A Falência/XXI

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A Falência por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo XXI


A morte de Francisco Teodoro fez sensação.

Amigos e conhecidos acudiram pressurosos à casa da família.

Negreiros levou a carteira cheia, pensando em fazer o enterro; a baronesa da Lage ofereceu-se para educar as gêmeas. Chamado de madrugada pelo jardineiro, dr. Gervásio determinara tudo: o enterro seria conforme disposições do finado, a expensas da sua Irmandade.

Toda a família soluçava à roda do cadáver. Camila tinha no olhar uma fixidez de loucura. A cena da morte reproduzia-se diante dela, como se uma infinita sucessão de espelhos a refletisse consecutivamente.

Culpava-se de ter chegado tarde. Esperara o marido em cima por mais de duas horas, cuidosa, com medo que ele fizesse uma loucura, morta por encostar-lhe a cabeça aturdida ao seu peito de mulher enternecida, sentindo que o amava na sua dor, mais do que o tinha amado na felicidade. Entretanto, porque só obedecera ao desejo de o ver e só viera procurá-lo no momento justo e inevitável da morte? Se ela tivesse adivinhado? Por que não tinha ela obedecido logo ao primeiro impulso de suspeita?

O descuido do pressentimento é uma falta que a consciência não perdoa. Sentia-o; revolvia-se em um grande remorso. Oh, se tivesse descido uma hora antes! Um minuto antes!

E agora, como caminharia na vida sem aquele companheiro de tantos anos? Que fariam todos ali sem ele?

Seus olhos eram duas nascentes de agonia, choravam sem cessar.

No meio de tanta gente, só o dr. Gervásio a compreendia. Os outros mal acreditavam na sua sinceridade.

As maiores condolências voltavam-se para os filhos, e só por etiqueta e dever de aparência cumprimentavam a viúva.

As Bragas tinham sido as primeiras, como vizinhas, a invadir a casa, e tomaram conta dela, afetando grandes intimidades, dispondo, ordenando, mostrando aos estranhos a sua interferência.

D. Inácia Gomes foi também, muito chorosa, pelo braço do seu velho. Repetia a todos que a Judith ficara em casa com ataques; Carlotinha também tivera uma síncope. Eram muito amigas... Pudera não!

Era só gente e mais gente a entrar e a sair, pessoas curiosas da vizinhança, que aproveitavam o ensejo para varar os jardins daquela casa de luxo, onde nunca tinham entrado; ondas negras de povo, cruzando-se nas portas, escoando-se pelos corredores, num sussurro de passos e de vozes abafadas...

D. Joana conseguira, pelos seus merecimentos, um padre para a encomendação do suicida. Com o rosário nas mãos trêmulas, os olhos inundados, ela não saia de ao pé do cadáver, defendendo-o do inferno na fé ardente e pura da sua prece.

Quem lhe diria! um homem tão temente a Deus.. tão digno do Paraíso!

E toda se debulhava em prantos por aquela alma perdida.

Por seu lado, sentada num canto, com as grandes mãos pousadas na seda russa do seu vestido preto, d. Itelvina considerava na fragilidade humana. Por que morrera aquele homem? Por não ter sabido guardar.

O instinto da vida é o egoísmo. Julgara-o mais precavido e mais forte; afinal era um bobo. Se tivesse o seu dinheiro aferrolhado, acontecer-lhe-ia aquilo? não. Morreria de velho, deixando testamento.

Sempre pensara que ele havia de deixar testamento; seria então uma cerimônia completa e bonita, bem certo é que o dinheiro dá prestígio a tudo.

Empobrecer... suicidar-se, quem diria? um português, um homem conservador e acostumado ao trabalho! Ainda o maior crime não estava em suicidar-se, estava em empobrecer, em deixar a família na miséria.

Na sociedade há só uma coisa ridícula: a pobreza. Vejam se os jornais inscrevem o nome dos miseráveis que vão para a vala.

Pois sim! Dizem que o dinheiro não vale nada, mas só dão notícia dos mendigos que deixam moedas de ouro entre as palhas podres do colchão...

D. Itelvina relanceou os olhos pela sala e considerou-lhe o luxo, com asco. A seu lado caíam as dobras fartas de um reposteiro de veludo lavrado; ela apalpou-o, sentindo com um arrepio o pelo do cetim do forro agarrar-se-lhe à pele áspera dos dedos.

— Foi por estas e por outras! murmurou ela de si para si.

Que fará agora esta gente toda? Talvez conte comigo...

Ah, mas eu não posso... eu não posso. Que trabalhem ! para isso Deus lhes deu cinco dedos em cada mão.

No meio dessas considerações acudia-lhe de vez em quando à lembrança o que estaria fazendo em casa a criada... não fosse ela dar entrada a alguém!

Ruth soluçou alto; d. Itelvina não se mexeu, mas disse consigo:

— Coitadinha...

E consigo ficou no canto da sala, recebendo em cheio a onda dos soluços, que ora decrescia pelo extenuamento, ora redobrava pela violência da comoção. O cheiro da cera, a chama trêmula das tochas, faziam-lhe mal à cabeça. Desculpou-se com isso, de não ajudar ninguém; parecia-lhe que a hora do enterro tardava; mas devia chegar, e enfim chegou.

Paravam carros à porta, a sala encheu-se de gente. O Lemos e o Negreiros choravam. Cresceu o sussurro de vozes e de passos, era preciso fechar o caixão. Ruth desmaiou; as gêmeas bradaram pelo pai. Nina acudiu a todos, com os olhos em sangue, e Camila, tirando o lenço da face do morto, beijou-o três vezes.

De volta do cemitério, dr. Gervásio entrou no palacete Teodoro. O gás da sala de jantar estava em lamparina, ele mal distinguiu uns vultos a um canto; aproximou-se. Era Camila sentada no divã, entre as gêmeas adormecidas. Ela, muito pálida. com uma brancura que saía do negror das roupas num polimento de mármore, interrogou-o com o olhar.

Calado, o médico entregou-lhe a chave do esquife. Evitaram o contato das mãos: ela encolheu-se, ele recuou e foi sentar-se ao pé da mesa.

Era a primeira vez que se repeliam. Mila sentia na palma da mão a friagem daquela chave pequenina e pesada sem saber onde guardá-la, com medo de a por no seio, achando irreverente guardá-la no bolso.

Gervásio considerava na dolorosa delicadeza daquela situação, que o obrigara a ele a trazer do cemitério a chave da prisão perpétua do outro. Apoquentou-o a idéia de o terem escolhido por ironia, e, olhando para a Mila, pareceu-lhe que nunca mais poderia beijar sem arrepios aquela boca, que tão repetidos beijos dera num cadáver...

A única voz na sala era a do relógio; mal se ouvia a respiração das crianças bem acomodadas.

Gervásio quis falar, dar alguns conselhos a Camila; sabia-a muito inexperiente, mas conteve-se, sem atinar como tratá-la. A língua negava-lhe o tu, a que seu amor o acostumara. Ela suspirava baixinho, de queixo caído para o peito.

Uns passos e um roçar de saias pela escada fizeram-na voltar a cabeça. Era a Noca. Vinha buscar as meninas. Tomou Lia nos braços.

— Como está Ruth? perguntou Mila.

— Tá com febre... D. Nina ficou perto dela... Camila voltou-se para o médico:

— Vá vê-la... sim?

Ele fez um gesto de assentimento e acompanhou a mulata.