A Cidade e as Serras/XVI

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A Cidade e as Serras
por Eça de Queirós


Muitas vezes Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder jornadear sem desconforto, e apontando já com o seu dedo para as coisas da civilização. Mas quando ele, em Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. “Estamos aqui tão bem! está um tempo tão lindo!” murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo pescoço do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris, encantado. “Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem em flor!” Mas em Abril vieram aqueles cansaços que imobilizavam a prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o roupão mais solto. Pôr todo um longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então sofrendo de desocupação. As chuvas de Março prometiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem feita, viúva, que sortia as necessidades do meu coração, partira com o irmão par ao Brasil, onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno, sentia também no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. Depois a minha égua morreu... Parti eu para Paris.

Logo em Hendaia, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202 - talvez pôr eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores bacânticas nas tranças, se estorcia, segurando numa das mãos uma garrafa, espumante, e brandindo na outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh surpresa! Eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de Saint-Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegância, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:

-Eh, Fernandes!

Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202... Com que reconhecimento lhe sacudi a mão fina, pôr ele me Ter reconhecido! E atirando para o canto do vagão um paletó, um maço de jornais, que o escudeiro lhe passara, o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:

-E Jacinto?

Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro grande amor pôr minha prima, e os dois filhos, que ele trazia escarranchados no pescoço.

-Ah que canalha! - exclamou Marizac com os olhos espetados em mim. - É capaz de ser feliz!

-Espantosamente, loucamente... Qual! Não há advérbios...

-Indecentemente - murmurou Marizac muito sério. - Que canalha!

Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os ombros, acendendo a cigarrilha:

-Todo esse mundo circula...

-Madame de Oriol?

-Continua.

-Os Trèves? o Efraim?

-Continuam, todos três.

Lançou um gesto lânguido.

-Durante cinco anos, em Paris, tudo continua... As mulheres com um pouco mais de pó-de-arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarquistas. A princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de Inverno... e - e voilá!

-Dornan?

-Continua... Não o encontrei mais desde o 202... Mas vejo às vezes o nome dele, no Boulevard, com versos preciosos, obscenidades muito apuradas, muito sutis.

-E o Psicólogo?... Ora, como se chamava ele?...

-Continua também. Sempre com as feminices a três francos e cinqüenta... Duquesas em camisa, almas nuas... coisas que se vendem bem!

Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Grão-Duque, o comboio entrou na estação de Biarritz: - e rapidamente, apanhando o paletó e os jornais, depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac saltou pela portinhola, que o seu criado abrira, gritando:

-Até Paris!... Sempre rue Cambori.

Então, no compartimento solitário, bocejei, com uma estranha sensação de monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas, murmurando histórias muito sabidas, e coisas muito ditas, através dos sorrisos estafados. Dos dois lados do comboio era a longa planície monótona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente retalhada, dum verde de resedá, verde-cinzento e apagado, onde nenhum lampejo, nem tom alegre de flor, nem acidente do solo, desmanchavam a mediocridade discreta e ordeira. Pálidos choupos, em renques pautados e finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, todos da mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o céu, pôr cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descorado, parecia um vasto espelho muito lavado a grande água, até que de todo se lhe safasse o esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez.

Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina, e já macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnância no profundo, sombrio leito do Grande-Hotel, todo fechado de espessos veludos, grossos cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova de penas sonhei que em Tormes se construíra uma torre Eiffel, e que em volta dela as senhoras da Serra, as mais respeitáveis, a própria tia Albergaria, dançavam, nuas, agitando no ar saca-rolhas imensos. Com as comoções deste pesadelo, e depois o banho, e o desemalar da mala, já se acercavam as duas horas quando enfim emergi do grande portão, pisei, ao cabo de cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que todos esses cinco anos eu ali permanecera à porta do Grand-Hotel, tão estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar da cidade, e as magras árvores, e as grossas tabuletas, e os imensos chapéus emplumados sobre tranças pintadas de amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com grossas rosetas da legião de honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fósforos obscenas... Santo Deus! Pensei, há que anos eu estou em Paris! Comprei, então, num quiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que ele me contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, alastrada de jornais ilustrados: - e em todos se repetia a mesma mulher, sempre nua, ou meio despida, ora mostrando as costelas magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas nádegas... Eu outra vez murmurei: - Santo Deus! No café da Paz, o criado lívido, e com um resto de pó-de-arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao meu apetite, pôr ser tão tarde, um linguado frito e uma costeleta.

