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A Fada Loira

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Capa do Livro "A Fada Loira": duas crianças num jardim, uma brinca com um cavalo de madeira, a outra lê um livro

Biblioteca para a infancia
 

 

A fada loira

Typographya da Parceria
Antonio Maria Pereira ―
Rua Augusta, 44, 46, e 48
* * * LISBOA * * *

Volumes publicados
 

 

1 ― Horas de folga.

2 ― Recreações infantis.

3 ― Para ler nas férias.

4 ― Por bom caminho.

5 ― Para divertir.

6 ― Alegrias.

7 ― Histórias famosas.

BIBLIOTECA PARA A INFÂNCIA
POR
MARIA O’NEILL
 

 

 
A fada loira
 

 
――――― CONTOS ―――――
 

 
Ilustrações de Santos Silva

1917

Parceria Antonio Maria Pereira
LIVRARIA EDITORA
Rua Augusta, 44 a 54
LISBOA

A Fada Loira

 
I

Numas ilhas remotas, em paiz onde lavrava a desordem e a desunião, via o povo, com tristeza de raros, que se tinha perdido a pouco e pouco o patriotismo e todas as nobres qualidades que são apanagio dos fortes. Imperava ali um egoismo desenfreado, o que equivale a dizer, que cada um tratava de si sem se importar com os outros, parecendo-lhes assim, que, não pensando e não atendendo senão ás próprias necessidades, levariam vida mais regalada e duradoira. Os negocios do Estado iam de mal em peior, ¿mas, quem se importava com isso?

O Estado era de todos e não era de nenhum, portanto o melhor que havia a fazer era tirar dele o proveito que se podesse é não pensar senão em o utilizar, tanto quanto fôsse possível, sem lhe ser util de graça, o que seria rematada estupidez. Postas as cousas neste pé, é facil vêr que se caminhava indubitavelmente para a ruina, e não era preciso ser bruxo para se adivinhar que a perda da nacionalidadé não se faria esperar. Esta ideia, longe de contristar aquela gente pervertida, enchia de regosijo. ¿Que lhes importava a eles a independência? Nada. O bem estar individual é que era necessario garantir. Mas, como toda a regra tem excepção, havia naquele pais um rapazinho de 15 annos, que fôra educado no campo por um velho cura da aldeia, e, longe das más companhias da sociedade, crescia na admiração dos mártires do cristianismo e até daqueles que, pagãos, ti- nham cultivado o bem e o belo. O santo velho que o educava, dizia-lhe sorrindo:

― Filho, o homem está nos actos e não nas palavras ¿Que serve falar bem e proceder mal? Não prometas a Deus ser bom porque podes não ter ânimo de cumprir a promessa e faltarás á tua palavra; mas empenha-te em exceder em bondade o teu semelhante para lhe sêres mais prestavel a êle do que êle a ti e, sem nada prometer procura cumprir mais do que se tivesses prometido. A liberdade valoriza a acção: sê livre e serás grande e bom. Não te deixes arrastar pelas ideias alheias. Lembra-te de que Deus nos tornará responsável dos próprios actos e nos deu razão e consciência para examinar os próprios erros. ¿De que serve o perdão alheio se a nossa própria consciência nos negar piedade? No coração do homem, filho, ha dois amôres que devem ser superiores a tudo: Deus e Patria. Por êles são justos todos os sacrificios, e dar a vida é honra e gloria muito para estimar. Assim educado, o nosso aldeão não conhecia o egoismo da propriedade, nem percebia a vantagem e o prazer de ter uma cousa só para si, como se verá pelo breve episodio que lhes vou descrever:

No passal do cura havia uns canteiros muito cuidados, ornados de deliciosos morangos. O cura dizia a Guilherme.

― Podes comê-los logo que estejam maduros.

Com efeito, assim que os morangos estavam bons, Guilherme colhia-os e fazia montinhos de seis que repartia pelos pequenos mais pobres da freguezia.

Um daqueles que êle costumava brindar, disse-lhe um dia.

― Tu és tolo, Guilherme.

― Porquê? perguntou o rapazinho.

― Porque podias fartar-te comendo os morangos todos e para repartires comnosco só comes seis.

Ele sorriu e, sem se doer da ingratidão, volveu-lhe mansamente.

― Se eu me fartasse podia ter uma indigestão e aborrecer os morangos, o que, além duma brutalidade, podia ser um prejuizo. Repartindo os morangos por vocês, não os enjôo e tenho a satisfação de lhes ter proporcionado um prazer.

Por isto verão os leitores que bom coração tinha este digno rapaz.

Uma tarde, estava êle deitado na terra lendo os feitos heroicos do grande general que tornara independente o seu paiz, depois de longa e aturada escravidão e, emquanto lia lançava de espaço a espaço um olhar vigilante ás ovelhas que estava encarregado de apascentar. Pareceu-lhe que uma délas, a mais branca e bonita, ao aproximar-se da beira da agua, recuára assustada como se tivesse visto qualquer cousa que a impedisse de beber.

Cuidadoso e cumpridor do seu dever, Guilherme poisou o livro na relva e, cravando no chão o pau ferrado, ergueu-se e foi vêr o que tinha impedido o animal de beber. Mas ao chegar ao sítio onde estava a ovelha, recuou, não menos atemorisado do que éla.

Comtudo, passando as mãos pelos olhos e fazendo um grande esforço de vontade, Guilherme aproximou-se de novo e debruçou-se sobre a corrente.

A agua tornara-se transparente a ponto de se vêrem as areias doiradas no fundo do rio e aí, sentada sob uma pedra musgosa, estava uma linda figura de mulher, vestida de branco, com bastos e sedosos cabelos, soltos ao longo das espáduas.

A cabeça pendia-lhe entre as mãos e os seus soluços eram fortes a ponto de a fazerem estremecer convulsivamente.

Tres vezes o pequeno pastor lhe perguntou inquieto:

Num bosque, um pastor com o chapéu na mão fala com uma fada de cabelos compridos.
― Não a deixarei ir embora... (Pag. 10)

― Menina! menina! ¿o que tem?

Ela não respondeu, mas á terceira vez ergueu a cabeça, fitou nêle um demorado olhar, e, agitando as aguas com a mão, turvou-as a ponto de desaparecer aos olhos espantados do mancebo. Quando as aguas volveram á serenidade, a linda mulher loira já não estava no fundo do rio.

Guilherme recolheu o gado mais cêdo do que costumava e, logo que chegou a casa, contou ao seu bemfeitor o que presenceára. O cura escutou-o com um sorriso benevolo e, quando êle terminou disse-lhe:

― Isso, meu filho, não tem importância. Tens os nervos doentes, é o que é.

Mas no dia imediato, tendo-se repetido a mesma scena, Guilherme calou-se e resolveu adquirir a certeza de que não era uma alucinação dos sentidos, mas uma realidade.

Voltou ainda no outro dia e, em vez de perguntar «Menina, menina ¿o que tem?» Lançou-se á agua e, agarrando a jovem pela cintura, trouxe-a para terra e pousou-a no chão junto duma arvore afirmando-lhe com doçura:

― Não a deixarei ir embora sem que me diga porque chora e quem é.

Ela limpou os olhos e, fitando o mancebo com interesse, volveu-lhe:

― ¿Guardarás segrêdo de quanto te confiar? Juras?

― Senhora, as minhas palavras valem juramentos. Eu não sei mentir.

― Caso raro numa terra onde ninguém fala verdade , onde se deturpam os factos ao sabor das conveniências individuaes, e onde a lei é letra morta.

― Dizeis muito mal da nossa terra, senhora, e bem que verdade seja o que dizeis, peza-me ouvi-lo, como pesa a um filho ouvir censurar a própria mãe.

― Tens razão. Pois bem, serei franca comtigo. Sinto que não me trairás. A terra que nos é mãe foi sempre a melhor do mundo; é productiva, é rica, saudavel, boa, numa palavra é perfeita; mas os seus filhos, a que chamam vulgarmente a nação, fazem-na passar por tudo que não é, e ela, triste, abatida, vilipendiada, está em vésperas de cair nas mãos cubiçosas dos estrangeiros, que a pizarão sem amor, que a tratarão como um senhor trata a escrava.

― Nunca! bradou Guilherme impelido por uma força sobrenatural. Nunca, emquanto eu viver, o inimigo chamará sua á terrá de meus pais!

― Mas quem és tu? disse ela com ironia.

― Um pobre pequeno, um simples pastor... ¿Mas quem era Joana d'Arc?

― ¿Que podes tu só contra uma nação inteira?

― Senhora, a minha pequenez é grande e bem se mostra; mas a alma é vasta como o oceano e capaz de, como êle, cumprir grandes cousas. Em Portugal, paiz pequeno, mas altivo e nobre, alguêm houve também, ― não era humilde como eu, mas era um homem só, ― que, indignado, perguntou se haveria quem

....... por nenhum respeito
O proprio reino queira vêr sujeito?

«Canta-o lindamente, em sublimes oitavas, o grande Camões, que diz ainda:

E se com isto emfim vos não moverdes
Do penetrante mêdo que tomastes
Atai as mãos ao vosso vão receio,
Que eu só resistirei ao jugo alheio.

― ¿E resistiu?

― Sim, mas não só. A sua palavra inflamou o povo cuja coragem estava arrefécida por uma longa paz. Este homem era Nuno Alvares Pereira que foi um verdadeiro açoute para os castelhanos. Pois bem, será êle o meu modelo, irei busca-lo á historia desse paiz cuja grandeza assombra o mundo, e tenho fé, senhora, que, apesar de ser um pequeno pastor, terei forças para arrancar ás mãos do estrangeiro a independência da Patria. Agora, menina ou senhora ― não sei qual nome melhor vos caiba, tanta é a juventude e a majestade do vosso aspecto,― dizei-me: ¿quem sois?

Eu sou a alma desta terra que, sob a fórma infeliz dum corpo de mulher, procuro acordar no espírito dos bons o antigo amor que me tinham e que um mal entendido egoismo deixou findar. ¡Pois eu hei de me vêr calcada por estranhos, conquistada, escravisada! Eu que tinha orgulho em que a espada na mão dos meus filhos era, depois do raio nas mãos de Deus, a arma mais terrivel do mundo! Mas vê a que cheguei! Ha tantos homens na terra e é junto de ti, criança, que eu venho dar espansão à minha dôr. Tomas gostosamente a missão de que eu não tinha ânimo de te encarregar. Vai e sê feliz! Dois dons apenas te posso conceder por agora. Não te deixar nunca prender sem te pôr imediatamente em liberdade e onde te convier, e fazer com que a morte te não procure emquanto andares ao meu serviço. Sempre que te vires ameaçado, exclama: Alma da terra em que nasci! acode aqui. E serás promptamente socorrido por mim.

― ¿Mas vêr-te-hei sempre sob esse aspecto?

― Sempre, quando eu precisar comunicar contigo. Adeus. Não te dou conselhos. Agora, espera. O meu filho Rio tem algumas cousas que te deseja oferecer, porque está convencido, ha muito, de que, sem elas, se não pode encaminhar bem no mundo qualquer causa.

Deu a mão a beijar ao camponez e desceu ao fundo do rio. As aguas turvaram-se, agitando-se muito e a fada loira desapareceu aos olhos encantados do mancebo, momentos depois, na margem do rio surgiram dois cavalos, uma armadura completa, fato, dois sacos com dinheiro e um pagem.

Como acordando dum sonho, Guilherme perguntou aflicto:

― E as ovêlhas ? Que farei eu delas?

Então uma voz suave e profunda, saíndo das entranhas da terra, exclamou:

― Se já antes de partir te prendes com as ovelhas que fará ao surgirem obstaculos reaes? Quem não

Paisagem campestre com um pagem e dois cavalos.
... surgiram dois cavalos... (Pag. 13)

deixa tudo por mim, não é digno de ser chamado meu filho. As ovelhas continuarão a pastar e farão, sem ti, quanto dantes faziam. Não ha ninguem insubstituivel, crê. Quem tem de servir bem uma causa começa por lhe imolar o proprio coração.

Num relance a figura do cura, sentado á porta de casa a ler o breviario, passou saudosa ante o olhar lacrimoso do mancebo; mas sem hesitar vestiu os fatos que o pagem lhe estendia, cingiu a couraça, pôz o elmo e, ageitando as redeas, saltou sobre o soberbo cavalo como se fosse um provado cavaleiro e partindo a galope, bradou :

― Vamos pagem, mais vale ser um entre muitos do que não ser ninguem: tudo pela Patria!

E lançou á casa do cura um humido e saudoso olhar.

O nosso herói não ia arrependido, mas com a alma em pena, preocupado com a empreza que aceitára, no ardor do entusiasmo, sem bem lhe medir o alcance. Pensava, mau grado seu, no velho cura que aquela hora decerto interrogava anciosamente com a vista cansada a velha estrada romana pela qual, ao entardecer, êle costumava reconduzir as ovelhas ao redil. O coração compungia-se-lhe, e um remorso vivo, fazia-o lamentar não ter pedido ao velho que abençoasse a sua empreza e a aprovasse. Comtudo, a fada loira, como êle chamava á alma da Patria, parecia não aprovar esse acto; e êle embora lhe pasasse, não queria começar a faltar áquilo que julgáva o mais sagrado dever. ¿Procedia bem? Procedia mal?

É fóra de duvida que andava mal. Qualquer causa, que nos chama a servi-la, é egoista sempre. Conta com a fraqueza humana e quer absorver inteiramente a individualidade de cada qual, com receio de perder um factor importante, por breve e insignificante que seja o seu papel.

Guilherme, desde o momento em que aceitara a dificil misssão, devia desempenha-la, mas não estava por isso desobrigado dos seus outros deveres. Devia ter reconduzido as ovelhas ao redil e pedido ao velho cura desculpa de ter, sem o ouvir, cedido á pressuasiva voz da bela mulher cuja figura o deslumbrava e a voz lhe apaixonava o espirito por tudo que de nobre e grande o exaltava a um mundo melhor. O desconhecimento de si proprio deu-lhe o receio de que o cura o esprobasse, e de ceder aos seus rogos e conselhos, se êle julgasse louca a empreza de ir só, sem outro apoio além do da propria consciência, tentar erguer da proxima ruina a Pátria querida, onde os seus olhos se abriram pela primeira vez á luz.

Emquanto estes raciocinios se debatiam no espirito do nosso jovem amigo, êle galopava sempre, e a noite caia lentamente, pesada e sombria, e o pagem notando-a observou-lhe:

― E já quasi noute cerrada, senhor. Bom seria procurar abrigo no castelo do principe Dórdio, cujas ameias se avistam do alto do proximo cerro.

― ¿Quem é o principe Dórdio, pagem?

― E' um alto senhor, dono de dezoito castelos e que póde por 2:000 homens em pé de guerra.

― ¿Como vive?

― Além da nobreza. Mas.. é um dos muitos que esqueceram o que devem á Pátria e querem um rei estrangeiro.

As faces do moço afoguearam-se.

― Aconselhas-me a que peça abrigo a um ser tão vil?

― Eu não ouso aconselhar-vos nada, senhor, visto que a alma da Pátria vos anima, mas parecia-me de boa política chamar ao vosso partido um varão de tanto poder e fama.

