A Ilustre Casa de Ramires/X

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A Ilustre Casa de Ramires por Eça de Queirós
Capítulo X


Até noite alta Gonçalo, passeando pelo quarto, remoeu a amarga certeza de que sempre, através de toda a sua vida (quase desde o colégio de S. Fiel!), não cessara de padecer humilhações. E todas lhe resultavam de intentos muito simples, tão seguros para qualquer homem como o vôo para qualquer ave - só para ele constantemente rematados por dor, vergonha ou perda! A entrada da vida escolhe com entusiasmo um confidente, um irmão, que traz para a quieta intimidade da Torre - e logo esse homem se apodera ligeiramente do coração de Gracinha e ultrajosamente a abandona! Depois concebe o desejo tão corrente de penetrar na Vida Política - e logo o Acaso o força a que se renda e se acolha à influência desse mesmo homem, agora Autoridade poderosa, por ele durante todos esses anos de despeito tão detestada e chasqueada! Depois abre ao amigo, agora restabelecido na sua convivência, a porta dos Cunhais, confiado na seriedade, no rígido orgulho da irmã - e logo a irmã se abandona ao antigo enganador, sem luta, na primeira tarde em que se encontra com ele na sombra favorável dum caramanchão! Agora pensa em casar com uma mulher que lhe oferecia com uma grande beleza uma grande fortuna - e imediatamente um companheiro de Vila-Clara passa e segreda: - "A mulher que escolheste, Gonçalinho, é uma marafona cheia de amantes!" Decerto essa mulher não a amava com um amor nobre e forte! Mas decidira acomodar nos formosos braços dela, muito confortavelmente, a sua sorte insegura - e eis que logo desaba, com esmagadora pontualidade, a humilhação costumada. Realmente o Destino malhava sobre ele com rancor desmedido!

— E por quê? - murmurava Gonçalo, despindo melancolicamente o casaco. - Em vida tão curta, tanta decepção... Por quê? Pobre de mim!

Caiu no vasto leito como numa sepultura - enterrou a face no travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por aquela sua sorte tão contrariada, tão sem socorro. E recordava o presunçoso verso do Videirinha, ainda nessa noite proclamado ao violão:

Velha Casa de Ramires
Honra e flor de Portugal!

Como a flor murchara! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa Irenéia, com esses grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha - todos eles, se História e Lenda não mentiam, de vidas tão triunfais e sonoras! Não! nem sequer deles herdara a qualidade por todos herdada através dos tempos - a valentia fácil. Seu pai ainda fora o bom Ramires destemido - que na falada desordem da romaria da Riosa avançava com um guarda-sol contra três clavinas engatilhadas. Mas ele... Ali, no segredo do quarto apagado, bem o podia livremente gemer - ele nascera com a falha, a falha de pior desdouro, essa irremediável fraqueza da carne que, irremediavelmente, diante de um perigo, uma ameaça, uma sombra, o forçava a recuar, a fugir... A fugir de um Casco. A fugir dum malandro de suíças louras que, numa estrada e depois numa venda, o insulta sem motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho. Ah vergonhosa carne, tão espantadiça!

E a Alma... Nessa calada treva do quarto bem o podia reconhecer também, gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o abandonava a qualquer influência, logo por ela levado como folha seca por qualquer sopro. Porque a prima Maria uma tarde adoça os espertos olhos e lhe aconselha por trás do leque que se interesse pela D. Ana - logo ele, fumegando de esperança, ergue sobre o dinheiro e a beleza de D. Ana uma presunçosa torre de ventura e luxo. E a Eleição? essa desgraçada Eleição? Quem o empurrara para a Eleição, e para a reconciliação indecente com o Cavaleiro, e para os desgostos daí emanados? O Gouveia, só com leves argúcias, murmuradas por cima do cache-nez desde a loja do Ramos até a esquina do Correio! Mas quê! mesmo dentro da sua Torre era governado pelo Bento, que superiormente lhe impunha gostos, dietas, passeios, e opiniões e gravatas! - Homem de tal natureza, por mais bem dotado na Inteligência, é massa inerte a que o Mundo constantemente imprime formas várias e contrárias. O João Gouveia fizera dele um candidato servil. O Manuel Duarte poderia fazer dele um beberrão imundo. O Bento facilmente o levaria a atar ao pescoço, em vez duma gravata de seda, uma coleira de couro! Que miséria! E todavia o Homem só vale pela Vontade - só no exercício da Vontade reside o gozo da Vida. Porque se a Vontade bem exercida encontra em torno submissão - então é a delícia do domínio sereno; se encontra em torno resistênciam - então é a delícia maior da luta interessante. Só não sai gozo forte e viril da inércia que se deixa arrastar mudamente, num silêncio e macieza de cera... Mas ele, ele, descendendo de tantos varões famosos pelo Querer - não conservaria, escondida algures no seu Ser, dormente e quente como uma brasa sob cinza, uma parcela dessa energia hereditária?... Talvez! nunca porém nesse peco e encafuado viver de Santa Irenéia a fagulha despertaria, ressaltaria em chama intensa e útil. Não! pobre dele! Mesmo nos movimentos da Alma onde todo o homem realiza a liberdade pura - ele sofreria sempre a opressão da Sorte inimiga!

Com outro suspiro mais se enterrou, se escondeu sob a roupa. Não adormecia, a noite findava - já o relógio de charão, no corredor, batera cavamente as quatro horas. E então, através das pálpebras cerradas, no confuso cansaço de tantas tristezas revolvidas, Gonçalo percebeu, através da treva do quarto, destacando palidamente da treva, faces lentas que passavam...

Eram faces muito antigas, com desusadas barbas ancestrais, com cicatrizes de ferozes ferros, umas ainda flamejando como no fragor de uma batalha, outras sorrindo majestosamente como na pompa duma gala - todas dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer. E Gonçalo, espreitando por sobre a borda do lençol, reconhecia nessas faces as verídicas feições de velhos Ramires, ou já assim contempladas em denegridos retratos, ou por ele assim concebidas, como concebera as de Tructesindo, em concordância com a rijeza e esplendor dos seus feitos.

Vagarosas, mais vivas, elas cresciam dentre a sombra que latejava espessa e como povoada. E agora os corpos emergiam também, robustíssimos corpos cobertos de saios de malha ferrugenta, apertados por arneses de aço lampejante, embuçados e fuscos mantos de revoltas pregas, cingidos por faustosos gibões de brocado onde cintilavam as pedrarias de colares e cintos - e armados todos, com as armas todas da História, desde a dava goda de raiz de roble eriçada de puas até o espadim de sarau enlaçarotado de seda e ouro.

Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gonçalo não duvidava da realidade maravilhosa! Sim! eram os seus avós Ramires, os seus formidáveis avós históricos, que, das suas tumbas dispersas corriam, se juntavam na velha casa de Santa Irenéia nove vezes secular - e formavam em torno do seu leito, do leito em que ele nascera, como a Assembléia majestosa da sua raça ressurgida. E até mesmo reconhecia alguns dos mais esforçados, que agora, com o repassar constante do Poemeto do tio Duarte e o Videirinha gemendo fielmente o seu "fado", lhe andavam sempre na imaginação...

Aquele além, com o brial branco a que a cruz vermelha enchia o peitoral, era certamente Gutierres Ramires, o d'Ultramar como quando corria da sua tenda para a escalada de Jerusalém. No outro, tão velho e formoso, que estendia o braço, ele adivinhava Egas Ramires, negando acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e à adúltera Leonor! Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão real de Castela, quem, senão Diogo Ramires, o Trovador ainda na alegria da radiosa manhã de Aljubarrota? Diante da incerta claridade do espelho tremiam as fofas plumas escarlates do monão de Paio Ramires, que se armava para salvar S. Luís Rei de França. Levemente balançado, como pelas ondas humildes dum mar vencido, Rui Ramires sorria às naus inglesas que ante aproa da sua Capitânia submissamente amainavam por Portugal. E, encostado ao poste do leito, Paulo Ramires, pajem do Guião de El-Rei nos campos fatais de Alcácer, sem elmo, rota a couraça, inclinava para ele a sua face de donzel, com a doçura grave dum avô enternecido...

Então, por aquela ternura atenta do mais poético dos Ramires, Gonçalo sentiu que a sua Ascendência toda o amava - e da escuridão das tumbas dispersas acudira para o velar e socorrer na sua fraqueza. Com um longo gemido, arrojando a roupa, desafogou, dolorosamente contou aos seus avós ressurgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que sobre a sua vida, sem descanso, amontoava tristeza, vergonha e perda! E eis que subitamente um ferro faiscou na treva, com um abafado brado: - "Neto, doce neto, toma a minha lança nunca partida!" E logo o punho duma clara espada lhe roçou o peito, com outra grave voz que o animava: -"Neto, doce neto, toma a espada pura que lidou em Ourique1 E depois uma acha de coriscante gume bateu no travesseiro, ofertada com altiva certeza: - "Que não derribará essa acha, que derribou as portas de Arzila9

Como sombras levadas num vento transcendente todos os avós formidáveis perpassavam - e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e provadas armas, todas, através de toda a História, enobrecidas nas arrancadas contra a Moirama, nos trabalhados cercos de Castelos e Vilas, nas batalhas formosas com o Castelhano soberbo... Era, em torno do leito, um heróico reluzir e retinir de ferros. E todos soberbamente gritavam: - "Oh neto, toma as nossas armas e vence a Sorte inimiga! Mas Gonçalo, espalhando os olhos tristes pelas sombras ondeantes, volveu: - "Oh avós, de que me servem as vossas armas - se me falta a vossa alma?..."

Acordou muito cedo, com a enredada lembrança dum pesadelo em que falara a mortos - e, sem a preguiça que sempre o amolecia nos colchões, enfiou um roupão, escancarou as vidraças. Que formosa manhã! uma manhã dos fins de setembro, macia, lustrosa e fina; nem uma nuvem lhe desmanchava o vasto, o imaculado azul; e o sol já pousava nos arvoredos, nos outeiros distantes, com uma doçura outonal. Mas, apesar de lhe respirar alentadamente o brilho e a pureza, Gonçalo permaneceu toldado de sombras, das sombras da véspera, retardadas no seu espírito oprimido, como névoas em vale muito fundo. E foi ainda com um suspiro, arrastando tristonhamente as chinelas, que puxou o cordão da campainha. O Bento não tardou com a infusa da água quente para a barba. E acostumado ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquele silencioso e enrugado mover pelo quarto, que desejou saber se o Sr. Doutor passara mal a noite...

— Pessimamente!

Bento declarou logo, com vivacidade e reprovação - que certamente fizera mal ao Sr. Doutor tanto cognac de moscatel. Cognac muito adocicado, muito excitante... Bom para o Sr. D. Antônio, homenzarrão pesado. Mas o Sr. Doutor, assim nervoso, nunca devia tocar naquele cognac. Ou então, meio cálice escasso.

Gonçalo ergueu a cabeça, na surpresa de encontrar logo ao começo do seu dia e tão flagrante aquele domínio que todos sobre ele se arrogavam - e de que tanto se lastimava, através de toda a amarga noite! Eis ai o Bento mandando - marcando a sua ração de cognac! E justamente o Bento insistia:

— O Sr. Doutor bebeu mais de três cálices. Assim não convém... Eu também tive culpa em não tirar a garrafa...

Então, perante despotismo tão declarado, o Fidalgo da Torre teve uma brusca revolta:

— Homem, não dês tantas leis. Bebo o cognac que preciso e que quero!

Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, experimentava a água na infusa:

— Esta água está morna! - exclamou logo. - Já me tenho fartado de dizer! Para a barba, preciso sempre água a ferver.

O Bento, gravemente, mergulhou também o dedo na água:

— Pois esta água está quase a ferver... Nem para a barba se necessita água mais quente.

Gonçalo encarou o Bento com furor. O quê! mais objeções, mais leis!

— Pois vá imediatamente buscar outra água! Quando eu peço água quente, pretendo que venha em cachão. Irra! tanta sentença!... Eu não quero moral, quero obediência!

O Bento considerou Gonçalo através dum espanto que lhe inchara a face. Depois, lentamente, com magoada dignidade, empurrou a porta, levando a infusa. E já Gonçalo se arrependia da sua violência. Coitado, não era culpa do Bento se a vida lhe andava a ele tão estragada e sacudida! Depois, em casa tão antiga, não destoava a tradição dos antigos aios. E o Bento com perfeito rigor lhes reproduzia a rabugice e a lealdade! Mas ascendência, e livre falar bem lhe cabiam - bem os merecia por tão longa, tão provada dedicação...

