A Brasileira de Prazins/IV

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A Brasileira de Prazins por Camilo Castelo Branco
Capítulo IV


Do Alto Minho continuavam as noticias alegremente agitadoras. O Cristóvão Bezerra, ex-capitão-mor de Santa Marta de Bouro, escreveu ao seu parente de Barrimau. Dizia-lhe que constava que o Sr. D. Miguel estava no seu reino, e — o que mais era — muito perto dali. Que não se podia explicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu primo entendia a cifra de comunicação entre os membros da Ordem de S. Miguel da Ala, instituída pelo Sr. D. Afonso Henriques e renovada ultimamente pelo monarca legitimo — explicava. O major Bezerra era comendador da ordem e conhecia a cifra: — que escrevesse francamente. E, desconfiando do correio, mandou a Santa Marta de Bouro o afilhado, o filho do alferes Gaspar, com uma carta muito importante. O pedreiro, a impar de soberba por tal mensagem, posto que não participasse do segredo do padrinho, que era discreto, disse ao pai:

— Ou eu me engano, ou o Sr. D. Miguel está por aí, não tarda...

O alferes sentiu uma descarga eléctrica na coluna vertebral e convulsionou-se extraordinariamente. Fazia lembrar fenómenos que se contam de movimento galvânico nos paralíticos, colhidos de improviso pelo terror ou pela exultação; mas o Gaspar, como só tinha o esófago desimpedido, bebeu, com a escorrência absorvente de um olhomarinho, muita aguardente, e desatou a berrar o Rei-chegou.

O filho, com a discrição própria de um agente secreto da restauração realista, zangou-se com o berreiro cívico do pai e perguntou-lhe se estava bêbedo. O velho entusiasta, ferido no seu coração de vassalo e de progenitor. teve um honrado intervalo lúcido, quando lhe replicou:

— Se eu não estivesse aqui tolhido, respondia-te, malandro!

Deitou o albardão à égua e partiu para terras de Bouro o Zeferino. Quando passava defronte da casa do Simeão, em Prazins, olhou de esguelha, por debaixo da aba do chapéu, para o lavrador que estava apondo os bois ao carro, e regougou um arrastado pigarro de goelas encatarroadas; e, dando de espora à andadeira, deixou cair o pau ferrado ao longo da perna. , azia de si consigo, ladeando a besta em corcovos chibantes. O Simeão, quando o perdeu de vista, murmurou: — Valha-te o Diabo, banabóia!

O ex-capitão-mor de Santa Marta respondeu às perguntas do primo de Barrimau; e, como o portador se recomendou na qualidade de afilhado do fidalgo e filho de um alferes que comandara o ataque de 1838 sobre Santo urso, o Cristóvão Bezerra tratou-o muito bem e pediu-lhe notícias desse ataque a Santo Tirso que ele não conhecia. O pedreiro contou a façanha do pai, a nadar, com a espada nos dentes; e o fidalgo, quando soube que ele estava entrevado, disse pungidamente: Mal empregado! — que um general romano fizera o mesmo e que o levasse às Caldas de Vizela à bomba quente.

Como estava conversando com o filho de tamanho realista, fez-lhe confidências: — que D. Miguel estava perto dali; mas não recebia ninguém porque os malhados já o espreitavam em Portugal. Que a aclamação havia de começar em terras de Bouro, e estender-se até Lisboa; e que estivesse certo que el-rei nosso senhor lhe daria a patente do pai ou talvez mais. O pedreiro esfregava os joelhos com as mãos e bamboava-se hilariante na cadeira como um idiota. Tirou da algibeira da véstia uma saquita de missanga, onde tinha três peças e sete pintos. Pôs o dinheiro com estrondo diante do Bezerra — que o mandasse a el-rei para as suas despesas; que eu, acrescentou, há quatro anos que lhe dou uma moeda de ouro por ano; ele há-de saber pelo rol quem é o Zeferino das Lamelas, porque o padre Luís de Sousa Couto, do Porto, disse-me que el-rei conhece de nome todos os que lhe mandam dinheiro. O fidalgo recusou: — que não estava autorizado a receber donativos, nem os julgava por enquanto necessários, porque em poder do Dr. Cândido, de Anelhe, estavam cinquenta contos, dados pela Senhora Infanta D. Isabel Maria, para pôr a procissão na rua.