Bem. Tentarei consegui-lo. Eu afrouxo o andamento do meu cavalo, vai tu adiante e pede pousada para esta noite no castelo para Guilherme Bom e o seu pagem.

O gentil interlocutor do nosso heroi soltou redeas ao cavalo e partiu de mão baixa.

Guilherme, pensativo, seguiu a passo na mesma direcção, olhando enternecido as meias tintas do crepusculo que a noite começava a velar com negro veo. Roberto, como ao depois se chamara o jovem e lindo pagem de Guilherme, voltou dentro em pouco anunciando que o principe Dórdio recebia com muito prazer o jovem cavaleiro e o esperava para a ceia.

― Que tal é éle? perguntou Guilherme com certa timidez.

― Muito arrogante, mas de magnifica presença.

O coração do jovem pulsou mais apressado e pensou :

O cavaleiro e o seu pagem, ambos a cavalo, aproximam-se do castelo.
Guilherme Bom e o seu pagem... (Pag. 17)
― ¡Que louco fui em me encarregar de tão temerária empreza! ¿Como suportará um homem desta importância e linhagem as observações dum rústico como eu?

Fiel, porêm, ao plano traçado, atravessou a ponte levadiça, apeiou-se no pateo interior do castelo, e subiu a vasta escadaria de pedra fazendo tinir as esporas de ouro que lhe soavam aos ouvidos como um ruido estranho. Entrou na ampla quadra onde o principe Dórdio, em pé entre os fidalgos da sua casa, esperava com curiosidade a chegada do anunciado visitante.

Guilherme, de cabeça descoberta, adiantou-se e saudou o seu hospedeiro com elegancia e sem servilismo.

― Estou contente, cavaleiro, de sentar á minha mesa e abrigar sob o meu tecto um mancebo tão gentil.

― Agradeço-vos, senhor. Vossa alteza honra-me sobremaneira recebendo-me, e presta-me um grande favor, visto não haver pousadas nestas paragens.

― Bem, bem, para a mesa. Sentemo-nos, senhores.

A sôpa foi comida quasi em silêncio e pouco depois estabeleceu-se a conversa.

― Se não é indiscrição, perguntou o principe Dórdio, ¿para onde vos dirigis?

― Indiscrição nenhuma, eu não faço mistério algum das minhas intenções, apesar de ir cumprir um voto.

― ¡Ah! ¿ides á Terra Santa? perguntou o principe cada vez mais interessado.

― Não, meu senhor, vou levantar o espírito do povo da nossa terra, mostrar-lhe o que eramos antigamente, e o que somos agora. Provar-lhe que esta terra que nossos pais amaram, pela qual perderam o seu sangue, não pode estar á mercê do estrangeiro que, mais ousado, se atrever a lançar-lhe a mão.

Fez-se um silêncio breve e constrangido, porque todos os presentes conheciam quais as ideias do principe e bastas vezes lhe tinham ouvido apregoar que tanto he fazia que a terra em que nascêra fôsse independente, como que caisse nas mãos de estranhos, desde que lhe não mexessem na fortuna e lhe conservassem as regalias.

O principe, depois de segundos de reflexão, perguntou-lhe não sem tenue ironia:

― ¿E estais persuadido, mancebo, de que conseguireis tanto, apenas com a vossa bôa vontade?

― Estou, senhor, respondeu Guilherme com convicção. O amor da Pátria não acabou no coração dos seus filhos. ¿São muito egoistas todos? Não ha dúvida, são. Mas alguém que chegue ás portas de qualquer das nossas cidades e brade: «¡ Terra mãe de covardes!» E eu aposto que nenhuma espada ficará na bainha, e o amor da Pátria surgirá inérgico, impetuoso no coração de seus filhos.

― A um insulto ninguêm resiste. ¿Mas... quem ousaria ?

― Por ora ninguêm, mas dentro em pouco... todos. Os principes ambiciosos e fortes pensarão que esta terra é fácil presa, e como ela não tem exército nem meios de defesa, como os seus filhos, longe de lhes serem amparo, são parasitas sugadores, pensarão que, mesmo sem lucta, apenas pelo suborno dos sêres que tanto desceram em dignidade própria, é-lhes fácil tornarem-se senhores duma formosa terra e escravisar justamente os homens que, possuindo tal joia, a não souberam guardar e defender.

Levado pelo calor da fé, peia sinceridade da convicção, a voz de Guilherme não formulava hypotheses, afirmava certezas.

Dominado, o principe Dórdio indagou.

― ¿Mas como pretende, meu gentil cavaleiro, obviar a tantas e crueis enfermidades que minam o organismo social?

― ¡E' tão fácil! Meu principe, desde que os homens se resolvam a ser honestos e desinteressados, a zelar como próprio o interesse alheio, e o bem dá comunidade, a pôr o sagrado amôr da Pátria logo abaixo do culto de Deus, o país tornar-se-á grande. Haverá exército: nenhum cidadão abdicará do direito de defender o lar da comunidade, porque, defendendo o direito colectivo, defende do melhor modo o individual, e a consciência da própria força é garantia sólida dum futuro próspero.

― ¿Por onde ides começar a vossa obra, cavaleiro?

― Pela proxima cidade, onde farei a propaganda patriótica que a decadência do espírito actual requere.

― Agouro-vos crueis dissabores e fortes dissenções.

― Não importa, principe. Eu tomei para modelo um dos muitos heróis portugueses cuja fama é imperecivel. Se o desejais direi em seu louvor.

― Escutarei com gosto o vosso canto.

― Eu não canto, senhor, tenho má voz. Mas direi com o coração o que tenho nalma gravado com respeito e veneração.

E erguendo-se, Guilherme apoiou-se à espalda da própria cadeira e com voz quente, comovida, e persuasiva, arrancou d'alma com fundo entusiasmo a poesia que segue.

Ao terminá-la todos estavam de pé e um «¡Bravo!» unisono, formado pelas vozes de todos os presentes, ribombou na abobada da sala fortemente, repercutindo-se ao longo dos inumeros corredores.

Guilherme entrára com o pé direito no castelo. Não fôra em vão que falára nas virtudes antigas ao desenfreado principe; e a visão nítida do futuro miserável e miserando que a seus olhos fez brilhar, predispozeram sua alteza a colher os frutos dos versos que o paladino da Pátria recitou.

Ei-los:

O Condestavel
 

 

Jás o povo, sem vontade,
Olvida ser português.
Quer o gozo, a ociosidade,.
Que tão mal sempre lhe fez.

O rei de Castela pede
O reino de Portugal,
Porque a filha ao pai sucede
E não ha direito igual.

Assim afirma, esquecendo
Que os homens rêzes não são,
E, que em corpo apodrecendo
Se acha pedaço ainda são:

Era João que, esforçado,
Tinha um ânimo de herói.
Era Nuno, féro e ousado,
Que a tal ideia se dói.

E olhando com desprezo
Até seus próprios irmãos,
Sente o peito á terra preso,
Mostra a espada, e mostra as mãos.

― ¡¿Como?! pergunta pasmado,
¿Se encontra na nossa terra
Quem prefira, subjugado,
O reino, a partir para a guerra?

«¿Acaso não tendes já
«Mãos com que brandir as lanças
Ou nos homens já não ha
«Mais valor que nas crianças?

«Erguei de novo a cabeça,
«Quem só quer cama e conforto,
Pois pode ser que aconteça
Ficar sem ambos, e morto...

«Quem abdica a independência
«Da sua própria nação
«Nem mesmo em Deus tem clemência:
«Tão vil é de condição.

«Mas ficai, se assim vos praz,
«Por indolência ou receio.
«Que eu só me oporei á paz
«Firmada com jugo alheio.

«Ainda que a minha vida
«Seja prêço a tanto mal
«E' ganha e nunca perdida
«Se eu a der por Portugal.»

Então o povo vencido
Por tão sensatas razões,
Provou que tinha entendido
De Nuno as justas lições.

E erguendo estridente grita
Brotada do coração,
Que em ondas e orgulho agita,
Quiz, e fez livre a nação.

― Meu jovem cavaleiro, disse o principio Dórdio, estou-vos grato pela confiança e desasombro com que me exposestes as vossas opiniões e sentimentos, e podeis contar com o meu auxilio. Não só o meu braço estará prompto a coadjuvar-vos, mas até a minha bolsa.

Levantou-se na sala um grande alarido parecendo a Guilherme que todos aprovavam com grande satisfação as palavras do principe. A ceia prolongou-se até tarde, e quando terminou, o principe deu ordens ao intendente do castelo para que conduzisse os hospedes aos melhores aposentos.

Logo que o nosso herói ficou só com o pagem, que durante toda a refeição estivera em pé, atraz da sua cadeira e atento ao menor gesto, disse-lhe êste:

― Senhor, não vos fieis nas aparências nem vos entregueis ao sono. Os fidalgos de Dórdio estão furiosos convosco.

― ¡Mas mostraram tanto agrado ás resoluções do principe!...

Guilherme Bom, vestido de armadura, conversa com o seu pagem.
Logo que o nosso herói.. (Pag. 25)

― ¡¿Acreditais isso?! Bem se vê que não tendes o hábito de lidar com cortezãos: são mais perfidos que as ondas do mar e, crêde-me, nada ha que admirar se, esta mesma noite, eles tentarem contra a vossa vida.

― ¿Em que lhes fiz eu mal, para se desejarem vingar?

― Tendes muito boa fé, senhor, e se vos não precaverdes sereis victima dela.

― A tua ama disse-me que enquanto a servisse com fé seria invulneravel.

― Perdão, senhor, o que a minha ama vos disse é que a vossa vida seria respeitada e não que o vosso corpo estaria á prova de tudo. Pode-se sofrer muito sem morrer; uma cousa não obriga á outra. Ora os fidalgos desta casa vivem no gozo e no dispêndio sem medida de quanto lhes apetece; vós aconselhaste-lhes a ordem, o trabalho, o interesse do proximo, tudo quanto é adverso ás suas comodidades. Eles não só vos não perdoarão, mas tornar-vos-hão responsavel de quantos prejuizos lhes causardes.

― Bem, visto formares tão mau conceito dessa boa gente, não te obrigarei a repousar nem também tomarei para mim o descanso que a natureza me aconselha e, para evitar que o sono se apodere de nós, fala-me da tua ama. ¿Onde vive ela?

― Em toda a ilha, senhor. E' uma entidade enorme, impalpavel. Está em toda a parte, ouve quanto se diz, observa quanto se passa, e, de todas as criações de Deus, é uma das que mais sofre porque para ela não existem parte dos mistérios que existem para os homens. Assim, os nossos pensamentos egoistas, as nossas dúvidas, as nossas revoltas, as nossas tenções, tudo lhe é conhecido. E ela, sabendo a baixeza da natureza humana, escuta-lhe os aplausos, os louvores, as hyperboles, impassivel. Não lhe é permitida a ilusão a ela, que vive com tristeza do conhecimento de todas as verdades, só pretende uma cousa: entregar a Deus, no fim das vidas, os seus filhos, sempre melhores, mais perfeitos, mais dignos de se dizerem seus filhos.

― E, dize-me, ¿a alma da Patria toma muita vez a forma humana? perguntou com curiosidade o cavaleiro.

― Apenas quando lhe é forçoso comunicar com os homens no próprio interesse dêles.

― ¿Mas não seria melhor que nos falasse de qual- quer ponto sem se mostrar?

― Parece que seria o mais simples, mas não é: A natureza humana é fraca e teme o sobrenatural. Em vez de se lhe aproximarem e de a escutarem fugiriam espavoridos se não podessem concretisar em qualquer figura o espírito que lhes falasse.

― ¿E que fazia ela ali no fundo do rio?

― Ela não estava no fundo do rio, aparentava estar para vos interessar e chamar a servi-la, ou antes, a servir-vos a vós, porque bem se serve quem serve a Pátria bem.

― ¿E quando eu a chamar ela aparece-me?

― Aparece. Mas não o deveis fazer senão em grave necessidade.

― ¿E tu quem és?

― ¿Eu?...

― ¡Sim, tu! ¿És um homem como eu?

― Não senhor, contudo sou tambêm seu filho.

― ¿E podes dizer-me com verdade a tua condição?

― Posso, se o não repetirdes. Sou a alma do rio Corre-corre, o melhor e mais belo de todos que regam as terras da mãe Pátria.

― ¿Tens casa?

― Casa não. Tenho um palácio todo construido de corais. As suas portas são de perolas enormes emuito raras, negras como o aço oxydado e polidas como êle. As paredes são da mais pura madre-perola, e os moveis de formoso granito estofado de algas vêrdes e viçosas e que as minhas águas vivificam constantemente. E os peixes raros e formosos são adornos mais encantadores do que as mais raras louças da terra. Plantas marinhas, de aspecto e formosura estranha, ornam os meus vastos jardins onde lindas sereias descansam brandamente balouçadas por águas limpidas mais transparentes que o vidro.

Guilherme ouvia-o encantado.

― ¿Que nome é o teu?

― Eu não tenho nome. Recebo aquele que me quizerdes dar.

― ¿Mas quem convive contigo como te chama?

― A nossa linguagem tem sons que não correspondem a palavras.

― Contudo eu gostava de ouvir o teu nome.

― Então estai atento:

E Guilherme ouviu dois sons muito semelhantes ao vai-vem das águas embatendo nas rochas.

― ¿E que significação se poderia dar a isso se o tivesses que dizer na nossa lingua?

― Nenhuma porque a não tem.

― ¿Então como é que falas comigo, me entendes e eu não posso perceber-te?

― Porque as criações do Senhor Supremo, á medida que são mais imperfeitas, menos entendem, e vós que pertenceis aos sêres animados, sois inferior a mim que sou, por assim dizer, um pedaço de mundo. ¡Oh! ¡se nós podessemos dizer o dó e o riso que nos causa ouvir as conversas humanas!

― ¿Então zombam de nós?

― ¡Oh! Não! A zombaria é um predicado que só nas almas humanas impera. Nós já somos superiores á zombaria. O nosso riso é indulgente e bom, assemelha-se ao do pai a quem o filho pequeno pergunta, na ignorância infantil, se a vida dura sempre, ou se toda a gente é boa, etc.

― Cala-te, pagem: Não ouviste ruído?

― Sim... creio que ouvi passos.

― Finjamos dormir.

― Finjamos... mas lembrai-vos, senhor, das recomendações da minha ama.

― Da linda fada loira... ¡Que pena tenho de que ela não seja realmente mulher!

E, soltando um fundo suspiro, cerrou as palpebras e simulou estar bem adormecido.

Os passos soaram cada vez mais perto e por fim detiveram-se á porta dos aposentos de Guilherme. Decorreram segundos e tres breves pancadas, dadas a espaços na porta, sobresaltaram Guilherme e o seu pagem.

Como o nosso herói continuasse a fingir que não ouvira, o fecho da porta ergueu-se e esta, girando lentamente nos gonzos, deixou aparecer no limiar a figura esbelta dum jovem cavaleiro que durante a ceia escutára enlevado quanto Guilherme dissera. Trazia na mão uma lanterna de furta-fogo. Ergueu-a á altura do rosto para se orientar e, tendo-o feito, dirigiu-se resolutamente a Guilherme e poz-lhe a mão no ombro.

