A Cidade e as Serras/I

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A Cidade e as Serras
por Eça de Queirós


O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.

No Alentejo, pela Extremadura, atravéz das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro. E serrados pinheirais seus negrejavam desde Arga até ao mar de Âncora. Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elíseos, nº 202.

Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa o "D. Galião", descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou numa casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta saía nesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma força fácil, levantou o enorme Jacinto – até lhe apanhou a bengala de castão de ouro que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos:

— Oh Jacintho Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras?

E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Senhor Infante D. Miguel!

Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar de tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do «Seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a bengala que as magnanimas mãos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o adorável, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé-Maria em Belém à botica do Palácio nos Algibebes, a gemer as saudades do "anginho", a tramar o regresso do "anginho". No dia, entre todos bendito, em que a "Pérola" apareceu á barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de Arcanjo, furava de cima do seu corcel d'Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre» mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres, caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz atochadas de peças que ele ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando soube que o senhor D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um macho, tomára o caminho de Sines e do final desterro - Jacinto Galião correu pela casa, fechou todas as janelas como em um luto, berrando furiosamente:

—Tambem cá não fico! tambem cá não fico!

Não, não queria ficar na terra perversa de onde partia, esbulhado e escorraçado, aquele Rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos! Embarcou para França com a mulher, a senhora D. Angelina Fafes (da tão falada casa dos Fafes da Avelã); com o filho, o Cinthinho, menino amarelinho, molezinho, coberto de caroços e leicenços; com a aia e com o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou tão rijos mares que a senhora D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometeu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma coroa de espinhos, de ouro, com as gotas de sangue em rubis do Pegu. Em Bayonna, onde arribaram, Cinthinho teve icterícia. Na estrada d'Orleans, numa noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu, e o nédio senhor, a delicada senhora da casa da Avelã, o menino, marcharam três horas na chuva e na lama do exílio até uma aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram nos bancos duma taberna. No Hotel dos Santos Padres, em Paris, sofreram os terrores dum fogo que rebentara na cavalhariça, sob o quarto de D. Galião, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em camisa, até ao pátio, enterrou o pé nu numa lasca de vidro. Então ergueu amargamente ao céu o punho cabeludo, e rugiu:

—Irra! É demais!

Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto Galião comprou a um príncipe polaco, que depois da tomada de Varsóvia se metera frade cartuxo, aquele palacete dos Campos Elísios, nº 202. E sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou, descançando de tantas agitações, numa vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros de emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, dumalampreia de escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os amigos pensavam que a senhora D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se queria separar do seu Confessor, nem do seu Médico, que tão bem lhe comprehendiam os escrúpulos e a asma.

—Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarara ela), ainda que me faz falta a boa água de Alcolena... O Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.

O Cinthinho crescera. Era um moço mais esguio e lívido que um cirio, de longos cabelos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse e de sufocações, errava em camisa com uma lamparina através do 202; e os criados na copa sempre lhe chamavam a "Sombra". Nessa sua mudez e indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flor dos seus vinte annos, brotou nele outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola, educada num convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava, concertava relógios e fabricava chapéus de feltro. No outono de 1851, quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elísios, o Cinthinho cuspilhou sangue. O médico, acarinhando o queixo e com uma ruga seria na testa imensa, aconselhou que o menino abalasse para o golfo Juan ou para as tépidas areias de Arcachon.

Cinthinho porém, no seu aferro de sombra, não se quiz arredar da Terezinha Velho, de quem se tornara, através de Paris, a muda, tardonha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como uma sombra.

Tres mêses e três dias depois do seu enterro o meu Jacinto nasceu.


Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e Ambar para afugentar a Sorte-Ruim, Jacintho medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica d'um pinheiro das dunas.

Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim entraram por ele tão facilmente como o sol por uma vidraça. Entre os camaradas, nos pétios dos colégios, erguendo a sua espada de lata e lançando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula, e a quem se cede a fruta das merendas. Na idade em que se lê Balzac e Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade; nem crepúsculos quentes o retiveram na solidão d uma janela, padecendo de um desejo sem forma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos três, contando o seu velho escudeiro preto, o Grilo) lhe conservaram sempre amizades puras e certas - sem que jamais a participação do seu luxo as avivasse ou fossem desanimadas pelas evidências do seu egoísmo. Sem coração bastante forte para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o libertava, do amor só experimentou o mel - esse mel que o amor reserva aos que o recolhem, á maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e cantando. Rijo, rico, indiferente ao Estado e ao Governo dos Homens, nunca lhe conhecemos outra ambição além de compreender bem as Idéias Gerais; e a sua inteligência, nos anos alegres de escolas e controvérsias, círculava dentro das Filosofias mais densas como enguia lustrosa na água limpa de um tanque. O seu valor, genuíno, de fino quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinião, ou mera facécia que lançasse, logo encontrava uma aragem de simpatia e concordância que a erguia, a mantinha embalada e rebrilhando nas alturas. Era servido pelas coisas com docilidade e carinho; e não recordo que jamais lhe estalasse um botão da camisa, ou que um papel maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sacristão espanhol um Décimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre a sua Roda, correu em um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil pesetas. E no céu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacinto sem guarda chuva, retinham com reverência as suas águas até que ele passasse... Ah! o ambar e o funcho da senhora D. Angelina tinham escorraçado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a Sorte-Ruim! A amorável avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava citar um soneto natalício do desembargador Nunes Velho contendo um verso de boa lição:

Sabei, senhora, que esta Vida é um rio...

Pois um rio de verão, manso, translúcido, harmoniosamente estendido sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas aldeias, não ofereceria àquele que o descesse num barco de cedro, bem toldado e bem almofadado, com frutas e champagne a refrescar em gelo, um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando à sirga, mais segurança e doçura do que a Vida oferecia ao meu amigo Jacinto.

Por isso nós lhe chamavamos o Príncipe da Grã-Ventura!


Jacinto e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em Paris, nas escolas do Bairro Latino - para onde me mandara meu bom tio Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aqueles malvados me riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, numa tarde de procissão, na Sofia, a cara sórdida do dr. Paes Pitta.

Ora nesse tempo Jacinto concebera uma Idéia... Este Príncipe concebera a Idéia de que "o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado". E por homem civilizado o meu camarada entendia aquele que, robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde Aristóteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus órgãos com todos os mecanismos inventados desde Terâmenes, criador da roda, se torna um magnifico Adão, quase onipotente, quase onisciente, e apto portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do Progresso (tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e todos os proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacinto formulava copiosamente a sua Idéia, quando conversavamos de fins e destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias filosóficas, no Boulevard Saint-Michel.

Este conceito de Jacinto impressionára os nossos camaradas de cenáculo, que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 a 1875, entre a batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde então, aos técnicos e aos filósofos, que fora a espingarda-de-agulha que vencera em Sadowa e fera o mestre-escola quem vencera em Sedan, estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos indivíduos, como a das nações, se realiza pelo ilimitado desenvolvimento da Mecânica e da Erudição. Um desses moços mesmo, o nosso inventivo Jorge Carlande, reduzira a theoria de Jacinto, para lhe facilitar a circulação e lhe condensar o brilho, a uma forma algébrica:

Suma ciência X Suma potência = Suma felicidade

E durante dias, do Odeon à Sorbonne, foi louvada pela mocidade positiva a "Equação Metafísica de Jacinto".

Para Jacinto, porém, o seu conceito não era meramente metafísico e lançado pelo gozo elegante de exercer a razão especulativa:--mas constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a conduta, modalizando a vida. E já a esse tempo, em concordncia com o seu preceito - elle se surtira da Pequena Enciclopédia dos Conhecimentos Universais em setenta e cinco volumes e instalara, sobre os telhados do 202, num mirante envidraçado, um telescópio. Justamente com esse telescópio me tornou ele palpável a sua idéia, numa noite de agosto, de mole e dormente calor. Nos céus remotos lampejavam relâmpagos lânguidos. Pela Avenida dos Campos Elísios, os fiacres rolavam para as frescuras do Bosque, lentos, abertos, cançados, transbordando de vestidos claros.