A carta de que Zeferino foi o ditoso portador era mais explícita. Contava que D. Miguel estava escondido na residência do abade de São Gens de Calvos, no concelho da Póvoa de Lanhoso, o reverendo Marcos António de Faria Rebelo. Que pouquíssimas pessoas o tinham visto, porque Sua Majestade só se mostraria aos seus amigos fiéis quando entrassem pela Galiza os generais estrangeiros que se esperavam, uns do antigo exército carlista, outros de Inglaterra.

Esta notícia dos generais estranhos beliscou a vaidade nacional do major Zeferino Bezerra. Parecia-lhe impossível que o príncipe proscrito não confiasse na perícia e lealdade do Santa Marta, do Vitorino, do Póvoas e Bernardino. Era uma ingratidão, dizia ele ao mano frade, que acrescentou: — e uma bestialidade. El-rei deve saber o que lhe valeram o Bourmont e o Pussieux e o MacDonnell, no fim da campanha. Sabes tu? — rematou o morgado — aqui anda marosca. O que tratam é de se abotoarem com os cinquenta contos da Infanta D. Isabel Maria, e o primo Cristóvão é um asno chapado.

— Escreve-se ao Póvoas e ao Bernardino — aconselhou o egresso — que digam alguma coisa.

Os militares realistas responderam que sem dúvida estava a levedar alguma tentativa de restauração; que o Ribeiro Saraiva trabalhava deveras; que o Sr. D. Miguel era esperado em Londres; mas que não estava no reino, nem cá viria senão para se sentar de vez no seu trono usurpado.

— Deixa-te de asneiras, Zeferino — dizia o fidalgo ao afilhado com as cartas na mão —, el-rei há-de vir; mas não veio. Meu primo foi codilhado pelo abade de Calvos, e eu vou-lhe escrever que não seja palerma, nem caia com uma de X para o levantamento que é uma comedela.

O pedreiro, não obstante, apostava dobrado contra singelo que D. Miguel estava em Calvos, e puxava pela saquita de missanga com gestos de troquilha de burros em feira:

— Aposto! Aqui está dinheiro! O fidalgo de Quadros, o Sr. Tenente-Coronel Cerveira Lobo também diz que el-rei já por cá anda.

— O Cerveira Lobo! olha que borrachão! — disse o frade.

— Quem cá está é o rei dos bêbedos no corpo dele — acrescentou o morgado.

— Mas diz que o Sr. D. Miguel I gostava muito dele — objectou o pedreiro. — Ouvilho eu.

— Não duvido... — explicou o frade — que o Sr. D. Miguel gostava de grandes patifes...

O primo Cristóvão redarguiu, magoado na sua esperteza, que era tão certo estar elrei em Calvos como era certo ter-me beijado a régia mão em casa do abade, na noite sempre memorável de 16 de Abril de 1845. Que só o tinha visto de relance em Braga em 32, mas que o conhecera pelo retrato; que até manquejava um pouco, tal e qual, como se sabe, depois que Sua Majestade quebrou a perna em 28. Que el-rei nomeara o abade de Calvos seu capelão-mor, que dera a mitra de Coimbra ao abade de Priscos, e fizera chantre o padre Manuel das Agras, e a ele lhe fizera a mercê de duas comendas e o título de barão de Bouro, afora outras graças a diversos clérigos e leigos.

— Que te parece isto? — perguntou o morgado ao frade.

— Parece-me a notória estupidez do primo Bezerra e mais dos padres; mas, se o homem que lá está é o D. Miguel, então o estúpido é ele, e que me perdoe Sua Majestade fidelíssima...

Escreveu-se novamente ao Póvoas, ao Tavares de Fagilde e ao Pontes, um colaborador da Nação. Responderam -lhe que não havia tal D. Miguel em Calvos; mas que deixasse correr o marfim, porque era necessário uma agitação preparatória, um simulacro, uma apalpadela...

