ABC de Amores

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ABC de Amores
coletado por Sílvio Romero
Publicado em Cantos populares do Brasil. (Rio Grande do Sul)

Aqui te mando, benzinho,
Um A B C de amores,
Para que nele tu vejas
Os meus suspiros e dores.

Anda cá, meu doce bem,
Anda ver, prenda querida,
As queixas que tu me formas
Nos passos da minha vida.

Bem conheço, prenda minha,
Que a vida me deixaste,
Por sentires grande falta
Dum coração que me roubaste...

Cadeias foram teus olhos,
Grilhões os teus carinhos,
Que prenderam meus afetos
Entre os mais duros espinhos.

De cada vez que te vejo,
Se me dobram as prisões:
Eu juro me teres roubado
Duzentos mil corações.

Empenhei-me a experimentar
A dureza do teu peito:
Nasci forro, sou cativo,
Sou leal e até sujeito.

Feriste meu coração
Para nele seres ouvido;
Ficaste sendo senhora,
Eu fiquei sendo cativo.

Glória dos tempos passados,
Que tão depressa fugistes!
Que te faziam meus olhos,
Que vos fazem andar tristes?

He bem que chorem meus olhos
De uma dor que os atormenta;
Um sensível coração,
Pelos olhos arrebenta.

Ide, meus olhos, nadando
Nestas águas que chorais;
Amor de meu coração,
Quando nos veremos mais?

Lágrimas, caí, caí,
Relatai a minha dor;
Pois um triste coração
Não tem outro portador.

Mais me valia morrer
Quando em ti pus o sentido;
Não pensei que tantas máguas
Me tivessem combatido.

Não abatas tanto, ingrata,
Um triste, aflito, queixoso;
Pois seja da minha vida
Fim, tormento rigoroso.

O rouxinol quando canta
Forma queixas de sentido;
Eu também me queixarei
Por ser mal correspondido.

Peço-te, benzinho amado,
Que me faças ,um carinho,
Que vivas na esperança
Qu'inda hei de ser teu benzinho.

Quem vir a enchente no mar,
Não lhe cause confusão;
Que são águas dos meus olhos
Fontes do meu coração.

Rebenta, minh'alma aflita,
Que está ferido o meu peito,
Pelo muito que eu padeço,
Menina, por teu respeito.

Suspenderei os meus prantos,
Cessarei já de chorar,
Já que me coube por sorte
Querer bem e não lucrar.

Tenho tão pouca ventura
Na sorte de te querer,
Que te peço por esmola
Que me deixes padecer.

Vivo tão pensionado.
Que não sei de meus cuidados,
Se padeço ou se suspiro,
Se choro de magoado.

Xorando só de contínuo
Por viver tão retirado,
Na tua ausência, vidinha,
Neste triste, aflito fado.

Zombem embora do meu pranto.
Pois a mim fizeste guerra,
Outro não acharás
Em todos os bens da terra.

O til por ser pequenino
Também goza estimação;
Estou esperando. a resposta
Que venha da tua mão.