― ¿Que é? perguntou êste, como se tivesse acor- dado sobresaltado naquele próprio instante.

― Depressa, cavaleiro, se tendes a vossa vida em alguma conta, erguei-vos e segui-me. E' necessário fugir e já.

― ¿Porquê? perguntou o nosso herói.

― Os fidalgos do principe combinaram fazer-vos desaparecer. Dizem que sois um revolucionário e que foi decerto o inferno que vos encarregou de prègar a guerra. O capelão mesmo não está longe de crer que sois hereje. Se não aproveitais bem o tempo em vos pôr a salvo, perdeis a vossa causa e as nossas vidas, porque eles não me perdoarão que eu vos queira livrar de lhes caír nas mãos.

Enquanto o jovem falava, Guilherme e o seu pagem, tendo trocado um olhar, viram que era igual a opinião que dêle haviam formado. Então o paladino da Pátria disse-lhe:

― Agradeço-vos a dedicação que me mostrais, mancebo, e espero que um dia poderei recompensá-la. Ide na frente, nós vos seguiremos.

― Cautela, recomendou o moço, não façais ruído com as esporas.

― Tiro-as.

― E' melhor.

E, muito de vagar, escoando-se ao longo dos corredores, os tres rapazes atingiram uma porta falsa que dava comunicação imediata, por meio dum alçapão, para as cavalariças do castelo.

Os cavalos, sem que ninguêm se tivesse ocupado disso, estavam selados e prontos a partir.

Montaram, e quando os tres homens iam exigir da sentinela que baixasse a ponte levadiça para sairem, um imenso borborinho se ergueu atraz dêles.

Era uma multidão de homens armados que se precipitava para lhes vedar a passagem, gritando:

― Não os deixem saír vivos, não os deixem saír. São maus revolucionários que querem a morte e a ruina dos cidadãos pacificos e tentam enredar o principe nas malhas das suas rêdes.

― ¿Quem o sabe?

― ¿Quem o disse?

― O astrólogo que desconfiou dêles e foi consultar os ástros.

A onda vociferante crescia. No ar já se agitavam

O cavaleiro e o seu pagem a cavalo, sobrevoam ruínas.
... foram arrebatados pelo ar... (Pag. 34)

paus e brandiam pezadas maças. Guilherme olhou o pagem e a um acêno dêste bradou com convicção:

― «¡Alma da terra em que nasci! ¡acode aqui!»

No mesmo instante os cavalos dos tres rapazes fôram arrebatados pelo ar e lançados a galope a mais de quatrocentos metros do castelo do principe Dórdio.

― ¿Para onde vamos, senhor? perguntou o pagem ofegante por tão violenta carreira.

― Para onde os cavalos nos levarem, Roberto.

Êles, agora, sabem melhor do que nós o que convem.

E calou-se porque a violência da carreira era tal que lhe tornava dificil a conversa. Atravessaram uma longa planicie, passaram como um relâmpago por cima da vasta ponte de pedra sobre o rio Grande e embrenharam-se na espessa mata que se estendia por léguas para alêm da vasta cordilheira das Sete Gemeas. Aí, os cavalos, alagados em suor, marchavam com grande dificuldade: o mato excedia-lhes a altura das pernas. Depois de muito caminhar descobriram uma pequena gruta cavada em altas fráguas e bem oculta pelos arbustos e plantas. Então apearam-se, trataram das montadas, e apesar de estarem cheios de fome, o cansaço era tanto e o sono que preferiram deitar-se e dormir.

No dia seguinte, já o sol ia alto no horisonte, quando Guilherme e os seus companheiros acordaram. Viram com grande espanto e satisfação no meio da gruta uma mesa coberta dos mais soberbos manjares e rodeiada de optimas cadeiras. Grandes macacos preparavam-se para fazer o papel de criados. Enquanto um desrolhava velhas garrafas de magnifico vinho, com o cuidado que tal tarefa requere, os outros aproximavam as cadeiras da mesa e dispunham os pratos e as iguarias de modo a torná-las mais apeticiveis.

― ¡Que agradável surpreza, exclamou Guilherme, isto não esperava eu!

― ¿Mas donde nos vem tão grande fortuna? perguntou desconfiado o novo amigo do mancebo; ¿terárazão o astrólogo no que predisse a vosso respeito?

― Não, amigo, não tem, contudo, bem que me peze, não posso dar-vos explicação alguma porque estou obrigado pela minha palavra a não desvendar nada do que me foi confiado. Eu mesmo estou espantado, confesso, desta liberalidade inesperada, e não conheço a sua proveniência embora dela desconfie. Mas, por Deus e Santa Maria, cujos nomes evoco com devoção e respeito, obra do démo afianço-vos que não é. Bensei-vos todos e agradeçamos a Deus o bem que nos concede.

Tranquilisado, o jovem cavaleiro, logo que ouviu pronunciar o nome de Deus e viu a devoção com que os seus dois companheiros lhe davam graças, sentou-se e disse:

― Nada tenho com os vossos segrêdos, visto que a Deus rendeis louvor não podeis estar sob a influência do demonio. Isso basta para que nada pergunte e partilhe a vossa sorte qualquer que ella. Eu não sou curioso.

― Tereis mais duma ocasião de o provar. E agora dizei-me: ¿Como vos chamais?

― Sou Henrique Veber. Tenho fortuna pessoal, apesar de filho segundo, porque herdei a dum milionário americano que não tinha família e se me afeiçoou como pai. E' por isso que sou Veber e não Gamo, como todos os meus irmãos.

Uma mesa com duas cadeiras e um enorme banquete.
... soberbos manjares... (Pag. 34)

― ¿Mas estaveis ao serviço do principe Dórdio?

― Não, vivia na sua côrte porque me agradava. Êle é bom, apesar da vida que leva, e na sua companhia vive-se alegremente.

― ¿E vós nunca pensastes que a vida que levaveis era imprópria dum bom patrióta?

― Não, nunca tinha pensado nisso. As vossas palavras rasgaram-me novos horisontes e senti-me envergonhado da vida inutil que até hoje tenho tido.

― Estais a tempo de o remediar.

― E bem de vontade, crêde-me.

E, enquanto comiam e conversavam, os macacos serviam-nos com muitas atenções, mas quando os supunham distraídos comiam algum bom bocado ou bebiam um trago de vinho, fazendo troça e gaifonas aos que os não podiam imitar. Eram tres também, e cada um atraz da cadeira do senhor que servia parecia escutar a conversa e perceber tudo que se dizia.

Comeram com muito gosto e quando se levantaram da mesa perguntou Guilherme ao pagem:

― ¿Para que lado te parece que devemos dirigirnos?

― Para Nimbria, senhor: é, segundo creio, a cidade que mais perto nos fica, e alêm disso a capital do reino.

― Seja. Deus nos leve em bem. Partamos.

Voltaram á gruta para buscar as armas e, com grande pasmo de Guilherme e de Henrique, a mesa, os macacos e todos os restos de iguarias tinham desaparecido.

― ¿Então os nossos excelentes criados foram-se embora sem nos dizer adeus? exclamou Guilherme com pena.

― Tinham outras obrigações, senhor. Eles pediram-me para os desculpar junto de vós.

Montaram de novo a cavalo, e conseguiram, não sem custo, sair do mato e retomar a estrada rial. Muito contentes por se julgarem já livres de perseguições, conversavam, riam, contavam anedotas, e iam vencendo caminho quási esquecidos da causa que os unira e os levara á ventura, Deus sabe para onde.

Henrique Veber era um rapaz alto, forte, espadaúdo, verdadeira encarnação da beleza masculina. Tinha grandes olhos negros, cabelo da mesma côr, e era tão trigueiro quanto Guilherme era branco. Os olhos azues dêste, claros e límpidos, como um ceu sem nuvens, tinham a formosura do dia, o encanto e a serenidade do que se vê sempre puro. O olhar de Henrique, feito de trevas profundas, inquietava e perturbava os seus interlocutores como um enigma indecifravel. A elegancia e gentileza de ambos rivalisava, e a sua diferença de tipos fazia-os mutuamente valorisar. O pagem, êsse, parecia superior a ambos, mas tinha qualquer cousa que não era humana, uma aparência fria e que não atraía.

Henrique, muito falador, gostava mais de falar do que de ouvir os outros. Guilherme, bom, paciente e reflectido, sabia escutar e pensava que o silêncio é mais valioso do que a palavra, sendo raro que, quem muito fala se não arrependa de o fazer, e que, quem cala se lastime de assim ter procedido.

Henrique perguntou ao seu novo amigo se conhecia a lenda do castelo de que acabavam de saír tão milagrosamente.

― Não, respondeu Guilherme, nem mesmo sabia que a seu respeito corria uma lenda.

― Pois corre e é interessante.

― Dizei-a, senhor cavaleiro, pediu o pagem. As lendas são, para mim, muito mais encantadoras do que as histórias riais.

― Escutai então.

E disse:

A lenda do Castelo
 

 

Entre negras penedias,
Onde vem bater o mar,
Vê passar infaustos dias
A linda dona Guiomar,
De farta estar de arrelias
Nem força tem de chorar.
Até esquece as cotovias
Que a costumam vir saudar.

A côrte co'a dona insiste
P'ra vestir luto de la,
A tudo Guiomar resiste,
Imovel na barbaca
Lança ao longe um olhar triste
Sentindo que a esp'rança é vá...
Eis aqui no que consiste
O pezar da castelá:

Foi-lhe p'ra guerra o marido,
Ha quinze anos bem contados,
Com séquito mui luzido
De fidalgos e criados.
Tempo depois foi sabido,
Por homens de lá voltados,

Que o conde tinha morrido
Sendo os seus aprisionados.

Não quer tal crer a condessa,
De olhos pregados no mar
Vai sempre, dês que amanheça,
Da barbacă vigiar.
E fica, até que anoiteça,
As ondas a contemplar,
Sem que nela a fé esmoreça
¡Não desespera a esperar!

Inutil é que lhe falem,
Nunca responde a ninguém.
As censuras de que valem
A quem sente que anda bem?
Embora já lhe não calem:
«Que os vivos direitos tem,»
Embora todos a ralem,
Ela trata-os com desdem.

E continúa lançando
Os tristes olhos ao mar,
Na certeza de que esp'rando
Ha de por força alcançar.
No castelo, conspirando,
Andavam para a matar,
Consados de a vêr chorando,
Teimando em não se casar.

Sem ter danças nem folguêdos,
Sem se jogar nos jardins,
Todos mudos, quais penedos,
Deram em torpes malsins.
Á sombra dos arvorêdos,
Ou sobre fofos coxins,
Iam tecendo os enrêdos
Para chegar aos seus fins.

Porém, uma tarde linda,
Quando o sol beijava o mar,
Foi com alegria infinda
Que bradou dona Guiomar:
― ¿Quem ousa dizer-me ainda
Que o não hei de vêr voltar?
¡Laura! ¡Joana! ¡Gracinda!
Ide a notícia espalhar.

Pelas águas, lentamente,
Descia pezada nave.
A condessa, impaciente,
Lamentava não ser ave.
Falsa certeza que mente
Talvez a cova lhe cave,
Porque o destino inclemente
Em nada será soave.

Da nave, atracando a terra,
Desceu enorme caixão,

O conde volta da guerra
Sem lança nem lorigão.
Tal dôr á mulher se aferra
Que lhe pàra o coração.
Uma lousa ambos encerra,
Repousam no mesmo chão.

Porêm agora, alta noite,
A passar na barbacã,
Não ha ninguêm que se afoite
Por causa da castelã,
Que do peito torturado
Arranca tão fundos ais,
Que alguêm que a tenha escutado
Não pode esquecê-la mais.

― E' muito triste a lenda do castelo.

― E'; mas o que tem graça, é que hoje, que tantos anos passaram sobre o caso que vos contei, nem mesmo o principe Dórdio, que é um valente, se atreve a passar na barbacã.

― ¿Vós crêdes em lendas?

― Não creio nem deixo de crer. Contudo, vejocousas tão extraordinárias na terra, que admito a possibilidade de tudo.

― ¿E vós, perguntou o pagem, que se conservava calado e pensativo desde que Veber terminara; passastes alguma vez na barbacã a altas horas?

― Passei... e não gostaria de vos contar o que vi.

A dama Guiomar, de vestido e cabelo preso, com um ornamento na cabeça.
Guiomar (Pag. 45)

― ¿Porquê?

― Diminue a impressão poética que a lenda vos pode ter deixado.

― Pois bem, seja. Curioso de vêr a formosa Guiomar, cujo retrato estava farto de admirar na sala nobre do castelo, resolvi um dia, que iria só, á meia noite, ao sítio da barbacã, onde a infeliz condessa gastára longos anos á espera da dôr violenta que lhe arrancou a vida. ¿Que mal mé podia acontecer? Se rialmente dona Guiomar visitava de noite os sítios onde tanto sofrêra de dia, decerto não era para se ocupar dos outros, mas das suas tristes recordações. Convencido préviamente de que a bôa senhora, tão martirisada em vida, não podia ser má depois de morta, dirigi-me para a barbacă levando o espírito entre o desejo e a incredulidade. Não estava ninguêm quando cheguei. Confessarei que, mau grado meu, o coração batia-me apressado e uma viva inquietação, de que não podia precisar a causa, me agitava íntimamente.

Soaram as badaladas da meia noite e, um vulto branco, parecendo vir da capela do castelo, atravessou lentamente o parque e saindo das muralhas atravez duma pequena poterna, dirigiu-se lenta e solenemente para o sítio da barbacă a que a tradição chama o poiso de D. Guiomar.

Eu tive uma vontade enorme de gritar e de fugir, mas não me atrevi: o mêdo paralisava-me. O vulto aproximou-se cada vez mais e, chegando ao ponto das ameias em que a linda castelã se assentava, inclinou-se para fora e perguntou muito baixo:

― ¿Estás aí?

― Estou.

― Então tem cautela. Tira tudo do cesto com cuidado. Não se vá partir a loiça.

Era uma voz máscula, de timbre avinhado, nada semelhante a uma voz de mulher.

Debaixo do muro responderam:

― Pronto. Já tirei tudo: podes puxar.

Era uma mulher que falava.

― ¿Como está o pequeno? perguntou o vulto branco.

― Mal. O físico diz que não escapa.

― ¡Pobre mulher! ¡O que tu deves ter sofrido! Vai-te embora, vai. Que eu também me recolho.

― Pede ao mordomo para ires a casa amanhã. Dize-lhe que tens o pequeno doente.

― ¿Como? ¿Como o havia de saber?

― Um sonho com D. Guiomar...

― Não, não. Deus me livre de falar no seu nome. Se o principe imaginasse que era de mim que tinha mêdo, fazia-me dar uma dúzia de varadas.

― E fazia muito bem, disse-lhe eu saíndo do canto obscuro em que me ocultava. O cozinheiro do principe lançou-se-me aos pés pedindo-me que tivesse compaixão dêle. Era pobre, a familia tinha fome, e êle socorria-a com os restos da mesa sob a forma de D. Guiomar, abusando da crendice na lenda. Tive dó dêle e prometi, calar-me, mas, como não quis ser culpado do seu roubo, estabeleci á sua familia uma pensão que o habilitou a deixar em paz na cova a sombra da bela castelã. ¿Não se riem do mêdo enorme que eu tive? perguntou Henrique terminando.

