os copos que amiudados se bebiam,
Formosíssima e nua a afável Eva.
Celestial inocência! A tal aspecto
Se em amor abrasados se sentissem
De Deus os filhos, dera-lhes desculpa:
Tais corações porém rutilam castos;
Nem conhecem sequer o que é ciúme,
Esse inferno de amantes ultrajados.

Estando já saciados sem excesso,
Grande e súbita idéia a Adão ocorre
De aproveitar o ensejo que lhe é dado
Neste feliz colóquio, — perguntando
O que há por cima deste nosso Mundo,
Que essências são as que no Céu habitam,
Cuja excelência e majestoso aspecto,
Cujos poderes e esplendor divino
Tudo quanto era humano superavam.
Assim pois, com palavras cautelosas,
Ao mensageiro empíreo ele se expressa:

“Habitante do Céu, conheço agora
Quanto honras o homem neste teu obséquio,
Entrar querendo no seu teto humilde
E com ele comer terrenos frutos,
Manjar não de anjos mas por ti aceito
Tão boamente que se crê não comes
Nos celestiais festins com mais vontade.
Dos da Terra os do Céu quanto diferem!”

O alígero magnate a Adão responde:
“Existe só um Deus Onipotente
Que tudo fez, de quem procede tudo;
Regressam-lhe para ele as coisas todas
Quando se não depravam, mas perfeitas
Foram por seu poder todas criadas.
Não há mais que uma só matéria-prima;
Pode variar de consistência e formas,
E em diferentes graus alcançar vida
Nos entes que a viver são destinados.
Quanto eles mais do Eterno se aproximam,
Ou quanto mais a aproximá-lo tendem,
Tanto mais se refinam, mais se apuram:
Cada um gira na esfera que lhe é própria
Té que o corpo em espírito se muda
Nos termos às espécies designados.
Das raízes assim se desenvolvem
Os verdes ramos menos densos que elas;
Destes as folhas mais ligeiras nascem,
Das quais a flor brilhante se sublima
Recendentes perfumes exalando:
Dela, por graus de majestosa escala,
Forma-se o fruto, nutrimento do homem.
Do assimilado fruto então se extrai
Substância que, por ser sutil e ativa,
De espíritos vitais possui o nome, —
Da qual outra mais tênue se origina
Sendo animais espíritos chamada;
Desta requinta-se outra inda mais nobre
E intelectuais espíritos expressa, —
E de suas funções faz que resultem
Sentidos, fantasia, entendimento,
Cujo complexo constitui a vida
Donde emana a razão, essência da alma.
No homem terreno, no celeste arcanjo,
As almas são iguais por natureza;
Nos graus de perfeição porém diferem:
Pelo discurso enquanto o homem pesquisa,
O anjo pela intuição longe penetra.
Maravilha não é que eu não recuse
O que bom para vós achou o Eterno,
E que, qual vós o converteis na vossa,
Eu o transmute na substância minha:
Tempo virá, sem dúvida, em que os homens
Cheguem a ter a perfeição dos anjos,
E os manjares celestes lhes convenham:
Talvez, mesmo co’os térreos comestíveis,
Seus corpos em espíritos se mudem,
E, melhorados pelo andar do tempo,
Ao éter, como nós, subam alados,
Morando ou no éter, como for seu gosto,
Ou nas plagas do Empíreo rutilantes, —
Se obedientes à lei vos conservardes
E mantiverdes sempre inteiro e firme
O amor do imenso Deus de quem sois obra.
A dita em que viveis gozai no entanto:
Maior por ora não vos é possível.”

Replica-lhe o patriarca dos humanos:
“Espírito benévolo, bem mostras
Por onde o juízo nosso se encaminha,
E por que escala a Natureza marca
Os graus que, desde o centro dirigidos,
Vão terminar do círculo nas orlas:
Por ela, como no Universo vimos,
Subir podemos té de Deus ao trono.
