A Intrusa/VII

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A Intrusa por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo VII


O domingo amanhecera de chuva; um bom dia para preguiça. Argemiro escreveu aos velhos desculpando-se por não ir vê-los e deliberou consagrar essa manhã aos papéis em desordem. Fora uma providência Glória não ter vindo.

Com tão feio dia...

A verdade, que ele sentia, que o penetrava por todos os poros, era que a sua casa nunca lhe soubera tão bem. Havia um conforto novo, um aroma de malva ou de pomar florido, melhor luz, melhor ar, por aqueles compartimentos que o Feliciano, quando sozinho, enchia do cheiro dos cigarros e dos charutos. Sempre era um fumante!

Agora não; percebia-se que o ar daqueles quartos tinha sido renovado e o ambiente purificado pelas roseiras abundantes do jardim.

Argemiro sentiu nessa manhã, pela primeira vez, uma certa curiosidade de ver Alice; mas não procurou pretexto para isso, certo de que, estando muitas horas em casa, forçosamente esbarraria com ela por acaso. Deixava pois, e de bom grado, a esse senhor a responsabilidade do encontro. Daí, a idéia moça trazia-lhe à lembrança umas pobres botinas cambadas...

O seu gabinete reluzia de asseio, cheirava bem, não precisava de mais nada.

Começou tranqüilamente a leitura dos jornais.

Estava em meio de um artigo, quando o padre Assunção bateu à porta.

– Então! Preguiçoso!

– Entra. Como vês! Tens razão, preguiçoso! E nunca tanto como agora... absolve-me e senta-te.

– Cá estou... bravo, como esta cadeira está bonita!...

– Que cadeira? homem, é verdade... hás de crer? Ainda não tinha reparado... agora me lembro, ela tinha o estofo do espaldar esgarçado... Este lírio seria pintado por d. Alice?

– Se te não pôs na conta do estofador...

– Posso verificar já. Ontem à noite recebi uma caderneta com a nota das despesas do mês e... pasma, saldo a meu favor! Eu não dizia que o Feliciano era um abismo? Que diferença! basta olhar. Tu, que és mais observador, repara: está tudo luminoso, tudo límpido, tudo bem arranjadinho... hein? Há outra atmosfera nesta casa; estou melhor aqui do que em parte nenhuma, porque em tudo me parece haver o propósito de me ser agradável. Abre essa gaveta, e verás como está bem arranjadinha a minha roupa branca. Um primor! E o que me delicia é sentir a alma desta criatura, que aqui tenho debaixo do meu teto, sem que nunca os meus olhos a vejam nem de relance... Ela esconde-se, ao mesmo tempo que se espalha pela casa toda. É a mulher-violeta, positivamente, não há outra comparação! Esta será estafada em literatura, mas na vida prática talvez nunca tivesse tão boa aplicação... A Glória, que é tão rebelde, já aprendeu com ela alguma coisa... Faz crochê! É uma coisa abominável, o crochê; mas, enfim, é uma prenda... Eu deveria ter tomado esta resolução há mais tempo...

– Talvez não tivesse vindo esta mulher... Outra seria assim?

– Não! Ontem, por exemplo, entrei em casa uma hora antes do costume; atravessava o jardim, quando senti acordes no piano; mas acordes bem harmônicos, vibrados por dedos disciplinados, conscientes. Ouvindo-me tocar a campainha, ela fugiu da sala; e quando eu entrei, um pouco curioso, confesso-te, encontrei o piano aberto, mas a sala deserta... Logo, esta mulher é uma mulher educada,; desenha, aí está esse lírio, que o prova; sabe música e escreve com firme caligrafia. Glória tem aqui uma excelente companheira e a minha casa uma alma inteligente, que lhe faltava desde a morte de Maria, que aliás não era tão prendada... Enfim, enquanto eu me visto, examina essa caderneta, acolá, naquela mesa...

– Para quê, meu velho? Só a ti compete isso. Eu não entendo de cifras. Mesmo de almas, apesar de me ter dedicado a elas, cada vez entendo menos... Estou um ignorantão.

– Almoças comigo? almoças, sim, e vais ver o que é uma mesa bem posta; sempre com flores e com frutas. Esta mulher deve ter sido criada com luxo. Noto que ela gosta de rendas... Enfim, estou contente!

– Lamento.

– Hein?

– Lamento.

– Estás doido!

– Não.

– Explica-te. Ah! já sei! pensas talvez que estou apaixonado?! Quem me dera, Assunção, que assim fosse! Não sei que filtro misterioso tinha a minha pobre Maria, que não me deixa amar mais ninguém!... Se eu fosse espírita explicaria isso bem, dizendo-te que a sinto à roda de mim, e que ela se interpõe mesmo entre os meus mais frívolos beijos! Mas sabes que não sou espírita, nem religioso. O que me apraz, nesta situação, é sentir em roda de mim a influência de uma mulher moça, sem contudo a ver nunca. Gosto do silêncio e da ordem e a sua presença me perturbaria; assim, ela preside à minha casa, sendo para mim como um ser imaterial, que não me impõe a maçada dos cumprimentos, e eu vivo rodeado de solicitudes, podendo conservar a minha impassibilidade. Não acredites que me seja possível amar outra mulher, como amei a minha... O ciúme dela criou tantos fantasmas que eu mesmo acabei por temê-los!

