ABC do Boi-Prata

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ABC do Boi-Prata
coletado por Sílvio Romero
Publicado em Cantos populares do Brasil. (Ceará)

A dois de agosto de quarenta e quatro
Nasci no Saco da Ema;
Bebi na lagoa grande,
E malhei lá na Jurema.

Bebia bem assustado
Com o medo de meu dono,
Passava noites a andar
Sem saber o que era sono.

Como desenganou-se o meu dono
De acompanhar a carreira,
Foi chamar o João de Souza
Da fazenda da Ladeira.

Deu este sua carreira
Em cima do melado,
Mais adiante um pouco,
Gritou: — Estou enganado.

Ele disse bem vexado
E todo se tremendo:
— Aqui sumiu-se o garrote,
O rasto não estou mais vendo.

Foi voltando para trás
Bastante desconcertado,
Por ter perdido a carreira
No seu cavalo melado;

Grande pena a de meu dono
Do Souza vendo a chegada;
Perguntou com muita pressa:
Cadê os seus camaradas?

Hindo este um pouco calado
Sem poder contar a história,
Disse com fé o meu dono:
— Espero ainda a vitória.

I fizeram nova entrada,
Zé de Souza no pedrezão;
João de Souza foi gritando:
— Lá está o barbatão.

João de Souza por esperto
Cavalgava no melado;
José disse com soberba:
— Ele agora vai pegado.

Lá no poço do Pereira
João botou-me no mato;
Logo chegou Zé de Souza,
Foram-me ganhar o rasto.

Me seguiram legua e meia,
Voltaram desconsolados,
Por haver anoitecido
E não terem me alcançado.

Não peguei o barbatão,
Disse logo João de Souza.
Quando chegaram em casa:
— Corre o bicho até que zoa.

Oh! meu irmão Francisco,
Eu estou desenganado;
Não pego o barbatão
Nesse cavalo melado.

— Porque o José de Souza
Em cima do pedrezão
Está também desenganado
Que não pega o barbatão.

— Queira tomar um conselho:
Venda ao Manoel Teixeira;
Ele se atreve a pegar,
Por ser grande na carreira.

Receba de Manuel Teixeira
O dinheiro todo completo;
Não o podemos pegar.
Só ele, por ser esperto.

Sim, senhor, eu vou vender.
Por doze mil réis contados,
Porque quero ficar livre
Daquele bicho malvado.

— Todo descansado fiquei,
Nunca mais vi a poeira
De João de Souza Leal,
Zé de Souza da Ladeira.

— Uma queda não me, deram,
Nem me puseram a mão;
Muitas vezes eu vi eles
Rolar na poeira do chão.

Voltavam sempre pra trás,
Contando muitas histórias;
Porém sempre fui eu
Que tive toda a vitória.

Xegada deles em casa
Muitos queriam ver;
Vinham chegando de tarde
Antes de anoitecer.

Zelo comigo, garrote,
Sou teu dono — Teixeira,
Porque não sou de raça
De não te pegar na carreira.