Mas o que impõe a cláusula que ajuntas
— Se obedientes à lei vos conservardes? —
Nós desobedecer também podemos?
Negar devido amor é-nos possível
Àquele que nos fez do pó da terra
E neste Éden nos pôs onde gozamos
A mor ventura que entender é dado
À fantasia do desejo humano?”

“Filho do Céu e Terra (o anjo responde),
És devedor a Deus da tua dita;
Mas de ti pende a permanência dela:
Grava bem na atenção isto que escutas.
Tua obediência cauteloso guarda:
Nela a caução da tua dita é posta.
Deus criou-te perfeito em tua espécie;
Mas imutável, não. Deu-te bondade,
Mas conservá-la pôs em teu arbítrio.
Fez-te livre; a vontade não tens presa
Ao fado imoto, à precisão restrita.
Deus quer de nós serviços voluntários:
Nele os obrigatórios nunca encontram
Benigna aceitação, honroso prêmio.
E como podem corações não livres
Provar que servem por vontade ou força,
Eles... cujo querer segue o do fado
E não lhe é dado ter diversa escolha?
Mesmo a dita que temos nós os anjos,
Que estamos juntos ao empíreo trono,
Tem, como a vossa, de durar somente
Enquanto na obediência persistirmos.
Sem obediência a dita se evapora.
Livres servimos porque amamos livres;
Podemos não amar, e amar podemos;
Se amamos, nossa dita continua;
Desgraça temos, se de amar deixamos.
Pela desobediência alguns caíram
Das alturas do Céu no Orco profundo:
Queda fatal, que de eternais delícias
Para sempre os lançou em crus tormentos!”

Assim torna-lhe Adão: — “Tuas palavras
Tenho escutado, preceptor divino
Com maior atenção, com mais deleite,
Do que ouço os cantos que, na amena noite
Pelos ares trinando docemente,
Os coros querubínicos entoam
Do cimo desses montes circunstantes.
Não sabia que livres se criaram
As minhas obras, a vontade minha;
Contudo, nunca me esqueci que devo
Amar o autor de tudo, e ser exato
Em cumprir seu preceito único e justo:
Razão e instinto assim me encaminhavam
E sempre nesse teor serão meus guias.
Mas do Céu os sucessos, que apontaste,
Em mim alguma dúvida promovem;
Por isso tanto mais ouvir desejo
Deles a narração, se for teu gosto;
Na verdade, será ela estupenda,
Digna de ouvir-se com mudez sagrada.
Do dia espaço largo ainda nos resta
Pois que o Sol, tendo feito meio giro,
A outra metade começou agora
Dos Céus na ampla extensão que nos circunda.”

Assim Adão pediu. Depois o arcanjo,
Fazendo curta pausa, assim começa:

“De árdua tarefa, de elevado assunto,
Ó primeiro dos homens, me encarregas.
A sentidos humanos como posso
Referir as proezas invisíveis
Por guerreiros espíritos obradas?
Sem dor como hei de relatar a ruína
De tão gloriosos, tão perfeitos anjos,
Enquanto firmes na obediência estavam?
Do outro Mundo como hei de expor segredos,
Que talvez revelá-los se proíba?
Porém dispensa justa se confere
Já que dela o teu bem tanto precisa.
Porque humanos sentidos me percebam
Expressar-me-ei, assemelhando aos corpos
As formas dos espíritos: e atende
Que é dos Céus uma sombra o orbe da Terra;
Parecem-se entre si as coisas de ambos
Muito mais do que tu julgá-lo podes.”

“Quando inda não havia este Universo
(Reinando o rude Caos onde agora
Os Céus se movem e descansa a terra
Sobre seu próprio centro equilibrada),
Um dia (pois que o tempo unido ao moto
Abrange a eternidade, — e tudo mede
Por presente, pretérito e futuro),
Nesse dia em que fausto começava
Um dos anos amplíssimos do Empíreo,
Foram, de Deus por citação solene,
Chamados os exércitos dos anjos
Que, das regiões do Céu todas e logo,
Vêm, e ao redor do trono onipotente
Em ordem fulgurante se colocam,
Seus grandes generais trazendo à testa.