O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com a infusa fumegante. E Gonçalo logo docemente, para o adoçar:

— Dia muito bonito, bem, Bento?

O velho rosnou, ainda amuado:

— Muito bonito.

Gonçalo ensaboava a face, rapidamente, na impaciência de reatar com o Bento, de lhe restabelecer a supremacia amorável. E por fim mais doce, quase humilde:

— Pois se achas o dia assim bonito, dou um passeio a cavalo antes do almoço. Que te parece? Talvez me faça bem aos nervos... Com efeito, aquele cognac não me convém... Então, Bento, faze o favor, grita aí ao Joaquim que me tenha a égua pronta imediatamente. Com certeza me acalma uma galopada... E no banho agora a água bem esperta, bem quente. Também me acalma a água quente. Por isso necessito sempre água bem quente, a ferver. Mas tu, com essas tuas velhas idéias... Pois todos os médicos o declaram. Para a saúde água quente, bem quente, a sessenta graus!

E depois do rápido banho, enquanto se vestia, abriu mais familiarmente ao velho aio a intimidade das suas tristezas:

— Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente precisava para me calmar, não era um passeio, era uma jornada... Trago a alma muito carregada, homem! Depois estou farto desta eterna Vila-Clara, da eterna Oliveira. Muito mexerico, muita deslealdade. Precisava terra grande, distração grande.

O Bento, já reconciliado, enternecido, lembrou que o Sr. Doutor brevemente, em Lisboa, encontraria uma linda distração, nas Cortes.

— Eu sei lá se vou às Cortes, homem! Não sei nada, tudo falha... Qual Lisboa!... O que eu necessito é uma viagem imensa, à Hungria, à Rússia, a terras onde haja aventuras.

O Bento sorriu superiormente daquela imaginação. E apresentando ao Fidalgo o jaquetão de velvetina cinzenta:

— Com efeito, na Rússia parece que não faltam aventuras. Anda tudo a Chicote, diz o Século... Mas aventuras, Sr. Doutor, até a gente as encontra na estrada... Olhe! o paizinho de V. Exa., que Deus haja, foi lá embaixo diante do portão que teve a bulha com o Dr. Avelino da Riosa, e que lhe atirou a chicotada, e que levou com o punhal no braço...

Gonçalo calçava as luvas de anta, mirando o espelho:

— Pobre papá, coitado, também teve pouca sorte... E por chicote. ó Bento, dá cá àquele chicote de cavalo-marinho que tu ontem areaste. Parece que é uma boa arma.

Ao sair o portão, o Fidalgo da Torre meteu a égua, sem destino, num passo indolente, pela estrada costumada dos Bravais. Mas no Casal Novo, onde dois pequenos jogavam a bola debaixo das carvalheiras, pensou em visitar o Visconde de Rio-Manso. Certamente lhe consertaria os nervos a companhia de tão sereno e generoso velho. E, se ele o convidasse a almoçar, gastaria os seus cuidados visitando essa falada quinta da Varandinha e cortejando "o botão de Rosa".

Gonçalo recordava apenas confusamente que o terraço da Varandinha dominava uma estrada plantada de choupos, algures, entre o lugar da Cerda e a espalhada aldeia de Canta-Pedra. E tomou o caminho velho que desce das carvalheiras do Casal Novo, e penetra no vale, entre o cabeço de Avelã e as ruínas do Mosteiro de Ribadais, no solo histórico onde Lopo de Baião derrotara a mesnada de Lourenço Ramires... Ora enterrada entre valados, ora entre toscos muros de pedra solta, a vereda seguia sem beleza, e cansativa; mas as madressilvas nas sebes, por entre as amoras maduras, rescendiam; o fresco silêncio recebia mais frescura e graça dos frêmitos de asa que o roçavam; e tanto era o radiante azul nos céus serenos que um pouco elo seu rebrilho e serenidade se instilava na alma. Gonçalo, mais desanuviado, não se apressava; na Igreja dos Bravais, quando ele passara ao Casal Novo, batiam apenas as nove horas; e depois de costear um lameiro de erva magra parou a acender pachorrentamente um charuto, rente da velha ponte de pedra que galga o riacho das Donas. Quase seca pela estiagem, a água escura mal corria, sob as folhas largas dos nenúfares, por entre os juncais que a atulhavam. Adiante, à orla dum ervaçal, no abrigo duma moita de álamos, reluziam as pedras dum lavadouro. Na outra margem, dentro dum velho bote encalhado, um rapazito, uma rapariguinha conversavam profundamente, com dois molhos de alfazema esquecidos nos regaços. Gonçalo sorriu do idílio - depois teve uma surpresa descobrindo, no cunhal da ponte, rudemente entalhado, o seu Brasão de Armas, um Açor enorme, que alargava as garras ferozes. Talvez aquelas terras outrora pertencessem à Casa - ou alguns do seus avós benéficos construíra a ponte, sobre torrente então mais funda, para segurança dos homens e dos gados. Quem sabe se o avô Tructesindo, em memória piedosa de Lourenço Ramires, vencido e cativo nas margens daquela ribeira!

O caminho, para além da ponte, alteava entre campos ceifados. As medas lourejavam, pesadas e cheias, por aquele ano de fartura. Ao longe, dos telhados baixos dum lugarejo, vagarosos fumos subiam, logo desfeitos no radiante céu. E lentamente, como aqueles fumos distantes, Gonçalo sentia que todas as suas melancolias lhe escapavam da alma, se perdiam também no azul lustroso... Uma revoada de perdizes ergueu o vôo dentre o restolho. Gonçalo galopou sobre elas, gritando, sacudindo o seu forte chicote de cavalo-marinho, que zinia como uma fina lâmina.

Em breve o caminho torceu, costeando um souto de sobreiros, depois cavado entre silvados com largos pedregulhos aflorando na poeira - e ao fundo o sol faiscava sobre a cal fresca duma parede. Era uma casa térrea, com porta baixa entre duas janelas envidraçadas, remendos novos no telhado e um quinteiro que uma escura e intensa figueira assombreava. Numa esquina pegava um muro baixo de pedra solta, continuado por uma sebe, onde adiante uma velha cancela abria para a sombra duma ramada. Defronte, no vasto terreiro que se alargava, jaziam cantarias, uma pilha de traves; passava uma estrada, lisa e cuidada, que pareceu a Gonçalo a de Ramilde. Para além, até a um distante pinheiral, desciam chás e lameiros.

Sentado num banco, junto da porta, com uma espingarda encostada ao muro, um rapaz grosso, de barrete de lá verde, acariciava pensativamente o focinho dum perdigueiro. Gonçalo parou:

— Tem a bondade... Sabe por acaso qual é o bom caminho para a quinta do Sr. Visconde de Rio-Manso, a Varandinha?

O rapazote ergueu a face morena, de buço leve, remexendo vagamente no carapuço.

— Para a quinta do Rio-Manso... Siga pela estrada até a pedreira, depois à esquerda a seguir, sempre rente da várzea...

Mas nesse instante assomava à porta um latagão de suíças louras em mangas de camisa, a cinta enfaixada em seda. E Gonçalo, com um sobressalto, reconheceu logo o caçador que o injuriara na estrada de Nacejas, o assobiara na venda do Pintainho. O homem relanceou superiormente o Fidalgo. Depois, com a mão encostada à ombreira, chasqueou o rapazote:

— Oh Manuel, que estás tu aí a ensinar o caminho, homem! Este caminho por aqui não é para asnos!

Gonçalo sentiu a palidez que o cobriu - e todo o sangue do coração, num tumulto confuso, que era de medo e de raiva. Um novo ultraje, do mesmo homem, sem provocação! Apertou os joelhos no selim para galopar. E a tremer, num esforço que o engasgava:

— Você é muito atrevido! E já pela terceira vez! Eu não sou homem para levantar desordens numa escada... Mas fique certo que o conheço, e que não escapa sem lição.

Imediatamente, o outro agarrou a um cajado curto e saltou à estrada, afrontando a égua, com as suíças erguidas, um riso de imenso desafio:

— Então cá estou! Venha agora a lição... E para diante é que você já não passa, seu Ramires de merd...

Uma névoa turvou os olhos esgazeados do Fidalgo. E de repente, num inconsciente arranque, como levado por uma furiosa rajada de orgulho e força, que se desencadeava do fundo do seu ser, gritou, atirou a fina égua num galão terrível! E nem compreendeu! O cajado sarilhara! A égua empinava, numa cabeçada furiosa! E Gonçalo entreviu a mão do homem, escura, imensa, que empolgava a camba do freio.

Então, erguido nos estribos, por sobre a imensa mão, despediu uma vergastada do chicote silvante de cavalo-marinho, colhendo o latagão na face, de lado, num golpe tão vivo da aresta aguda que a orelha pendeu, despegada, num borbotar de sangue. Com um berro o homem recuou, cambaleando. Gonçalo galgou sobre ele, noutro arremesso, com outra fulgurante chicotada, que o apanhou pela boca, lhe rasgou a boca, decerto lhe espedaçou dentes, o atirou, urrando, para o chão. As patas da égua machucavam as grossas coxas estendidas - e, debruçado, Gonçalo ainda vergastou, cortou desesperadamente face, pescoço, até que o corpo jazeu mole e como morto, com jorros de sangue escuro ensopando a camisa.

Um tiro atroou o terreiro! E Gonçalo, com um salto no selim, avistou o rapazote moreno ainda com a espingarda erguida, a fumegar, mas já hesitando aterrado.

— Ah, cão!

Lançou a égua, com o chicote alto - o rapaz, espavorido, corria lentamente através do terreiro, para saltar o valado, escapar para as várzeas ceifadas!

— Ah cão, ah cão! - berrava Gonçalo. Estonteado, o rapaz tropeçara numa viga solta. Mas já se endireitava, largava, quando o Fidalgo o alcançou com uma cutilada do chicote no pescoço, logo alagado de sangue. Estendendo as mãos incertas, ainda cambaleou, abateu, estalou contra a aresta dum pilar, a cabeça mais sangue jorrou. Então Gonçalo, a arquejar, deteve a égua. Ambos os homens jaziam imóveis! Santo Deus! Mortos? De ambos corria o sangue sobre a terra seca. O Fidalgo da Torre sentia uma alegria brutal. Mas um grito espantado soou do lado do quinteiro.

— Ai que mataram o meu rapaz!

Era um velho que corria da cancela, numa carreira agachada, rente com a sebe, para a porta da casa. Tão certeiramente o Fidalgo arremessou a égua, para o deter - que o velho esbarrou contra o peitoril que arfava coberto de suor e de espuma. E ante o inquieto animal escarvando, e Gonçalo alçado nos estribos, com a face chamejante, o chicote a descer - o velho, num terror, desabou sobre os joelhos, gritou ansiadamente:

— Ai, não me faça mal, meu Fidalgo, por alma de seu pai Ramires.

Gonçalo ainda o manteve assim um momento, suplicante, a tremer, sob o justiceiro faiscar dos seus alhos - e gozava soberbamente aquelas calosas mãos que se erguiam para a sua misericórdia, invocavam o nome de Ramires, de novo temido, repossuído do seu prestígio heróico. Depois, recuando a égua:

— Esse malandro do rapazola desfechou a caçadeira!... Você também não tem boa cara! Que ia você correndo para casa? Buscar outra espingarda?

O velho alargou desesperadamente os braços, oferecia o peito, em testemunho da sua verdade:

— Oh meu Fidalgo, não tenho em casa nem um cajado!... Assim Deus me ajude e me salve o rapaz!

Mas Gonçalo desconfiava. Quando descesse agora pela estrada de Ramilde, bem poderia o velho correr ao casebre, agarrar outra caçadeira, desfechar traiçoeiramente. E então com a presteza de espírito que a luta afiara concebeu contra qualquer emboscada um ardil seguro E até num relance sorriu recordando "traças de guerra", de D. Garcia Viegas, o Sabedor.

— Marche lá diante de mim, sempre a direito, pela estrada!

O velho tardou, sem se erguer, aterrado. E batia com as grossas mãos nas coxas, numa ânsia que o engasgava:

— Oh meu Fidalgo, oh meu Fidalgo! mas deixar assim o rapaz sem acordo?...

— O rapaz está só atordoado, já se mexeu... E o outro malandro também... Marche você!

