A Falência/XV

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A Falência por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo XV


Crianças, venham lanchar! gritava Nina para o jardim, às gêmeas, quando viu entrar a Terezinha Braga.

— Você chegou a boa hora, Terezinha, nós vamos tomar café. Entre.

— Estou com muita pressa; quero ver se vocês me emprestam o último figurino.

— Mas nós não temos disso. Tia Mila manda fazer tudo fora...

— Manda a Noca pedir ali à casa do Dr. Nuno!

Nina vacilava, com vontade de servir a amiga; mas a mulata, que ouvira tudo da janela da copa, interveio com ar peremptório:

— Seu Teodoro não quer que se peça nada à vizinhança.

— Ele não precisa saber... insistiu a Terezinha, ainda no jardim.

— Oh, xente! Por que é que a senhora não manda pedir os figurinos em seu nome?

— Porque estamos mal com o Dr. Nuno... ora, você bem sabe!

— Eu não. Eu só sei que temos ordem de não incomodar a vizinhança. Seu Teodoro não é para brincadeiras; quando põe a boca no mundo vai tudo raso! Crianças! olhe só onde elas estão!

— Vai buscá-las, Noca, que o café arrefece. Entra, Terezinha, talvez se possa arranjar alguma coisa...

— Esta D. Nina, não tem emenda! murmurou por entre dentes a mulata.

Servindo o café, Nina explicou à Terezinha:

— A baronesa da Lage está lá dentro; eu vou pedir-lhe que me mande logo os seus figurinos.

— É para o meu vestido de baile.

— Você mesmo é que o vai fazer?

— Que remédio! Sabe de que cor são os das Gomes?

— Não...

— Amarelos! A Carlotinha pediu à modista que lhe decotasse bem o vestido atrás, para mostrar o sinal preto da espádua... é levada, a Carlotinha! Ninguém dirá, às vezes, que é uma moça de família; parece outra coisa...

— Está muito bonita, agora, depois que engordou.

— Mas cada vez mais maliciosa...

Nina não respondeu; mandava o copeiro servir o café à sala. Lia e Rachel entraram arrastadas pela Noca, tentando morder-lhe as mãos, muito pirracentas.

— Já viram só estas meninas como estão! Bem, D. Nina! dê todos os sonhos a Ruth.

Nina elevou, sorrindo, o prato de sonhos em direção a Ruth, que se balançava em silencio numa cadeira, e então as crianças avançaram para a mesa, à espera do café.

— Ora graças!

Engulido o café, Terezinha declarou:

— Tenho muito que fazer; adeus, vou-me embora!

As gêmeas fugiram também, com as mãos cheias de sonhos, para o jardim; Nina e Ruth ficaram sós, muito caladas, ouvindo as moscas voejar sobre os restos açucarados dos pratos.

De repente, Nina:

— Em que é que você está pensando, Ruth?

— Na Sancha.

— Que idéia!

— É que ninguém sabe! fui eu que disse à Sancha que fugisse. Tive tanta pena dela! Tia Itelvina é má: batia na negrinha com vara. Eu vi. A Sancha nem parecia gente; suja, desconfiada... que estúpida! Não sei como ela podia agüentar aquela vida. Fui eu que lhe disse que fugisse; e depois que ela fugiu, tenho medo que morra por aí à toa, que não ache emprego, que se embebede ou fique embaixo de um bonde... Até sonho com a Sancha. Que coisa horrível!

Nina consolou-a. A Noca já lhe contara que a pretinha quisera envenenar-se; era menos burra do que parecia.

— Você é muito nervosa; deixe lá a Sancha, pense em outra coisa. Tia Mila ainda está no terraço com a baronesa da Lage... vamos lá?

— Para quê?

— Para falar nos figurinos... Eu ando um pouco desconfiada com tantas visitas daquela senhora... você tem reparado como ela cochicha com Mário?

— Não...

— Pois repare... A lesma da Paquita tem bom advogado!

— Mário não gosta dela.

— Quem disse?

— Ele mesmo, bem alto, outro dia na mesa. Você não ouviu?

— Ouvi...

— Então?

— Então? Quem sabe o que estará para acontecer!

Nessa tarde Camila participava em segredo ao marido que a baronesa da Lage viera declarar-lhe o amor da irmã por Mário, e lembrar-lhe que o baile seria uma bela ocasião para a apresentação dos noivos.