-E que vinho, Sr.Conde?

-Chablis, Sr. Duque!

Ele sorriu à minha deliciosa coluna, através duma prosa muito retorcida, toda em brilhos de jóia barata, entrevi uma Princesa nua, e um Capitão de Dragões, que soluçava. Saltei a outras colunas, onde se contavam feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra página escritores eloqüentes celebravam vinhos digestivos e tônicos. Depois eram os crimes do costume. - Não há nada de novo! Pus de parte a Voz de Paris - e então foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O miserável, que se frigira rancorosamente contra mim, não consentia que eu descolasse da sua espinha uma febra escassa. Todo ele se ressequira numa sola impenetrável e tostada, onde a faca vergava, impotente e trêmula. Gritei pelo moço lívido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os sapatos de fivela, arrancou enfim àquele malvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. Duma garfada findei a costela. E paguei quinze francos com um bom luís de ouro. No troco, que o moço me deu, com a polidez requintada duma civilização muito difundida, havia dois francos falsos. E pôr aquela doce tarde de Maio saí para tomar no terraço um café cor de chapéu-coco, que sabia a fava.

Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, àquela hora em toda a pressa e estritor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos ônibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente, como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele movimento continuado e rude bem depressa entonteceu este espírito, pôr cinco anos afeito à quietação das serras imutáveis. Tentava então, puerilmente, repousar nalguma forma imóvel, ônibus parado, fiacre que estacara num brusco escorregar da pileca; mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipóia, ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o ônibus: - e, recomeçava o rolar retumbante . Imóveis, decerto, estavam os altos prédios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham, disciplinavam, aquela torrente ofegante. Mas da rua aos telhados, em cada varanda, pôr toda a fachada, eram tabuletas encimando tabuletas, que outras tabuletas apertavam: - e mais me cansava o perceber a tenaz incessância do trabalho latente, a devorante canseira do lucro, arquejante pôr trás das frontarias decorosas e mudas. Então, enquanto fumava o meu charuto, estranhamente se apossaram de mim os sentimentos que Jacinto outrora experimentara no meio da Natureza, e que tanto me divertiam. Ali, à porta do café, entre a indiferença e a pressa da Cidade, também eu senti, como no Campo, a vaga tristeza da minha fragilidade e da minha solidão Bem certamente estava ali como perdido num mundo, que não era fraternal. Quem me conhecia? Quem se interessaria pôr Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse, ninguém me daria metade do seu pão. Pôr mais aflitamente que a minha face revelasse uma angústia, ninguém na sua pressa pararia para me consolar. De que me serviriam também as excelências da alma, que só na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela turba não se importaria com a minha santidade; e se eu abrisse os braços e gritasse, ali no Boulevard - “ oh homens, mais ferozes que o lobo ante o Pobrezinho de Assis, ririam e passariam indiferentes. Dois impulsos únicos, correspondendo a duas funções únicas, parecia estarem vivos naquela multidão - o lucro e o gozo. Isolada entre eles, e ao contágio ambiente da sua influência, em breve a minha alma se contrairia, se tornaria num duro calhau de Egoísmo. Do ser que eu trouxera da Serra só restaria em pouco tempo esse calhau, e nele, vivos, os dois apetites da cidade - encher a bolsa, saciar a carne! E pouco a pouco as mesmas exagerações de Jacinto perante a Natureza me invadiam perante a cidade. Aquele Boulevard reçumava para mim um bafo mortal, extraído dos seus milhões de micróbios. De cada porta me parecia sair um ardil para me roubar. Em cada face avistada à portinhola dum fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as mulheres me pareciam caiadas como sepulcros, tendo só podridão pôr dentro. E considerava duma melancolia funambulesca as formas de toda aquela Multidão, a sua pressa áspera e vã, a afetação das atitudes, as imensas plumas das chapeletas, as expressões postiças e falsas, a pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens obscenas da vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, quase cômico da minha parte, mas é o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de mergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta da Cidade, e eu ressurgisse humano, e Zé Fernandico!