Dez milhões de bandeiras, de estandartes,
Pelo âmbito se erguiam das colunas
E, fuzilando nos sublimes ares,
Distinguiam os graus das jerarquias:
Também nos seus tecidos refulgentes
Divisas sacrossantas se estampavam,
Com veementes expressões mostrando
Do seu amor e zelo os puros atos.
Do exército depois que a massa imensa
Em círculos concêntricos foi posta,
O Poderoso Pai, tendo à direita
O Filho que existido sempre havia
Da Bem-aventurança no almo seio,
Do tope da flamígera montanha,
Que inundações de luz todo encobriam,
Dirigiu ao congresso estas palavras:

— “Ouvi vós todos que da luz sois filhos,
“Dominações, virtudes, principados,
“Poderes, tronos: escutai atentos
“Este decreto meu irrevogável.
“Hoje nasceu de mim este que vedes,
“E meu único Filho aqui o aclamo;
“Ungido tenho-o neste sacro monte:
“Vosso chefe o nomeio. Hão de as falanges
“Dos Céus sublimes adorá-lo todas,
“E hão de seu soberano confessá-lo:
“Por mim mesmo o jurei. Ficai unidos
“Sob o reinado seu em dita eterna,
“Quais de uma alma porções indivisíveis.
“Quem negar-se ao seu mando, ao meu se nega;
“Cerceia toda a união que a mim o enlaça:
“Nesse dia será fora do Empíreo
“E da visão beatífica expulsado,
“E cairá na escuridão eterna,
“Golfo profundo, horrível, tormentoso,
“Sem dó, sem redenção, sem fim, sem pausa.”

O Eterno assim falou. De quanto ouviram
Cheios de almo prazer parecem todos;
Parecem todos... mas nem todos o eram!
Este dia, que ombreia os mais pomposos,
Passam-no inteiro em cânticos, em danças
Do sacro monte em torno dirigidas, —
Mística dança, igual à que executam,
No âmbito da estrelada, azul esfera,
Os astros que em si tem, fixos e errantes,
No giro seu tecendo labirintos
Intricados, excêntricos, confusos,
Mas que a tanto mais ordem se sujeitam
Quanto mais se afiguram fora de ordem.
Nessas danças com tanta melodia
As suas vozes divinais adoçam,
Que o mesmo Deus ouvindo-as se deleita.
À tarde (nós também manhã e tarde
Temos no Empíreo, — não que as precisemos,
Mas como deliciosa variedade)
Passam da dança a opíparo banquete:
Em círculos, como eles se formavam,
Erguem-se as mesas que se encheram logo
De angélicos manjares, espumando
Em vasos de ouro que abrilhantam gemas
O suavíssimo néctar rubicundo,
Que das vinhas do Céu emana em ondas.
Sobre flores mimosas repousando,
Todos coroados das mais ricas flores,
Saciam-se da ambrosia e puro néctar,
Mas sem que demasias lhes provoquem
O que de excessos resultar costuma:
Lá de imortalidade e de alegria
Bebem tragos dulcíssimos e longos;
E o bondadoso Rei, que ali presente
Com larga mão lhes dá tão gratos mimos,
Alegra-se de ver que eles se alegram.
Nisto a noite, coas nuvens exaladas
Do alto monte de Deus que ao longe verte
Luz e sombra, dos Céus na face pura
Torna o brilho em crepúsculo agradável:
Ela, que ali não traja o véu mais negro,
Já de rosa os orvalhos dispusera
Para o sono que todos necessitam,
Excetuando só Deus que nunca dorme.