E ao irresistível mando de Gonçalo, o velho, depois de sacudir demoradamente as joelheiras, começou a avançar pela estrada, vergado diante da égua, como um cativo, com os longos braços a bambolear, rosnando, num rouco assombro: - Ai como elas se armam! Ai Santo nome de Deus, que desgraça! - A espaços estacava, esgazeando para Gonçalo um olhar torvo onde negrejava medo e ódio... Mas logo o comando forte o empurrava: "Marche!..." E marchava. Adiante, onde se erguia um cruzeiro em memória do abade Paguim, assassinado, Gonçalo reconheceu um largo atalho para a estrada dos Bravais que chamavam o Caminho da Moleira. E para ai enfiou o velho, que no pavor daquela azinhaga solitária, pensando que Gonçalo o afastava de caminhos trilhados para o matar comodamente, rompeu a gemer: Ai que isto é o fim da minha vida! Ai Nossa Senhora, que é o fim da minha vida!" E não cessou de gemer, emaranhando os passos trôpegos, até que desembocaram na estrada alta entre taludes escarpados, revestidos de giesta brava. Então de repente, com outro terror, o homem bruscamente revirou, atirando as mãos ao barrete:

— Oh meu senhor, o Fidalgo não me leva preso?...

— Marche! Corra! Que agora a égua trota!

A égua trotou - o velho correu, desengonçado, arquejando como um fole de forja. Uma milha galgada, Gonçalo parou, farto do cativo, da lenta marcha. De resto antes que o homem agora corresse a casa, e agarrasse uma arma, e virasse para o alcançar, se desforrar - entraria ele, num galope solto, o portão da Torre! Então bradou, com o sobrolho duro:

— Alto! Agora pode voltar para trás... Mas, antes: como se chama aquele seu lugar?

— A Grainha, meu Fidalgo.

— E você como se chama, e o rapaz?

O velho, com a boca aberta, esperou, hesitou:

— Eu sou João, o meu rapaz Manuel... Manuel Domingues, meu Fidalgo.

— Você naturalmente mente. E o outro malandro, de suíças louras?

Dum fôlego, o velho gritou:

— Esse é o Ernesto de Nacejas, o valentão de Nacejas, que chamam o Caça-abraços, e que tanto me desencaminhou o rapaz...

— Bem! Pois diga lá a esses dois marotos que me atacaram a pau e a tiro, que não ficam quites somente com a sova, e que agora têm de se entender com a Justiça... Ela lá irá! Largue!

Do meio da estrada, Gonçalo ainda vigiou o velho que abalara, forçando as passadas derreadas, limpando o suor que lhe pingava. Depois, pela conhecida estrada, galopou para a Torre.

E ia levado, galopando numa alegria tão fumegante, que o lançava em sonho e devaneio. Era como a sensação sublime de galopar pelas alturas, num corcel de lenda, crescido magnificamente, roçando as nuvens lustrosas... E por baixo, nas cidades, os homens reconheciam nele um verdadeiro Ramires, dos antigos na História, dos que derrubavam torres, dos que mudavam a configuração dos Remos - e erguiam esse maravilhoso murmúrio que é o sulco dos fortes passando! Com razão! com razão! Que ainda de manhã, ao sair da Torre, não ousaria marchar para um rapazola decidido que brandisse um varapau... E depois, de repente, na solidão daquela casa térrea, quando o bruto das suíças louras lhe atira a sua injúria eis um não sei quê que se desprende dentro do seu ser, e transborda, e lhe enche cada veia de sangue ardido, e lhe enrija cada nervo de força destra, e lhe espalha na pele o desprezo e a dor, e lhe repassa fundamente a alma de fortaleza indomável... E agora ali voltava, como um varão novo, soberbamente virilizado, liberto enfim da sombra que tão dolorosamente assombreara a sua vida, a sombra mole e torpe do seu medo! Porque sentia que agora, se todos os valentões de Nacejas o afrontassem num rijo erguer de cajados - esse não sei quê, lá dentro, no seu ser, de novo se soltaria, e o arremessaria, com cada veia inchada, cada nervo retesado, para o delicioso fragor da briga! Enfim era um homem! Quando em Vila-Clara o Manuel Duarte, o Titó com o peito alto, contassem façanhas, já ele não enrolaria encolhidamente o cigarro encolhido, mudo não somente pela ausência desconsoladora das valentias, mas sobretudo pela humilhante recordação das fraquezas. E galopava, galopava apertando furiosamente o cabo do chicote, como para investidas mais belas. Para além dos Bravais, mais galopou, ao avistar a Torre. E singularmente lhe pareceu, de repente, que a sua Torre, agora mais sua, e que uma afinidade nova fundada em glória e força o tornava mais senhor da sua Torre!

Como para acolher Gonçalo mais dignamente, o portão grande, sempre cerrado, oferecia uma entrada triunfal com os dois pesados batentes escancarados. Ele atirou a égua para o meio do pátio, bradando:

— Oh Joaquim! Oh Manuel! Eh lá! um de vocês!

O Joaquim surgiu da calavariça, de mangas arregaçadas, com uma esponja na mão.

— Oh Joaquim, depressa! Aparelha o Rocilho, corre a um sitio na estrada de Ramilde, a que chamam a Grainha... Tive agora lá uma grande desordem! Creio que dei cabo de dois homens... Ficaram numa poça de sangue! Não digas que vais da Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que sucedeu, se estão mortos!... Depressa, depressa!

O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavalariça escura. E de cima duma das varandas do corredor, partiram exclamações assombradas:

— Oh Gonçalo, o que foi?! santo Deus! o que foi?!

Era o Barrolo. Sem desmontar, sem surpresa ante a aparição do Barrolo, Gonçalo atirou logo para a varanda a história da bulha, tumultuosamente. Um malandro que o insultara... Depois outro, que desfechou a caçadeira... E ambos derribados sob as patas da égua, numa poça de sangue...

O Barrolo despegou da varanda - e noutro relance, investia pelo pátio, com os curtos braços a boiar, enfiado. Mas então? mas então?... E Gonçalo, desmontando, trêmulo agora do cansaço e da emoção, esmiuçou mais lances... Na estrada de Ramilde! Um valentão que o injuriou! A esse rasgara a boca, decepara a orelha... Depois o outro, um rapazola, desfecha uma carabina... Ele corre, tão vivamente o colhe com uma cutilada que o estira, para cima duma pedra, como morto...

— Uma cutilada?

— Com este chicote, Barrolo! Arma terrível!... Bem dizia o Titó!... Estou perdido se não levo este chicote.

Esgazeado, Barrolo remirava o chicote. Sim, com efeito ainda manchado de sangue. - Então Gonçalo atentou no chicote, no sangue... Sangue de gente! Sangue fresco, que ele arrancara.... E por entre o seu orgulho, uma piedade passou que o empalideceu:

— Que desgraça, vejam que desgraça!

Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no horror de nódoas de sangue, que o salpicassem. Sim, santo Deus! sangue na polaina!... E imediatamente ansiou por se despir, se lavar - galgou a escada, com o Barrolo que enxugava o suor, balbuciava: - "Ora uma dessas! E de repente! Assim na estrada' Mas no corredor, subindo numa carreira da cozinha, apareceu Gracinha, pálida, com a Rosa atrás, que enterrava os dedos entre o lenço e o cabelo num pavor mudo.

— Que foi, Gonçalo? Jesus, que foi?!

Então, encontrando Gracinha junto dele, na Torre, nesse momento magnífico do seu orgulho, depois de tão rijo perigo vencido, Gonçalo esqueceu o André, o Mirante, as sombrias humilhações, e no abraço em que a colheu, nos fortes beijos que atirou à face querida, todo o seu amuo se fundiu em ternura. Com ela ainda chegada ao coração, suspirou de leve, como uma criança cansada. Depois apertando as duas pobres mãos trêmulas, com um lento, enternecido sorriso, enquanto os olhos se lhe umedeciam de confusa emoção, de confusa alegria:

— Pois foi o diabo, filha! Uma desordem horrível, eu que sou tão pacato! imagina tu...

E pelo corredor recomeçou para Gracinha, que arfava, e para a Rosa, estarrecida, a história do encontro, e o sujo ultraje, o tiro que falhara e os malandros lacerados a chicote, e o velho marchando como um cativo, a gemer pela estrada de Ramilde. Apertando o peito, num desmaio, Gracinha murmurou:

— Ai, Gonçalo! E se um dos homens estivesse morto!

O Barrolo, mais vermelho que uma peônia, berrou logo que tais malandros mereciam ricamente a morte! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo tremendo de África! O Gouveia! era necessário mandar a Vila-Clara, avisar o Gouveia!... Mas largas passadas ávidas abalaram o soalho - e foi o Bento, que se ergueu diante de Gonçalo, bracejando numa ânsia:

— Então, Sr. Doutor?... Diz que uma grande desordem!

E à porta do escritório, onde todos pararam, novamente atentos, a história recomeçou, especialmente para o Bento, que a bebia, num lento riso de gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos úmidos a reluzir, como se também triunfasse. Por fim, triunfou, com estrondo:

— Foi o chicote, Sr. Doutor! O que serviu ao Sr. Doutor foi o chicote que eu lhe dei!

Era verdade. E Gonçalo, comovido, abraçou o velho aio, que numa excitação, gritava para a Rosa, para Gracinha, para o Barrolo:

— O Sr. Doutor deu cabo deles!... Aquele chicote mata um homem!... Os malvados estão mortos!... E foi o chicote! Foi o chicote que eu dei ao Sr. Doutor!

Mas Gonçalo reclamava água quente para se lavar da poeira, do suor, do sangue... E o Bento correu, berrando ainda pelo corredor! depois pelas escadas da cozinha - "que fora o chicote! o chicote, que ele dera ao Sr. Doutor!" Gonçalo entrara no quarto, acompanhado pelo Barrolo. E pousou o chapéu sobre o mármore da cômoda, com um imenso ah consolado! Era o consolo imenso de se encontrar, depois de tão violenta manhã, entre as doces coisas costumadas, pisando o seu velho tapete azul, roçando o leito de pau-preto em que nascera, respirando pelas vidraças abertas, onde as ramagens familiares das faias se empurravam na aragem para o saudar. Com que gosto se acercou do espelho de colunas douradas, se mirou e se remirou, como a um Gonçalo novo e tão melhorado, que nos ombros reconhecia mais largueza, e até no bigode um arquear mais crespo.

E foi ao arredar do espelho, topando com o Barrolo, que subitamente despertou numa curiosidade imensa:

— Mas, ó Barrolo, como é que vos encontro esta manhã na Torre?

Resolução da véspera, ao chá. Gonçalo não aparecia, não escrevia... Gracinha a matutar, inquieta. Ele também espantado daquele sumiço depois do cesto dos pêssegos. De modo que ao chã, pensando também que a parelha necessitava uma trotada, lembrara a Gracinha: - "Vamos nós amanhã à Torre? no phaéton?"

— Além disso precisava falar contigo, Gonçalo... Tenho andado aborrecido.

O Fidalgo juntou duas almofadas no divan, onde se enterrou:

— Como aborrecido?... Aborrecido por quê?...

Barrolo, com as mãos nos bolsos da rabona de flanela, que lhe cingia as ancas gordas, considerou as flores do tapete, melancolicamente:

— É uma grande seca! A gente não pode confiar em ninguém... Nem ter familiaridades!...

Num lampejo Gonçalo imaginou o Cavaleiro e Gracinha mostrando estouvadamente nos Cunhais, como outrora entre os arvoredos da Torre, o sentimento que os dominava. E pressentiu um desabafo, alguma queixa triste do pobre Barrolo, amargurado por suspeitas, talvez por intimidades que espreitara. Mas a emoção suprema da sua batalha sumira para uma sombra inferior os cuidados que, ainda na véspera, o oprimiam; todas as dificuldades da vida lhe apareciam agora, de repente, naquele frescor da sua coragem nova, tão fáceis de abater como os desafios dos valentões; e não se assustou com as confidências do cunhado, bem seguro de impor àquela alma submissa de bacoco a confiança e a quietação. Até sorriu, com indolência:

— Então, Barrolinho? Sucedeu alguma peripécia?

— Recebi uma carta.

— Ah!

Gravemente Barrolo desabotoou o jaquetão, puxou do bolso interior uma larga carteira, de couro verde e lustroso, com monograma de ouro. E foi a carteira que ele mostrou a Gonçalo, com satisfação.

— Bonita, hem? Presente do André, coitado... Creio que até a mandou vir de Paris. O monograma tem muito chic.