Então, para dissipar aquele pesadume de solidão, paguei o café e parti, lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da estação dos ônibus, pensei: - Que será feito de Madame Colombe? E, oh miséria! Pelo meu miserável ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto pôr aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e que me envolvia nas emanações sutis do seu veneno. Depois, ao dobrar da rue Royale para a praça da Concórdia, topei com um robusto e possante homem, que estacou, ergueu o braço, ergueu o vozeirão, num modo de comando:

-Eh, Fernandes!

O Grão-Duque! O belo Grão-Duque, de jaquetão alvadio e chapéu tirolês cor de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do Príncipe, que me reconhecera.

-E Jacinto? Em Paris?...

Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a Natureza, a minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia às cavaleiras. O Grão-Duque encolheu os ombros, desolado:

-Ó lá, lá, lá!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem perdido! Ora não há!... E um rapaz útil! Que nos divertia, e tinha gosto! Aquele Jantar cor-de-rosa foi uma festa linda... Não se fez, não se tornou a fazer nada tão brilhante em Paris... E Madame de Oriol... Ainda há dias a vi no Palácio de Gelo... Potável, mulher ainda muito potável... Não é todavia o meu gênero... adocicada, leitosa, pomadada, neve à la vanile... Ora esse Jacinto!...

-E vossa Alteza, em Paris, com demora?

O formidável homem baixou a face, franzida e confidencial:

-Nenhuma. Paris não se agüenta... está, estragado, positivamente estragado...Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça Gailon, o Ernest, que era maître-d’hotel do Maire... Já lá comeu? Um horror. Tudo é o Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada! Não tem a noção da salada! Paris foi! Teatros, uma estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. Não há nada! Ainda assim, num dos teatritos de Montmartre, na Roulotte, está uma revista, que se vê: Para cá as mulheres! - engraçada, bem despida... A Celestine tem uma cantiga, meio sentimental, meio porca, o Amor no Water-Closet, que diverte, tem topete... Onde está, Fernandes?

-No Grand-Hotel, meu senhor.

-Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?

Curvei a cabeça:

-Sua Majestade, bem.

-Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacinto é que me desola! Vá ver a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graça o tal Amor no Water-Closet.

Um rijíssimo aperto de mão - e S. Alteza subiu pesadamente para a vitória, ainda com um aceno amável, que me penhorou... Excelente homem, este Grão-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os Campos Elísios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda verde, com os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, velocípedes. Parei a contemplar aquela fealdade nova, estes inumeráveis espinhaços arqueados, e gâmbias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas rodas. Velhos gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente. Galfarros, esguios, de tíbias descarnadas, fugiam numa linha esfuziada. E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, calções bufantes, giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equívoco da carreira, escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas máquinas passavam, vitórias e faetontes a vapor, com uma complicação de tubos e caldeiras, torneiras e chaminés, rolando numa trepidação estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petróleo. Segui para o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Fídias, se visse esta nova beleza e graça do caminhar humano!...

