A Geada do Estudante

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A Geada do Estudante
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


(Do "Bah Nahmed")

Era uma vez, na cidade de Tchinfanfu, circunspecção do Kuetcheu, havia um estudante chamado Ting-lih-Tchung. Como a sua vida era consumida da leitura dos grandes livros da Sabedoria, não tinha para o servir senão uma criada.

Certo dia, na ocasião em que a rapariga trazia vinho ao seu senhor, dirigiu-lhe, este, uma pilhéria. A criada, que era muito tímida, ficou toda vermelha, e, na sua atrapalhação, respondeu-lhe com uma inconveniência.

— Que é isto? — gritou-lhe o estudante. — Como é que te permites dizer tais coisas na minha presença? Vais ser castigada pelo teu desaforo!

E, apanhando de um feixe de varas que estava junto à parede, marcha para a desgraçada, levanta-lhe a saia, baixa-lhe a calça, e vai começar a vergastá-la, quando, à vista daquela carne moça e sensível, se compadece, de rrepente. Durante um momento, olha, examina a beleza daquele corpo, sujeito a castigo tão infamante. E, encostando o feixe de varas ao muro, acaricia-a, anima-a e , ao e, ao fim, manda-a embora.

— Agora, cai! — diz-lhe.

No dia seguinte, estava o estudante no seu gabinete, a meditar sobre os livros da Sabedoria, quando a tímida Tengchi lhe bateu à porta.

— Que é, ainda? — indagou, irritado, Ting-lih-Tchung. — Eu não te havia recomendado que ninguém me perturbasse no meu estudo?

— Ah, meu mandarim, sou eu! — exclamou a rapariga, entrando.

—E que desejas?

Tengchi baixa a cabeça e soluça:

— Eu pratiquei outra inconveniência, meu senhor; e vim aqui para ser castigada outra vez...