Sobre vasta planície, átrios do Eterno,
Mais vasta que deste orbe a inteira face
Se reduzida a terrapleno fosse,
A multidão angélica, dispersa
Em mós de vário vulto, ali acampa
Pelas margens das vívidas correntes
Que da vida entre as árvores sussurram.
Pavilhões, tabernáculos celestes
Armam-se de repente sem quantia,
Onde gozam do sono da inocência
Pelas auras mimosas bafejados, —
Exceto os que em redor do Empíreo trono
Por toda a noite em turnos se revezam,
Do costume cantando os doces hinos.
Porém com este fim Satã não vela
(Tal hoje o chamam; seu primeiro nome
Não mais foi desde então nos Céus ouvido):
Ele que de um dos principais arcanjos
Tinha o lugar, se o principal não era,
Grande em poder, no grau, na estima grande,
Encheu-se de atra inveja aquele dia
Em que o Filho de Deus, com toda a pompa
Feito, aclamado por seu Pai imenso,
Messias foi, universal monarca:
E em seu orgulho suportar não pôde
Tal vista, idéia tal, que o desluziam.
Respirando desprezo e ardente raiva,
Decidiu, tão depressa à meia-noite
(Tempo mais próprio do silêncio e sono)
A hora escura bater a martelada,
Ir-se com todas as legiões que manda
E deixar do alto Deus o trono augusto
Em desprezo, sem culto e sem louvores.
Então o que imediato em mando lhe era
Manso acorda, e em segredo assim lhe fala:
— “Dormes tu, companheiro? Como podes
“Os olhos teus pregar? Já te não lembras
“Do decreto que inda ontem proferido
“Nos foi do Eterno pelos próprios lábios?
“Soías-me confiar teus pensamentos,
“E eu te fazia o mesmo: éramos ambos
“Um só; mútua amizade nos unia.
“Por que fatalidade esse teu sono
“Hoje te faz desconcordar comigo?
“Tu vês que novas leis nos são impostas:
“Novas leis de um monarca sempre devem
“Nos vassalos criar idéias novas,
“E promover debates que examinem
“Os resultados que seguir-se podem:
“Aqui dizer-te mais não é prudente.
“As imensas miríades convoca
“De quem somos os chefes e lhes dize
“Que, antes de retirar-se a noite umbrosa,
“Com pressa eu parto, — e que por ordem minha
“As inteiras falanges, que floreiam
“Seus estandartes sob o meu comando,
“Para os quartéis boreais súbito voem.
“Ali as festas preparar nos cumpre
“Com que o nosso monarca, o grão Messias,
“E suas novas ordens recebamos:
“Passar por entre as jerarquias todas
“E dar-lhes leis tenciona vir em breve
“Com triunfante pompa o Nume-Filho.”
Deste modo falou o falso arcanjo;
E perverso infundiu danoso influxo
Do companheiro no ânimo imprudente,
Que logo todos os poderes chama
Subalternos a si, cada um à parte.
Conta-lhes que antes de acabar a noite
O grande chefe em movimento punha
Seu estandarte: inculca-lhes arteiro
As noções que lhe foram sugeridas,
E ambíguas expressões que o ciúme ateiem
Lança entre eles a ver se assim os sonda,
Ou se a fidelidade lhes perverte.
Subitamente obedeceram todos
Ao sinal costumado, à voz do chefe,
Porque o seu nome, a dignidade sua,
Eram, sem hesitar, no Empíreo grandes.
O rosto seu, igual da Estrela-d’Alva
Que pelo firmamento pastoreia
Das estrelas o fúlgido rebanho,
Com malicioso embuste os alicia
E para o crime seu consigo arrasta
A terça parte das celestes hostes.
De Deus no entanto os olhos, que discernem
Os pensamentos mesmo os mais ocultos,
Viram (por entre as lâmpadas douradas
Que fronteiras ao sólio ardem de noite,
Mas não delas co’o auxílio) levantar-se
Fora do sacro monte a rebeldia:
Viram por quem e como se espalhara
Entre os filhos aspérrimos da aurora,
E as multidões que então bandeadas eram
Para ao decreto augusto se lhe oporem.