No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento de Jacinto, e daqueles queridos meninos. E era para ele uma felicidade que eu aparecesse, justamente quando tudo se andara limpando para a entrada da Primavera. Quando penetrei na amada casa senti vivamente a minha solidão. Não restava em toda ela nem um dos costumados aspectos que fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Príncipe. Logo na antecâmara grandes lonas cobriam as tapeçarias heróicas, e igual lona escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes de ébano da Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente enfileirados como doutores num Concílio, pareciam separados do mundo pôr aquele pano que sobre eles descera depois de finda a comédia da sua força e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de sobre a mesa de escrita, desaparecera aquela confusão de instrumentozinhos, de que eu perdera já a memória; e só a Mecânica suntuosa, pôr sobre peanhas e pedestais, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas, rigidezes de metais, numa frieza inerte, na inatividade definitiva das coisas desusadas, como já dispostas num Museu, para exemplificar a instrumentação caduca dum mundo passado. Tentei mover o telefone, que se não moveu; a mola da eletricidade não acendeu nenhum lume: todas as forças universais tinham abandonado o serviço do 202, como servos despedidos. E então, passeando através das salas, realmente me pareceu que percorria um museu de antigüidades; e que mais tarde outros homens, com uma compreensão mais pura e exata da vida e da Felicidade, percorreriam, como eu, longas salas, atulhadas com os instrumentos da supercivilização, e, como eu, encolheriam desdenhosamente os ombros ante a grande Ilusão que findara, agora para sempre inútil, arrumada como um lixo histórico, guardado debaixo da lona.

Quando saí do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas rolara momentos pela Avenida das Acácias, no silêncio decoroso, unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o mesmo sorriso, o mesmo pó-de-arroz, as mesmas pálpebras amortecidas, os mesmos olhos farejantes, a mesma imobilidade de cera! O romancista da Couraça passou numa vitória, fixou em mim o monóculo defumado, mas permaneceu indiferente. Os bandós negros de Madame Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a harmonia de todo o branco que a vestia, chapéu, plumas, flores, rendas e corpete, onde o seu peito imenso se empolava como uma onda. No passeio, sob as Acácias, espapado em duas cadeiras, o diretor do Boulevard mamava o resto de seu charuto. E num landau, Madame de Trèves continuava o seu sorriso de há cinco anos, com duas pregazinhas mais moles aos cantos dos lábios secos.

Abalei para o Grand-Hotel, bocejando - como outrora Jacinto. E findei o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com uma comédia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do mais vivo parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava à volta duma Cama, onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nádegas, cozinheiras de meias de seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a esfuziar de cio e de pilhéria. Tomei um chá melancólico no Julien, no meio de um áspero e lúgubre namoro de prostitutas, fariscando a presa. Em duas delas, de pele oleosa e cobreada, olhos oblíquos, cabelos duros e negros como crinas, senti o Oriente, a sua provocação felina... Interroguei o criado, um medonho ser, duma obesidade balofa e lívida, de eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda:

-Mulheres de Madagáscar... Foram importadas quando a França ocupou a ilha!

Arrastei então pôr Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartara havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada página que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de alcova, e de pós-de-arroz, entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que já de manhã, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei pôr grossos preços garrafas do nosso adstringente e rústico vinho de Torres, enobrecido com o título de Château isto, Château aquilo, e pó postiço no gargalo. À noite, nos teatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro e único fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai os moscardos, todo um enxame de gentes estonteadas, frementes de erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planície me levou a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da Colina, em Montmartre; e aí, no meio duma multidão elegante de Senhoras, de Duquesas, de Generais, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delícia os corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das nobres damas. E recolhia enjoado com tanto relento de alcova, vagamente dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente comigo, pôr me não divertir, não compreender a Cidade, e errar através dela e da sua Civilização Superior, com a reserva ridícula dum Censor, dum Catão austero. Ó senhores! - pensava - pois eu não me divertirei nesta deliciosa cidade? Entrará comigo o bolor da velhice?

Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, mergulhei no meu doce bairro Latino, evoquei, diante de certos cafés, a memória da minha Nini; e, como outrora, preguiçosamente, subi as escadas da Sorbona. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro, um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, o seu dizer elegante e límpido foi sufocado pôr gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado, ele recomeçou com alta serenidade. Todas as suas idéias eram frias e substanciais, expressas numa língua pura e forte, mas, imediatamente, rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, pôr entre magras mãos, que se estendiam levantadas para estrangular as idéias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola dum macfarlane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando endefluxado. Perguntei ao velho:

-Que querem eles? É embirração com o professor... é política?