― Não. O mêdo ataca toda a gente. Dominá-lo e vencê-lo é o que se torna necessário para ser homem. Depois acabar-se-ia por não saber se êle existia, se a memória, nem sempre amavel, não guardasse, fiel e tenazmente, as emoções fortes que nos impressionam o cérebro.

― Mas, ¿que é aquilo?

Seguindo com os olhos a direcção em que Veber apontava, Guilherme e Roberto viram ao longe uma numerosa cavalgada que vinha no mesmo sentido.

O pagem bradou:

― São êles, senhor. Vêem prender-nos. E' o que é pôr-se a gente a contar e ouvir histórias em momentos tão críticos.

― Metam esporas aos cavalos: vá, de mão baixa.

E, soltando as rédeas ao fino murzelo que montava, Guilherme e os seus companheiros desapareceram ás vistas dos seus perseguidores, envoltos numa espessa nuvem de poeira.

II
 

O principe Dórdio, satisfeito de ter achado um fim útil á sua vida, auxiliando as nobres tenções de Guilherme, recolhera-se ao seu quarto após a ceia, e não podendo conciliar o sono, entretinha-se pensando na glória que lhe poderia advir de tão grandiosa empreza. Chama-se isto, de querer imaginar o que nos ha de acontecer no futuro, construir castelos na areia. Estava pois sua alteza arquitectando o que desejava que a sorte lhe reservasse, quando duas leves pancadas soaram de manso na pequena porta que separava os aposentos do principe da escada de caracol, que levava ao observatório do astrólogo, que ha mais de 6 anos tinha vindo de França estabelecer-se ali, a rogos do principe Dórdio, apaixonado loucamente pela astrologia, em que acreditava como em Deus. Sua alteza, sem fazer um movimento, disse em tom amigável:

― Entrai, D. Praxedes, e sêde bem vindo à minha presença.

― Senhor, eu não sei se faço bem, mas a muita amizade que vos devo obriga-me a velar por vós, mesmo quando isso vos não seja talvez agradável.

― ¡Me não seja agradável, caro amigo! ¿Pois pode deixar de o ser a certeza de que, enquanto estamos um homem de cabelo branco, barbas e óculos, com um sobretudo, segura um monóculo e um livro.
D. Praxedes (Pag. 48)
descuidados, alguêm tem cuidado da nossa felicidade e descanso?

― Mas, senhor, quando êsse alguém pretende contrariar não só os vossos desígnios, como também as vossas promessas, tem razão para temer o mau umor de sua alteza.

― Não, meu Praxedes, não: para vós o meu coração está sempre cheio de dôce benevolência.

― ¿Posso então falar com inteira franqueza?

― Sem dúvida.

― Meu amo, fazei prender os vossos hóspedes e lançai-os numa masmorra, a menos que não prefirais arrancar-lhes a vida.

O principe Dórdio pôz-se em pé tão rápidamente como se fôsse impelido por uma mola, e còrando vivamente, exclamou:

― ¡Quebrar os deveres da hospitalidade! ¡Trair aqueles que recolhi sob os tectos do meu solar!; Nunca! Praxedes, meu amigo, vós esqueceis momentaneamente a quem falais.

― Não, meu amo. Quem respeita ou poupa o ini- migo ás mãos lhe morre.

― E' o mesmo. Eu prefiro morrer a cometer uma indignidade... Alêm disso, nada prova que Guilherme, o Bom, seja meu inimigo.

― ¡Ora essa! Então vossa alteza vive em paz, no pleno gozo da vida e dos bens que por alta mercê Deus lhe confiou, e um figurão que surge, não se sabe como nem de onde, canta-lhe duas canções, exalta-lhe a imaginação, e arrasta-o após as suas fantasias, talvez a ter que travar combate a favôr de belas ideias, não ha dúvida, mas... arriscando a vida. ¿E sabeis vós, meu principe, compreendeis bem qual é o valor da vida para quem a leva com tanto fausto e grandeza?

O principe, á medida que o astrólogo falava, parecia deixar-se vencer pelos seus argumentos. Por fim perguntou:

― Talvez tenhais razão; certamente a tendes. Concordo que fui leviano, acedendo aos desejos do meu hospede, sem medir o alcance do engajamento que tomava; ¿mas agora, como recusar? ¿Como dar o dito por não dito?

― Não façais nada, senhor. Autorisai-me a que, sem desaire para vós, tente livrar-vos do mau trilho pelo qual ieis enveredar.

Sua alteza ficou alguns momentos silencioso. Depois, erguendo resolutamente a cabeça, exclamou, no tom de quem acorda dum grande pezadelo:

― Pois sim, D. Praxedes. Sois a minha Providência; tudo que decidirdes será por mim aprovado.

― Nem outra cousa era de esperar do vosso atilado espírito, meu senhor.

E beijando a mão que Dórdio lhe estendia, o vélhito retirou-se recuando e desapareceu pela pequenina porta por onde entrara, deixando cair após si o espesso reposteiro de veludo vermelho.

Êste astrólogo merece duas palavras de descrição: Era um velho muito curvo, de longas barbas brancas, completamente calvo. Tinha as faces inteiramente engelhadas, e na bôca brincava-lhe a miudo um enigmático sorriso. Os olhos eram pretos, scintilantes e vivos e, quando falava, descansava-os com tal persistência no rosto daquele a quem se dirigia, que o coagia a desviar o olhar ou a sentir-se pouco á vontade sob aquela visivel investigação do seu intimo ser. ¿D. Praxedes era bom ou mau? Ninguêm o sabia. Não conversava com ninguêm, não mostrava nunca apoiar ou reprovar as expansões dos cortezãos do principe. Partilhava as refeições de sua alteza, que o tratava com singularissima deferência, mas não falava á mesa. Nos primeiros dias que isto sucedeu, os fidalgos da casa do principe estavam pasmados, e um, a quem Dórdio consentia mais familiaridades, atreveu-se a dizer-lhe baixinho:

― Meu senhor, ¿êste homem é mudo?

― Garanto-vos que não. Obedece a preceitos que a sua rara sciência lhe aconselha. Diz êle que o abuso da palavra prejudica o que fala e os que o escutam.

― ¿Porquê?

― Ele que to explique.

E voltando-se para o astrólogo, o principe disse-lhe com o seu modo mais graciosamente sedutor.

― D. Praxedes, o meu camarista Álvaro de Montezelos, admira-se de que possais guardar tanto tempo silêncio.

D. Praxedes beija a mão do príncipe Dórdio.
E beijando-lhe a mão... (Pag. 51)
― Meu principe, é regra que ha muito sigo não falar sem necessidade.

― ¿Qual o motivo, senhor?

― Primeiro, para não perder inutilmente palavras nem tempo; segundo, para me não arrepender do que tiver dito. Não é sem razão que o povo diz ha muito que se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro.

Como é fácil de supôr o procedimento e atitude de D. Praxedes não eram de molde a atrair-lhe simpatias; mas o astuto velho em pouco tempo conseguiu, senão ser querido, saber pelo menos que era temido e respeitado. Todos o consultavam, escutando com superstição a sua palavra autorisada, e se nunca, tendo-o ouvido, se retiravam inteiramente satisfeitos com as suas respostas, iam admirados de se verem tão bem adivinhados, embora no juizo feito lhes pezasse quási sempre aquilo em que havia verdade. Uma palavra de D. Praxedes a qualquer cortezão era para êste motivo de ufania. O velho astrólogo sabia-o demais e poupava quanto possível a honra de lhas dirigir.

Saíndo dos aposentos do principe Dórdio, o velho astrólogo, em vez de subir aos seus, desceu á casa da mesa, onde ainda em volta dela alguns insaciaveis tinham vindo sentar-se após a retirada do principe Dórdio. O velho aproximou-se subtilmente e conseguiu chegar até ao estrado do principe sem que tivessem dado por êle; uma vez ali, apoiou-se ao alto espaldar da cadeira e disse, num fio de voz que parecium murmúrio de água corrente:

― ¡Amigos!

Todos se voltaram surpresos.

― ¿Sois ou não dedicados a sua alteza?

― Mais de que o corpo á alma que encerra.

― Então livrai-o dum grande perigo.

― ¿Qual?

― Da influência que êste hospede possa ter nêle. E' moço, ardente, apaixonado pelas ideias nobres e levantadas, não hesitará em dar a vida por elas e arrastará atraz da sua persuasiva palavra, não só o principe Dórdio, mas vós todos que estais habituados a passar a vida comodamente, conhecendo dela apenas o lado bom.

Eram poucos os que estavam á mesa, mas pertenciam ao número dos que ousavam prolongar a noute depois do principe se ter recolhido, o que equivale a dizer que eram e se sentiam fortes e não temiam repreensões nem mesmo do seu amo.

As palavras do astrólogo produziram nêles um efeito maravilhoso. Puzeram-se de pé por um impulso único, e o mais velho, erguendo a voz, falou por todos, sem que tivesse consultado ninguêm.

― D. Praxedes, disse êle, ouvindo-vos, julgo ouvir o eco do meu próprio pensamento que, formulado pela vossa bôca autorisada, faz explodir a indignação que a custo continha nalma. Antes que o novo dia se levante, eu e os meus companheiros teremos posto êsses ilustres hospedes em estado de não serem nocivos.

Foi nesta altura do discurso de Pelaio Ansures que Henrique Veber, aproveitando a atenção e estado agitado da pequena assemblêa, e sabendo as más qualidades que ornavam aqueles ociosos, saíu mansamente da sala e correu a prestar aos simpáticos hospedes o seu valiosíssimo e eficaz auxílio.

Tendo pegado fogo ao rastilho da cólera palaciana, o astrólogo apressou-se a declarar que o principe não acudiria em defesa dos hospedes, porque o tinha adormecido com um poderoso narcótico. E, inclinando gravemente a cabeça numa saudação amavel, retirou-se com passo solene como quem não deseja presenciar aquilo que aconselha.

E' muito vulgar, meus pequenos leitores, encontrarem-se pelo mundo destas criaturas pouco dignas que não têem o valor dos seus actos nem das suas palavras, metem outros a proceder segundo os seus desejos, e retiram-se covardemente nas ocasiões, deixando áqueles, que convenceram e arrastaram, o trabalho, reservando-se reclamar a glória, se o resultado for bom. D. Praxedes tinha a atenuar-lhe a falta a sua extrema velhice, mas tenho para mim que, se êle fosse novo, teria procedido do mesmo modo. Subiu outra vez vagarosamente a escada e, tornando a entrar nos aposentos do principe, disse-lhe apenas:

― Senhor, vós estais, para todos os efeitos, muitoprofundamente adormecido, devido a um narcótico que vos ministrei. ¿Tendes entendido?

― Perfeitamente, meu amigo.

Um palhaço com roupa às pintas.
... o riso ao publico... (Pag. 58).

― Deus dê a vossa alteza uma noite descansada.

― Igual vo-la desejo.

― Obrigado, meu senhor.

E, deixando cair o pesado reposteiro, o astrólogo subiu com passo lento ao seu observatório.

Momentos depois, descerrou uma das altas janelas da torre e, em vez de erguer os olhos para o ceu, baixou-os para a terra, procurando sondar com a vista cansada, mas curiosa, as trevas espessas que as copas das árvores abrigavam. Foi em vão. Apurou o ouvido e sorriu satisfeito. Eram vozes várias, primeiro num rumor surdo, depois erguendo-se e soando atrevidas em perseguição dos hospedes que fugiam, piedosamente auxiliados e seguidos por Henrique Veber.

Mas a satisfação do velho cessou como por encanto, quando entre o sussurro da multidão ouviu as palavras a que já atraz aludimos, em resposta á pergunta de «¿Quem o disse?» O astrólogo, que desconfiou dêles, foi consultar os astros.

Fez uma carêta muita feia, parecida com aquelas que os palhaços fazem para arrancar o riso ao público, e retirando-se para dentro, contrariado, pensava:

― ¿Para que será que êstes estúpidos falam no meu nome?

E um triste e amargurado pressentimento afligia-lhe o coração.

Enquanto Pelaio Ansures, seguido pelos principais homens da casa do principe Dórdio, ia em perseguição dos fugitivos, o astrólogo, que era poeta e sentimental, sentindo a alma carregada á lembrança dos perigos que poderia correr, se a expedição fôsse mal sucedida e o apontassem como instigador dela, pôz-se a dizer de mansinho, como quem receia enganar-se:

―Sempre é bom examinar a consciência.

O Exame
 

 

¡Ha tão longos anos vivo
Sem nunca ter feito bem!...
Tendo orgulho e sendo altivo,
Trato todos com desdêm,
Se me não podem servir;
Mas se, ao contrário, presumo
Tirar proveito dalguêm,
Isso então, sempre a sorrir,
Visto que o limão tem sumo,
Tanto me rojo no chão,
Que acabo por me sentir
Mais miserável que um cão.

Sou velho. A vida passou
Sem nunca pensar no termo.
Agora, que êle chegou,
Olho p'ra traz, vejo um ermo.
Não conto um só acto digno,
E tenho mêdo, confesso,

Porque, quando o próprio enfermo
Acha o seu estado maligno,
É raro que pelo avesso
O julgue qualquer doutor,
Embora seja benigno
E lhe dôa alheia dôr.

Em criança fiz maldades,
Sabendo bem que as fazia,
E aos outros mil crueldades
De que não me arrependia.
Em mentiras, garotices,
Teimas, calúnias, fui sábio.
Aproveitava o que lia
Em qualquer velho alfarrábio.
Mas eram sempre tolices
Que eu procurava imitar,
¡Se eram o mel do meu lábio!
¡O sal do meu paladar!

Crescendo, não me emendei,
Tornei-me sempre pior.
Aprendendo quanto sei,
Tornei-me um patife mór.
Todo o mal que fiz, me pesa
Em mêdo, no coração,
Porque conservo de cór
A lista do que me lesa
Em pontos de perfeição.

Nada agora me conforta
Em tão triste situação
Vendo a morte quási á porta.

 
Epílogo
 

 

Leitor, o mal, a meu vêr,
É que não se arrependia
Por pena de mal fazer,
Mas da pena que temia.

Quem imitar o astrólogo
Procure a tempo pensar,
Que a vida, sempre mais rápida,
Acaba sem anunciar.

Mas deixemos o repelente velho entregue ao horrivel exame da sua passada conduta e vamos encontrar-nos com Guilherme, o Bom, e os seus companheiros, fugindo a galope pela formosa estrada de Nimbria.

III
 

Seguido dos seus dois companheiros, Guilherme, o Bom, atingiu sem novidade as portas da cidade porque, sempre que se via quási alcançado pelos seus inimigos, bradava com fé:

― ¡Alma da terra em que nasci! «¡acode aqui!»

E a distância a que êles estavam duplicava-se como por encanto. Entrando no povoado, tres cousas pediu com empenho o paladino da pátria, á Fada Loira: que os transformasse momentaneamente em tres lindas mulheres, lhes desse um belo palácio e cinco mosquitos bem fieis e obedientes.