– Pois foi para espantar um desses fantasmas, que tua sogra me chamou ontem. Jantei lá em cima.

– Sim?! E Glória? como a achaste?

– Perfeita, isto é, perfeita quanto ao físico. Parece uma maçã madura. Até a pele lhe cheira a fruta! Mas escuta: a baronesa, como toda a gente, menos eu, desconfia que tens pela tua governanta uma adoração menos espiritual.

– Já me tardava, o ciúme! Maria vive naquele coração como no meu!

– Folgo que a compreendas e a desculpes... que tencionas fazer?

– Nada. Afirma-lhe tu que não existe ligação absolutamente entre essa pobre moça (que conheces muito melhor do que eu) e o viúvo da filha...

– Já afirmei.

– E então?

– Não se contentou...

– Achas então que devo despedir esta senhora, que me torna a vida agradável, fácil e boa, só por um capricho da minha sogra?

– Acho.

– Ora! isso é levar muito longe a minha afeição filial!

– É uma medida de prudência...

– Mas se eu já te disse que estamos na mesma casa e é como se morássemos a cem léguas um do outro! De que cor são os seus olhos? nem sei. Dize a minha sogra que farei tudo por ela, menos isso... Com o governo da minha casa ninguém tem nada que ver. Nada! Lê a caderneta, que é melhor. Verifica como tudo isso está em ordem, direitinho... Nem um guarda-livros!

– Não digo que não. Amanhã terei de ir falar com tua sogra, a respeito de um lugar que arranjei no Asilo, para uma criança sua protegida. Desejaria levar-te em minha companhia. Há algum tempo que não apareces por lá. Ela adora-te. Farás bem em sossegá-la... Por hoje basta sobre o assunto. És ainda moço, Argemiro, e o tempo fará o milagre que desejas... Temos outra conversa de interesse: terás porventura entre as jóias de tua mulher algum alfinetinho, ou broche, não sei bem como se chama, que possas levar à nossa Glória? Ela deu bem as suas lições, segundo me disse o avô, e seria justo recompensá-la. Para incitamento, prometi-lhe que lhe levaria uma lembrança que tivesse pertencido à mãe... Sobretudo, é naquele coração que se deve cultivar a adoração dela... Contraria-te a idéia?

– Não será cedo para dar jóias a minha filha?

– Conforme a jóia; vamos ver... onde as tens?

– No cofre. Espera... ou antes, vem comigo.

Entraram para um gabinete contíguo e enquanto Argemiro escolhia a chave do cofre, Assunção estremeceu à idéia de poderem verificar um roubo...

Feliciano vira no peito de Alice um alfinete de Maria... a baronesa o dissera. Logo, se as jóias faltassem...

Era uma andorinha de pedras...

Senhor! Uma minúscula andorinha de pedras teria o poder de fazer tremer um homem?!

A chave rangeu na porta do cofre e Argemiro tirou de dentro uma caixa de cetim branco, amarelecido, que levou para cima da mesa.

– Há quanto tempo não mexo nisto! Faz-me saudades... Escolhe tu...

– Não... escolheremos juntos...

Argemiro abriu a caixa e logo Assunção suspirou de alívio vendo reluzir as pedrarias dos anéis e das pulseiras.

– Ela tinha muitas jóias... gostava de brilhantes... e a Glória, por enquanto, ainda não pode usar brilhantes... – disse Argemiro.

Colares, broches e pulseiras iam sendo retirados do cofre, com a maior atenção, num silêncio comovido.

Quantas vezes a dona lhes sorrira e os deslumbrara no meio daqueles adereços?

Não brilhava tanto uma estrela, como os seus cabelos de ouro coroados por aquele diadema... os anéis faziam-lhe saudades dos seus dedinhos pálidos e meigos.

De repente, Assunção gritou com júbilo:

– Este!

– Este? É também de brilhantes...

– São uns diamantinhos modestos. E depois representa uma avezinha inocente, símbolo da primavera... leva-lhe esta andorinha, e coloca-a tu mesmo no peito de tua filha, em nome de sua mãe...

– Mas que tens tu? estás trêmulo, com os olhos rasos d’água!

– Abraça-me, meu velho. Também eu tive saudades de Maria... que queres?

– Eras o seu confessor... e agora, com franqueza, dize-me: um homem que foi casado com um anjo daqueles, pode jamais pensar em outra mulher?

– Pode; e pensarás e hás de ser feliz. Quem sabe? talvez mais!

Argemiro olhava para o padre, com certo espanto.

– Agora fecha a caixa e apressa a tua toalete. Lembra-te que estou em jejum e com fome...

– Vai descendo... Eu irei ter contigo num minuto.

Momentos depois sentavam-se à mesa. Alice armara uma cestinha de flores e frutos, entrelaçando-as com umas pontas de renda. Argemiro apontou-as com o dedo:

– Lembras-te do que te disse lá em cima? Gostos finos... rendas... flores...

Padre Assunção sorriu, acenou que sim, desdobrou o seu guardanapo e começou:

– Um pouco de política: ouvi dizer que o...

Um criado interrompeu a frase, servindo os hors d’oeuvre; mas logo depois a palestra enveredou afoitamente pelos labirintos da Câmara e do Senado.