O velho abanou a cabeça, espirrando:

-Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... Não querem idéias... Creio que queriam cançonetas. É o amor da porcaria e da troça.

Então, indignado, berrei:

-Silêncio, brutos!

E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me berra:

-Sale Maure! (trad. "Mouro imundo")

Ergui o meu grosso punho serrano - e o desgraçado, numa confusão de melenas, com sangue pôr toda a face, aluiu, como um montão de trapos moles, ganindo desesperadamente, enquanto o furacão de uivos e cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os braços, esperando, com uma serenidade simples.

Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o único dia alegre e divertido que nela passei foi o derradeiro, comprando para os meus queridinhos de Tormes brinquedos consideráveis, tremendamente complicados pela Civilização - vapores de aço e cobre, providos de caldeiras para viajar em tanques; leões de pele verídica rugindo pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrière, com fonógrafo no ventre...

Finalmente abalei uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o Boulevard, as minhas despedidas à Cidade:

-Pois adeuzinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me pilhas! O que tens de bom, que é o teu gênio, elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio. Adeuzinho!

Na tarde do seguinte Domingo, debruçado da janela do comboio, que vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num silêncio todo feito de azul e sol, avistei, na plataforma da quieta estação da minha aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que empunhava uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e beijei aquela tribo bem-amada conviria perfeitamente a quem voltasse vivo duma guerra distante, na Tartária. Na alegria de recuperar a Serra, até beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar de obesidade se açodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas.

Jacinto, magnífico, de grande chapéu serrano e jaqueta, de novo me abraçou:

-E esse Paris?

-Medonho!

Abri depois os braços para o bravo Jacintinho.

-Então para que é essa bandeira, meu cavaleiro?

-É a bandeira do Castelo! - declarou ele com uma bela seriedade nos seus grandes olhos.

A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da chegada do Ti-Zé, apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e não a largara mais; com ela almoçara, com ela descera de Tormes!

Bravo! E, prima Joaninha, olhe que está magnífica! Eu, também, venho daquelas peles meladas de Paris... Mas acho-a triunfal! E o tio Adrião, e a tia Vicência?

-Tudo ótimo! - gritou Jacinto. - A serra, Deus louvado, prospera. E agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilização.

No largo pôr trás da estação, debaixo dos eucaliptos, que revi com gosto, esperavam os três cavalos, e dois belos burros brancos, um com cadeirinha para a Teresa, outro com um cesto de verga, para meter dentro o heróico Jacintinho, um e outro servidos à estribeira, pôr um criado. Eu ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador apareceu com um maço de jornais e papéis, que eu esquecera na carruagem. Era uma papelada, de que me sortira na Estação de Orleães toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo:

-Deita isso fora!

E eu atirei, para um montão de lixo, ao canto do pátio, aquele pútrido rebotalho da Civilização. E montei. Mas ao dobrar para o caminho empinado da Serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de quem me esquecera. O digno chefe, debruçado sobre o monturo, apanhava, sacudia, recolhia com amor aquelas belas estampas, que chegavam de Paris, contavam as delícias de Paris, derramavam através do mundo a sedução de Paris.

Em fila começamos a subir para a Serra. A tarde adoçava o seu esplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes das flores silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Vidraças distantes de casas amáveis flamejavam com um fulgor de ouro. A Serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, pôr entre a verdura, flutuava no ar a bandeira branca, que o Jacintinho não largava, de dentro do seu cesto, com a haste bem segura na mão. Era a bandeira do Castelo, afirmara ele.

E na verdade me parecia que, pôr aqueles caminhos, através da natureza campestre e mansa - o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da Serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha Sale Maure! Mãe, os dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu - tão longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós, serenamente e seguramente subíamos - para o Castelo do Grã-Ventura!