Então viram-se de repente transformados em bonitas senhoras e dentro dum palácio que nada tinha que invejar aos mais belos e melhores do mundo. Muitos criados, quási todos de côr negra, estavam formados á entrada da grande escada de mármore, para os receber, e no alto dela a Fada Loira esperava-os, tendo na mão uma gaiola de prata, muito pequenina, dentro da qual se viam os cinco mosquitos pedidos

Conservando as suas belas feições, apenas amaciadas por um dôce ar feminil e ausencia de bigodes O Palácio com escadas antes da entrada, e um telhado em cúpula, no meio de vegetação.
dum palacio que nada tinha que invejar... (Pag. 63)

e barbas, os tres rapazes, mudados agora em gentis damas, elegantemente vestidas á moda do tempo, subiram as escadas, apoiados aos vistosos guarda-sóis que lhes tinham substituido as espadas. A Fada Loira descera uns degraus ao seu encontro e, pegando na mão de Guilherme, disse-lhe:

― Vem, minha Clara: chamo-te assim porque serás tu que farás luz nas trevas. A tia Perpétua, disse dirigindo-se ao pagem, chamo-te assim porque hasde perpetuar o amor por mim em toda a face da terra, e a tia Glória, assim te chamo porque te cobrirás de glória pelos teus actos de valor em prol da nossa causa. Aqui tens os mosquitos que pediste, minha amiga; são todos muito bem adestrados e obedientes, sendo dignos de toda a tua confiança. Chamam-se Dó, Ré, Mi, Fá, Sol. Agora outro assunto: Deveis receber visitas de todas as notabilidades da terra, porque eu fiz anunciar a vossa chegada em todos os jornais de Nimbria. Direis que sois da nossa origem, mas nascidas e criadas nas formosas terras de Portugal. Agora, que já vos instruí de tudo que é conveniente, só tenho a acrescentar que é bom não abusar do meu nome extraordináriamente.

E, depois de lhes apertar as mãos, desapareceu de repente á vista delas.

As tres jovens entraram na primeira sala. Ali, antes de mais nada, Clara abriu a gaiola dos mosquitos e disse:

, vai á cabeceira da cama do primeiro ministro e fá-lo sonhar na imensa glória que êle teria se deixasse para sempre na história o seu nome gravado como o do restaurador da Pátria. Tu, , visita a rainha e faz-lhe sonhar com a grandeza da nação. De ti, Mi, espero que vás ao castelo do principe Dórdio e lhe segredes que, escutando o seu astrólogo, deu ouvidos a um traidor. , vai introduzir-te no quarto do ministro dos estrangeiros e escuta a conversa déle com a esposa. E tu, amigo Sol, procura Pelaio Ansures, pela cidade, e vê se o tentas a vir visitar as estrangeiras recem-chegadas.

Os mosquitos saíram pela janela tomando várias direcções, e as tres raparigas entraram na formosa sala de jantar, onde as paredes eram forradas por magníficos espelhos de Veneza, e sentaram-se á mesa em frente dum opíparo jantar. Clara não comia, devorava. Vêr-se livre dos seus perseguidores e perfeitamente a salvo do perigo de poder torná-los a encontrar, deu-lhe, alêm da fome, um excelente bom humor. Glória imitava-lhe a bôa vontade, e Perpétua, mais comedida, ouvia-as a ambas conversar e pouco se misturava na discussão. Tambêm comia pouco e aprovava uma ou outra das interlocutoras, ou por um sorriso ou por um gesto.

Quando a refeição terminou fôram vêr o palácio e as suas magníficas dependências. O quarto de Clara era lindo, todo forrado de sêda côr de rosa e oiro, os móveis forrados de setim da mesma côr, e a cama, toda doirada, oculta por espessos cortinados cor de rosa, presos no tecto por uma argola tambêm doirada, da qual pendiam fartos festões de rosas e troncos de hera. Entrando naquele quarto soltaram todas uma exclamação de prazer e de assombro. Nunca tinham visto tanta opulência aliada a um gosto tão escolhido. O quarto de Glória era o mesmo, mas forrado de azul e prata, e todos os móveis nessas côres. O de Perpétua era vêrde-mar e todos os móveis eram de cristal, até o leito, e, embora o leitor julgue que os outros dois eram mais bonitos do que êste, engana-se. Havia nêle uma frescura, uns tons suaves e diáfanos que agradavam mais, se é possivel, do que as côres formosas e opulentas dos outros dois aposentos. Quando terminaram a visita dos jardins e do longo parque que lhes ficava anexo, estavam estafadas e resolveram recolher-se aos seus quartos para descansarem das fadigas diurnas. Mas as surprezas ainda não tinham terminado para elas. Cada uma tinha uma áia preta, vestida com as cores do quarto, como se ela própria fôsse tambêm um objecto. Sigamos Clara, primeiro, como a personagem mais importante desta história. Depois de despida e metida no leito, despediu a criada e, cerrando as palpebras, adormeceu; mas, ao soarem as dôze badaladas da meia noite, acordou repentinamente. Tinha diante de si a Fada Loira. Olhando em volta, viu o seu quarto transformado numa quadra longa e austéra, com paredes forradas por coberturas vêrdes, ao longo das quais pendiam vários e magníficos petrechos de guerra. Á cabeceira da sua cama estava uma soberba espada e uma rica armadura, e, reparando em si própria, viu-se homem forte e robusto. Não cabia em si de espanto e olhava, fascinado, para a Fada Loira, que a poucos passos do leito lhe sorria dizendo:

― Eu virei todas as noites, ao soarem as dôze badaladas, lembrar-te que és homem e deves cumprir a tua promessa. Rodeei-te de todos os atrativos do luxo e da sedução, para te tornar a propaganda mais fácil, porque, como sabes, é quási sempre de cima que as ideias vêem, e que mais fácil é espalha-las; mas é necessário que não te deixes amolecer pela comodidade e pelo conforto. Não te esqueças de mim.

E dizendo estas últimas palavras, desapareceu aos olhos deslumbrados de Guilherme, que retomou imediatamente, com o seu quarto côr de rosa, as formas gentis de Clara.

Foi-lhe difícil conciliar o sono, mas tendo-o conseguido, só acordou no dia seguinte quando o sol, já alto no horisonte, convidava os pobres ao frugal jantar.

Glória dormia também, quando acordou sobresaltada, e viu diante de si a Fada Loira, que lhe disse com bondade:

― Eu sou a alma da Pátria e estou-te grata pelos serviços que prestaste ao meu campeão. Henrique Veber, lembra-te que és homem e que te deves e me deves fortuna.

Olhando em roda, viu uma transformação idêntica á que se tinha dado com Guilherme. Fitou-se a si próprio, como êle fizera, e viu-se homem forte e valente.

Então, respondeu com calor:

Uma fada levanta a mão sobre uma mulher que está deitada na cama.
Eu virei todas noites... (Pag. 68)
― Senhora, as vossas ordens são leis para mim' os vossos designios os meus.

― Agradeço-te, meu filho, e confio do teu esfôrço grandes e nobres empreendimentos.

E partiu, deixando outra vez no seu quarto azul, não um homem, mas uma gentil mulher.

No quarto de Perpétua as cousas passaram-se de outra forma. Transformou-se de repente num sítio ameno e aprazivel, e ela, deixando a forma humana, tornou-se água, correndo mansamente entre salgueiros. Figura não lhe apareceu nenhuma, nem de homem nem de mulher, mas viu, como os outros, a alma da Pátria e ouviu atentamente quanto ela lhe quiz dizer. Êste estado, em Perpétua, prolongou-se até ao romper do dia. Foi ela de todas as tres meninas a que mais cêdo se ergueu e a única que nada comunicou dos sucessos nocturnos, embora escutasse com extrema complacência tudo que as suas companheiras lhe contaram.

Nós, que já sabemos como as cousas se passaram, escusamos de lhes ouvir a narrativa. Eram quási cinco horas quando as visitas começaram a chegar ao palácio da rua Larga. Entre os visitantes, Clara teve o gosto de reconhecer Pelaio Ansures, trajando as suas melhores galas e acompanhado por dois outros fidalgos que vira sentados á mesa do principe Dórdio. Clara, muito amavel com todos, foi, particularmente, cativante com êste homem que ela sabia temivel e queria chamar á sua causa, Pelaio Ansures estava cantado da gentileza com que era recebido e verdadeiramente fascinado pelos belos olhos da linda Clara. Quási á saída, ela, sob o pretexto de lhe fazer admirar umas plantas raras, convidou-o a vir almoçar no dia seguinte, em família.

E, vendo-o afastar, pensava:

― Ou eu me engano muito, ou êste ha de vir a ser dos meus, apesar do muito que tem feito para me inutilisar.

Perpétua e Glória tambêm procuraram agradar aos visitantes e inspirar-lhes a precisa simpatia que é necessário semear para poder fazer calar no íntimo das pessôas as ideias que se lhes desejam incutir.

Eram dez horas da manhã quando Pelaio Ansures, pressuroso em aceitar o convite da linda Clara, se dirigia com os seus dois amigos para o palácio da rua Larga. Chegando junto da porta, o porteiro tirou o gorro que tinha na cabeça, e perfilando-se disse:

― V. Ex.as escusam de subir a escada. As senhoras esperam-nos no parque, onde o almoço deve ser servido. Por esta porta, e seguir a alamêda em frente.

E indicava-lhes um esplendido batente de cristal talhado em bisel.

Os tres homens responderam por uma ligeira inclinação de cabeça e tomaram o caminho que lhes era indicado. Mal tinham chegado ao fim da formosa alaméda, que anosos castanheiros da India sombreavam, pararam, enlevados num melodioso canto, ao qual se ligavam os maviosos sons duma harpa.

O porteiro, um homem careca de barba, com um gorro na mão.
... gorro que tinha na cabeça... (Pag. 71)
― ¡Por Deus! exclamou Pelaio, transportado, voltando-se para Ruy Vaz, parece-me ouvir os próprios anjos do ceu.

― Tendes razão, amigo, ainda não ouvi vozes semelhantes.

― Demorai-vos um pouco e escutemos.

― Escutemos.

As vozes diziam assim em côro:

O' linda terra da Pátria,
¿Quem te verá sem te amar?
¿E quem é que pode, amando-te,
Não te erguer n'alma um altar?

O' terra das amendoeiras,
E dos laranjais em flôr,
Onde os ribeiros murmuram
Eternas canções de amor,

Eu hei de morrer por ti
Para mais vida te dar.
O' terra santa da Pátria,
¿Quem te não ha de adorar?

Clara

Palavra-as leva-as o vento,
São belos sons, nada mais.

Eu penetro o pensamento,
Sei mais do que me contais.

¿Que importa que deis, a sós,
A palavra tantos brilhos,
Se quando ergo a minha voz
Não me respondem os filhos?

Perpétua e Glória


O' linda terra da Pátria,
¿Quem te verá sem te amar?
¿E quem ha de ficar, vendo-te,
Se a tua voz o chamar?

O' terra dos castanheiros
E dos longos pinheirais,
Onde os ciprestes nos lembram
Os que já não voltam mais,

Darei a vida por ti
Para mais vida te dar.
Nenhum de nós será surdo
Se a tua voz se elevar.

Clara

A voz da Pátria é baixinha,
Mas entra no coração

Como a voz duma netinha,
Em rijo peito de ancião.

Se desejardes ouvi-la,
O vosso ouvido apurai.
E se quizerdes senti-la,
O coração segurai.

Perpétua e Glória


O' linda terra da Pátria,
¿Quem te ha de vêr sem te amar?
Por ti não ha sacrificio
Que se não possa aceitar.

O' terra das vinhas vêrdes
E dos maduros trigais,
Hei de dormir no teu seio
Como dormiram meus pais.

Eu hei de morrer, amando-te,
Embora morra por ti,
O' terra amada da Pátria,
Onde primeiro a luz vi.

O' terra das amendoeiras
E dos laranjais em flôr,
No coração de teus filhos
Serás o mais forte amor.

O peito pulsa apressado
Ao dizer-se o nome teu.
És o sol que o brilho ofusca
Dos outros astros no ceu.

Clara


Feliz o homem que á Pátria
Deu talento e coração,
Ou que sucumbe, servindo-a,
Co'a mais santa devoção.

Seu nome, atravez dos séculos,
Sempre honrado ha de ficar,
Porque as páginas da história
O hão de ao mundo apontar.

Perpétua e Glória


O' terra amada da Pátria,
¿Quem te não ha de exaltar?
No sacrário da minh'alma,
Depois de Deus tens lugar.

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Pelaio Ansures, apesar de enlevado na beleza das vozes, acabou por perder a paciência vendo que o canto era interminavel, e decidiu-se a interrompê-lo aparecendo, com seus companheiros, junto das cantoras.

Clara era quem tocava harpa e cantava só; as outras duas respondiam.

Vendo aparecer os tres cavaleiros, as jovens suspenderam a música e fôram ao seu encontro.

― ¿Eu não sei, senhora minha, disse Pelaio galantemente, depois de trocar os cumprimentos do estilo, se me deva julgar na terra, se no ceu.

― Confundis-me, cavaleiro. E' uma modesta canção a que terminávamos quando chegastes. Numa das nossas viagens conhecemos um rapaz, quási criança ainda, que dava pelo nome de Guilherme, o Bom, e foi êle que nos ensinou êste canto sentido, mas um pouco triste, não é verdade?

Ao nome de Guilherme, o Bom, o cavaleiro não pôde conter-se que não perguntasse:

― ¿Era um rapaz loiro, de olhos claros?

― Era.

― ¿E não tivestes ocasião de o vêr ainda em Nimbria?

― Não, senhor cavaleiro, e confesso-vos que muito apreciaria a sua vista. ¿Sabeis porquê?

― Ainda mo não dissestes.

― Porque êle é, como eu, um apaixonado da Pátria e não deixa de trabalhar em seu favôr um único dia.

Pelaio Ansures ficou um momento desconcertado. mas, recobrando-se, perguntou:

― ¿Que dirieis vós se eu vos perguntasse, como na antiga canção:

 

¿Que darieis vós, senhora,
A quem o trouxesse aqui ?

 

― Daria os mais vivos e profundos agradecimentos.

― E' pouco, senhora, eu queria mais.

― ¿Como na canção da bela Infanta?

― Exactamente, senhora.

Clara sorriu e volveu:

― E' caro demais, cavaleiro. Contudo não vos responderei com a dureza com que a bela Infanta se houve para com o gentil capitão. Eu não tenho o mesmo empenho de vêr Guilherme, o Bom, porque êle não é meu marido, nem mesmo meu irmão. Mas estimar-vos-hei tanto como o estimo a êle, se vier no conhecimento de que os nossos gostos e crenças são idênticos. Agora, vejamos a rara planta em que vos falei, e depois vamos ao almoço que já deve estar arrefecendo. Perpétua deu o braço a Rui Vaz, Glória a Gastão Carvalhido, e Clara, apoiando-se ao de Pelaio Ansures, tomaram todos pelas estreitas ruas do parque, conversando e rindo alegremente. Chegando junto da estufa, Clara mostrou uma alta e bonita planta ao seu hospede, dizendo-lhe:

― Esta é a planta de que vos falei. Dá um fruto pequeno, mas muito saboroso. Quem comer dêle vê, A criada, uma mulher descalça com um tabuleiro e um jarro
... as criadas pretas apressaram-se... (Pag. 82)

momentaneamente adormecido, o passado, o presente e o futuro.

