A Brasileira de Prazins/I

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A Brasileira de Prazins por Camilo Castelo Branco
Capítulo I

Marta era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um irmão rico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladrão porque, no espaço de vinte anos, lhe mandara três moedas, com os seguintes encargos: à mãe 6$000 réis fortes, às almas do Purgatório, de Negrelos, 3$000 réis também fortes, que lhos prometera quando embarcou, e o resto para ele.

A rapariga conversou diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte, e, afinal, quando o pai lhe negociava o casamento com um pedreiro, mestre-de-obras, muito endinheirado e já maduro, apareceu o José Dias, filho de um lavrador rico de Vilalva, a namoriscá-la. Este rapaz estudava latim para clérigo; mas, como era fraco, de poucas carnes e amarelo, o cirurgião disse ao pai que o moço não lhe fazia bem puxar pelas memórias. Os padres do Minho, naquele tempo, não puxavam quase nada pelas memórias; ordenavam-se tão alheios às faculdades da alma que, sem memória nem entendimento, e às vezes sem vontade, eram sofríveis sacerdotes, davam poucas silabadas no Missal e liam os salmos do Breviário com uma grande incerteza do que queria dizer o penitente David. Pois, assim mesmo, sendo tão fácil a ordenação — uma coisa que se fazia com uma perna às costas, diziam certos vigários — sem precisão absoluta de puxar pelas memórias, o Joaquim Dias quis tirar o filho do latim que lhe ensinava um egresso da Ordem Terceira, o Frei Roque. Este padre-mestre tinha uma irmã paralítica: sabia ler, e prendas de costura, marcava, fizera um pavão de missanga, não desconhecia o croché e ensinava raparigas para se distrair.

No quinteiro do padre-mestre Roque foi que o José de Vilalva se afez a reparar na Marta de Prazins, uma rapariga muito alva, magrinha, de cabelo atado, muito limpa, com a sua saia de chita amarela com dois folhos, jaqueta de fazenda azul com o forro dos punhos escarlates, muito séria com propósito de mulher e ares muito sonsos — diziam as outras, que lhe chamavam a songuinha. Os outros estudantes, rapazolas vermelhaços, refeitos, grandes parvajolas, com grandes nacos de boroa nas algibeiras das véstias de saragoça de varas, e os vemos Virgílios ensebados em saquitos de estopa suja, diziam graçolas a Marta — chamavam-lhe boa pequena, franga e peixão. O José Dias, arredado do grupo dos trocistas alvares, via-a passar silenciosa, indiferente aos gracejos, olhos no chão, e um grande resguardo na barra da saia quando subia a escada. Os rapazes, aqueles embriões de abades, como a escada de pedra era íngreme e aberta do lado do quinteiro, punham-se a espreitar as pernas das alunas da paralítica, pela maior parte raparigas entre doze e dezasseis anos, muito musculosas, com pés grandes e os tecidos repuxados e cheios pelo exercício dos carretos nas safras da lavoura.

Marta ia nos catorze quando o pai a quis tirar da mestra. Chegara-lhe aos ouvidos que os estudantes, má canalha, lhe impeticavam com a filha. Queixou-se a Frei Roque. O egresso, resfolegando honradas cóleras e pulverizações de esturrinho, mandou enfileirar os gargajolas na quadra da aula, e chamou a Marta.

— Qual foi destes tratantes o que implicou contigo. cachopa? — perguntou o padremestre olhando-a por cima dos óculos, orbiculares, com as hastes oxidadas de um cobre antigo. E, apontando para o primeiro da fileira que era o José de Vilalva:

— Foi este?

— Esse nunca me disse nada — respondeu com a voz trémula, toda vermelha, a rapariga.

— Foi este?

Marta não ergueu os olhos nem respondeu.

— Então, moça? qual foi dos nove? Diz lá. Tu que te queixaste é que algum embarrou por ti.

— Eu não me queixei... — murmurou a interrogada.

Verdadeiramente ela não se queixara. Foi o Zeferino, o filho do alferes da Lamela, o mestre-pedreiro que andando a construir um canastro na eira do padre-mestre, observara que os estudantes rentavam à cachopa, e ajeitavam-se em atitudes abrejeiradas, como de quem espreita, quando ela subia a escada.

O denunciante ao pai de Marta foi ele, o pedreiro abastado, não porque o espicaçassem nessa denúncia o zelo dos bons costumes, e um justo ódio às concupiscentes espionagens dos rapazes, mas porque gostava, deveras, da moça. Ele passava já dos trinta e dois e era a primeira vez que sentia no coração as alvoradas do amor. Frei Roque, averiguado o caso, advertiu o pedreiro que não fosse má-lingua, que não andasse a difamar os seus discípulos, que se preparavam para o sacerdócio — uma coisa séria. O episódio acabaria assim menos mal, se dois dos estudantes, que se preparavam para o sacerdócio, mais fortes no fueiro que nas conjugações, desistissem de o moer a pauladas, uma noite num pinhal. O mestre-de-obras iniciou-se pelo martírio obscuro num amor que principiava bastante mal. Ele nunca soube ao certo quem lhe batera, e atribuiu a sova a émulos na arte, covardes e misteriosos, por causa da construção de uma igreja que ele desdenhara, citando as regras do Vignola. Vinha a ser o desastre uma tunda por motivos de arquitectura — um martírio de artista. Invejas. Por causa da Arte padecera o seu colega Afonso Domingues, o arquitecto da Batalha, e João de Castilho, o do convento de Tomar, e já tinha padecido seu mestre, o Manuel Chasco, a quem inimigos quebraram a cabeça na feira dos 21, porque ele, desfazendo na obra de um colega, dissera que o botaréu de um cunhal estava torto.