O negociante olhou boquiaberto para a mulher.

Ela disse:

— Eles desejam abreviar essa história, porque o velho quer ir para a Europa.

— Mas é incrível!

— Por que?

— Porque! porque o Meireles é um homem prático; não há de querer entregar a filha a um rapaz sem profissão! Isso não pode ser. A Lage está doida.

— Você é injusto... Mário não tem profissão, mas pode vir a tê-la.

— Lá vêm cantigas! Pois sim! Aqui para nós: o rapaz não vale nada. Quem não trabalha, que garantia pode dar à família?

— Ele é rico, e a Paquita ainda o é mais...

— Por esse lado aprovo. O dote dela é bom, e a família excelente. Se o Mário soubesse ser o que sempre desejei, pouco me importaria que se casasse com mulher pobre. São as melhores; trazem a experiência da vida. A experiência da vida é um grande dote.

— Você fala com Mário?

— Eu?! eu não. não concorrerei com o meu conselho para semelhante asneira. Arranjem-se. Que diabo! ele ainda não tem vinte anos. Fala-lhe tu... se quiseres.

Francisco Teodoro passeava pelo quarto, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar as chaves.

— A Lage disse-me também que você entrou em uma grande negociata com o Inocêncio...

— Como soube ela disso?!

— Não sei... Diz que a sua casa vai ser uma das mais fortes ai...

— Tenho medo...

— Hein?

— Não é nada; está feito. Pois senhores, parece incrível, eles querem mesmo o casamento?

— Então? Logo que Mário queira, será coisa para uns quinze dias. O Meireles deseja levar os noivos consigo. Bem pensado, Paquita teve bom gosto.

— Muito fresco! Olha: eu lavo dai as minhas mãos.

— Logo vi... Mário já deve ter chegado; eu vou falar com ele. Por enquanto é bom não dizer nada a ninguém.

— A quem o dizes...

Teodoro ficou só no quarto, mudando de casaco e de calçado, vagarosamente, com sentido no negócio que o preocupava.

Como diabo teria a Lage sabido daquele negócio com o Braga?

Abriu a janela e encostou-se.

De baixo, da sala de jantar e da cozinha subiam o cheiro de gorduras e a música da cristalaria e da prata movidas pelo copeiro.

No grande lago do parque, de águas renovadas, patos gordos desprezavam as migalhas de pio que a Rachel e a Lia, deitadas de bruços na relva sobre os bordados bem engomados dos vestidos, lhes atiravam às mancheias. Sob a jaqueira enorme, carregada de frutas grandes como ubres túmidos, o cão de guarda preso à corrente, devorava uma enorme posta de carne em um alguidar. Todas as plantas, bem tratadas, rebentavam em grelos viçosos ou se expandiam em flores, e pela rua de palmeiras, que ia ter à horta, o jardineiro vinha carregado com uma cesta de frutas e frescos pés de alface.

A terra suava de farta; não lhe faltava nem o adubo que lhe dá força, nem o ornamento que lhe dá graça. Afigurou-se então a Teodoro, com clareza, que a vida é uma coisa bem boa para quem vence e faz cair sobre o terreno que o circunda a chuva de ouro fecundante.

No seu orgulho de homem saído do nada, aquele gozo material da riqueza enchia-lhe a alma de uma espécie de heroísmo.

Era como se ele tivesse feito tudo, desde as pedras dos fundos alicerces do seu palácio até as mais esquisitas frutas do seu pomar e as mais divinas flores das suas roseiras. Semente germinada à custa do seu dinheiro, era obra sua, envaidecia-o, como se a suprema perfeição da planta lhe tivesse saído de entre os dedos poderosos.

Em todo esse sentimento de conquista havia a bondosa ingenuidade de ter sabido criar para os seus uma felicidade perfeita.

Nunca os filhos saberiam o que era uma infância como fora a sua, desagalhada, errante; nunca a mulher saberia o que era ter um desejo sem esperança de satisfação, e a todos envolveria sempre o luxo, a abundância e a alegria.

As copas das palmeiras desenhavam-se em fila na atmosfera límpida.

Uns passos rangendo na areia chamaram-lhe a atenção para baixo da janela: Camila e Mário saíam de casa para o jardim. Ela, alta, bem desenhada no seu vestido claro, andava de vagar: ele, com o peito florido por um fresco bouquet de miosótis, as mios nos bolsos, parecia ouvir a mãe com atenção a que não era afeito.