—Aqui tens tu, Zé Fernandes, (começou Jacinto, encostado à janela do mirante) a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas distinguir além, através da Avenida, naquela loja, uma vidraça alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros simples dum binóculo de corridas, percebo, por trás da vidraça, presuntos, queijos, boiões de geléia e caixas de ameixa sêca. Concluo portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção; tenho sobre ti, que com os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se agora, em vez destes vidros simples, eu usasse os do meu telescópio, de composição mais científica, poderia avistar além, no planeta Marte, os mares, as neves, os canaes, o recorte dos golfos, toda a geografia dum astro que circula a milhares de léguas dos Campos Elísios. É outra noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, elevado pela Civilização à sua máxima potência de visão. E desde já, pelo lado do olho portanto, eu, civili\ado, sou mais feliz que o incivili\ado, porque descubro realidades do Universo que ele não suspeita e de que está privado. Aplica esta prova a todos os orgãos e compreendes o meu princípio. Emquanto à inteligência, e à felicidade que dela se tira pela incançável acumulação das noções, só te peco que compares Renan e o Grilo... Claro é portanto que nos devemos cercar de Civilização nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?

Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o Grilo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se colha em distinguir através do espaço manchas num astro, ou através da Avenida dos Campos Elísios presuntos numa vidraça. Mas concordei, porque sou bom, e nunca desalojarei um espírito do conceito onde ele encontra segurança, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o colete, e lançando um gesto para o lado dos cafés e das luzes:

—Vamos então beber, nas máximas proporções, brandy and soda, com gelo!

Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilização, para Jacinto, não se separava da imagem de Cidade, duma enorme Cidade, com todos os seus vastos orgãos funcionando poderosamente. Nem este meu super-civilizado amigo compreendia que longe de armazéns servidos por três mil caixeiros; e de mercados onde se despejam os vergéis e lezírias de trinta províncias; e de bancos em que retine o ouro universal; e de fábricas fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de bibliothecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telégrafos, de fios de telefones, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos ônibus, tramways, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões de uma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, através da polícia, na busca dura do pão ou sob a ilusão do gozo - o homem do século XIX podesse saborear, plenamente, a delícia de viver!

Quando Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os lilazes, me desenrolava estas imagens, todo ele crescia, iluminado. Que creação augusta, a da Cidade! Só por ela, Zé Fernandes, só por ela, póde o homem soberbamente afirmar a sua alma!...

—Oh Jacinto, e a religião? Pois a religião não prova a alma?

Ele encolhia os hombros. A religião! A religião é o desenvolvimento suntuoso de um instinto rudimentar, commum a todos os brutos, o terror. Um cão lambendo a mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o chicote, já constitue toscamente um devoto, o consciente devoto, prostrado em rezas ante o Deus que distribue o céu ou o inferno!... Mas o telefone! o fonógrafo!

—Aí tens tu, o fonógrafp!... Só o fonógrafo, Zé Fernandes, me faz verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa do bicho. Acredita, não ha senão a Cidade, Zé Fernandes, não há senão a Cidade!

E depois (acrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessária à vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois milhões de seres arquejando na obra da Civilização (para manter na natureza o domínio dos Jacintos!) sentia um sossego, um conchego, só comparáveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no seu dromedário, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de lumes e de armas...

Eu murmurava, impressionado:

—Caramba!

Ao contrário no campo, entre a inconsciência e a impassibilidade da Natureza, ele tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão. Estava aícomo perdido num mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum silvado encolheria os espinhos para que ele passasse; se gemesse com fome nenhuma árvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fruto na ponta compassiva de um ramo. Depois, em meio da Natureza, ele assistia à súbita e humilhante inutilização de todas as suas faculdades superiores. De que servia, entre plantas e bichos - ser um gênio ou ser um santo? As searas não compreendem as "Geórgicas"; e fora necessário o socorro ansioso de Deus, e a inversão de todas as leis naturais, e um violento milagre para que o lobo de Agúbio não devorasse S. Francisco de Assis, que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava "meu irmão lobo"! Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e só resta a bestialidade. Nesses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas únicas funcções se mantêm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem occupação, entre focinhos e raizes que não cessam de sugar e de pastar, sufocando no cálido bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de matéria; e nessa matéria dois instintos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu ser tão nobremente composto só restava um estômago e por baixo um falo! A alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade, mergulhar nas ondas lustrais da Civilização, para largar nelas a crosta vegetativa, e ressurgir re-humanisado, de novo espiritual e Jacíntico!