Deus, sorrindo-se, disse ao Filho amado:
— “Filho, em quem jubiloso estou olhando
“Em seu inteiro brilho a minha glória,
“De toda a minha potestade herdeiro,
“Agora mesmo assegurar nos cumpre,
“Lançando mão das invencíveis armas,
“O nosso império, a divindade nossa,
“A nossa onipotência sempiterna.
“Tem tal audácia o rebelado imigo
“Que intenta a par do nosso erguer seu trono
“Nas plagas extensíssimas do Norte:
“E, inda não satisfeito, premedita
“Decidir por batalha, em vasto campo,
“Nosso poder e jus que base tenham.
“Convém-nos ponderar e à pressa opor-lha
“Toda a força que fiel se nos manteve:
“Tudo empreguemos na defesa nossa
“A fim que por surpresa não percamos
“Este monte, este império, este alto sólio.”
Com aspecto sereno, quieto e puro,
Com inefável resplendor divino
Ao Pai o Nume-Filho assim responde:
— “Onipotente Pai, razão te assiste
“Para te rires de teus vãos contrários
“E seguro tratares com desprezo
“Seus tumultos e ardis, inúteis, fátuos.
“A sua rebeldia dá-me glória,
“Que por seu ódio tanto mais se ilustra.
“De todo o teu poder quando me virem
“Para vencer sua altivez armado,
“Conhecerão pelo fatal evento
“Se menos que eles ser nos Céus me cumpre
“Ou se impor sei o jugo a tais rebeldes”
Disse. No entanto já Satã mui longe
Tinha voado veloz coas forças suas,
Exército que em número supera
As estrelas que fulgem na alta noite,
Ou as gotas do orvalho matutino
Na flor, na planta, pelo sol tornadas
Em pérolas que estrelas afiguram.
Passam regiões e impérios poderosos
De tronos, serafins e potestades,
Três jerarquias mas em grau diversas
(Regiões, às quais se o Mundo teu comparas,
Não é mais amplo do que vês este Éden
Comparado coa terra e extensos mares
De esféricos a plano reduzidos).
Aos limites por fim chegam do Norte:
Então entra Satã seus régios paços
Que, edificados sobre ingente serra,
Afiguram, de longe sendo vistos,
Em cima de montanha outra montanha.
Constam de cubos de diamante e de ouro
As torres, as pirâmides, os muros,
Que de Satã compõem o palácio,
Nome que no dialeto dos humanos
Há de dar-se a parelhas estruturas:
Pouco antes o orgulhoso o construíra,
Querendo ter com Deus toda a igualdade,
Pelo modelo do sagrado monte,
Onde foi o Messias proclamado
Do Céu perante as jerarquias todas:
Então Monte da Aliança o nominara.
Os exércitos seus ali ajunta,
Pretextando que assim o dispusera
Para se concertar com que alta pompa
Seria recebido o grão monarca,
Que ia chegar ali em prazo breve.
E com sutis calúnias procurando
Toldar todas as luzes da verdade,
Fere-lhes com tais modos os ouvidos:
— “Dominações, virtudes, principados,
“Tronos, poderes, se são vossos inda
“Estes imensos títulos pomposos,
“Se acaso inda não são nomes inúteis:
“Há quem, por um tirânico decreto,
“Todo o poder a si vem arrogar-se
“Fazendo dele horrível monopólio,
“E, sob o nome de monarca ungido,
“Eclipsa nossa glória e privilégios.
“Toda esta marcha rápida, noturna,
“Esta convocação acelerada,
“Promove-as ele, a fim de vermos como,
“Com que pompas nos cumpra recebê-lo
“Quando vier extorquir de nós — escravos! —
“Tributo genuflexo agora imposto,
“Vil prostração, que feita ante um já cansa,
“Que feita a dois se torna insuportável!