Seguiram ambos para o jardim da frente e deram volta à casa; quando os perdeu de vista, Francisco Teodoro desceu à sala de jantar. A mesa estava pronta; Nina, com o seu aventalzinho bordado sobre um vestido escuro, dava uns retoques à fruteira.

— O dr. Gervásio almoçou cá? perguntou-lhe o tio.

— Como sempre.

— Virá jantar?

— Creio que não...

— É o diacho... eu precisava falar-lhe!

— O seu empregado está pior?

— Parece-me que sim... coitado...

Nina suspirou, e da fruteira passou às flores da jarra, pensando no velho Mota, que mal conhecia, entretanto. Depois de uma pausa:

— Quer que eu mande tocar a sineta?

— É bom esperar um pouco; tua tia está em conferência com o Mário. De maneira que o Gervásio não voltará hoje por aqui?

Nina não respondeu, o coração batia-lhe com força. A idéia da Lage deu-lhe o pressentimento da verdade. Seria certo, Deus do céu que Mário se casaria com a outra? Conferência com ele... para quê?

Francisco Teodoro recostara-se em uma cadeira do terraço, lendo um jornal da tarde a que pouca atenção prestava. O que estaria a mulher a dizer ao filho? Julgava do seu dever não intervir naquela criançada; se o fizesse, seria para despersuadir a moça de tal casamento: conhecia a frivolidade do filho; o que o espantava era o consentimento do intransigente Meireles: só explicava aquilo por caduquice; miolo mole. - O homem ensandeceu! Ora, ora! dar a filha ao Mário! - resmungava ele de vez em quando, com estupefação, como se fizesse um comentário ao artigo acabado de ler.

Nina, que se agitava de um lado para o outro, indo de armário a armário, de janela a janela, veio para o terraço e encostou-se à balaustrada, muito abatida. De seus olhos pardos saía uma luz branca, onde relampejavam fulgores frios.

Vira de relance a tia e o primo embaixo dos tamarineiros, e fugira depressa da janela da copa para o terraço, com medo de perceber-lhes nos gestos a expressão exata das palavras que diziam. Adivinhava a verdade, mas temia ouvi-la, porque essa verdade não a magoaria só, ofende-la-ia também. Era como que um ultraje à sua mocidade outoniça, à sua pobreza e à sua fé no amor. Sentia-se predestinada a ser na vida uma espectadora da ventura alheia, e uma revolta de sentimentos dava-lhe desejos maus.

A tia, contra o dever, não amava, não era amada, não sacrificava tudo pelo perfume de uma palavra amorosa, pela loucura divina de um beijo? Aquele livro de paixão, tão imprudentemente aberto diante dos seus olhos, não a fizeram por tantas vezes estremecer de inveja e sonhar com as delícias do amor?

Até ai respeitara aquela paixão, sentia-a sincera, fazia-se cega, apiedada daquelas almas felizes. Agora tinha ímpetos de se vingar, de arrancar das mãos do tio o jornal, de gritar-lhe com toda a força a história daqueles amores que a humilhavam, porque entre ela e a tia, não era a outra, casada e mie, mas sim ela, órfã e virgem, quem tinha direito àquela felicidade de amar e de ser amada...

Duas borboletas brancas passaram rente a ela, perseguindo-se.

Nina fechou os olhos, mas a visão da felicidade alheia lá estava dentro. Qual seria o interesse da tia em casar o Mário?

Lia e Rachel interromperam-na; vinham nas bicicletas a toda a força, reclamando o jantar aos brados. O Pai sorriu, achando-as lindas, assim rosadas, com os cabelos ao vento.

Elas, já combinadas, atiraram-se para ele, turbulentamente, pedindo-lhe ao mesmo tempo as mesmas coisas. Queriam um carrinho de verdade, puxado a poneys com o cocheiro vestido de azul.

Nina aproveitou para mandar servir o jantar, morta por interromper a conferência da tia.

E quando Camila e Mário entraram na sala ninguém lhes soube ler nas fisionomias uma sombra sequer da verdade: falavam ambos do baile, como se de outra coisa não tivessem tratado.

Foi só à noite que Mila disse no quarto ao marido:

— O Mário aceita o casamento. Assim como assim, ele não tem mesmo gosto para ocomércio...