E estas requintadas metáforas do meu amigo exprimiam sentimentos reaes - que eu testemunhei, que muito me divertiram, no único passeio que fizemos ao campo, à bem amável e bem sociável floresta de Montmorency. Oh delécias de entremez, Jacinto entre a Natureza! Logo que se afastava dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer chão que os seus pés calcassem o enchia de desconfiança e terror. Toda a relva, por mais crestada, lhe parecia reçumar uma humidade mortal. De sob cada torrão, da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de víboras, de fórmas rastejantes e viscosas. No silêncio do bosque sentia um lúgubre despovoamento do Universo. Não tolerava a familiaridade dos galhos que lhe roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para ele um ato degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flores que não tivesse já encontrado em jardins, domesticadas por longos séculos de servidão ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava de uma melancolia funambulesca certos modos e fprmas do Ser inanimado, a pressa esperta e vã dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorsões do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto.

Depois de uma hora, naquele honesto bosque de Montmorency, o meu pobre amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento mingoar e sumir d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desanuviou quando penetramos no lagedo e no gás de Paris - e a nossa vitória quase se despedaçou contra um ônibus retumbante, atulhado de cidadãos. Mandou descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade, aquela materialização em que sentia a cabeça pesada e vaga como a dum boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para sacudir, com os estribilhos da Femme à Papa, o rumor importuno que lhe ficára dos melros cantando nos choupos altos.

Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, e era um soberbo moço em quem reaparecera a força dos velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz, afilado, com narinas quase transparentes, de uma mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia às delicadezas do século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das eras rudes, crespo e quase lanígero: e o bigode, como o dum Celta, caía em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. Todo o seu fato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma pérola prendia, as luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, não natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira com petalas de flores dessemelhantes, cravo, azaléia, orquídea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma leve folhagem de funcho.


Em 1880, em Fevereiro, numa cinzenta e arrepiada manhã de chuva, recebi uma carta de meu bom tio Afonso Fernandes, em que, depois de lamentações sobre os seus setenta anos, os seus males hemorroidais, e a pesada gerência dos seus bens "que pedia homem mais novo, com pernas mais rijas" me ordenava que recolhesse á nossa casa de Guiães, no Douro! Encostado ao marmore partido do fogão, onde na véspera a minha Nini deixára um espartilho embrulhado no Jornal dos Debates, censurei severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a flor do meu saber Jurídico. Depois num Post-Scriptum ele acrescentava: «O tempo aqui está lindo, o que se póde chamar de rosas, e tua santa tia muito se recommenda, que anda lá pela cozinha, porque vai hoje em trinta e seis anos que casamos, temos cá o abade e o Quintais a jantar, e ela quiz fazer uma sopa dourada».

Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da tia Vicência. Ha quantos anos não a provava, nem o leitão assado, nem o arroz de forno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas do nosso pátio vergariam sob os seus grandes cachos amarelos. Um pedaço de céu azul, do azul de Guiães, que outro não há tão lustroso e macio, entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas, ribeirinhos, malmequeres e flores de trevo de que meus olhos andavam aguados. E, por entre as bambinelas de sarja, passou um ar fino e forte e cheiroso de serra e de pinheiral.

Assobiando um fado meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e meti solicitamente entre calças e peúgas um Tratado de Direito Civil, para aprender enfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as leis que regem os homens. Depois, nessa tarde, anunciei a Jacinto que partia para Guiães. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto e piedade:

—Para Guiães!... Oh Zé Fernandes, que horror!

E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. «Leva uma poltrona! Leva a Enciclopédia Geral! Leva caixas de aspargos!...»

Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era arbusto desarraigado que não reviverá. A mágoa com que me acompanhou ao comboio conviria excelentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de sepultura, eu quase solucei - com saudades minhas.

Cheguei a Guiães. Ainda restavam flores nas mimosas do nosso pátio; comi com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos pés assisti à ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na poeira dos arraiais, arranchando a magustos, serandando à candeia, atiçando fogueiras de S. João, enfeitando presépios de Natal, por alli me passaram docemente sete anos, tão atarefados que nunca logrei abrir o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que apenas me recordo quando, em vésperas de S. Nicolau, o abade caiu da égua à porta do Brás das Córtes. De Jacinto só recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas à pressa por entre o tumulto da Civilização. Depois, num Setembro muito quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes morreu, tão quietamente, Deus seja louvado por esta graça, como se cala um passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia a roupa do luto. A minha afilhada Joaninha casou na matança do porco. Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.