À Fonte das Lágrimas

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À Fonte das Lágrimas
por Manuel Botelho de Oliveira


À fonte das lágrimas, que está na cidade de Coimbra

Verte pródiga ũa penha
Das durezas apesar
Serenidades de aljôfar,
Esperdiços de cristal.

Esta penha carregada
Em triste sombra se faz,
Por perder de Inês a luz,
Por sentir de Inês o mal.

Dos dois amantes é pranto,
Que em ser duro o Amor fatal
Entre durezas o guarda,
Entre durezas o dá.

Doce, e liberal a prata
Fonte de amor se diz já.
Que Amor se alimenta doce,
Que Amor se induz liberal.

Sua a penha; mas que muito,
Se no adusto cabedal
Quis pranto de ardor verter,
Quis fogo de amor suar.

O Deus Frecheiro se admira
De ver que com pranto tal
Verde lisonjeia o prado,
Ameno respira o ar.

De sua fé retratava
A bela Inês singular
A constância no penhasco,
A pureza no cristal.

Quando voa a turba alada,
O vendado Deus rapaz,
Faz Cupidilhos das aves,
Forma Chipre do lugar.

Os limos no largo tanque
Ali se vêm pentear,
Que a seus úmidos cabelos
Pentes de prata lhes dá.

Ali Vênus celebrada
Das cristalinas Irmãs,
Estima as Ninfas do tanque,
Despreza as Ninfas do mar.

Ali muitos choupos crescem
Verdes, que verdes os faz
Aquela firme esperança
Daquele amor imortal.

A um tempo do vento, e d'água
Sobe, e campa cada qual
Tifeu do vento frondoso,
Narciso d'água galã.

Esta das lágrimas fonte
Na douta Coimbra está,
Que se é do saber escola,
Diz que Pedro soube amar.