A Intrusa/XII

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A Intrusa por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo XII


Bem dizem os romancistas que os romances se fazem por si. Criada a personagem, posta no meio em que terá de agir, ela caminhará por seus pés até o ponto final do último capítulo.

Acontece, por isso, que o autor tem, às vezes, verdadeiras surpresas, como se todos os atos dos seus heróis não fossem obra sua! Concebida a idéia fundamental do livro, está criado o sopro de vida que o animará. A dificuldade está toda no primeiro impulso! Hei de sempre lembrar-me de uma noite em que fui encontrar o Tadeu, pálido, passeando agitadíssimo pelo escritório, com um verdadeiro ar de fúria.

– Que tens tu?! – perguntei-lhe assustado, de entre portas.

Voltou para mim os olhos esgazeados e disse, com uma sinceridade comovedora:

– Tenho que o patife do Brás apaixonou-se por tal forma pela Delfina, que não sei como hei de casá-lo com a Lucinda! – e apontava com o dedo colérico para as folhas esparsas do seu romance, desordenadas por um vento de insubmissão. O caso era grave. Entrei, sentei-me e fiquei calado, assistindo ao duelo fantástico de um romancista com a sua personagem revoltada.

Por fim, aventurei timidamente, querendo valer àquela aflição:

– Por que não casas essa tal Lucinda com outro? que diabo!

– Com outro?! estás doido! Ela adora o Brás e não pode absolutamente casar com outro. Seria um desastre! Com o Brás é que ela há de casar, quer ele queira, quer não queira!

O desespero do romancista era tão evidente e profundo, que eu não ri. Fiquei desde então convencido de que a ficção, como a realidade, obedece a leis de imprevisto e de fatalidade. Li depois o romance... O Brás não casou com a Lucinda. Porque não quis, está claro!”

Adolfo, acabando de dizer estas palavras, soltou uma baforada de fumo, afundou mais o corpo na larga poltrona do Argemiro e suspirou:

– Está-se bem aqui!

– Não achas? Pois essa poltrona amável estava encerrada no quarto dos badulaques por imprestável! Foi ela que a arrancou de lá, mandou-a ao estofador e pô-la aqui. E guerreiam uma mulher que me presta tais serviços!

– Deixa guerrear... Na vida, como nos folhetins, os romances fazem-se por si... Vê tu o trabalho e os manejos da Pedrosa em que deram! Surpreendeu-me tanto o que disseste da filha, que estou quase apaixonado por ela... Palavra! nunca a supus capaz de uma cena tão fina. Parece do Tadeu.

– E estava linda!

– Demais a mais... – e depois de uma pausa: – A tua governanta é bonita? Disse-me a Pedrosa que não. Por isso infiro que sim.

– Não sei...

– Deixa-te de asneiras; sê franco.

– Já te disse.

– Ela leva o seu rigor até os teus amigos?

– Parece. A não ser o Assunção...

– Teria graça se o nosso Assunção atirava a batina às urtigas por amor da tua...

– Cala-te, ímpio!

– Estou calado! Mas é cada vez mais adorável, o Assunção! Para mim, ele tem lá dentro coisa oculta, obra de feitiçaria, que nem a minha sagacidade nem talvez a tua intimidade pode adivinhar... Não te parece?

– Não. Nele há só o amor do céu... mais nada...

– Estás seráfico! Pois tu acreditas que, hoje em dia, um homem válido se faça padre só por amor do céu? Qual, histórias! Eles escolhem a vida clerical como poderiam escolher outra qualquer acomodada ao seu egoísmo e à sua habilidade... Os inteligentes pensam tanto na vida eterna como eu ou tu, mas fazem nesta o que podem para chegarem a bispos... Tenho um medo deles que me pelo... O nosso Assunção é um exemplar único, faz-me lembrar um desses sacerdotes virtuosos dos romances anticlericais, com que o autor adula o sentimento dos leitores piegas... O que me agrada sobretudo no Assunção é que ele é mais amigo da humanidade que dos santos; e gasta-se mais em esmolas que em jejuns... Não vês o recato em que ele envolve as suas ações e as suas idéias? Anula a sua personalidade, como para dar vulto ao fato e pôr em toda a evidência a personalidade alheia... A palavra eu parece que lhe morre na garganta antes de lhe chegar à boca, e todavia ele é inteligente. Já me tenho servido da sua biblioteca; é opulenta em obras clássicas portuguesas. Se fosse escritor, seria um defensor da língua!

