A Baunilha

Wikisource, a biblioteca livre
Ir para: navegação, pesquisa
A Baunilha
por Gonçalves Dias
Manaus — 17 de junho de 1861.

Vês como aquela baunilha
Do tronco rugoso e feio
Da palmeira — em doce enleio
Se prendeu!

Como as raízes meteu
Da úsnea no musgo raro,
Como as folhas — verde-claro —
Espalmou!

Como as bagas pendurou
Lá de cima! como enleva
O rio, o arvoredo, a relva
Nos odores,

Que inspiram falas de amores!
Dá-lhe o tronco — apoio, abrigo,
Dá-lhe ela — perfume amigo,
Graça e olor!

E no consórcio de amor
— Nesse divino existir —
Que os prende, vai-lhes a vida
De uma só seiva nutrida,
Cada vez mais a subir!

Se o verme a raiz lhe ataca,
Se o raio o cimo lhe ofende,
Cai a palmeira, e contudo
Inda a baunilha recende!

Um dia só! — que mais tarde,
Exausta a fonte do amor,
Também a baunilha perde
Vida, graça, encanto, olor!

Eu sou da palmeira o tronco,
Tu — a baunilha serás!
Se sofro, sofres comigo;
Se morro — virás atrás!

Ai! que por isso, querida,
Tenho aprendido a sofrer!
Porque sei que a minha vida
É também o teu viver.