Gonçalo esperava, espantado. Enfim o bom Barrolo tirou da carteira uma carta - já amarrotada, depois alisada. Era, num papel pautado, uma letra miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declarando logo com segurança:

— É das Lousadas.

E leu, vagarosamente, serenamente, com o cotovelo enterrado na almofada: Ex.mo Sr. José Barrolo. - V Exa., apesar de todos os seus amigos o alcunharem de Zê Bacoco, mostrou agora muita esperteza, chamando de novo para a sua intimidade e de sua digna esposa o gentil André Cavaleiro, nosso Governador Civil. Com efeito a esposa de V Exa., a linda Gracinha, que neste últimos tempos andava tão murcha e até desbotada (o que a todos nos inquietava), imediatamente refloriu, e ganhou cores, desde que possui a valiosa companhia da primeira autoridade do distrito. Portou-se pois V. Exa. como marido zeloso, e desejoso da felicidade e boa saúde de sua interessante esposa. Nem parece rasgo daquele que toda a Oliveira considera como o seu mais ilustre pateta! Os nossos sinceros parabéns!"

Gonçalo guardou muito sossegadamente na algibeira aquela carta que, dias antes, o lançaria em infinita amargura e fúria:

— É das Lousadas... E tu deste importância a semelhante baboseira?

O Barrolo repontou, com as bochechas abrasadas:

— Se te parece! Sempre embirrei com bilhetinhos anônimos... E depois essa insolência a respeito de os amigos me chamarem Bacoco... Grande infâmia, hem? Tu acreditas?... Eu não acredito! mas lança cizânia entre mim e os rapazes... Nem voltei ao Club... Bacoco! Por quê? Porque eu sou simples, sempre franco, disposto a arranchar... Não! Se os rapazes no Club me chamam bacoco pelas costas, caramba, mostram ingratidão! Mas eu não acredito! - Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as mãos cruzadas sobre as gordas nádegas. Depois, estacando diante do divan, donde Gonçalo o considerava, com piedade:

— Enquanto ao resto da carta é tão estúpido, tão atrapalhado que ao princípio nem compreendi. Agora percebo... Querem dizer que a Gracinha e o Cavaleiro têm namoro... E o que me parece que querem dizer! Ora vê tu que disparate! Até a intimidade do Cavaleiro é mentira. O pobre rapaz, desde que lá jantou, só apareceu três ou quatro vezes, à noite, para a manilha, com o Mendonça... E agora abalou para Lisboa.

Então o Fidalgo pulou, de surpresa.

— O quê! o Cavaleiro foi para Lisboa?

— Pois partiu há três dias!

— Com demora?

— Com demora, com grande demora... Só volta no meado de outubro para a Eleição.

— Ah!

Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro d'água quente, duas toalhas de rendas, ainda numa excitação que o azafamava. Diante do espelho, lentamente Barrolo reabotoava o jaquetão:

— Bem, até logo, Gonçalinho. Eu desço à cavalariça, visitar a parelha. Não imaginas! desde Oliveira, sem descanso, uma trotada esplêndida. E nem um pêlo suado! Tu guardas a carta?

— Guardo, para estudar a letra.

Apenas Barrolo correra a porta - o Fidalgo recomeçou com o Bento a deliciosa história da briga, revivendo as surpresas e os rasgos, simulando os arremessos da égua, arrebatando o chicote para representar as cutiladas silvantes, que arrancavam febra e sangue... E de repente, em ceroulas:

— Oh Bento, traze o meu chapéu... Estou desconfiado que a bala roçou pelo chapéu.

Ambos remiraram, esquadrinharam o chapéu. O Bento, no seu encarecimento da façanha, achava a copa amolgada - até chamuscada.

— A bala passou de raspão, Sr. Doutor!

O Fidalgo negou, com a modéstia grave dum forte:

— Não! Nem de raspão!... Quando o malandro desfechou já o braço lhe tremia... Devemos agradecer a Deus, Bento. Mas eu realmente não corri grande perigo!

Depois de vestido, Gonçalo, passeando no quarto, releu a carta. Sim, certamente das Lousadas. Mas agora essa maledicência, soprada com tão sórdida maldade sobre as pobres bochechas do Barrolo, não causava dano - antes servia, quase beneficamente, como a brasa dum ferro, para sarar um dano. O pobre Barrolo apenas se impressionara com a revelação da sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta pelos rapazes amigos, em galhofas ingratas do Club e debaixo dos Arcos. A outra insinuação terrível, Gracinha reverdecendo ao calor amoroso do Cavaleiro, essa mal a compreendera, escassamente a atendera num desdém distraído e cândido. Mas a carta que assim silvava por sobre o bom Barrolo como flecha errada - acertava em Gracinha, feriria Gracinha no seu orgulho, no seu impressionável pudor, mostrando à pobre tonta como o seu nome e mesmo o seu coração já arrastavam enxovalhadamente, pela rasteira, mexeriquice das Lousadas!... Certeza tão humilhadora não apagaria um sentimento - que se não apagava com humilhações mais íntimas, tanto mais dolorosas. Mas estimularia a sua reserva e o seu desconfiado recato: - e agora que André se afastara para Lisboa, operaria nela, surdamente, solitariamente, sem que a presença tentadora lhe desmanchasse a influência sossegadora e salutar. Assim o torpe papel aproveitava a Gracinha como um aviso temeroso pregado na parede. E rancorosamente preparada pelas duas fêmeas para desencadear nos Cunhais escândalo e dor - talvez restabelecesse, na ameaçada casa, quietação e gravidade. - Gonçalo esfregou as mãos pensando - que em tão ditosa manhã talvez esse mal redundasse em bem!

— Oh Bento, onde está a Sra. D. Graça?

— A menina subiu agora há pouco para o seu quarto, Sr. Doutor.

Era o seu quarto de solteira, claro e fresco sobre o pomar, onde ainda se conservava o seu leito de linda madeira embutida, um toucador ilustre que pertencera à Rainha D. Maria Francisca de Sabóia, e o sofá, as cadeiras de casimira clara em que Gracinha bordara, num arrastado labor de anos, o Açor negro dos Ramires. E sempre que voltava à Torre Gracinha gostava de reviver, no seu quarto, as horas de solteira, remexendo as gavetas, folheando velhos romances ingleses na estantezinha envidraçada, ou simplesmente da varanda contemplando a querida quinta estendida até aos outeiros de Valverde, a verde quinta, tão misturada à sua vida que cada árvore lhe sussurrava, cada recanto de verdura era como um recanto do seu pensamento.

Gonçalo subiu bateu à porta cerrada com o antigo aviso: - "Licença para o mano!" Ela correu da varanda, onde regava nos seus antigos vasos vidrados plantas sempre renovadas e cuidadas pela Rosa com carinho. E desabafando logo do pensamento que a enchia:

— Oh Gonçalo! mas que felicidade nós virmos à Torre, justamente hoje, que te sucedeu coisa tamanha!

— É verdade, Gracinha, grande sorte! E não me admirei nada de te ver... Era como se ainda vivesses na Torre e te encontrasse no corredor... Quem estranhei foi o Barrolo! E no primeiro momento depois de desmontar, pensava assim, vagamente: "mas que diabo faz aqui o Barrolo? Como diabo se acha aqui o Barrolo?..." Curioso, hem? Foi talvez que, depois da desordem, me senti remoçado, com um sangue novo, e me julguei no tempo em que desejávamos uma guerra em Portugal, e nós cercados na Torre, sob o nosso pendão, o nosso terço atirando bombardas aos espanhóis...

Ela ria, lembrada dessas imaginações heróicas. E com o vestido entalado entre os joelhos recomeçou a lenta rega dos seus vasos - enquanto Gonçalo, encostado à varanda, considerando a Torre, retomado pela idéia duma concordância mais íntima, que desde essa manhã se estabelecera entre ele e aquele heróico resto da Honra de Santa Irenéia, como se a sua força, tanto tempo quebrada, se soldasse enfim firmemente à força secular da sua raça.

— Oh Gonçalo! tu deves estar muito cansado! Depois dessa verdadeira batalha...

— Não, cansado não... Mas com fome. Com fome, e com uma sede esplêndida!

Ela pousou logo o regador, sacudindo as mãos alegremente:

— Pois o almoço não tarda!... Já andei a trabalhar na cozinha, com a Rosa, numa pescada à espanhola... É uma receita nova do Barão das Marges.

— Então insossa, como ele.

— Não! até picante: foi o Sr. Vigário-Geral que lha ensinou.

E como diante do toucador da Rainha Maria Francisca, ela arranjava à pressa os ganchos do cabelo, para aproveitar a solidão favorável, apressou com um esforço a confidência que o comovia:

— E em Oliveira? Lá por Oliveira?

— Em Oliveira, nada... Muito calor!

Gonçalo, movendo os dedos lentos pela moldura do espelho, fino entrelaçamento de açucenas e louros, murmurou:

— Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas Lousadas. Continuam em plena atividade...

Gracinha negou candidamente:

— As Lousadas? Não! Nem têm aparecido.

— Mas têm tecido!

E como os verdes olhos de Gracinha se alargaram, sem compreender, Gonçalo arrancou vivamente da algibeira a carta que guardara, que agora lhe pesava, como uma chapa de ferro:

— Olha, Gracinha. Mais vale desabafarmos! Aí tens o que elas há dias escreveram a teu marido...

Num relance Gracinha devorou as linhas terríveis. E com ondas de sangue nas faces apertando as mãos numa aflição, um desespero, em que o papel amarfanhou:

— Oh Gonçalo! pois...

Gonçalo acudiu:

— Não! o Barrolo não se importou! até se riu! E eu também, quando ele me entregou esse papelucho... E a prova de que ambos o consideramos uma mexeriquice insensata é que eu to mostro tão francamente.

Ela esmagava a carta nas mãos juntas e trêmulas, pálida agora e emudecida pelo espanto, retendo grandes lágrimas que rebrilhavam. E Gonçalo comovido, com gravidade, com ternura:

— Mas tu, Gracinha, sabes o que são terras pequenas. Sobretudo Oliveira! Precisas muito cuidado, muita reserva... Ai de mim! De mim vem a culpa. Reatei relações que nunca se deviam reatar... Bem me tenho arrependido! E acredita! por causa dessa situação tão falsa e tão perigosa, que eu criei, levianamente, por ambição tola, passei aqui na Torre dias amargurados... Até nem me atrevia voltar a Oliveira. Hoje, não sei por quê, depois desta aventura, parece que tudo se esbateu, se afundou para uma grande sombra... Enfim já não me arde tão em brasa no coração... Por isso desabafo assim, serenamente.

Ela desatou num solto, doloroso, choro em que a sua fraca alma se desfazia. Com redobrada ternura Gonçalo abraçou os pobres ombros vergados que os soluços espedaçavam. E foi com ela toda refugiada no seu peito, que ainda a aconselhou, docemente:

— Gracinha, o passado morreu, e todos precisamos, para honra de todos, que continue morto. Pelo menos que por fora, em cada gesto teu, pareça bem morto! Sou eu que to peço, pelo nosso nome!...

Dentre os braços do irmão, ela gemeu com infinita humildade:

— Mas ele até foi embora!... Nem quis estar mais em Oliveira!

Gonçalo acariciou a acabrunhada cabeça que de novo se escondera contra o seu peito, contra ele se apertava, como procurando a fresca misericordiosa que dentro sentia brotar:

— Bem sei. E isso me mostra que tens sido for-te... Mas precisas muita reserva, muita vigilância, Gracinha!... E agora sossega. Não falemos mais, nunca mais, neste incidente... Porque foi apenas um acidente. E que eu provoquei, ai de mim, por leviandade, por ilusão. Passou, está esquecido! Sossega, descansa. E quando desceres traze os olhos bem secos.

Lentamente a desprendera dos braços, onde ela se arraigava como ao abrigo mais certo e à consolação mais desejada. E saia, engasgado pela emoção, recalcando também as lágrimas... Um gemido tímido, suplicante, ainda o reteve:

— Gonçalo! mas tu pensas...

Ele voltou, de novo a abraçou, a beijou na testa lentamente:

— Eu penso que tu, agora bem avisada, bem aconselhada, vais mostrar muita dignidade, muita firmeza.

Rapidamente abalou, cerrou a porta. E na escada estreita, escassamente alumiada por uma clarabóia baça, limpava as pálpebras, quando esbarrou com o Barrolo, que procurava Gracinha, para apressar o almoço.