– O valor do Assunção, para mim, que o conheço desde bem moço, está principalmente no coração. Ele é bom. Às vezes penso que ele estaria melhor num lugarejo qualquer do interior, ensinando crianças e animando a pobreza a suportar a vida, do que no Rio de Janeiro. Dizes bem. Ele não é lutador nem ambicioso; é um resignado e um meigo. se eu tivesse um irmão não lhe quereria mais. Entretanto, o Assunção nunca me confiou o seu segredo, que ele guardou sempre com tamanho recato que tive escrúpulo em interrogá-lo. Por que não havemos de acreditar na vocação? Ele sempre foi um místico. A mãe, uma senhora adorável, fez tudo para desviá-lo do sacerdócio, batalhou como uma heroína; mas ele dizia-se chamado por Deus, e Deus venceu a vontade materna. Fomos sempre amigos. Ele vivia com a sua ilusão, eu com o meu pecado; e com tão opostas idéias nunca ofendemos a nossa amizade. É verdade que ele me contagiou um pouco do seu sentimentalismo. É mais forte do que eu, que não lhe transmiti nem uma sombra da minha personalidade...

– Não lhe conheceste nem uma paixão?

– A dos livros, de que falaste há pouco; e essa mesma há alguns anos é que me dá a impressão de ser a tábua flutuante do seu naufrágio!

– E tua filha?

– Sim, ele adora minha filha!

– Ora, pois, já tem com que se entreter. Dá-me outro charuto. São magníficos os teus charutos... Realmente, está-se bem aqui. Estou vai não vai a raptar-te a tua Alice!

– Psiu! fala baixo...

– Receias que ela esteja atrás da porta?

– Quem sabe?...

– Não duvides! Uma governanta de casa de um viúvo só, vinda por anúncio de jornal... deve ter ao menos um defeitozinho, e olha que o da curiosidade é quase virtuoso... Antes do que me disse a Pedrosa, eu supus que vocês estivessem a mangar comigo, e que a tua mulherzinha fosse por aí uma matrona gorda, de cabelos pintados e verruga no queixo. Mas a Pedrosa, mais afortunada do que eu, esbarrou de cara com ela, e pela raiva com que lhe ficou, deduzi que a rapariga deve ser bonita...

– A Pedrosa disse-te isso?

– Disse que era feia.

– Então!

– Por isso mesmo fiquei sabendo que o não é. As mulheres, nesse assunto, são sempre contraditórias. Para experimentá-la, exclamei com ar de desgosto:

– Oh! minha senhora, uma velha! E ela logo, indignada: “Velha?! moça! E toda presunçosa, com a sua gravatinha azul!”

– Pensou, talvez, que a gravata fosse minha!

– E daí?!... Ó diabo, corre aquele reposteiro!

– Fala à vontade. Ninguém nos ouve.

– Que confiança!

– Absoluta.

– É extraordinário!