— Quer dizer — reflexionou o frade — que o tal impostor é um Baptista, o precursor do verdadeiro Messias. Pois deixemos correr o marfim, e mais o simulacro... que palpem — e, pondo as duas mãos engalfinhadas sobre o umbigo proeminente, fazia girar um dedo polegar à volta do outro. Que o que fosse soaria, e não caísse o mano Zeferino na estultícia de se comprometer sem que os generais portugueses saíssem à rua.

Na correnteza destas coisas, o Zeferino das Lamelas não trabalhava de pedreiro; abandonou as obras de alvenaria aos oficiais, e andava numa dobadoira de casa do padrinho para casa do tenente-coronel realista, o Vasco Cerveira Leite, morgado de Quadros, um homem nascido ilustremente, que, desde Évora Monte, não cortara as barbas nem saíra das ruínas da casa-solar em Vermoim.

Como a sua paixão era inconsolável com o destino, deu-se à distracção do álcool; e, porque tinha a consciência da sua miséria de bêbedo, fechava-se no seu quarto, onde às vezes caía amodorrado sobre o vómito. Imbecilizara-se. Cerveira tinha sofrido um ataque cerebral, quando o brigadeiro José Urbano de Carvalho infamemente se passara com alguns esquadrões de cavalaria para o centro da divisão do duque da Terceira, na Chamusca. Ele vira o seu coronel António Cardoso de Albuquerque dar vivas à carta constitucional e a D. Maria II. Achou-se arrastado, ilaqueado e prisioneiro, quando procurava abrir com a espada uma sepultura honrosa. Ali se extinguira coberto de opróbrio, naquela hora, o bravo e leal regimento de Chaves, que nunca dera um desertor para as fileiras do inimigo. O tenente-coronel, desde esse dia, foi um desgraçado incompreendido que se embriagava para esquecer o reviramento súbito da sua carreira. Depois, a corrente travada das misérias. Tinha filhos que se emborrachavam como ele, e filhas que se namoravam dos engenheiros das estradas, e andavam pelas romarias de roupinhas escarlates, com botinas de ponteira de verniz e chapéus desabados de seda preta com borlas e plumas. Sua mãe tinha sido açafata da apostólica D. Carlota Joaquina, fizera-se mulher do Ramalhão, e gabava-se de ter sido amada do conde de Vila Flor. Quando entrou no vasto e velho casarão de Quadros, teve histerismos formidáveis e acordava os ecos das montanhas com gritos que punham terrores sobrenaturais na vizinhança. O Cerveira Leite poderia viver abundantemente na corte, porque os seus rendimentos e foros eram muito importantes: é o que D. Honorata lhe pedia com lágrimas; mas ele, colérico: — que não podia encarar os malhados, e não sairia mais de casa sem as suas divisas de tenente-coronel de dragões. E, apontando-lhe para os cinco filhos:

— Sê boa mãe, trata dessas crianças que andam aí porcas que fazem nojo! — Tinha estas equidades em jejum.

E ela:

— Mais nojo me fazem as borracheiras de você!

E o fidalgo então disciplinava-a militarmente. Quando lhe não dava alguns pontapés, desfechava-lhe um tiroteio de palavradas de tarimba, e perguntava-lhe se tinha saudades dos bordéis do Ramalhão, aqueles pagodes reais. Desta procacidade esquálida, derivou a um mutismo estúpido. Não lhe respondia. Fechava-se no seu quarto, contíguo à garrafeira.

D. Honorata Guião teria vinte e oito anos, quando saiu de Lisboa para o Minho em 34. Era formosa das finas graças aristocráticas. Urna elegância nervosa, inquieta, mordiscada de desejos como uma flor branca muito picada das abelhas. Aceitara o major Cerveira, porque era rico e estadeava na corte as suas librés. Tinha trinta anos, e dizia-se que aos quarenta seria general, porque D. Miguel gostava muito dele. Rosnavase que o Cerveira tinha sido um dos assassinos do marquês de Loulé.