— A Gracinha já desce! - atabalhoou o Fidalgo. - Está a lavar as mãos! Já desce!... Mas antes do almoço vamos à cavalariça. Devemos uma visita à égua, a essa querida égua que me salvou!

— É verdade, caramba! - concordou logo Barrolo revirando nos degraus, com entusiasmo. - Precisamos visitar a égua... Grande, briosa, hem! Mas aposto que ficou mais suada que as minhas... Imagina! uma trotada daquelas, desde Oliveira, e nem um pêlo molhado! Grandes éguas! Também, o que eu as olho, o que as trato!

Na cavalariça, ambos afagaram a égua. Barrolo lembrou que se mimoseasse com uma ração larga de cenoura. Depois - para que Gracinha, com vagar, se calmasse - o Fidalgo arrastou o Barrolo ao pomar e à horta...

— Tu não vens à Torre há perto de seis meses, Barrolinho! Precisas ver, admirar progressos. Anda agora por aqui a mão forte do Pereira da Riosa...

— Imagino! grande homem, o Pereira! Mas eu tenho uma fome, Gonçalinho!

— Também eu!

Uma hora batia quando entraram na varanda onde a mesa esperava, florida e em festa - e Gracinha, à beira do divan, percorria pensativamente a velha Gazeta do Porto. Apesar de muito banhados, os seus belos olhos conservavam um ardor; e para o justificar, e o seu modo abatido, logo se lastimou, corando, duma enxaqueca. Eram as emoções, o perigo de Gonçalo...

— Também eu tenho dor de cabeça! - declarou o Barrolo, rondando a mesa. - Mas a minha vem da fome... Oh, filhos, é que estou desde as sete da manhã com uma chávena de café e um ovo quente!

Gonçalo repicou a campainha. Mas quem rompeu pela porta envidraçada, esbaforido, escancarando a boca num riso imenso, foi o Joaquim, o moço da cavalariça que voltava da Grainha.

Gonçalo atirou os braços, sôfrego:

— Então?! então?!

— Pois lá estive, meu Fidalgo! - exclamou o Joaquim com o peito a estalar de importância. - E vai por lá um povoléu, todos já sabem! Uma rapariga dos Bravais espreitou tudo, de dentro do quinteiro... Depois correu, badalou... Mas o velho, o tal Domingues que mora. na casa, e o filho, abalaram ambos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se caiu, sem sentidos, foi com o susto. O Ernesto de Nacejas, esse sim, santo nome de Deus, apanhou. Lá o levaram em braços para casa dum compadre ali ao pé, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e que fica sem boca!... Pois por todos aqueles sítios era o ai-jesus das moças!... E logo lá o carregaram para o hospital de Vila-Clara, que na casa do compadre não pode sarar. Um povoléu, e todos dão a razão ao Fidalgo. O tal Domingues era malandro. E o Ernesto, esse ninguém o podia enxergar! Mas todos lhe tinham medo... O Fidalgo fez uma limpeza!

Gonçalo resplandecia. Ah! Ainda bem! que não passara dano mais forte, que beleza perdida do D. Juan de Nacejas!

— E então o povo por lá, a falar, a olhar para o sítio?

— Pois o povo não se arreda! E a mostrar o sangue, no chão, e as pedras por onde se atirou a égua do Fidalgo... E agora até contam que foi uma espera, e que desfecharam três tiros ao Fidalgo, e que depois adiante no pinhal ainda saltaram três homens mascarados que o Fidalgo escangalhou...

— Eis a lenda que se forma! - declarou Gonçalo.

O Bento aparecera com uma larga travessa fumegante. O Fidalgo afagou risonhamente o ombro do Joaquim. E embaixo a Rosa que abrisse, para o almoço da família, duas garrafas de vinho do Porto, velho. Depois com a mão nas costas da cadeira murmurou gravemente: - Pensemos um momento em Deus, que me tirou hoje dum grande perigo!

Barrolo pendeu a cabeça, reverente. Gracinha, através dum leve suspiro, pensou uma leve oração. E desdobravam os guardanapos; Gonçalo aclamava a travessa de pescada à espanhola - quando o pequeno da Críspola empurrou ainda a porta envidraçada "com um telegrama, que viera da Vila!" Uma inquietação deteve os garfos. A manhã correra com tantas agitações e espantos! Mas já um sorriso de gosto, de triunfo, se espalhara na fina face de Gonçalo:

— Não é nada... É do Castanheiro, por causa dos capítulos do Romance que eu lhe mandei... Coitado! Bom rapaz!

E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente o telegrama, que os seus olhos afagavam: - "Capítulos romance recebidos. Leitura feita amigos. Entusiasmo! Verdadeira obra-prima! Abraço!..."

Barrolo, com a boca cheia, bateu as palmas. E Gonçalo, sem reparar na travessa da pescada que Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de vinho verde, com uma vaga tremura, um sorriso ditoso que não se dissipava:

— Enfim, boa manhã... Grande manhã!

Gonçalo, apesar das insistências de Gracinha e do Barrolo, não os acompanhou para Oliveira no desejo de acabar, durante essa semana, o derradeiro Capítulo da Novela, e depois cerrar o preguiçoso giro de visitas aos influentes Eleitorais do Círculo. Assim rematava a Obra de Arte e a obra de Política, e cumpria, Deus louvado, a tarefa desse verão fecundo!

Logo nessa noite retomou o manuscrito da Novela e na margem larga lançou à data uma nota: "Hoje, na freguesia da Grainha, tive uma briga terrível com dois homens que me assaltaram a pau e tiro, e que castiguei severamente..." Depois, com facilidade atacou o lance de tanto sabor medieval, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto do Bastardo, penetrava, ao espalhado e fumarento clarão dos archotes, no arraial de D. Pedro de Castro.

Com grave amizade acolhia o velho homem de guerra aquele seu primo de Portugal, que lhe trouxera a sua forte mesnada, de Santa Irenéia, quando os Castros combateram um grande poder de Mouros em Enxarez de Sandornim. Depois, na vasta tenda, reluzente de armas, tapizada de peles de leão e de urso, Tructesindo contava, ainda a arfar de dor represa, a morte de seu filho Lourenço, ferido na lide de Canta-Pedra, acabado a punhalada pelo Bastardo de Baião, diante das muralhas de Santa Irenéia, com o sol no céu alto a olhar a traição! Indignado, o velho Castro esmurraçou a mesa, onde um rosário de ouro se misturava a grossas peças de xadrez; jurou pela vida de Cristo que, em sessenta anos de armas e surpresas, nunca soubera de feito mais vil! E, agarrando a mão do senhor de Santa Irenéia, ardentemente lhe ofereceu, para a empresa da santa vingança, a sua hoste inteira - trezentas e trinta lanças, vasta e rija peonagem.

— Por Santa Maria! Formosa arrancada! - bradou Mendo de Briteiros com as vermelhas barbas a flamejar de gosto.

Mas D. Garcia Viegas, o Sabedor entendia que para colherem o Bastardo vivo, como convinha a uma vingança vagarosa e bem gozada, mais utilmente serviria uma calada e curta fila de Cavaleiros, com alguns homens de pé...

— Por quê, D. Garcia?

— Porque o Bastardo, depois de se aligeirar, junto da Ribeira, da peonada e carriagem correra, com a mira em Coimbra, para se acolher à força da Hoste Real. Nessa noite, com o seu esfalfado bando de lanças, pernoitara certamente no solar de Landim. E com o luzir da alva, para encurtar, certamente retomava a galopada pelo velho caminho de Miradáes, que trepa e foge através das lombas do Caramulo. Ora ele, Garcia Viegas, conhecia para diante do Poço da Esquecida, certo passo, onde poucos Cavaleiros, e alguns besteiros, bem postados por entre o bravio, apanhariam Lopo de Baião como lobo em fojo...

Tructesindo, incerto e pensativo, metia os dedos lentos pelos fios da barba. O velho Castro duvidava, preferindo que se pusesse batalha ao Bastardo em campo bem liso onde se avantajassem tantas lanças já aprestadas, que depois correriam em alegre levada a assolar as terras de Baião. Então Garcia Viegas rogou aos seus primos de Espanha e de Portugal que saíssem ao terreiro, diante da tenda, com fartura de tochas para bem se alumiarem. E aí, no meio dos Cavaleiros curiosos, à claridade dos lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho, riscou sobre a terra, com a ponta duma adaga, o roteiro da sua caçada para lhe comprovar a beleza... Dalém castelo Landim, largaria com a alva o Bastardo. Por aqui, quando a lua nascesse, abalariam eles, com vinte Cavaleiros dos Ramires e dos Castros, para que lidadores de ambas as mesnadas gozassem a lide. Além, se postariam, alapados no matagal, besteiros e peões de frecha. Por trás, deste lado, para entaipar o Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro, se com tão gostosa ajuda ele honrasse o Senhor de Santa Irenéia. Adiante, acolá, para colher pela gorja o vilão, o senhor D. Tructesindo que era o pai e Deus mandava fosse o vingador. E ali, na estreitura o derrubariam e o sangrariam como um porco - e como o sangue era vil, a um tiro de besta encontrariam água farta para lavar as mãos, a água do pego das Bichas!...

— Famosa traça! - murmurou Tructesindo convencido.

E D. Pedro de Castro bradou atirando um faiscante olhar aos Cavaleiros de Espanha:

— Vida de Cristo, que se meu tio-avô Gutierres tivera por Coudel aqui o Sr. D. Garcia, não lhe escapavam os de Lara quando levaram o Rei-menino, na grande carreira, para Santo Estêvão de Gurivaz!... Entendido, pois, primo e amigo! E a cavalo, para a monteria, mal reponte a lua!

E recolheram as tendas - que já nas fogueiras lourejavam os cabritos da ceia, e os uchões acarretavam, dentre os carros da sarga, os pesados odres de vinho de Tordesilhas.

Com a ceia no arraial (grave e sem ruído, porque um luto velava o coração dos hóspedes) Gonçalo terminou, nessa noite, o seu capítulo IV, lançando à margem outra nota: - "Meia-noite... Dia cheio. Batalhei, trabalhei ." - Depois no seu quarto, enquanto se despia, traçou todo o alvoroto da briga curta em que o Bastardo como lobo em fojo quedaria cativo, à mercê vingadora dos de Santa Irenéia... Mas de manhã, antes do almoço, ao abancar com gosto para o trabalho - recebeu dois telegramas, que o desviaram deliciosamente da ardente correria contra o Bastardo de Baião.

Eram dois telegramas de Oliveira, um do Barão das Marges, outro do capitão Mendonça - ambos com parabéns ao Fidalgo "por assim escapar de tão terrível espera, destroçando os valentões de Nacejas". O Barão das Marges acrescentava: - "Bravíssimo! É de herói!"

Gonçalo, enternecido, mostrou os telegramas ao Bento. A nova da sua façanha, pois, já se espalhara, impressionara Oliveira.

— Foi o Sr. José Barrolo que contou! - acudiu o Bento. - E o Sr. Dr. verá! o Sr. Dr. verá... Até no Porto se vão assombrar!

Ao bater meio-dia, rompeu pelo corredor, com estrondo, o imenso Titó, acompanhado pelo João Gouveia que chegara na véspera à tarde da Costa, soubera da aventura na Assembléia, corria à Torre, como amigo para o abraço, antes de comparecer, como Autoridade, para o auto. Então Gonçalo, ainda nos braços do Gouveia, pediu generosamente "que se não procedesse contra os bandidos..." O Administrador recusou, decidido e seco, proclamando o princípio da Ordem, e necessidade dum escarmento rijo, para que Portugal não recuasse aos tempos bárbaros do João Brandão de Midões. Ele e Titó almoçaram na Torre - e Titó, à sobremesa, lembrou galhofeiramente a conveniência dum brinde, e bramou ele o brinde, comparando Gonçalo ao elefante, "sempre bom, que tanto agüenta, e de repente, zás, esmaga o mundo!"

Depois João Gouveia acendendo um grande charuto reclamou a representação verídica da desordem, com os pulos, os gritos, para ele se compenetrar como autoridade. Então através da varanda, reviveu a história heróica, simulando com o chicote sobre o divan (que terminou por esgaçar) os golpes que arremessara imitando os tombos meio desmaiados do valentão de Nacejas, quando já o sangue o alagava. O Administrador e o Titó visitaram na cavalariça a égua histórica; e no pátio, Gonçalo ainda lhes mostrou as duas polainas de couro secando ao sol, lavadas do sangue que as salpicara.

