Quem dá aos pobres, empresta a Deus

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Quem dá aos pobres, empresta a Deus
por Castro Alves
Poema publicado em Espumas Flutuantes


[1]

Eu, que a pobreza de meus pobres cantos
Dei aos heróes — aos miseraveis grandes, —
Eu, que sou cégo, — mas só peço luzes...
Que sou pequeno, — mas só fito os Andes...
Canto nest′hora, como o bardo antigo
Das priscas éras, que bem longe vão,
O grande nada dos heróes que dormem,
Do vasto pampa no funereo chão...

Duas grandezas neste instante cruzam-se!
Duas realezas hoje aqui se abraçam!...
Uma — é um livro laureado em luzes...
Outra — uma espada, onde os laureis se enlaçam.
Nem córa o livro de hombrear co′o sabre...
Nem córa o sabre de chamal-o irmão...
Quando em loureiros se biparte o gladio,
Do vasto pampa no funereo chão.

E foram grandes teus heróes, ó patria,
— Mulher fecunda, que não crêa escravos, —
Que ao trom de guerra soluçaste aos filhos:
«Parti — soldados, mas voltai-me — bravos!»
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glorias apartando as vagas.
Do vasto pampa no funereo chão.

E esses Leandros do Hellesponto novo
Se resvalaram — foi no chão da historia..
Se tropeçaram — foi na eternidade...
Se naufragaram — foi no mar da gloria...
E hoje o que resta dos heróes gigantes?..
Aqui — os filhos que vos pedem pão...
Além — a ossada, que branquêa a lua,
Do vasto pampa no funereo chão.

Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pae procura, pequenina e núa.

E vai brincando co′o vetusto sabre,
Sentar-se á espera no portal da rua...
Misera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avesinha que não tem mais pão!...
Seu pae descansa — fulminado cedro —
Do vasto pampa no funereo chão.

Mas já que as aguias iá no sul tombaram
E os filhos d′aguias o Poder esquece...
É grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai — a esmola, e colhereis — a prece!..
Oh! dai a esmola... que do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ella transborda... e vai cahir nas tumbas,
Do vasto pampa no funereo chão.

Ha duas cousas neste mundo santas:
— O rir do infante, — o descansar do morto...
O berço — é a barca, que encalhou na vida,
A cova — é a barca do sidereo porto...
E vós dissestes para o berço — Avante! —
Emquanto os nautas que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as ancoras,
Do vasto pampa no funereo chão.

É santo o laço em qu′hoje aqui s′estreitam
De heroicos troncos — os rebentos novos! --
É que são gemeos dos heróes os filhos
Inda que filhos de diversos povos!

Sim! me parece que n′est′hora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um «bravo!» altivo de além-mar partindo,
Rola do pampa no funereo chão!...


S. Salvador, 31 de Outubro de 1867.

Notas[editar]

  1. Ao Gabinete Portuguez de Leitura, por occasião de offerecer o producto de um beneficio ás famílias dos soldados mortos na guerra.