Este rapaz de corte e da intimidade do rei e das infantas, disputado pelas damas da rainha, era aquele ébrio encanecido que, debruçado na janela do seu quarto, fortemente fincado no peitoril de ferro da sacada, revessava ao caminho público golfos aziumados de vinhaça, e dizia garotices de lacaio às raparigas que passavam medrosas e o saudavam: — Guarde Deus V. Sª senhor fidalgo! — Tenha V. Sª muito boas tardes, senhor morgado! — E ele, almofaçando as barbas conspurcadas de vómito: — Li brejeira, deixa lá ver o patriotismo; que tal é a anca? Não respondes, catraia? Olha como aquela rebola os quadris, o grande coldre! — As cachopas não respondiam; safavam-se com um grande medo, porque eram suas caseiras; mas comentavam: — Que levasse o Diabo o piteireiro do fidalgo! — que a fidalga fizera bem em se pisgar com o doutor dos Pombais. — Quer não — contrariava uma lavradeira idosa — foi má mulher que deixou assim os filhos, cinco crianças! uma desgraça! Nem as cadelas faziam isso. Os mais velhos já se emborracham, e as meninas estão quase mulheres e ainda não foram ao confesso nem sabem a doutrina. Que uma delas, a Teresinha, já se enfeitava para o estudante das Quintãs que andava por lá feito caçador, e que o morgadinho, o Sr. Heitor, namorava a filha do José Alho, e até se dizia que lhe falara em casamento. Vede vós que desgraça, ó moças! Um menino tão rico e tão fidalgo, vi-o aqui há tempos na taverna de Vilaverde que se não lambia, a pagar vinho ao Alho e mais à cróia da filha, e a comerem todos iscas de bacalhau com as mãos! Ao que eu vi chegar um senhor dos fidalgos de Quadros! Quando eu era rapariguita, aqueles senhores nunca saíam sem os seus mochilas fardados e tinham liteiras com as armas reais pintadas. Faziam mesmo um respeito! O Sr. Rodrigo, pai deste morgado velho, era disto dos governos lá de Lisboa, e quando vinha ver as suas quintas, ó senhores, caía ai o poder do mundo de Braga e Guimarães a visitá-lo! E as fidalgas? isso então a gente, quando as via, corria logo a beijar-lhes a mão, e elas no dia de Páscoa mandavam às cachopas lenços para a cabeça e regueifas de pão podre. Aquela casa estava sempre cheia de frades de ordens ricas...

— Isso, isso.., eu logo vi que essas fidalgas haviam de estar cheias de frades de ordens ricas — dizia o José Dias de Vilalva. — Muito cheias de frades aquelas fidalgas, hem?

— Aí vens tu com as tuas alicantinas — retrucava, prognóstica e solene, a tia Rosa de Carude. — É o que tu estudas, meu valdevinos. Agora é melhor que então, pois não foste? As fidalgas de hoje em dia presentemente fogem com os doutores e deixam os filhos... Isto agora é que é bom às direitas, pois não é? No tempo antigo, valha-me Deus, as fidalgas eram umas desavergonhadas que conheciam frades e criavam os seus filhos.

— Os filhos dos frades? — perguntava o Dias.

— Cala-te aí, boca danada! Olha que padre havia de sair de ti! Ainda bem que a Marta de Prazins te fez mudar de rumo.

A fuga da Honorata Guião com o Silveira dos Pombais não amotinara a opinião pública escandalizada. A excepção da austera Rosa de Carude. toda a gente deu razão à fidalga. O Cerveira tinha amigas da ralé, que metia em casa — uma diversão à embriaguez, quando não exercia as duas distracções numa promiscuidade desaforada. D. Honorata visitava-se unicamente com a D. Andresa da Silveira, da casa dos Pombais, irmã de um bacharel delegado em Amarante. Chorava muito com ela e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor se poderia separar-se por justiça, antes de se atirar a uma cisterna. D. Andresa pediu ao irmão que viesse ouvir as tristes alegações da sua desgraçada amiga.

Estava Honorata nos trinta e três anos, quando Silveira a encontrou nos Pombais. O delegado era um romântico. Emigrara em 28, sendo estudante, quando alguns membros da sociedade dos Divodignos padeceram o suplício da forca pelo homicídio dos lentes. Completara a formatura em 38 e fora despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus em que havia abencerragens e infantas cristãs apaixonadas que tocavam arrabis, banhadas de lua nos revelins dos castelos roqueiros. Também fazia prosa na Gazeta Literária do Porto — cenas dramáticas em que se jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos negros, cravavam lâminas de Toledo às portas de D. Fuas, e, cruzando os braços, rugiam cavernosamente: E depois, os arrepios de uma casquinada seca, de um estridente grasnido de gaivotas que se espicaçam por sobre o mar banzeiro.