Diante do portão João Gouveia bateu gravemente no ombro do Fidalgo:

— Gonçalo, você deve aparecer esta noite na Assembléia...

Apareceu - e foi acolhido como o vencedor de uma batalha ilustre. No bilhar, por proposta do velho Ribas, flamejou um grande punch - e o Comendador Barros, afogueado, teimava que no domingo se celebrasse em S. Francisco um Te-Deum de graças, de que ele custearia as despesas, com orgulho, caramba! À saída, acompanhado pelo Titó, pelo Gouveia, pelo Manuel Duarte, por outros sócios, encontraram o Videirinha - que não pertencia à Assembléia, mas rondava, esperando o Fidalgo para lhe lançar duas trovas do Fado, improvisadas nessa tarde, em que o exaltava acima dos outros Ramires, da História e da Lenda!

O rancho quedou no chafariz. O violão gemeu, com amor. E o cantar do Videirinha, elevado da alma, varou a muda ramagem das olaias:

Os Ramires doutras eras
Venciam com grandes lanças,
Este vence com um chicote,
Vede que estranhas mudanças!

É que os Ramires famosos,
Da passada geração,
Tinham a força nas armas
E este a tem no coração!

A tão requebrado conceito - os amigos romperam em vivas a Gonçalo, à Casa de Ramires. E o Fidalgo recolhendo à Torre, comovido, pensava:

— É curioso! Esta gente toda parece gostar de mim!...

Mas que emoção quando, de manhã cedo, o Bento o acordou com um telegrama de Lisboa! Era do Cavaleiro - que "soubera pelos jornais atentado, lhe mandava entusiástico abraço pela felicidade e pela valentia!" Gonçalo berrou, sentado na cama:

— Caramba! então os jornais em Lisboa já falam, Bento! o caso anda celebrado!

Certamente celebrado! - porque durante o delicioso dia, o moço do Telégrafo, esbaforido sobre a perna manca, não cessou de empurrar o portão da Torre, com outros telegramas, todos de Lisboa, da Condessa de Chelas; de Duarte Lourençal; dos Marqueses de Coja felicitando; da tia Louredo com "parabéns ao destemido sobrinho"; da Marquesa de Esposende "esperando que o caro primo tivesse agradecido a Deus!"... E o último do Castanheiro, com exclamações: - Magnifico! Digno de Tructesindo! - Gonçalo, pela Livraria, erguia os braços, estonteado:

— Santo nome de Deus! mas que terão dito os jornais?

E, por entre os Telegramas, acudiam os cavalheiros dos arredores, os influentes - o Dr. Alexandrino, aterrado, antevendo um regresso ao Cabralismo; o velho Pacheco Valadares de Sá, que não se espantara do seu nobre primo, porque sangue de Ramires, como sangue de Sás, sempre ferve; o Padre Vicente da Finta, que, com os seus parabéns, ofereceu um cestinho de cachos do seu famoso moscatel tinto; e por fim o Visconde de Rio-Manso, que agarrado a Gonçalo, soluçou, no enternecimento quase ufano de que a briga assim rompesse, na estrada, quando "o querido amigo, o amigo da sua Rosa" se encaminhava para a Varandinha. Gonçalo, afogueado, banhado de riso, abraçava, recontava pacientemente a façanha, acompanhava até o portão aqueles cavalheiros, que, ao montar as éguas, ao entrar nas caleches, sorriam para a velha Torre, escura e rígida, na doce claridade da tarde de setembro, como saudando, depois do herói, o secular fundamento do seu heroísmo.

E o Fidalgo, galgando as escadas para a Livraria, de novo murmurava, estonteado:

— Que terão dito os jornais de Lisboa?

Nem dormiu, na ansiedade de os devorar. Quando o Bento, em alvoroço, rompeu pelo quarto com o correio - Gonçalo saltou, arrojou o lençol, como se abafasse. E logo no Século, sofregamente percorrido, encontrou o telegrama de Oliveira, contando o assalto! os tiros disparados! a imensa coragem do Fidalgo da Torre, que com um simples chicote... O Bento quase arrebatou o Século das mãos trêmulas do Fidalgo, para correr à cozinha, bramar à Rosa a notícia gloriosa!

De tarde, Gonçalo correu à Vila-Clara, à Assembléia, para devorar os outros jornais de Lisboa, os do Porto. Todos contavam, todos celebravam! A Gazeta do Porto, atribuindo o atentado a Política, ultrajava furiosamente o Governo. O Liberal Portuense, porém, relacionava "com certas vinganças dos republicanos de Oliveira o pavoroso atentado que quase causara a morte dum dos maiores Fidalgos de Portugal e de Espanha e dum dos mais pujantes talentos da nova geração!" Os jornais de Lisboa glorificavam sobretudo "a coragem esplêndida do Sr. Gonçalo Ramires". E o mais ardente era a Manhã, num verboso artigo (decerto escrito pelo Castanheiro), recordando as heróicas tradições da Casa ilustre, esboçando as belezas do Castelo de Santa Irenéia e terminando por afirmar que, "agora, se esperava com redobrada ansiedade a aparição da novela de Gonçalo Ramires, fundada sobre um feito de seu avô Tructesindo no século XII, e prometida para o primeiro número dos Anais de Literatura e de História, a nova Revista do nosso querido amigo Lúcio Castanheiro, esse benemérito restaurador da Consciência heróica de Portugal!" - As mãos de Gonçalo, ao desdobrar os jornais, tremiam. E o João Gouveia, também sôfrego, devorando também os artigos, por sobre o ombro do Fidalgo, murmurava, impressionado:

— Você, Gonçalinho, vai ter uma votação tremenda! Depois nessa noite, recolhendo à Torre, Gonçalo encontrou uma carta que o perturbou. Era de Maria Mendonça, num papel perfumado, com o mesmo perfume que tão docemente espalhava D. Ana pelo adro de Santa Maria de Craquede: - "Só esta manhã soubemos o grande perigo que passou, e ficamos ambas muito comovidas. Mas ao mesmo tempo eu (e não só eu) muito vaidosa da magnífica coragem do primo. É dum verdadeiro Ramires! Eu não vou aí abraçá-lo (com risco de me comprometer e fazer invejas) porque um dos meus pequenos, o Neco, anda muito constipado. Felizmente não é coisa de cuidado... Mas aqui todos, até os pequenos, ansiamos por ver o herói, e não creio que houvesse nada de extraordinário, nem dum lado nem de outro, em que o primo por aqui aparecesse além de amanhã (quinta-feira) pelas três horas. Dávamos um passeio na quinta, e até se merendava, à boa e velha moda dos nossos avós. Está dito? Muitos cumprimentos, muitos, da Anica, e o primo creia-me, etc." - Gonçalo sorriu, pensativamente, considerando a carta, recebendo o aroma. Nunca a prima Maria lhe empurrara, tão claramente, a D. Ana para os braços... E como D. Ana se deixava empurrar, pronta, e de olhos cerrados... Ah, se fosse somente para a alcova! Mas ai! era também para a Igreja. E de novo sentia aquele vozeirão de Titó, nos degraus da portinha verde com a lua cheia por cima dos olmos negros: 'Essa criatura teve um amante, e tu sabes que eu nunca minto!"

Então tomou lentamente a pena, respondeu a D. Maria Mendonça: - "Querida prima - Fiquei muito enternecido com o seu cuidado, e os seus entusiasmos. Não exageremos! Eu não fiz mais que correr a chicote uns valentões que me assaltaram a tiro. É façanha fácil para quem tenha, como eu, um chicote excelente. Enquanto à visita à Feitosa, que me seria tão agradável, não a posso realizar com fundo pesar meu, nem na quinta-feira, nem mesmo por todo este mês... Ando ocupadíssimo com o meu livro, a minha Eleição, a minha mudança para Lisboa. A era dos cuidados sérios soou severamente para mim - cerrando a doce era dos passeios e dos sonhos. Peço que apresente à Sra. D. Ana os meus profundos respeitos. E com muitas amizades para si, e bons desejos pelo restabelecimento desse querido Neco, espero me creia sempre seu dedicado e grato primo, etc."

Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu sinete de armas sobre o lacre verde, pensava:

— Assim aquele maroto do Titó me rouba duzentos contos!...

Durante toda essa macia semana dos fins de setembro, Gonçalo trabalhou no Capítulo final da sua Novela.

Era enfim a madrugada vingadora em que os Cavaleiros de Santa Irenéia, reforçados pelas mais nobres lanças da mesnada dos Castros, surpreendiam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia Viegas, o Sabedor, o bando de Baião, na sua açodada corrida sobre Coimbra... Briga curta e falsa, sem destro e brioso terçar de armas, mais semelhante a montaria contra um lobo do que a arremetida contra um Filho-de-Algo. E assim a desejara Tructesindo, com ruidosa aprovação de D. Pedro de Castro, porque não se cuidava de combater um inimigo, mas de colher um matador.

Antes do luzir da alva, o Bastardo abalara do castelo de Landim, em dura pressa e com tão descuidada segurança, que nem almogávar nem coudel lhe atalaiavam os trilhos. As cotovias cantavam quando ele, em áspero trote, penetrou por essa brecha, entalada entre escarpas de penedia e urze, que chamam a Racha do Mouro, desde que Mafoma a fendeu para que escapassem às adagas cristãs de El-Rei Fernando, o Magno, o Alcaide mouro de Coimbra e a monja que ele arrebatara à garupa. E apenas pela esguia greta enfiara a derradeira lança da fila - eis que da outra embocadura do vale surge o cerrado troço dos Cavaleiros de Santa Irenéia, que Tructesindo guia, com a viseira erguida, sem broquel, sacudindo apenas uma ascuma de monte como se folgadamente andasse em caçada. Da selva arredada que os encobria, rompem por trás as lanças dos Castros, ristadas e cerrando a brecha mais densamente que as puas duma levadiça. Do recosto dos cerros rola, como represa solta, uma rude e escura peonagem! Colhido, perdido, o Bastardo terrível! Ainda arranca furiosamente a espada, que redemoinhando o coroa de coriscos. Ainda com um fero grito arremete contra Tructesindo... Mas bruscamente, dentre um es curo magote de fundeiros baleares, parte ondeando uma corda de cânave, que o laça pela gargalheira, o arranca num brusco sacão da sela mourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a sua larga espada se entala e se parte rente ao punho dourado. E enquanto os Cavaleiros de Baião agüentam assombradamente o denso cerco de lanças, que os envolvera - um rolo de peões, em dura grita, como mastins sobre um cerdo, arrastarn o Bastardo para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel e adaga, lhe despedaçam o brial de lã roxa, lhe quebram os fechos do elmo, para lhe cuspirem na face, nas barbas cor de ouro, tão belas e de tanto orgulho!

Depois a mesma bruta matula o iça, amarrado, para sobre o dorso duma possante mula de carga, o estende entre dois esguios caixotes de virotões, como rês apanhada ao recolher da montaria. E servos da carriagem ficam guardando o Cavaleiro soberbo, o Claro-Sol que alumiava a casa de Baião, agora entaipado entre dois caixotes de pau, com cordas nos pés, e cordas nas mãos, e nelas espetado um triste ramo de cardo - emblema da sua traição.

No entanto os seus quinze Cavaleiros juncavam o chão, esmagados sob o furioso cerco de lanças que os investira - uns hirtos, como adormecidos, dentro das negras armaduras, outros torcidos, desfeitos, com as carnes retalhadas, pendendo horrendamente entre malhas rotas dos lorigais. Os escudeiros, colhidos, empurrados a pontoada de chuço para a boca duma barroca, sem resgate ou mercê, como alcatéia imunda de roubadores de gado, acabaram, decepados a macheta pelos barbudos estafeiros leoneses. Todo o vale cheirava a sangue como um pátio de magarefes. Para reconhecer os companheiros do Bastardo, uma turma de Cavaleiros desafivelava os gorjais, as viseiras, arrancando furtivamente as medalhas de prata, os bentos, saquinhos de relíquias, que todos traziam como bem-tementes. Numa face, de fina barba negra, que uma espuma sangrenta manchava, Mendo de Briteiros reconheceu seu primo Soeiro de Lugilde com quem, pela fogueira de S. João, folgara tão docemente e bailara no castelo de Unhelo - e vergado sobre a alta sela rezou, pela pobre alma sem confissão, uma devota Ave-Maria. Fuscas, tristonhas nuvens, abafavam a manhã de agosto. E afastados à entrada do vale, sob a ramagem dum velho azinheiro, Tructesindo, D. Pedro de Castro, e Garcia Viegas, o Sabedor, decidiam que morte lenta, e bem dorida e viltosa, se daria ao Bastardo, vilão de tão negra vilta.