― ¿Gracejais comigo, senhora?

― De modo algum.

― Então, se o permitis, deixai-me, por experiência, conhecer os seus maravilhosos efeitos.

― Com todo o gosto, mas depois de me terdes feito honra ao almoço.

E Clara, enquanto respondia, colheu nove frutos e ofereceu tres a cada um dos convivas, dizendo:

― Depois do café, podeis comer sem receio e, quando despertardes, a vossa vida não terá mistérios que não saibais.

Incrédulos e intrigados, os cavaleiros meteram os frutos aos bolsos e seguiram as suas companheiras ao palácio, onde lhes foi servido um esplêndido almoço. Todos se mostraram alegres e despreocupados, mas Clara notára que, desde que pronunciára o nome de Guilherme, o Bom, o seu principal hóspede ficára levemente scismador, embora o procurasse disfarçar. Estavam no meio da refeição quando os cinco mosquitos, mandados por Clara a recados vários, começaram chegando e, aproximando-se da sua dona, zumbiam segundo o tom da nota que lhes dava o nome. Ela escutava-os, sem que ninguêm desse por isso, ia-os pousando no ramo de flores que trazia preso na cintura. Quando o mosquito, que ela tinha enviado ao principe Dórdio, lhe segredou o resultado da sua missão, o rosto de Clara não pôde reprimir uma expressão de intenso júbilo, e Pelaio Ansures, que não tirava os olhos dela, perguntou-lhe:

― ¿Que idea foi essa que vos occorreu, minha gentil senhora? O vosso rosto tornou-se repentinamente tão risonho e resplandecente que, se não sou indiscreto...

― De modo algum. Pensava que me seria muito agradável vêr-vos defender a nossa causa.

― ¿E qual é a vossa causa?

― A da Pátria, como já vos disse.

Pelaio Ansures franziu a testa e ia talvez responder pouco amávelmente, mas coíbindo-se, indagou:

― ¿E em que posso eu, humilde gentil-homem, servir a vossa causa?

― Associando-vos a ela.

― Mas, senhora, para se entrar numa associação é necessário conhecer bem as condições que temos de aceitar, os deveres que temos de cumprir, e saber se os consocios nos convêem. Claro, que, se todos tiverem a vossa gentileza e bondade, não haverá quem se recuse a servir a empresa com toda a devoção.

― Sois muito amável, senhor cavaleiro, mas muito acautelado e precavido tambêm. Não estou, por enquanto, habilitada a responder-vos satisfatoriamente; contudo posso garantir-vos que o principe Dórdio virá com a sua gente e com a sua palavra autorisada, ajudar a erguer o espírito abatido da nação.

― Era essa a sua intenção a última vez que lhe falei, mas o seu astrólogo, consultando os astros, creio que lhe deu conselhos absolutamente contrários.

― Que êle não escutou nem seguirá, como tereis de observar.

Perpétua, falando com Rui Vaz, tinha conseguido rem esforço que êle lhe prometesse defender a causa da Pátria e que, no desejo de se mostrar galante, levasse o seu desinteresse a ponto de lhe dizer:

― «Mandai, que eu obedecerei.»

Por seu lado, Glória não tentou convencer Gastão Carvalhido, nem mesmo aludira a tal assunto, a não sêr quando se ergueram da mesa e se dirigiram ao terraço, onde os esperava o café colocado sobre uma pequena mesa e rodeado por altas e cómodas cadeiras.

As criadas, pretas, apressaram-se a servir o delicioso licôr. Então, Glória disse a Carvalhido:

― Agora é que os seus frutos se devem comer.

― ¡E' verdade! Nem já me lembrava disso.

E Gastão, e com êle os seus amigos, tiraram os frutos dos bolsos e comeram-nos, assegurando que os achavam deliciosos e comeriam mais com muito prazer.

Clara afiançou-lhes que, se comessem mais, lhes faria mal, motivo pelo qual se não apressava a satisfazer-lhes o desejo. Conversaram ainda, porêm um sono invencível começou a apoderar-se dêles. Pelaio Ansures tentou reagir.

― E' inútil, disse-lhe Clara. Dentro em pouco terão tomado conhecimento com o futuro e ser-nos-hão inteiramente dedicados.

As últimas palavras já não foram ouvidas por nenhum dêles.

Então Clara, vendo-os adormecidos, fez sinal ás suas duas companheiras, e, recolhendo ao seu luxuoso escritório, onde os móveis eram de ébano e marfim, sentou-se á secretária e elaborou com elas os estatutos da associação poderosa que devia restituir á Pátria o antigo fausto, pela dedicação e desinteresse dos seus filhos. Clara tinha muito bom senso e uma nítida noção do dever. Assim, os preceitos a seguir, eram simples e justos. A sua divisa: Tudo pela Pátria. Terminada a tarefa e tendo as tres concordado que ela estava bem, voltaram ao terraço onde os cavaleiros ainda estavam imersos no mais profundo sono.

Uma mulher dorme numa cama de dossel

O Passado
 
O sonho de Pelaio Antunes
 

 

Viu primeiro a sua descuidada infância, passada nas margens do rio Corre-Corre, junto de sua bôa mãe; depois a entrada na casa do principe Dórdio, a sua educação de caçador, de pagem, as lições na sala de armas onde, em pouco tempo, foi um dos primeiros. Emfim, quando ninguêm o excedia em bem trinchar uma peça de caça, nem lhe levava a palma num torneio, quando conhecia mal o latim e ajudava bem á missa, aprendeu bem a escrever o seu nome e rasoávelmente o resto. Como lia sofrívelmente, era tido por um dos mais distintos e sabedores cavaleiros de então. O principe Dórdio pensou em o casar com sua irmã Pompónia, e, bem que nem o cavaleiro nem a donzela mostrassem o menor desejo de vêr realizada esta união, forçoso lhes foi aceitá-la fazendo boa cara á sua fortuna. Apesar de tudo, o seu casamento foi feliz e êle sê-lo-ia ainda se a sua mulher e a sua filha não tivessem morrido dum desastre no rio, quando tomavam banho. Tudo isso êle revivia rápidamente até à ceia no castelo do principe Dórdio e a tudo que se lhe seguiu.


Uma mulher e um homem a andar numa bicicleta de dois lugares.

O Presente
 

Não estava contente de se ter deixado sugestionar tão rápidamente pelas razões do astrólogo. Ele não falára com o principe, não o consultára, tambêm não reflectira e, turvando, ao ouvir a longa fala do velho, talvez pelo descostume em que estava de que êle dirigisse a palavra a alguêm, procedera impulsivamente sob a impressão do egoismo naturalmente revoltado.

Agora pensava friamente e não sabia se fizera bem.¿Como julgaria o principe, seu cunhado, a conduta que tivera quando êle próprio se alcunhava de precipitado e irreflectido? Depois o seu coração, embora já não fosse muito môço, sentia-se preso dos encantos de Clara, sorrindo-lhe a idea de a fazer sua segunda esposa.

O Futuro
 

Esse desejo era irrealisável, do que se vinha naturalmente a consolar desposando outra mulher não menos formosa. O principe, que não ficára contente, acabaria por se congraçar com êle. Guilherme, o Bom, conseguiria levantar o espírito da nação, e Pelaio Ansures tornar-se-ia um personagem importante, viven- do até ao fim da sua longa vida, alegre e feliz, com prosperidade e grandeza.

Emfim, tendo cada um dos cavaleiros sonhado o passado e o presente, como de facto haviam sido, acreditaram piamente que o futuro sonhado era o que lhes estava reservado e, como os sonhos eram agradaveis , acordaram bem dispostos e de rostos prasenteiros, mas envergonhados de terem adormecido diante de senhoras.

Muitos mezes se prolongou em Nimbria a estada das tres gentis raparigas. Um dia, porêm, Clara, convencendo-se de que a sua propaganda ali estava feita, percorreu todas as cidades e principais vilas do reino, com as suas duas amigas e os seus cinco mosquitos. Em toda a parte foi bem recebida, devido à sua beleza e opulência, e as ideias que semeou desenvolveram-se rápidamente. Certa de que podia considerar a sua causa quasi ganha, pediu á Fada Loira, quando, á meia-noite, ela lhe veiu lembrar os seus deveres, que a deixasse tomar a sua verdadeira forma.

Ela pareceu hesitar e perguntou-lhe: ― ¿Não será cêdo ainda?

― Creio que não, senhora.

― Então seja feito segundo a tua vontade.

No mesmo instante, Guilherme achou-se com os seus dois companheiros na margem do rio onde, pela primeira vez, lhe aparecêra a Alma da Pátria, chorando. O seu rebanho pastava mansamente, espalhado pelo prado florido, e um rapazito, pouco mais ou menos como êle era dantes, tocava numa flauta de cana confeccionada por êle nas horas vagas. Tres cavalos, seguros á rédea por tres pagens de distinto aspecto, esperavam-nos para os conduzirem onde lhes aprouvesse dirigirem-se.

Guilherme sentiu um louco desejo de ir abraçar o velho cura, mas quando dava uns passos na direcção da residência paroquial, pensou:

― ¿Que vou eu lá fazer? ¿Como poderei justificar aos seus olhos o meu procedimento que êle, decerto, alcunha de inqualificável?

Parou, enxugou o rosto alagado em suor, e voltou resolutamente sobre os seus passos.

Henrique e Roberto, parados junto das suas montadas observavam-no em silêncio. Êle aproximou-se do cavalo, saltou sobre êle e, aproximando-se do pastor que de costas para éles estava,.perfeitamente entregue à sua paixão musical, disse-lhe em voz comovida:

― Quando voltares a casa, dirás a teu amo que Guilherme o não esqueceu. Muito cêdo tenciona ir abraçá-lo e implorar o perdão das suas culpas.

O rapaz olhava-o com espanto e como quem procura avivar recordações. Mas Guilherme, sem lhe dar tempo a perguntas, meteu esporas ao cavalo e desapareceu a seus olhos, seguido pelos seus dois amigos e pelos tres pagens. Chegando perto do castelo do principe Dórdio, numa disposição de espírito muito diversa da que tinha tres anos antes, o nosso herói pediu a Roberto que abrisse a gaiola de prata que continha os cinco mosquitos, que êle pedira á Fada Loira para conservar, e lhe desse o . Roberto obedeceu.

Então pegando delicadamente no insecto pelas asas, Guilherme disse-lhe:

― Precede-nos junto do principe e cumpre fielmente a tua obrigação.

E, entreabrindo os dedos, deixou-o voar. Depois, dirigindo-se a Roberto, ordenou:

― Vai, como ha tres anos, mas seguido do teu pagem, pedir ao principe, pousada nos seus paços para Guilherme, o Bom, e para os seus companheiros.

Entretanto, o mosquito, voando com a maior velocidade, entrára nos quartos do principe e, volteando ao redor da sua cabeça, segredava-lhe:

 

Zum, zum, zum,
És mais valente que nenhum.

Quem nada faz merece bem
Ser sempre olhado com desdem.

Zum, zum, zum.
Faze por ser mais que nenhum.

Quem muito ao alto quer subir,
Firme-se bem, não vá cair.

Zum, zum, zum,
És mais valente que nenhum.

Pancada, amigo, é argumento
Que serve só para um jumento.

Zum, zum, zum,
Faze por ser mais que nenhum.

Quem quer gozar sem padecer,
Não pode a vida conhecer.

Zum, zum, zum,
És mais valente que nenhum.

P'ra dominar ouve a razão,
Não dês ouvidos ao coração.

Zum, zum, zum,
Faze por ser mais que nenhum.

Se aos bons queres agradar,
Nunca te faças mal julgar.

Zum, zum, zum,
És mais valente que nenhum.

Põe teu desejo e devoção
Onde possas erguer a mão.

Zum, zum, zum,
Faze por ser mais que nenhum.

Não faças mal o teu caminho,
Não vás chegar ao meio sòsinho.

Zum, zum, zum,
És mais valente que nenhum.

Vê que a injustiça as paixões solta
E mesmo aos bons causa revolta.

Zum, zum, zum,
Faze por ser mais que nenhum.

Não puxes sempre, sem parar.
Tensão de mais pode quebrar.

Zum, zum, zum,
És mais valente que nenhum.

Não pode nunca ser amado
Quem para os mais não tem agrado.

Zum, zum, zum,
Faze por ser mais que nenhum.

Guilherme, o Bom, tem de vencer,
Pois tem o dom de convencer.

Zum, zum, zum,
És mais valente que nenhum.

Chega o momento de se ilustrar
Quem pela Pátria quizer lutar.

Zum, zum, zum,
Faze por ser mais que nenhum.
Pum, pum, pum,

Se vais á guerra
Não escapa um,
¡Pum, pum, pum!

 

O principe, ouvindo zumbir o mosquito, julgava suas as ideas que êle activamente lhe sugeria e sacudia-o com a mão, como nós costumamos fazer quando os mosquitos vulgares nos importunam. Nisto, vieram trazer-lhe o recado de Guilherme e, como êle estava ao facto de quanto se havia passado no castelo, anos antes, não pôde deixar de exclamar com admiração:

― E' realmente um homem, visto que tem a coragem precisa para voltar aqui.

«Que entre, que entre, disse êle pressuroso. E trazei-o directamente aos meus aposentos.»

O criado curvou-se e saiu. O principe, interdito, sem saber se devia ignorar, se mostrar conhecimento dos factos, ficou de pé no meio da sala, fitando com embaraço os grandes ramos de flores tecidos no magnífico tapete. Entretanto, Guilherme e os seus companheiros, tendo entrado no castelo, fôram introduzidos junto do principe com todas as deferências. Sua alteza deu uns passos ao seu encontro, exclamando em tom de satisfação:

― Ora até que emfim os torno a vêr, meus amigos; ¿porque razão partiram sem me dizer adeus?

E o principe, bem que mentisse, tinha na voz um acento de sinceridade que convenceria pessoas mais crédulas e menos bem informadas do que os nossos heróis.

Guilherme volveu-lhe com um sorriso levemente irónico:

― Meu senhor, nós não partimos, fujimos. Esta é que é a verdade, e aqui tem Vossa Alteza Henrique Veber que, melhor do que eu, lhe pode contar como conseguiu salvar-nos a vida.

― ¿Salvar-lhes a vida?

― Sim, meu senhor.

E se nós não tivessemos de Vossa Alteza a melhor e mais subida opinião, não teriamos vindo hoje, sós, sem armas e sem homens, entregarmo-nos nas suas mãos.

― Agradeço-vos a confiança. Mas, contai-me. ¿Como foi isso?

Então Henrique Veber referiu tudo quanto já sabemos e o principe conhecia.

Êste escutava-o, fingindo reprimir a custo a indignação. Finalmente, ergueu-se exclamando:

― E' preciso que justiça seja feita. ¡Violar os sagrados direitos da hospitalidade! E' crime para que não conheço perdão.

Voltando-se para o seu camarista, o principe Dórdio ajuntou:

― Manda vir aqui o astrólogo.

D. Praxedes entrou pouco depois.

― ¿E' possível, vil e abjecta criatura, que te atrevesses a sublevar os meus homens contra amigos que eu acolhi com favor?