A Honorata, esposa deplorativa, dama da rainha, esbeltamente magra, de uma elegância de raça afinada nos salões da Bemposta, palidez ebúrnea, esmaecida, airs évaporés, um sorriso nobre de ironia rebelde à desgraça, com a dupla poesia do martírio e da beleza, ultrapassou a encarnação viva dos ideais do bacharel. Ela tinha pejo de lhe contar os seus infortúnios, a vida crapulosa do marido, a libertinagem de portas adentro com as jornaleiras, e o abandono da educação dos filhos. Andresa é que contava tudo ao mano Adolfo na presença da mártir. Que o Cerveira se embriagava todas as tardes e tinha amásias da última gentalha que punham e dispunham em casa. Que os meninos eram criados brutamente; que o mais velho, o Heitor, nem ler sabia; porque o pai também fazia mal o seu nome. Que tiveram um padre de dentro para os ensinar, mas que o padre, em vez de lhes dar lição, trabalhava de carpinteiro em remendar os sobrados, e quando era a hora do estudo largava a enxó e vinha em mangas de camisa, sem gravata e de socos para a sala. Que os meninos não lhe tinham respeito nenhum, por isso o Heitor, quando ele o ameaçou com a palmatória, respondeu que lhe dava uma navalhada. O pai achou-lhe graça, e o padre foi-se embora. Depois, entrou um velho que dava escola em Guimarães, e os quisera ensinar com muita paciência; mas o Heitor e mais o Egas tais arrelias lhe faziam que o pobre homem fugiu. Que D. Honorata sofria aquele flagelo desde a queda da realeza, como se fosse a culpada da vitória de D. Pedro. Era da família dos Guiões, muito íntimos do Sr. D. Miguel e do conde de Basto; mas todos os seus parentes foram perseguidos, roubados, de modo que ela, ainda que quisesse fugir ao marido, não tinha em Lisboa família que a pudesse sustentar; — que, se não fosse isso, já teria acabado o seu suplício, e que muitas vezes pensara em se matar, mas...

— Os filhinhos... — atalhou Adolfo sentimentalmente.

— Não, senhor — acudiu a dama de Carlota Joaquina —, não são os filhos. O coração de mãe só se enche do amor aos filhos quando se evapora o amor aos pais. Eu nunca amei este homem. Impuseram-me o casamento, aproveitaram-se do despeito que eu sentia pelas ingratidões de um conde que eu amava, e casaram-me à pressa. O carácter deste homem não piorou com a desgraça da política; ele é o que sempre foi, com a diferença de que na corte embriagava-se com os fidalgos, no Alfeite e em Queluz, e por lá dormia. As mulheres que corrompia ou o corrompiam não eram minhas criadas nem minhas conhecidas; e, se o eram, eu apenas tinha a convicção de que ele era um devasso. Tenho cinco filhos deste homem; mas basta que eu lhe diga, Sr. Dr. Adolfo, que são dele, são os produtos amaldiçoados de uma obrigação estúpida — a aviltadora obrigação de ser mãe quando se é esposa.

Tinha dito. O bacharel nunca ouvira coisa assim, nem se lembrava de ter achado nos romances uma razão tão filosófica e concludente da justiça com que a mãe pode aborrecer os filhos.

— Sentia vontade de me ajoelhar diante dela! — dizia Adolfo à irmã. — Que formosura e que talento, Andresa! O mana, eu viajei cinco anos, vi as mulheres mais encantadoras da Europa, estive no Pardo, no Bois de Boulogne, no Hyde-Park, e nunca vi mulher que tanto me penetrasse os íntimos seios de alma! Nunca, por estranha fatalidade, nunca! Como é que eu sinto aos vinte e oito anos as palpitações de um coração que nasce? Que faísca de amor é esta que me lavra um incêndio devastador das alegrias de alma que ainda ontem me doiravam a existência?

Era o estilo hidrópico de Arlincourt; mas é de crer que exprimisse garrafalmente a singela e natural comoção que lhe fez a gentileza, a poesia elegíaca, a majestade inflexa daquela mulher a quem a desgraça dera uma crítica moderna e revolucionária na religião das mães.

