A Estratégia Preventiva

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A Estratégia Preventiva
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


O consultório do jovem médico Barreto Lopes estava cheio, já, às quatro da tarde. Senhoras, moças, crianças, homens idosos, manuseavam revistas ou liam jornais, matando o tempo, antes que o tempo os matasse. E, a um canto, visivelmente nervoso, o coronel Ribeiro Moura, cujo bigodinho pintado, escorregando do nariz, denunciava, nele, um desses velhos mundanos que não sabem capitular diante do inimigo eterno e querem aproveitar, por isso, até a última gota, o vinho capitoso da vida.

Afastada a cortina que vela a grande porta do gabinete de consultas, o contínuo faz um sinal, e o militar atravessa o salão, rápido, escandaloso, como uma granada que fosse estourar, formidável, nos pés do especialista.

— Então, coronel, que é isso? como tem passado? — indaga Barreto Lopes, arregalando-lhe o lho, para examinar-lhe a esclerótica.

— Ah! doutor!... estou passando horrivelmente, hoje!... A cabeça estala-me... parece que vou morrer... que vou me acabar...

E com ambas as mãos no coração:

— E que dor!... que dor!...

Olhos agudos de quem conhece a aproximação das crises como o caçador pressente a caça que vem longe, o médico pôs-se de pé:

— Não se assuste, — pediu, — mas, o senhor vai ficar de cama alguns meses...

— Eu, doutor?

— Sim; o senhor, talvez daqui a duas horas, talvez já, vai ficar paralítico.

— Paralítico, doutor? — gritou o oficial, horrorizado. — Paralítico?

— Sim, mas será uma paralisia parcial, só do lado esquerdo...

— Do lado esquerdo, doutor?... O senhor disse do lado esquerdo? — exclamou Ribeiro Moura, numa aflição, como um homem que vai entrar, inesperadamente, em combate.

E a uma confirmação do especialista:

— Então, doutor, com licença... com licença... O senhor tem aqui algum lugar reservado?... tem?...

O médico indicou-lhe uma porta discreta. Momentos depois, o oficial reaparecia, corrigindo a roupa, o ar feliz.

— Estou pronto, doutor.

E sentando-se numa cadeira, risonho, acomodando a calça, um risinho canalha sob o bigodinho do Carlito:

— Agora, posso ficar paralítico do lado esquerdo...