Fiado em estar representando uma comédia, o astrólogo prestou-se da melhor vontade a desempenhar o papel que o principe lhe distribuía, e confessou alto as suas culpas implorando a benevolência dos ofendidos.

Os tres rapazes fôram prontos em perdoar, mas o principe mostrou-se inexoravel.

― Morrerás na fôrca ao romper dalva. Retira-te da minha vista.

Sem acreditar uma única palavra desta ameaça, D. Praxedes retirou-se dando mostras de grande aflição.

Guilherme instou pelo indulto do astrólogo, mas nada pôde obter. E, nessa madrugada, da janela principal do castelo, sua alteza assistia com os seus hospedes e amigos, á execução do astrólogo que tinha descaído do agrado rial, não só falsamente, mas de facto, porque lhe fizera predições inexatas. E no entanto foi o principe Dórdio a única afeição sincera dêste velho, que êle fez matar para dar aos outros uma impressão de possuir os sentimentos que não tinha.

Se D. Praxedes pudesse ter adivinhado, não era êle que teria tomado a iniciativa de afastar Guilherme , por temer a sua influência na vida do principe. Quando, algumas horas depois, se reuniram á mesa do almoço, o principe perguntou a Guilherme se conseguira fazer a desejada propaganda, na qual lhe falára em tempo e que resultados tirára.

― Os melhores, senhor, os melhores. Agora só falta deitar abaixo o governo, arranjar uma constituição nova, e promulgar sábias leis.

― Pelo que dizeis parece faltar tudo.

― Não, porque o mais importante está feito.

― ¿E era?

― Preparar o espírito público para os acontecimentos.

― ¿Quereis proclamar a República?

― E' inutil. Todos prezam a rainha, que é uma excelente senhora.

― ¿Então?

― Quero mudar os homens e os seus processos.

― ¿E o regimen?

― Quando os homens sejam bons, todos os sistemas o são.

― ¿Mas vós sois republicano?

― Muito convicto, senhor.

― Cada vez entendo menos.

― Pois é fácil. Ponho acima das minhas paixões pessoais a liberdade de acção e pensamento de todos, sem forçar o que ha de nobre e grande nas tradições dum povo.

― ¿E quando dás começo a essa empresa?

― Eu vinha-vos pedir, senhor, que vos juntasseis ao Marquez de Riba-Fontes e a Pelaio Ansures, para podermos dar o golpe de Estado, no dia da abertura do Parlamento.

― Não ha duvida, serei convosco. ¿Temos então de partir depois de amanhã?

― O mais tardar, se vossa alteza não mandar o contrário.

O bôbo do principe, conhecido pelo nome de amôr perfeito, por ser o mais hediondo e desastrado que se pode imaginar, assim que ouviu sua alteza dar ordens para os seus homens se armarem e prepararem para a partida, começou a carpir-se dum modo que era o riso duns e a raiva de outros. Clamava êle, num tom plangente e soluçando:

 

¡Ai de mim! ¡ai de mim!
¡Desgraçado Amôr Perfeito!
Eu nasci são e escorreito,
Veiu a guerra e põe-me assim,
¡Ai de mim! ¡ai de mim!

Dizem uns que sou parvinho,
Outros afirmam que não.
Eu tenho uso de razão
E, apesar de beber vinho,
Não tropeço no caminho.

¡Ai de mim! ¡ai de mim!
Pois hei de deixar a terra,
Ser soldado só para guerra?
¿Para que é que ao mundo vim?
¡Ai de mim! ¡ai de mim!

Dão-me por emblema um guizo,
Um barrete de truão.
Dizem que sou sem razão,
Presumem de ter juizo,
¿Mas a quem falta mais siso?

¡Ai de mim! ¡ai de mim!
Embora me chamem louco,
Eu contento-me de pouco,
Prefiro o pé ao chapim.
¡Ai de mim! ¡ai de mim!

Morram todos que têm tino
E estão fartos de viver,
Mas não me façam morrer
Por ser ainda menino
E ter fé no meu destino.

¡Ai de mim! ¡ai de mim!
Que êsse malvado
Parece estar empenhado
Em me fazer num jardim.
¡Ai de mim! ¡ai de mim!

Se ao castelo 'inda voltar,
Sem de balas ser tocado,
Hei de subir, ajoelhado,
Á barbacã de Guiomar.
¡Assim me possa salvar!

(Chorando, e com muita volubilidade :)

¡Ai de mim! ¡ai de mim!
Parece que estou perdido.
Tenho a morte no sentido,
¡Oiço ao longe pim! ¡pim! ¡pim!
Mais valia ter morrido,
Pelas ondas ser engulido,
Do que estar doido e metido
Com gente esperta e ruim.
¡Pim! ¡pim! ¡pim!
¡Ai de mim! ¡ai de mim!

 

Muitos dos homens que ouviam Amôr Perfeito pensavam exactamente como êle e não podiam, por mais que contrafizessem as fizionomias, dar ao rosto uma expressão alegre e despreocupada; outros, a quem o entusiasmo e confiança dos recem-vindos se comunicára, anciavam por partir e por experimentar a sério as suas forças, o que só muito raramente tinham feito em contendas pessoais.

O principe Dórdio juntou as suas fôrças ás do Marquez de Riba-Fontes e de Pelaio Ansures e todos, confiando-se á sagacidade e valentia de Guilherme, colocaram-se de comum acôrdo sob a sua direcção. Um homem vestido de bobo da corte com uma bola.
Dão-me por emblema um guizo... (Pag. 100)
Êste dirigiu-se com êles a Nimbria, numa marcha rápida e tão precipitada quanto silenciosa.

Nêste tempo ainda não havia nenhuma das invenções extraordinárias e maravilhosas, que tornam tão terriveis as guerras e pelejas actuais. Batiam-se a tiro ou á arma branca, muita vez corpo a corpo, e quasi sempre á luz do sol. Seriam combates menos mortíferos, menos scientificos, se quizerem, mas eram muito mais nobres e denodados.

Conseguiram chegar junto dos muros da cidade sem que nenhum dos seus habitantes os tivesse pressentido. Então, para que não houvesse alarme, puzeram escadas aos muros, prenderam e mataram as sentinelas que se defendiam valentemente e, senhores da porta norte da cidade, entraram nela pacíficamente, numa marcha lenta e ordenada. O povo chegava ás portas para os vêr passar, pasmava do seu garbo militar, como quem ha muito tempo não via tropas, e perguntava a que vinham, sem que ninguêm lhes soubesse responder. O govêrno estava todo reunido no Parlamento, onde a rainha não ia ha muito, devido ao precário estado da sua saúde. Guilherme, que tudo sabia pelos seus devotados mosquitos, mandou um grande destacamento cercar o Paço e, com a tropa restante, dirigiu-se ao Parlamento onde aprisionou todos que lá se achavam. Antes, porêm, de os deixar saír, disse-lhes:

― Eu não vos mando matar pelas graves responsabilidades que tendes nos desastres da nação, porque à vida dum homem é um capital que um povo pobre não pode nem deve perder. A ilha d'Arana, inteiramente abandonada ao gentio, nada rende ao Estado. Vós ides todos povoá-la com as vossas famíliase os vossos apaniguados. Tereis propriedades, fareis plantações, e o governo proporcionar-vos-ha os meios de resgatardes as vossas passadas faltas, procurando valorisar Arana e exportar-nos os seus melhores produtos em troca dos que daqui vos enviarmos.

De toda a parte se ouviam protestos violentos; mas, como contra a fôrça não ha resistência momentanea que desprevenidamente seja possível, as ordens de Guilherme foram cumpridas. Êle falou depois ao povo, acendeu-lhe no coração o fogo sagrado do patriotismo que na propaganda tão bem semeára, e dirigiu-se ao Paço rodeiado de gente e constantemente aclamado por ela.

A rainha era uma formosa mulher de vinte anos, que herdára de seu pai o trono e a beleza. Muito inteligente e instruida, via com verdadeira mágua a decadência enorme do reino e achava-se impotente, apesar da sua boa vontade, para lutar contra a vil ambição dos políticos e dos palacianos, agravada pela indiferença de todos. Lisonjiada e adulada por quantos a rodeavam, sentia que não era sinceramente estimada por ninguêm. Um dia, percebeu que todos os seus esforços eram inuteis, porque esbarravam na perversidade dos homens que punham acima de tudo o seu interesse pessoal. Então a rainha entristeceu e, visto que tinham ousado dar-lhe a entender que as mulheres sabem e entendem de bordados e modas, mas de mais nada, resolveu não colaborar de boa vontade no descalabro público e, sob o pretexto da doença, encerrou-se nos seus paços. Em vão os grandes do reino lhe demonstravam a necessidade de casar para ter um herdeiro. Com o pretexto de se achar muito doente, ela ia demorando o projectado casamento de ano para ano, receosa de que o rei viesse complicar ainda mais a situação. Quando Guilherme entrou no paço pediu que o acompanhassem junto da rainha. Esta estava magníficamente vestida de setim côr de pérola enfeitado de lindas penas vêrde bronze. Meio inclinada sobre a mesa, lia com muita atenção a história do seu país. Sentindo rumor de muitas vozes na rua, correu á janela, apesar dos pedidos das suas damas, e notou com espanto a imensa mó de povo que estacionava á entrada do paço.

Voltando-se ás damas, ordenou:

― Vão saber o que é isto.

Mas nenhuma delas se mexeu, traíndo na fisionomia o grande receio que sentiam.

Então a rainha, que era uma mulher enérgica, exclamou:

― ¿Não me ouviram? Então irei eu.

E dirigiu-se para a porta.

Quando ia transpo-la, achou-se em frente de Guilherme que, cheio de poeira, mas com a cabeça descoberta, lhe dizia respeitosamente:

― Senhora, eu venho falar-vos em nome do povo.

A rainha lançou-lhe um olhar profundo e, tendo feito rápidamente o seu juizo, disse-lhe:

― Entrai, cavaleiro, e ainda que o modo porque me abordais tem muito de estranho, estou pronta a escutar-vos.

Guilherme hesitou um segundo e perguntou:

― ¿Tereis duvida, senhora, de me escutardes sem testemunhas?

― Absolutamente nenhuma.

― ¡Senhora! murmurou timidamente uma das damas.

― Afastai-vos.

E, voltando-se para Guilherme, disse-lhe com serenidade enquanto se sentava com dignidade, mas sem afectação:

― Fechai vós mesmo a porta, cavaleiro, e correi o reposteiro, visto que o que tendes a comunicar-me requer prudência.

E sem lhe oferecer uma cadeira, fitou nêle o seu olhar seguro e altivo.

Guilherme nunca tinha visto a rainha. Admirou em silêncio a sua coragem e a sua beleza, e expôz-lhe os motivos que levaram o povo á rebelião. Contou-lhe tudo que de longa data havia feito em serviço da nação e o acto que no parlamento acabava de efectuar.

A rainha perdeu pouco a pouco a expressão desconfiada que lhe animava a fisionomia, o olhar brilhou-lhe com intensidade, o seio tornou-se-lhe ofegante , e quando Guilherme acabou de lhe expôr o seu plano de salvação, estendeu lhe a mão com reconhecimento e dos seus olhos correram lágrimas de júbilo.

Quando a conferência terminou, Guilherme dirigiu-se á porta e introduziu na sala o principe Dórdio, o marquez de Riba-Fontes, Pelaio Ansures e os seus dois amigos, Henrique Veber, Roberto, e mais seis fidalgos, que durante o tempo da propaganda reconhecêra dignos de administrarem o país.

A rainha festejou-os a todos e teve para cada um uma frase escolhida. Guilherme fez-lhe despedir todo o pessoal do palácio, menos a dama que se atrevera a mostrar receio de a deixar só com êle.

Enquanto a rainha conversava com o principe Dórdio, o nosso herói atravessou a sala seguinte, penetrou num quarto desabitado e exclamou:

― «¡Alma da terra em que nasci! ¡acode aqui!»

A Fada Loira apareceu imediatamente, beijou-o e abraçou-o com transporte, exclamando:

― És o melhor e o maior dos meus filhos. Deves reinar sobre êles.

― Não, mãe. Diriam que fui ambicioso e interesseiro. Volvei-me à minha aldeia, ao velho cura, fazei-me achar uma esposa que se assemelhe a vós na beleza e na bondade.

― Assim será. Mas quem desposará a rainha e fará dela um esteio seguro da nação?

― Henrique Veber, que é o melhor e mais altruista dos homens.

Guilherme Bom e a Fada abraçam-se.
... abraçou-o com transporte... (Pag. 107)
A Fada Loira beijou ternamente Guilherme e êste perguntou-lhe a mêdo:

― ¿Vêr-vos-hei ainda?

― Uma vez. No sitio onde primeiro os meus olhos se pousaram nos teus.

Então Guilherme, tirando do bolso a gaiola dos mosquitos, abriu-lhes a porta e cinco formosas mulheres apareceram junto dêle, sentadas nas cadeiras onde pousára os insectos. Então, oferecendo o braço á mais formosa, Guilherme voltou junto da rainha, dizendo-lhe:

― Apresento-vos, senhora minha, as vossas novas damas. Não têem família, mas são muito distintas, como tereis ocasião de observar. Esta senhora chama-se Justiça, esta Bondade, esta Prudência, esta Valentia e aquela Severidade. Fazei-vos sempre acompanhar por elas e o vosso reino tornar-se-ha cada vez maior. Se o permitis, aconselhar-vos-hei tambêm ácerca do marido que deveis escolher.

A rainha fez um gesto de acquiescência e todos pensaram que êle se ia designar a si próprio. O principe Dórdio, franziu o sobr'olho. Contrariado na sua imensa vaidade, achava que só êle podia e devia ser o esposo escolhido.

Guilherme, pegando na mão de Henrique, levou-o junto da rainha dizendo:

― Aqui tendes, senhora minha, o marido que vos convêm: é nobre de coração, altivo, fiel, honrado e bom: ha de fazer-vos feliz. Quanto aos outros, lereis neste papel os cargos que, para bem do reino, devem desempenhar.

A rainha passou rápidamente os olhos pela lista que lhe era apresentada, e respondeu:

― Guilherme, o Bom, déstes-me em Henrique Veber um bom esposo, nestes fidalgos um excelente govêrno, em Riba-Fontes um notável e entendido guerreiro, no meu primo Dórdio um inexcedivel mordomo mór; só me não dissestes que cargo reservaveis aos vossos merecimentos.

― Nenhum, senhora. Confessar-me-hei eternamente grato a Vossa Majestade se não esquecer as minhas desinteressadas diligências para bem a servir, servindo o reino.

A rainha pareceu desapontada.

― ¿E como hei de eu recompensar-vos?

― Não deixando perder o meu trabalho e velando com o maior cuidado para que o povo se instrua, e não seja surdo á voz da Pátria quando ela chama os seus filhos.

A rainha jurou cumprir, e Guilherme, o Bom, saíu de Nimbria nessa mesma tarde com Roberto, tão isento como êle de bens naturais. A rainha e toda a côrte acompanharam-no até ás portas da cidade. Aí despediram-se com efusão e retomaram a trote largo o caminho da aldeia.

Quando Guilherme avistou o cura sentado á porta de casa pensou em se apear e dirigir-se imediatamente para êle.