“E não pode outro arbítrio mais sisudo
“Dar-nos mais elevados pensamentos,
“Que a sacudir tal jugo nos ensinem?
“Curvareis vosso colo majestoso?
“Súplice joelho dobrareis humildes?
“Decerto o não fareis, se não me engano,
“Que vosso jus por vós é conhecido:
“Bem sabeis que no Céu nascidos fostes,
“No Céu antes de vós nunca habitado;
“E, se entre vós não sois iguais de todo,
“Iguais contudo sois na liberdade:
“As várias gradações, as jerarquias
“Da liberdade os foros não estragam,
“Antes maior firmeza lhes transmitem.
“Quem dentre iguais na liberdade pode
“Por direito ou razão alçar um cetro
“Sobre consócios seus, posto mostrarem
“Menor poder em si, menos fulgores?
“Não temos leis e nem por isso erramos;
“E quem tais leis impor-nos pode ou deve?
“Ninguém pois pode ser monarca nosso,
“Nem de nós exigir tão vil tributo
“Em desprezo dos títulos excelsos,
“Que atestam destinada nossa essência
“Para ser dominante e não escrava.”
Assim tão virulento, audaz discurso
Foi sem oposição todo escutado.
Mas entre os serafins eis se levanta
O impávido Abdiel; ninguém mais que ele
Adorava com zelo a divindade
E as ordens soberanas lhe cumpria.
Severo e santo zelo então o abrasa,
E assim a seu furor lhe solta as rédeas:
— “Oh blasfêmia! Oh soberba! Oh falsidade!
“No Céu ninguém supunha ouvir tais vozes,
“Principalmente a ti, traidor ingrato,
“Que além de teus iguais tão alto te ergues!
“E ousas tu, pronunciando ímpio reproche,
“Condenar o decreto sempre justo
“Em que Deus legislou com juramento
“Que a seu único Filho (a quem dotara
“Co’o cetro real, de seu poder insígnia)
“O joelho dobrariam reverentes
“Dos vastos Céus as jerarquias todas
“Confessando-o legítimo monarca?!
“Tachas de injusto, e grandemente injusto,
“Que se liguem com leis essências livres?
“Que sobre iguais o igual impere, reine,
“Um sobre todos com poder infindo?
“Mas serás tu que leis a Deus promulgues
“E que da liberdade os pontos queiras
“Com ele disputar, — Ele que pôde,
“Só porque o quis, seu gosto sendo a norma,
“Fazer-te a ti qual és, quais são do Empíreo
“Todos os coros, os poderes todos,
“A cada um sua essência prescrevendo?!
“Pela experiência nossa doutrinados
“Imutável e bom o conhecemos;
“E como, sendo bom, coarctar quisera
“O nosso bem, a nossa dignidade?
“Mas... longe disto, e, como previdente,
“Vai de alto chefe às ordens mais unir-nos
“Subindo a mais feliz o nosso estado.
“Mas concedo-te agora como injusto
“Que sobre iguais o igual impere, reine;
“Contar-te-ás, inda que és glorioso e grande,
“Ou juntos num dos Céus os coros todos,
“Como igual do Unigênito do Eterno?
“Por ele, como por seu Verbo, tudo
“O Pai fez, fez-te a ti: formou por ele
“As essências do Céu cheias de glória;
“E, para a glória acrescentar-lhes inda,
“Em vários graus as dividiu brilhantes,
“Chamando-lhes virtudes, principados,
“E tronos, e domínios, e poderes.
“Pelo reinado seu o Nume-Filho,
“Longe de nos toldar, mais nos ilustra:
“Se é nosso chefe, é companheiro nosso;
“Dá-nos as mesmas leis que nele imperam:
“E as honras todas que lhe forem dadas
“Com brilho ingente sobre nós redundam.