Contando assim a sombria emboscada com o gemente esforço de quem empurra um arado por terra pedreira - gastara Gonçalo essa doce semana de setembro. E no sábado, cedo, na Livraria, com os cabelos ainda molhados do banho de chuva, esfregava as mãos diante da banca - porque certamente com duas horas de atento trabalho findaria antes do almoço a sua Novela, a sua Obra! E todavia esse final quase o repelia, com o seu sujo horror. O tio Duarte no seu Poemeto apenas o esboçara, com esquiva indecisão, como nobre Lírico que ante uma visão de bruta ferocidade solta um lamento, resguarda a Lira, e desvia para sendas mais doces. E, ao tomar a pena, Gonçalo, também, realmente lamentava que seu avô Tructesindo não matasse outrora o Bastardo, no fragor da briga, com uma dessas cutiladas maravilhosas, e tão doces de celebrar, que racham o Cavaleiro e depois racham o ginete, e para sempre retinem na História.

Mas não! Sob a folhagem do azinheiro, os três Cavaleiros combinavam com lentidão uma vingança terrifica. Tructesindo desejara logo recolher a Santa Irenéia, alçar uma forca diante das barbacãs, no chão em que seu filho rolara morto, e nela enforcar, depois de bem açoitado, como vilão, o vilão que o matara. O velho D. Pedro de Castro, porém, aconselhava despacho mais curto, e também gostoso. Para que rodear por Santa Irenéia, desbaratar esse dia de agosto na arrancada que os levava a Montemor, a socorro das Infantas de Portugal? Que se estendesse o Bastardo amarrado sobre uma trave, aos pés de D. Tructesindo, como porco pelo Natal, e que um cavalariço lhe chamuscasse as barbas, e depois outro, com facalhão de ucharia, o sangrasse no pescoço, pachorrentamente.

— Que vos parece, Sr. D. Garcia?

O Sabedor desafivelara o casco de ferro, limpava nas rugas o suor e a poeira da lide:

— Senhores e amigos! Temos melhor, e perto também, sem delongas de cavalgada, logo adiante destes cerros, no Pego das Bichas... E nem torcemos caminho, que de lá, por Tordezelo e Santa Maria da Varge, endireitamos a Montemor, tão direitos como voa o corvo... Confiai em mim, Tructesindo! Confiai em mim, que eu arranjarei ao Bastardo tal morte e tão vil, que doutra igual se não possa contar desde que Portugal foi condado.

— Mais vil que forca, para Cavaleiro, meu velho Garcia?

— Lá vereis, senhores e amigos, lá vereis!

— Seja! Mandai dar às buzinas.

Ao comando de Afonso Gomes, o Alferes, as buzinas soaram. Um troço de besteiros e de estafeiros leoneses rodearam a mula que carregava o Bastardo amarrado e entalado entre dois caixotes. E, acaudilhada por D. Garcia, a curta hoste meteu para o Pego das Bichas, em desbando com os senhores de lança espalhados, como em marcha de folgança e paz (?), e todos numa rija falada recordando, entre gabos e risos, as proezas da lide.

As duas léguas de Tordezelo e do seu castelo formoso, se escondia entre os cerros o Pego das Bichas. Era um lugar de eterno silêncio e de eterna tristeza. Em esmerados versos lhe marcara o tio Duarte a desolada asperidão:

Nem trilo de ave em balançado ramo!

Nem fresca flor junto de fresco arroio!

Só rocha, matagal, ribas soturnas,

E em meio o Pego, tenebroso e morto!...

E quando os primeiros Cavaleiros, galgada a lomba dum cerro, o avistaram, na melancolia da manhã nevoenta, emudeceram da larga falada, repuxaram os freios, assustados ante tão áspero ermo, tão propício a Bruxas, a Avantesmas e a Almas penadas. Diante do escalavrado barranco, por onde os ginetes escorregavam, ondulava uma ribanceira, aberta com charcos lamacentos, quase chupados pela estiagem, luzindo pardamente, por entre grossos pedregulhos e o tojo rasteiro. Ao fundo, a meio tiro de besta, negrejava o Pego, lagoa estreita, lisa, sem uma ruga n'água, duramente negra, com manchas mais negras, como lâmina de estanho onde alastrasse a ferrugem do tempo e do abandono. Em torno subiam os cerros, eriçados de mato bravio e alto, sulcados por trilhos de saibro vermelho como por fios de sangue que escorresse, e rasgado no alto por penedias lustrosas, mais brancas que ossadas. Tão pesado era o silêncio, tão pesada a soledade, que o velho D. Pedro de Castro, homem de tanta jornada, se espantou:

— Feia paragem! E voto a Cristo, a Santa Maria, que nunca antes de nós, nela entrou homem remido pelo batismo.

— Pois, Sr. D. Pedro de Castro! - acudiu o Sabedor já por aqui se moveu muita lança, e luzida, e ainda em tempos do Conde D. Soeiro, e de vosso Rei D. Fernando, se erguia naquela beira d'água, uma castelania famosa! Vede além! - E mostrava na ponta do Pego, fronteira ao barranco, dois rijos pilares de pedra, que emergiam da água negra, e que chuva e vento poliram como mármores finos. Um passadiço de traves, sobre estacas limosas e meio apodrecidas, atava a margem ao mais grosso dos pilares. E a meio desse rude esteio pendia uma argola de ferro.

No entanto já o tropel da peonagem se espalhara pela ribanceira. D. Garcia Viegas desmontou, bradando por Pero Ermigues, o Coudel dos besteiros de Santa Irenéia. E, ao lado do ginete de Tructesindo, risonho e gozando a surpresa, ordenou ao Coudel que seis dos seus rijos homens descessem o Bastardo da mula, o estirassem no chão, o despissem, todo nu, como sua mãe barregã o soltara à negra vida...

Tructesindo encarou o Sabedor, franzindo as sobrancelhas hirsutas:

— Por Deus, D. Garcia! que me ides simplesmente afogar o vilão, e sujar essa água inocente!...

E alguns Cavaleiros, em redor, murmuraram também contra morte tão quieta e sem malícia. Mas os miúdos olhos de D. Garcia giravam, lampejavam de triunfo e gosto:

— Sossegai, sossegai! Velho estou certamente, mas ainda o senhor Deus me consente algumas traças. Não! Nem enforcado, nem degolado, nem afogado... Mas chupado, senhores! Chupado em vida, e devagar, pelas grandes sanguessugas que enchem toda essa água negra!

D. Pedro de Castro, maravilhado, bateu o guante nas solhas do coxote:

— Vida de Cristo! Que ter numa hoste o Sr. D. Garcia, é ter juntamente, para marchas e conselho, enrolados num só, Anibal e Aristóteles!

Um rumor de admiração correu pela hoste:

— Boa traça, boa traça!

E Tructesindo, radiante, bradava:

— Andar, andar, besteiros! E vós, senhores, recuai para a lomba do cerro, como para palanque, que vai ser grande a vista! Já seis besteiros descarregavam da mula o Bastardo amarrado. Outros cercavam, com molhos de cordas. E, como magarefes para esfolar uma rês, toda a rude turma se abateu sobre o malfadado, arrancando por cordas que desatavam a cervilheira, o saio, as grevas, os sapatões de ferro, depois a grossa roupa de linho encardido. Agarrado pelos compridos cabelos, filado pelos pés, onde se cravavam agudas unhas no furor de o manter, com os braços esmagados sob outros grossos braços retesos, o possante Bastardo ainda se estorcia, urrando, cuspindo contra as faces confusas da matulagem um cuspo avermelhado, que espumava!

Mas, por entre o escuro tropel que o cobria, o seu corpo, todo despido, branquejava, atado com cordas mais grossas. Lentamente o seu furioso urrar esmorecia, arquejado e rouquenho. E um após outro se erguiam os besteiros, esfalfados, bufando, limpando o suor do esforço.

No entanto os Cavaleiros de Espanha, de Santa Irenéia, desmontavam cravando o couto das lanças entre o tojo e as pedras. Todos os recostos dos outeiros se cobriam da mesnada espalhada, como palanques em tarde de justa. Sobre uma rocha mais lisa, que dois magros espinheiros toldavam de folha rala, um pajem estendera peles de ovelha para o Sr. D. Pedro de Castro, para o senhor de Santa Irenéia. Mas só o velho Castelão se acomodou, para uma repousada delonga desafivelando o seu corselete de ferro tauxiado de ouro.

Tructesindo permanecera erguido, mudo, com os guantes apoiados ao punho da sua alta espada, os olhos fundos avidamente cravados na tenebrosa lagoa que, com morte tão fera e tão suja, vingaria seu filho... E pela borda do Pego, peões, e alguns Cavaleiros de Espanha, remexiam com virotôes, com os coutos das ascumas, a água lodosa, na curiosidade das negras bichas escondidas, que o povoam.

Subitamente a um brado de D. Garcia, que rondava, toda a chusma de peões amontoada em torno ao Bastardo se arredou: e o forte corpo apareceu, nu e branco, sobre a terra negra, com um denso pêlo ruivo nos peitos, a sua virilidade afogada noutra mata de pêlo ruivo, e todo ligado por cordas de cânave que o inteiriçavam. Naquela rigidez de fardo, nem as costelas arfavam - apenas os olhos refulgiam, ensangüentados, horrendamente esbugalhados pelo espanto e pelo furor. Alguns Cavaleiros correram a mirar a aviltada nudez do homem famoso de Baião. O senhor dos Paços de Argelim mofou, com estrondo:

— Bem o sabia, por Deus! Corpo de manceba, sem costura de ferida!...

Leonel de Samora raspou o sapato de ferro pelo ombro do malfadado:

— Vede este Claro-Sol, tão claro, que se apaga agora, em água tão negra!

O Bastardo cerrava duramente as pálpebras - donde duas grossas lágrimas escaparam, lentamente rolaram... Mas um agudo pregão ressoou pela ribanceira:

— Justiça! Justiça!

Era o Adail de Santa Irenéia, que marchava, sacudia uma lança, atroava os cerros:

— Justiça! justiça que manda fazer o senhor de Treixedo e de Santa Irenéia, num perro matador!... Justiça num perro, filho de perra, que matou vilmente, e assim morra vilmente por ela!...

Três vezes pregoou por diante da hoste apinhada nos cerros. Depois quedou, saudou humildemente Tructesindo Ramires, o velho Castro, como ajulgadores no seu Estrado de julgamento.

— Aviai, aviai! - bradava o Senhor de Santa Irenéia.

Imediatamente, a um comando do Sabedor, seis besteiros, com as pernas embrulhadas em mantas da carga, ergueram o corpo do Bastardo como se ergue um morto enrolado no seu lençol, e com ele entraram na água, até o mais alto pilar de granito. Outros, arrastando molhos de cordas, correram pelo limoso passadiço de traves. Com um alarido de agüenta! endireita! alça! num desesperado esforço o robusto corpo branco foi mergulhado n'água até as virilhas, arrimado ao mais alto pilar, depois nele atado com um longo calabre que, passando pela argola de ferro, o suspendia, sem escorregar, tão seguro e colado como um rolo de vela que se amarra ao mastro. Rapidamente os besteiros fugiram d'água, desentrapando logo as pernas, que palpavam, raspavam no horror das bichas sugadoras. Os outros recolheram pelo passadiço, numa fila que se empurrava. No Pego ficava Lopo de Baião bem arranjado para a vistosa morte lenta, com a água que já o afogava até as pernas, com cordas que o enroscavam até o pescoço, como a um escravo no poste; e uma espessa mecha dos cabelos louros laçada na argola de ferro, repuxando a face clara, para que todos nela gozassem largamente a humilhada agonia do Claro-Sol.

Então o atento da hoste, esperando espalhada pelos recostos dos cerros, mais entristeceu o enevoado silêncio do ermo. A água jazia sem um arrepio, com as suas manchas, negras como uma lâmina de estanho enferrujado. Entre as cristas das rochas, arqueiros postados pelo Sabedor atalaiavam, para além, os descampados. Um alto vôo de gralha atravessou grasnando. Depois um bafo lento agitou as flâmulas das lanças cravadas no tojo denso.

