A Última Posição

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A Última Posição
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


Desde a véspera os médicos haviam considerado desesperador o estado de mme. Carvalho Soutello. A moléstia do coração que a perseguia desde menina, tomara proporções graves depois do nascimento do primeiro filho. O aspecto da enferma era bom. Mostrava belas cores, excelente presença de espírito, como se nada tivesse. De vez em quando, porém, vinha a crise, o coração perdia o ritmo, fugia o pulso, e a família se alarmava. E era natural.

— Uma dessas crises — informava o médico, — pode ser fatal. Ela pode morrer.

E era na expectativa da morte que estava toda a família. À tarde o doutor verificara que, mais um ataque daqueles, e seria o último ato do drama. E foi consciente do seu estado, lendo a preocupação, a aflição, o horror do desenlace nos olhos de todos, que Dona Helena pediu:

— Eu quero morrer cristãmente; sabem? Chamem um padre. Desejo confessar-me.

Uma hora depois entrava no quarto da enferma, fisionomia compungida, com os grandes olhos empapuçados, defendidos pelo vidro grosso dos óculos, a suave santidade do cônego Liberato. Ao vê-lo, Dona Helena tivera um estremecimento. Pela primeira vez sentira a gravidade do seu estado. As vestes escuras do sacerdote pareceram-lhe, naquele instante, uma visão, já, da outra vida. Levantou, porém, os braços muito claros, muito torneados, compondo negligentemente os flocos de ouro do cabelo, ensaiando um sorriso de boas vindas.

Antes de iniciar a confissão, verificando que a enferma era um espírito forte, cônego Liberato começou a prepará-la para a morte.

— Deixe aqui na terra, filha, aqui na torpeza do mundo, todos os pensamentos terrenos. Deus a espera, nas alturas, com os divinos braços da sua misericórdia. Prepare-se, pois.

E recordando o seu estado:

— Lembre-se, filha, que está, já, com um pé na terra e outro no céu!

A essas palavras, a enferma sorriu. E foi com aquele mesmo sorriso que o acompanhara toda a vida, que pediu:

— Então, senhor cônego, faça-me um favor.

E brejeira:

— Não olhe para cima... Sim?