“Cessa pois teu furor, tua impiedade;
“Cessa pois de iludir os que te escutam:
“Cuida, sem mais demora, de aplacares
“A torva indignação do Pai, do Filho,
“Cujo perdão se obtém pedido a tempo.”
O fervoroso serafim dest’arte
O zelo seu desprega; mas não houve
Quem apoio lhe desse, — e foi julgado
Sem razão, disparate, desatino.
Com isso folga o apóstata perverso,
E com maior audácia assim se explica:
— “Nós temos sido, dizes tu, formados
“Em tarefa que o Pai transfere ao Filho,
“De secundárias mãos sendo feituras?
“Que nova descoberta! essa doutrina
“Desejava eu saber donde a deduzes.
“Quem viu dos Céus fazer a imensa mole?
“Lembras-te tu de como foste feito,
“De quando aprouve a Deus assim formar-te?
“Não conhecemos época nenhuma
“Em que não existíamos como hoje;
“Ninguém antes de nós não conhecemos.
“Quando chegou a sempiterna massa
“Em seu giro fatal ao grau preciso,
“Fermentou: dela assim os Céus brotaram,
“E deles nós; intrínseca virtude
“Nos gerou, nos ergueu da essência própria.
“Nós somos pois do Céu etéreos filhos;
“Em nós mesmos reside a força nossa:
“A nossa própria destra vai ditar-nos
“As mais altas ações e pôr patentes
“Quem de ser nosso igual mereça a fama.
“Verás então se nós nos resolvemos
“A aplacá-lo com súplicas humildes:
“Se sólio onipotente nós cercamos
“Para perdão pedir-lhe ou dar-lhe assalto.
“Tal participação e tais notícias
“Leva ao monarca ungido; vai-te, foge,
“Antes que hórrida ruína te obste a fuga.”
Disse. Qual som de catadupa enorme
Pelo espaço troou rouco sussurro
Com que o discurso seu foi aplaudido
Pelas infindas, rebeladas hostes:
Mas assim mesmo de fervor dobrando,
Inda que só no meio de inimigos,
O serafim valente lhe responde:

— “Inimigo de Deus, anjo maldito,
“Desamparado das virtudes todas,
“Já decidida vejo a queda tua
“E em tua fraude pérfida envolvidos
“Teus inúmeros sócios desgraçados,
“Lavrando como por contágio neles
“Teu crime atroz, teu hórrido castigo.
“Não te fatigues mais, urdindo planos
“Para do Ungido sacudir o jugo:
“Nunca mais suas leis justas e brandas
“Alcançar poderás; outros decretos
“Já sem apelação se te fulminam.
“Aquele cetro de ouro, a que insensato
“Negaste obedecer, tornou-se agora
“Vara de ferro que em vingança justa,
“Tua desobediência abola e talha.
“Bem me aconselhas: pressuroso eu fujo
“Destes malditos pavilhões perversos
“(Não por conselhos teus, nem teus ameaços;
“Mas temo que o furor quase iminente,
“Dentro de flama súbita enraivado,
“Não distinga entre culpas a inocência).
“Sobre a cabeça tua em breve aguarda
“De Deus o raio, devorante fogo:
“Conhecerás então, mil ais soltando,
“Que é o que te criou quem te aniquila.”
Desta sorte Abdiel se desagrava.
Entre tantos infiéis é fiel só ele:
Cercado por inúmeros falsários,
Firme, arrogante, intrépido, inconcusso,
Não se seduz, não treme, não se abala:
Nem torva multidão, nem tanto exemplo,
Separá-lo puderam da verdade
Ou mudar-lhe o constante pensamento:
Ele, posto que só, guardou sem mancha
Sua lealdade, seu amor, seu zelo.
Eis foge deles, indo largo espaço
Entre mofas e ultrajes dos perjuros;
Mas ele superior afronta o p’rigo, —
E com desprezo audaz retorque insultos,
Virando costas às soberbas torres
A destruição já pronta destinadas.”