D. Andresa, escandalizada, cortava-lhe os voadoiros perguntando-lhe se a separação judicial poderia dar meios de subsistência a Honorata. O bacharel, muito abstracto, parecia esquecido do código. O estado da sua alma não lhe consentia folhear a infame prosa com mão jurisperita.

Que havia de estudar a questão; mas que lhe parecia que ela, requerendo o divórcio, apenas tinha alimentos por não ter trazido nada ao casal. — Estas frases eram mastigadas com um tédio, um engulho, como se, depois de declamar uma Contemplação de Lamartine, tivesse de recitar dois parágrafos da lei da enfiteuse.

D. Andresa era senhora ajuizada, muito séria, educada no convento de Vairão; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras, pondo sempre no alto do papel: Jesus, Maria, José. Andava nos trinta e cinco anos, muito linfática e um grande horror aos vícios da carne. O mano Adolfo conhecia-lhe a índole. Não podia esperar dela aplauso, nem sequer condescendência, e muito menos auxílio à sua afeição a mulher casada. Andresa concordava com o irmão na formosura de Honorata; mas observava com um risinho malicioso que o não chamara para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas sim para aconselhá-la e dirigi-la na separação do marido por justiça.

O Dr. Adolfo absteve-se de entusiasmos, e pôs-se a estudar a questão, em conferências com o Bento Cardoso, de Guimarães, e o Torres e Almeida, o Rasqueja de Braga, dois chavões. Mas o que ele queria era corar as delongas nos pombais, ganhar tempo, a salvo das suspeitas da mana e do seu capelão, um realista finório que sabia da poda, e trazia a pedra no sapato, dizia, cacarejando uma risada velhaca — e conhecia até onde podia chegar a fragilidade de um homem sem sólidos princípios de religião, estragado por essas nações.

D. Andresa andava assustada, porque o mano nem ia para Amarante nem dava começo ao processo. A Honorata aparecia-lhe radiosa, com um grande esmero no trajar, vestidos fora da moda, mas elegantes, ricos, de mangas perdidas, com uns decotes que punham nos olhos do capelão luzernas esquisitas, escrúpulos. Adolfo era discreto na presença da mana. Contava as suas viagens, durante a emigração, citava nomes de literatos desconhecidos à fidalga, seus amigos íntimos em Paris; ai! Paris! — exclamava. — Se eu então me passaria pela mente que havia de vir de Paris para Amarante!

— Ele porta-se muito sério — dizia D. Andresa ao padre Rocha. — Ela é que me parece mais levantada, muito azevieira, não acha?

— Acho, acho... — confirmava o capelão. — Daqui rebenta coisa, minha senhora; rebenta, V. Exª verá...

E, com efeito, estava a rebentar, na frase explosiva do padre Rocha. O delegado tinha correspondência diária com Honorata, mediante uma caseira de sua mana, irmã de uma criada do Cerveira Lobo. Cartas incendiárias escritas durante a noite trocavam-se de manhã, quando o Adolfo saía a respirar os bálsamos das ribanceiras orvalhadas. Às vezes, subia a encosta até à crista do monte do castelo de Vermoim. Daqui, avistava-se por sobre as selvas verdes de carvalheiras e pinhais a vasta casaria pardacenta de Quadros, com dois torreões denticulados. No andaime de um dos torreões via-se um vulto branco, com o braço amparado numa das ameias, e a cabeça encostada à mão como nas baladas de Baour Lormian. Era Honorata, com o binóculo assestado na fraga onde estava Adolfo, alaranjado pela primeira resplandecência do Sol nascente.

Ao cabo de duas semanas, saíram dos domínios da balada. Uma noite, partiram de Guimarães, caminho do Porto, dois cavalos do Gaitas, e pararam na Ponte de Brito. Um dos cavalos era arreado com selim de senhora. Por volta da meia-noite, Adolfo e Honorata, num passo miúdo, com uma ansiedade, misto de exultação e de susto, chegaram à Ponte de Brito. Ele ajudou-a a sentar-se na sela; cavalgou, disse aos dois arneiros o seu destino, e partiram a trote largo.