Para despertar, aviar a lentidão das bichas, alguns peões atiravam pedras à água lodosa. Já alguns Cavaleiros espanhóis rosnavam impacientes com a delonga, naquela cova abafada. Outros, descendo agachados à borda da lagoa, para mostrar que as faladas bichas nunca acudiriam, mergulhavam lentamente, n'água negra, as mãos descalçadas, que depois sacudiam, rindo e mofando do Sabedor... Mas de repente um estremeção sacudiu o corpo do Bastardo; os seus rijos músculos, no furioso esforço de se desprenderem, inchavam entre as cordas, como cobras que se arqueiam; dos beiços arreganhados romperam, em rugidos, em grunhidos, ultrajes e ameaças contra Tructesindo covarde, e contra toda a raça de Ramires, que ele emprazava, dentro do ano, para as labaredas do Inferno! Indignado, um Cavaleiro de Santa Irenéia agarrou uma besta de garrunche, a que retesou a corda.

Mas D. Garcia deteve o arremesso:

— Por Deus, amigo! Não roubeis às sanguessugas nem uma pinga daquele sangue fresco!... Vede como vêm! vede como vêm!

Na água espessa, em torno às coxas mergulhadas do Bastardo, um frêmito corria, grossas bolhas empolavam - e delas, molemente, uma bicha surdiu, depois outra e outra, luzidias e negras, que ondulavam, se colavam à branca pele do ventre, donde pendiam, chupando, logo engrossadas, mais lustrosas como lento sangue que já escorria. O Bastardo emudecera - e os seus dentes batiam estridentemente. Enojados, até rudes peões desviaram a face cuspindo para as urzes. Outros, porém, chasqueavam, assuavam as bichas, gritando: - a ele, donzelas! a ele! E o gentil Çamora de Cendufe clamava rindo contra tão insossa morte! Por Deus! Uma apostura de bichas, como a enfermo de almorreimas. Nem era sentença de Rico-homem - mas receita de herbanista mouro!

— Pois que mais quereis, meu Leonel? - acudiu alegremente o Sabedor, resplandecendo. - Morte é esta para se contar em livros! E não tereis este inverno serão à lareira, por todos os solares de Minho a Douro, em que não volte a história deste Pego, e deste feito! Olhai nosso primo Tructesindo Ramires! Formosos tratos presenciou decerto em tão longo lidar de armas!... E como goza! tão atento! tão maravilhado!

Na encosta do outeiro, junto do seu balsão, que o Alferes cravara entre duas pedras, e como ele tão quedo, o velho Ramires não despregava os olhos do corpo do Bastardo, com deleite bravio, num fulgor sombrio. Nunca ele esperara vingança tão magnífica! O homem que atara seu filho com cordas, o arrastara numas andas, o retalhara a punhal diante das barbacãs da sua Honra - agora, vilmente nu, amarrado também como cerdo, pendurado dum pilar, emergido numa água suja, e chupado por sanguessugas, diante de duas mesnadas, das melhores de Espanha, que miravam, que mofavam! Aquele sangue, o sangue da raça detestada, não o bebia a terra revolta numa tarde de batalha, escorrendo de ferida honrada, através de rija armadura - mas, gota a gota, escuramente e molemente se sumia, sorvido por nojentas bichas, que surdiam famintas do lodo e no lodo recaíam fartas, para sobre o lodo bolçar o orgulhoso sangue que as enfartara. Num charco, onde ele o mergulhara, viscosas bichas bebiam sossegadamente o Cavaleiro de Baião! Onde houvera homizio de solares fundado em desforra mais doce?

E a fera alma do velho acompanhava, com inexorável gozo, as sanguessugas subindo, espalhadamente alastrando por aquele corpo bem amarrado, como seguro rebanho pela encosta da colina onde pasta. O ventre já desaparecia sob uma camada viscosa e negra, que latejava, reluzia na umidade morna do sangue. Uma fila sugava a cinta, encovada pela ânsia, donde sangue se esfiava, numa franja lenta. O denso pêlo ruivo do peito, como a espessura duma selva, detivera muitas, que ondulavam, com um rasto de lodo. Um montão enovelado sangrava um braço. As mais fartas, já inchadas, mais reluzentes, despegavam, tombavam molemente; mas logo outras, famintas, se aferravam. Das chagas abandonadas o sangue escorria delgado, represo nas cordas, donde pingava como uma chuva rala. Na escura água boiavam gordas postemas de sangue esperdiçado. E assim sorvido, ressumando sangue, o malfadado ainda rugia, através ultrajes imundos, ameaças de mortes, de incêndios, contra a raça dos Ramires! Depois, com um arquejar em que as cordas quase estalavam, a boca horrendamente escancarada e ávida, rompia aos roucos urros, implorando água, água! No seu furor as unhas, que uma volta de amarras lhe colara contra as fortes coxas, esfarrapavam a carne, cravavam-se na fenda esfarrapada, ensopadas de sangue.

E o furioso tumulto esmorecia num longo gemer cansado - até que parecia adormecido nos grossos nós das cordas, as barbas reluzindo sob o suor que as alagara como sob um grosso orvalho, e entre elas a espantada lividez dum sorriso delirado.

No entanto já na hoste derramada pelos cerros, como por um palanque, se embotara a curiosidade bravia daquele suplício novo. E se acercava a hora da ração de meridiana. O Adail de Santa Irenéia, depois o Almocadém Espanhol, mandaram soar os anafins. Então todo o áspero ermo se animou com uma faina de arraial. O almazém das duas mesnadas parara por detrás dos morros, numa curta almargem de erva, onde um regato claro se arrastava nos seixos, por entre as raízes de amieiros chorões. Numa pressa esfaimada, saltando sobre as pedras, os peões corriam para a fila dos machos de carga, recebiam dos uchões e estafeiros a fatia de carne, a grossa metade dum pão escuro; e, espalhados pela sombra do arvoredo, comiam com silenciosa lentidão, bebendo da água do regato pelas concas de pau. Depois preguiçavam, estirados na relva - ou trepavam em bando pela outra encosta dos morros, através do mato, na esperança de atravessar com um virote alguma caça erradia. Na ribanceira, diante da lagoa, os Cavaleiros, sentados sobre grossas mantas, comiam também, em roda dos alforjes abertos, cortando com os punhais nacos de gordura nas grossas viandas de porco, empinando, em longos tragos, as bojudas cabaças de vinho.

Convidado por D. Pedro de Castro, o velho Sabedor descansava, partilhando duma larga escudela de barro, cheia de bolo papal, dum bolo de mel e flor de farinha, onde ambos enterravam lentamente os dedos, que depois limpavam ao forro dos morriões. Só o velho Tructesindo não comia, não repousava, hirto e mudo diante do seu pendão, entre os seus dois mastins, naquele fero dever de acompanhar, sem que lhe escapasse um arrepio, um gemido, um fio de sangue, a agonia do Bastardo. Debalde o Castelão, estendendo para ele um pichel de prata, gabava o seu vinho de Tordesilhas, fresco como nenhum de Aquilat ou de Provins, para a sede de tão rija arrancada. O velho Rico-homem nem atendera: - e D. Pedro de Castro, depois de atirar dois pães aos alões fiéis, recomeçou discorrendo com Garcia Viegas sobre aquele teimoso amor do Bastardo por Violante Ramires que arrastara a tantos homizios e furores.

— Ditosos nós, Sr. D. Garcia! Nós a quem a idade e o quebranto e a fartura já arredam dessas tentações... Que a mulher, como me ensinava certo físico quando eu andava com os Mouros, é vento que consola e cheira bem, mas tudo enrodilha e esbandalha. Vede como os meus por elas penaram! Só meu pai, com aquela desvairança de zelos, em que matou a cutelo minha doce madre Estevaninha. E ela tão santa, e filha do Imperador! A tudo, tudo leva, a tonta ardência! Até a morrer, como este, sugado por bichas, diante duma hoste que merenda e mofa. E por Deus, quanto tarda em morrer, Sr. D. Garcia!

— Morrendo está, Sr. D. Pedro de Castro. E já com o demo ao lado para o levar!

O Bastardo morria. Entre os nós das cordas ensangüentadas todo ele era uma ascorosa avantesma escarlate e negra com as viscosas pastas de bichas que o cobriam, latejando com os lentos fios de sangue que de cada ferida escorriam, mais copiosos que os regos de umidade por um muro denegrido.

O desesperado arquejar cessara, e a ânsia contra as cordas, e todo o furor. Mole e inerte como um fardo, apenas a espaços esbugalhava horrendamente os olhos vagarosos, que revolvia em torno com enevoado pavor. Depois a face abatia, lívida e flácida, com o beiço pendurado, escancarando a boca em cova negra, de onde se escoava uma baba ensangüentada. E das pálpebras novamente cerradas, intumescidas, um muco gotejava, também como de lágrimas engrossadas com sangue.

A peonagem, no entanto, voltando da ração, reatulhava a ribanceira, pasmava, com rudes chufas para o corpo pavoroso que as bichas ainda sugavam. Já os pajens recolhiam mantéis e alforjes. D. Pedro de Castro descera do cabeço com o Sabedor até a borda da água lodosa, onde quase mergulhava os sapatos de ferro, para contemplar, mais de cerca, o agonizante de tão rara agonia! E alguns senhores, estafados com a delonga, afivelando os gibanetes, murmuravam: - "Está morto! Está acabado!"

Então Garcia Viegas gritou ao Coudel dos Besteiros:

— Ermigues, ide ver se ainda resta alento naquela postema.

O Coudel correu pelo passadiço de traves, e arrepiado de nojo palpou a lívida carne, acercou da boca, toda aberta, a lâmina clara da adaga que desembainhara.

— Morto! morto! - gritou.

Estava morto. Dentro das cordas que o arroxeavam o corpo escorregava, engelhado, chupado, esvaziado. O sangue já não manava, havia coalhado em postas escuras, onde algumas bichas teimavam latejando, reluzindo. E outras ainda subiam, tardias. Duas, enormes, remexiam na orelha. Outra tapava um olho. O Claro-Sol não era mais que uma imundície que se decompunha. Só a madeixa dos cabelos louros, repuxada, presa na argola, reluzia com um lampejo de chama, como rastro deixado pela ardente alma que fugira.

Com a adaga ainda desembainhada, e que sacudia, o Coudel avançou para o senhor de Santa Irenéia, bradou:

— Justiça está feita, que mandastes fazer no perro matador que morreu!

Então o velho Rico-homem, atirando o braço, o cabeludo punho, com possante ameaça, bradou, num rouco brado que rolou por penhascos e cerros:

— Morto está! E assim morra de morte infame quem traidoramente me afronte a mim e aos da minha raça!

Depois, cortando rigidamente pela encosta do cerro, através do mato, e com um largo aceno ao Alferes do Pendão:

— Afonso Gomes, mandai dar às buzinas. E a cavalo, se vos praz, Sr. D. Pedro de Castro, primo e amigo, que leal e bom me fostes!...

O Castelão ondeou risonhamente o guante:

— Por Santa Maria, primo e amigo! que gosto e honra os recebi de vós. A cavalo pois se vos praz! Que nos promete aqui o Sr. D. Garcia vermos ainda, com sol muito alto, os muros de Montemor.

Já a peonagem cerrava as quadrilhas, os donzéis de armas puxavam para a ribanceira os ginetes folgados que a vasta água escura assustava. E, com os dois balsões tendidos, o Açor negro, as Treze Arruelas, a fila da cavalgada atirou o trote pelo barranco empinado, donde as pedras soltas rolavam. No alto, alguns Cavaleiros ainda se torciam nas selas para silenciosamente remirarem o homem de Baião, que lá ficava, amarrado ao pilar, na solidão do Pego, a apodrecer. Mas quando a ala dos besteiros e fundibulários de Santa Irenéia desfilou, uma rija grita rompeu, com chufas, sujas injúrias ao "perro matador". A meio da escarpa, um besteiro, virando, retesou furiosamente a besta. A comprida garruncha apenas varou a água. Outra logo ziniu, e uma bala de funda, e uma seta barbada - que se espetou na ilharga do Bastardo, sobre um negro novelo de bichas. O Coudel berrou: "cerra! anda!" A récua das azêmolas de carga avançava, sob o estalar dos látegos; os moços da carriagem apanhavam grossos pedregulhos, apedrejavam o morto. Depois os servos carreteiros marcharam, nos seus curtos saios de couro cru, balançando um chuço curto: - e o capataz apanhou simplesmente esterco das bestas, que chapou na face do Bastardo sobre as finas barbas de ouro.