Roberto porêm impediu-o de o fazer, dizendo-lhe:

― Esqueceis, senhor, que deveis ainda entregar o vosso cavalo e armadura, e vêr minha ama pela última vez.

― Tendes razão, amigo. Vamos lá. Devo porém confiar-te que a idea de não tornar a vêr a Fada Loira me punge e dilacera o coração.

Era ao caír da tarde quando chegaram junto das margens do rio onde pasciam as ovelhas do cura. O sol parecia roda de oiro reluzente, meia mergulhada nas águas levemente encrespadas do rio. As aves chilreavam procurando nas árvores o abrigo nocturno, e a Fada Loira, sentada na margem, penteava os cabelos longuissimos e anelados, mirando-se vaidosa e sorridente nas águas que corriam a seus pés.

Aos ouvidos de Guilherme soaram estas palavras pronunciadas com enternecimento:

― ¡Adeus, caro companheiro de longos trabalhos: sêde feliz!

Voltou-se rápidamente sobre a sela e ficou atónito: Roberto e o seu cavalo tinham desaparecido.

Guilherme fitou a Fada Loira e disse-lhe com lágrimas na voz:

― ¿E' então certo que vos vejo pela derradeira vez?

― Meu filho, eu tomei a forma graciosa duma bela camponeza que te fará o mais feliz dos homens. Não posso esquecer que te devo tudo. Sem ti, sem o Guilherme passa junto da casa de Pedro, que o convida a entrar.
― E' um ai. Nem te assentas. (Pag. 113)
teu ânimo e dedicação, eu estaria para sempre abatida. Não o esquecerei, meu bom Guilherme.

E lançando-lhe um longo olhar, afundou-se lentamente nas águas.

Guilherme caiu desmaiado.

Quando voltou a si, estava vestido de pastor e encostado a uma árvore. Espreguiçou-se, esfregou os olhos, e ficou muito pasmado vendo junto de si o bornal e o cajado, em vez do cavalo e da espada.

Lena, a sua ovelha favorita, veio lamber-lhe as mãos. Ele soltou um assobio estrídulo, ao som do qual se reuniu o rebanho, e, chamando o cão, que dormia com o focinho pousado sobre as patas dianteiras, tomou o caminho do presbitério, pensando:

― ¿Mas eu sonhei isto, ou foi verdade?

Passando junto da casa duns visinhos ouviu uma voz rude que o chamava.

― ¿Que é, ti Pedro? perguntou êle continuando a andar.

― Chegou-me a rapariga que estava a servir na cidade. Entra, e bebes uma golada á sua saúde.

― E' tarde e o senhor cura pode zangar-se.

― E' um ai. Nem te assentas.

― Seja.

Guilherme entrou e ficou como pregado ao solo, reconhecendo na filha do seu visinho Pedro as feições da Fada Loira.

Passaram meses.

Todos os dias Guilherme via a sua linda visinha, de manhã e á tarde. Um dia, em que êle pensava tristemente, sentado á sombra do castanheiro anoso, se tinha sido um sonho ou realidade o seu trabalho a favor da Pátria, ouviu uma voz meiga e harmoniosa que lhe dizia:

― Santas tardes, bom Guilherme; ¿em que pensas?

― ¿Eu, visinha? Penso que a realidade e o sonho se confundem ás vezes tanto, que a gente chega a não saber o que é verdade nem o que é mentira. Mas agora pergunto eu: ¿a que viéste aqui?

― Vim lavar a roupa ao rio. A minha mãe não gosta da roupa lavada senão na água corrente. ¿Mas, falavas de sonhos?

― E' verdade.

E Guilherme contou com inocente franqueza a história que acabamos de lêr e a extraordinária parecença que ela, Florinda, tinha com a Fada Loira.

A rapariga ouviu-o com muita atenção e exclamou convencida:

― ¿Quem sabe se tudo isso foi verdade?

― Tenho a certeza que não. O senhor cura, por mais que tenho feito, não faz alusão nenhuma á minha Guilherme a falar com Florinda.
― Mas eu sou tão pobre... (Pag. 116)
ausência: teu pai fala-me como se eu nunca tivesse deixado de passar todos os dias á sua porta e, contudo, eu tenho a firme certeza de que andei por longes terras e fiz quanto te contei.

Desde aí encontravam-se a miudo. Êle falava-lhe das suas viagens e ela ouvia-o com seriedade e atenção, fazendo-lhe perguntas.

Um ano depois, ao cair da folha, Florinda perguntou a Guilherme:

― ¿Quando falas ao meu pai e ao senhor cura para tratarem do nosso casamento?

― ¿Tu queres?!

― ¿Então não hei de querer?

― Mas eu sou tão pobre... talvez teu pai se oponha.

― ¡Qual opõe! Ninguêm foje ao destino. Demais, a Fada Loira prometeu-me a ti.

― ¿Crês nisso?

― Está bem de vêr que sim. Tu não podias adivinhar-me as feições do rosto.

No primeiro dia do ano, á missa da festa, Guilherme, o bom Guilherme, como todos lhe chamavam, casava com a Florinda dos Lagares. Depois da missa houve um grande jantar em casa do cura, ao qual assistiram todas as notabilidades da terra. Dansaram á noite, cantaram á desgarrada, divertiram-se muito, e, quando, quasi ao romper do dia, os noivos entraram no seu quarto para descansar, encontraram sobre a mesa uma caixa de veludo vermelho, contendo um relojio de oiro para homem e outro igual, mas em ponto pequeno, para senhora. Junto da caixa estava um bilhete que dizia:

«A Fada Loira, sabendo que o tempo dos felizes vôa, oferece aos seus queridos amigos este meio de o contarem, para não aprenderem a faltar ás suas obrigações.»

Os dois olharam-se embasbacados. O cura, espreitando por uma frincha da porta, ria a bom rir.

― ¿E agora que dizes a isto? perguntava Guilherme, mais convencido do que nunca, de que fora o campeão da Pátria.

― Digo que, se tivesse alguma dúvida no espírito, ela cairia por terra em frente desta demonstração dum poder sobrenatural.

― ¿E não seria obra de teu pai ou do senhor cura?

― ¡Vai-te daí com o disparate! ¿Então êles não nos tinham já dado as suas prendas? ¿Iam gastar dinheiro noutras?

Êstes argumentos pareceram irrespondiveis a Guilherme, que viveu sempre convencido de ter desempenhado na história da Pátria um grande papel.

Tanto êle como Florinda viveram ainda muito tempo. Quando já eram vélhinhos e tinham muitos netos, sentavam-nos em volta de si á lareira nos grandes serões de inverno. As mulheres fiavam, os homens fumavam cachimbo, e as crianças, com os cotovelos O cura a espreitar por uma frincha da porta.
... espreitando por uma frincha... (Pag. 117)
apoiados nos joelhos e o rostinho descansado nas mãos, ouviam maravilhados os grandes feitos que o velho avô julgava ter praticado, e toda a família acreditava como se fôsse um Evangelho.

Pergunta-me um dos leitores qual é a minha opinião.

― Meu caro menino, eu não acredito em fadas. O pobre pequeno, que o cura tornára um sábio para o tempo, entretinha-se lendo história na bem provida biblioteca do presbitério e, impressionado talvez pelas nobres figuras de Joana d'Arc, do nosso condestável e de outros, teve um longo sonho que de tal forma o impressionou...

― ¿Mas a parecença da rapariga com a Fada Loira?

― Acaso, ou fôrça de imaginação.

― ¿E o presente da fada no dia do noivado?

― Brincadeira do velho cura que era folgazão e gostava de rir. Já vos afirmei e repito: não acredito em fadas, mas acredito em sonhos e, quando, como êste, não são maus, acho agradável sonhar. E tanto que coligi os «Sonhos dum garoto,» em que não ha fadas, mas maldades.

 
Fim

Resultados d'um ataque de riso
 

 

D. Leonor Maldonado era uma senhora virtuosa e bôa, mas cheia da mais estulta e desmedida vaidade que se tem visto em mulher.

A sua grande ambição era ser considerada uma artista notável: para isso daria de bom gosto a sua imensa fortuna, e até saúde e vida, se fosse possivel. Mas, não sei se feliz se infelizmente, êsse desejo estava fóra do número das cousas em que a Providência lhe prometia éxito. Contudo ela não desanimava. Sentava-se junto da harpa, que tocava pèssimamente e erguendo com presunção a desafinadíssima voz, parecia-lhe que era uma cantora, senão magnífica, pelo menos muito apreciável.

Em vão a professora lhe dizia:

― Senhora D. Leonor, eu tenho escrúpulo de receber o dinheiro das lições que lhe dou. V. Ex.a não tem vocação para a musica; seria melhor tentar outra cousa... talvez a pintura...

― Engana-se redondamente D. Eduarda. Eu estou fazendo progressos rápidos que causam até a minha própria admiração. Não duvide de que eu sou uma discípula, que hei de honrar, ilustrando-o, o nome da minha professora.

Um dia, estava D. Leonor tocando e cantando ao desafio de qual das cousas faria pior, quando abrindo-se a porta, apareceu no limiar a figura elegante dum dos seus jovens criados envergando a libré com as côres da sua casa. Curvando-se numa mesura graciosa, anunciou:

― ¿O senhor barão da Rocha pergunta se V. Ex.a o pode receber?

Enfadada, D. Leonor volveu ao criado:

― ¿Então você não sabe que não é hoje dia de recepção?

― Sei, sim, minha senhora, mas o senhor barão instou por tal modo...

― Bem, bem, mande-o entrar. Não vá depois dizer que eu sou uma criatura descortez. Mas não torne a vir trazer recados d'essa ordem quando eu estiver estudando.

E tornando a voltar-se para a professora, ajuntou:

― Quando me fazem interromper a lição, fico furiosa.

O barão era uma criatura, no génio muito semelhante a D. Leonor, de quem era ainda primo; sómente êle voltava-se para a poesia e fazia péssimos versos, emquanto D. Leonor se comprazia com a sua detestavel música. D. Leonor a tocar harpa enquanto D. Eduarda a observa.
Sentava-se junto da harpa... (Pag. 121)
― ¿Por aqui, primo Eugenio? Fazia-o a esta hora no escritorio da C.a de Moagens.

― E devia estar. Mas, que quer? Quando se nasceu com queda para a poesia, quando acima de tudo se põe a inspiração, não se pode, como uma criatura vulgar, estar preso, das tantas ás tantas, com qualquer trabalho de administração. Hoje, li no jornal Um criado faz uma leve vénia.
... um dos seus jovens craidos (Pag. 122)
a canonisação do Santo Condestavel e comovi-me até ás lagrimas. E' um santo bem português, bem grande, e bem nosso. Cheio da mais viva admiração pela nobreza do seu vulto em todas as idades da vida, senti a imaginação arrebatar-se-me e, alheado de tudo num verdadeiro êxtase dalma, compuz esta tocante evocação. Oiça.

Não reproduzo a brilhante composição do barão da Rocha para que ela não cause aos olhos dos meus leitores a mesma desagradavel impressão que aos ouvidos da pobre D. Eduarda causavam a harpa e voz de D. Leonor. Esta, cuja inteligência não ia mais longe que a do primo, escutou-o enlevada, disse-lhe que se orgulhava de contar entre os membros da sua família um poeta tão notável, e, sorrindo para D. Eduarda, perguntou num tom que convidava ao elogio:

― ¿Que lhe parece, D. Eduarda?

Com modo simples, mas muito eloquente a professora afirmou:

― As poesias deste senhor valem a sua musica, minha senhora.

Muito lisongeados ambos, agradeceram.

D. Leonor fez pagar ao primo a condescendência de o ter ouvido recitar, e cantou, com muitas boquinhas e requebros, a modinha que aprendera no Minho quando estivera a banhos em Áncora:

 

¿Como hei de viver sem ti,
O' alma da minha vida?!
Se vais tão longe d'aqui
Como hei de viver sem ti?

Qual flôr na haste pendida
Que o vento norte queimou,
Eu ficarei ressequida
Qual flôr na haste pendida.

Parado o meu coração.
Sob a terra humida e fria,
Tornou-se extincto vulcão,
Parado o meu coração.

 

Estes versos da cantiga que a D. Leonor aprendera em Ancora eram muito tristes e a melopeia tambem; mas a voz dela, os esgares e gestos exageradamente dramaticos que fazia davam á sua pessoa um ar tão ridiculo, que D. Eduarda não pôde mais conservar-se séria. Desatou a rir com tal vontade, que a cantora e o seu primo barão olharam-na com espanto sem perceber a causa daquele ataque de hilaridade. E quanto mais êles pasmavam, mais ela ria.

Emfim tudo tem um termo. Ao espanto de D. Leonor sucedeu uma grande indignação. Foi com as faces tintas do mais vivo rubor que, logo que o ataque de riso terminou, ela perguntou á professora:

― ¿E' de mim, que se riu com tanto gosto?

― Não, minha senhora.

― ¿Então de quem?

― De mim.

Desconfiada, D. Leonor intimou:

― Peço-lhe que se explique.

― ¿E não se escandalisa com a minha franqueza?

Reciosa, mas não querendo mostrar que o estava, D. Leonor afirmou:

― De modo algum.

Então a professora confessou:

― Vendo V. Ex.as tão iguais, na inteligência e faculdades artisticas, pensei que deviam casar: é um par muito igual.

― Não vejo nessa idea motivo para riso, afirmou o barão vendo que D. Leonor ficára confusa e sem saber que responder.

― E' que eu, desgostosa ha muito da minha profissão, procurava sempre, sem o conseguir, um modo de vida, embora pouco rendoso, que me permitisse viver na minha casa sem ter de andar a subir e descer escadas. Achei-o agora por acaso.

― ¿E é?

― Sêr romancista.

― Não vejo nessa idea, motivo para riso, insistiu o barão.

― ¿Então V. Ex.as não acham uma prova de toleima enorme achar num segundo, sem pensar, aquilo que tantos anos se levou a procurar?

― E' extranho, é, mas não me causa riso.

D. Eduarda insistiu:

― Eu pensava: talvez d'aqui a uns anos nós sejamos tres personagens célebres... talvez. A ideia de ser uma mulher notavel pareceu-me tão cómica!

Os dois primos e a professora desataram a rir, mas o que tinha realmente graça é que êles riam dela e ela ria deles.

E' assim o mundo; ninguem vê o ridiculo em si próprio, mas nota-o e celebra-o nos outros com prazer.

Com a ideia que tivera, D. Eduarda desculpou-se para não continuar a dar lições á sua pouco inteligente discípula. Mas tres mezes depois recebia em casa um convite para ir assistir ao casamento de D. Leonor Maldonado com seu primo barão da Rocha.

A professora não faltou. Encontrou-se nas salas de D. Leonor com todas as elegantes de Lisboa e foi apresentada ás amigas da sua antiga discipula como uma escriptora muito distincta que faria brevemente a sua estreia.

Quando o casamento terminou e os noivos apertaram pela ultima vez naquele dia a mão dos seus amigos, D. Leonor abraçou a sua professora com transporte, exclamando:

― E' a V. Ex.a, minha querida amiga, que devo a felicidade; se não fosse a sua franqueza passariamos ambos, meu marido e eu, junto da felicidade sem a vermos.

 
Fim