Passado tempo, Marta saiu pronta da mestra. Lia a cartilha do Salamondi e o Grito das Almas, decifrava menos mal uma sentenças velhas, que havia na casa de Prazins, monumentos das ruínas de antigas demandas, e escrevia regularmente. A primeira carta que escreveu por pauta foi para o tio de Pernambuco, o tio Feliciano. Pedia-lhe a sua bênção e duas moedas de ouro para umas arrecadas. Era o pai que lhe ditava a carta, cheia de lástimas mendigas, mentirosas, historietas velhacas de penhoras, as grandes décimas, a ferrugem das oliveiras, o bicho da batata, o gorgulho que pegara no milho, muitas alicantinas.

— Que era a ver se o ladrão mandava alguma coisa — dizia ele, pondo cuspo na obreia vermelha para fechar a carta.

A segunda carta que ela escreveu, já sem pauta, foi a José Dias, ao estudante, que já não estudava por causa das memórias nocivas à sua saúde fraca, um pelém.

Neste tempo já o Zeferino da Lamela se tinha declarado com o Simeão de Prazins, de um modo quase original.

— Você quanto deve, ó tio Simeão? — perguntou.

— Quanto devo? Você quer pagar-me as dívidas?

— Pode ser. Você deve à Irmandade de Nossa Senhora de Negrelos um conto e cem mil-réis; você deve de tornas a seu irmão quatrocentos. Há-de andar lá para um conto e quinhentos, p'ra riba que não p'ra baixo.

— É isso; você sabe a minha vida melhor que eu a sua — um conto e quinhentos e pico.

— Quanto é o pico?

— Obra de dez moedas, mais pinto menos pinto. Miudezas na loja ao mercador e um restito da vaca amarela que comprei ao Tarraxa na feira dos 13.

— Você quer fazer um cambalacho? — tornou o pedreiro recuando o chapéu para a nuca e pondo-lhe as mãos espalmadas com força nos ombros.

— Se pintar... Já sei o que você quer... Não me serve. Você quer comprar-me o lameiro da azenha — não vendo.

— Eu ainda lhe não disse o que queria, tio Simeão. Olhe bem para mim. Você está a falar c'um home. Pago-lhe as dívidas, você não fica a dever nada, e eu caso com a sua Marta. Pode dar os bens ao outro filho que eu não lhe quero uma de X.

— Você fala sério, ó sor Zeferino?

— Se falo sério?! Então você não sabe com quem é que trata.

— Ora bem — entendamo-nos — é a rapariga que você quer, a rapariga estreme, sem dote nem escritura?

— Eu não tenho senão uma palavra. Já lhe disse que sim.

— A rapariga é sua.

Negociara a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarraxa a vaca amarela na feira dos 13. Eis um caso esquisito de aldeia que pela torpeza parece acontecido numa cidade culta. Conversou-se este diálogo debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem gorjeado de pássaros, com uns tons de luz esverdeada, na doce placidez crepuscular de uma tarde de Agosto, entre dois homens de tamancos, arremangados, com os peitos cabeludos a negrejar de entre os peitilhos da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na frase. Análogas passagens, com estilo pouco melhor, têm sido dramatizadas nas salas, entre homens da melhor polpa e casca social — uns que mandaram ensinar às filhas os verbos franceses e são assinantes do Journal des Dames que marca às meninas a baliza até onde pode chegar o arrojo da língua francesa e os seus mais avançados destinos. Da outra parte, homens ricos, de fígado ingurgitado, fatigados, sedentos de senhoras finas que ponham no luxo das suas salas os tons vivos da carne constelada de diamantes. É o epílogo de vinte anos de lavra dura, o substrato da compra de negras a milhares: — comprar uma branca, das que o amor pobre e o talento estéril não podem negociar. O contrato feito em Prazins — eis a diferença — por parte do pedreiro era um heroísmo: dava o seu dinheiro por aquela mulher; daria mais depressa o seu sangue. Era uma paixão das que não pegam com os dentes anavalhados em corações civilizados, quase desfeitos. Ora, os pedreiros que vêm de além-mar, e se vestiram no Pool ou no Keil, não amam nem cumpram assim. Fazem o dote económico, comezinho à esposa. Compram uma máquina de propagação, condicionalmente. Se, extinto o comprador, a máquina, não deteriorada, tiver pretendente, o substituto que a compre. O defunto prefere que a sua viúva, adelgaçada e espiritualizada por jejuns, lhe converse com a alma.