– É extraordinário. Desde que esta mulher entrou em minha casa eu sou outro homem, muito mais tranqüilo e muito mais feliz. Nunca a vejo, mas sinto-a; a sua alma de moça como que enche estas salas vazias de juventude e de alegria. Sozinho com os criados, eu abandonava-me. Ia às vezes para o almoço de chambre e de chinelos; passava pelo jardim sem olhar para os canteiros; e, no escrúpulo de alterar as coisas da antiga ordem em que as dispusera minha mulher, deixava-as envelhecer monotonamente, sem uma reforma que as alegrasse. Eu estava mofado, tinha bolor na alma. Botava pontas de cigarros pela casa... estava, enfim, de um desmazelo torpe! Depois, sentindo a influência dela, percebendo-lhe os gostos finos, que em tudo se demonstravam, comecei a exigir de mim hábitos mais corteses e a tratar a minha pessoa com mais consideração e maior carinho. A idéia de que ela poderia ver-me por uma fresta da veneziana, quando eu ia para a rua, fazia-me prestar atenção ao meu jardim e observar o seu progresso e melhor tratamento... Almoçando, eu via na cadeira vazia em frente ao meu lugar, a minha governanta a observar por que maneira eu levava o garfo à boca ou enchia o copo de vinho. Retomei insensivelmente os meus atos de elegância, prejudicados com o abandono em que por tantos anos vivi nesta casa, dirigida por um preto ladino. Entrando da rua, nunca surpreendi a minha governanta, como aconteceu à Pedrosa; mas ela vinha e vem ao meu encontro num aroma fresco de pomar florido, e que eu nunca sentira antes da sua estada nesta casa. Tu o disseste há bocado: “Está-se bem aqui!”. A pouco e pouco as coisas mudas que me rodeavam, e que só sugeriam idéias saudosas e melancólicas, foram se despindo desse aspecto doentio e talvez tolo e animando-se em novos polimentos ou cores risonhas, que me davam saúde. Cadeiras velhas, esgarçadas no estofo, atiradas para uma alcova do porão, subiram lustradas e estofadas de novo para os cantos desguarnecidos das salas, onde o conforto é muito maior do que foi sempre! Repara para o soalho: um espelho! Vê as cortinas: resplandecentes! Em um meio que se asseava cada vez com maior primor, eu tive de corrigir-me dos defeitos que ia adquirindo na solidão e no desmazelo... Estou só, sentindo que sou o alvo da atenção e da magnanimidade de alguém... Esta carícia sem mãos sabe-me bem; tanto mais que me dispensa o trabalho do agradecimento! Se não a queria ver antes, por prudência, não a quero ver agora, por egoísmo, para não desfazer esta ilusão agradável e esquisita, mas bem sincera. Uma noite, entrando inesperadamente em casa, percebi que alguém fugia precipitadamente da sala. Não pude vencer a minha curiosidade; entrei. Junto à janela do jardim, perto de uma cadeira de balanço, encontrei um livro aberto. Ergui-o. Cheirava a flor de fruta. Era um romance inglês. A minha governanta lia inglês! Foi a sua primeira revelação. Depus o livro fechado sobre a mesa e vi o nome dela escrito na capa. Para simpatizar com ela bastaria, talvez, isso; – para respeitá-la, o modo por que tem sabido corrigir Glória das suas brutalidades de menina malcriada...

– Como terminará tudo isto!

– Não terminará. Enquanto ela se sujeitar a este papel, eu ficarei muito bem naquele em que estou. Se não... ir-se-á embora e tratarei de arranjar outra pelo mesmo processo escandaloso, mas cômodo.

– Hum!...

– Afinal, talvez seja fácil...

– É impossível, digo-te eu! Essa mulher deve ter vindo acossada por uma grande miséria! Lembra-me uma garça marítima que vi caçar na floresta do alto da Serra! Tinha fugido à tempestade sozinha, branca, até aquelas paragens desconhecidas e inóspitas. Pobre ave do mar!

– Mataram-na?

– E empalharam-na.

– Esperemos que esta não tenha a mesma sorte.

– Pelos desejos da tua sogra!

– Que ciumenta! como se pudesse haver alguém neste mundo que me fizesse esquecer Maria!

– Há...

– O tempo?

Caldas não respondeu e sorriu.

E depois:

– Dizem que fama sem proveito faz mal ao peito. A tua governanta morrerá tísica!

– Coitada... defende-a quando se te oferecer ensejo. Eu sou tão mau que a sacrifico ao meu bem estar. E à minha imperfeição! Ignominioso! não achas?

– Humano. Ela veio ao encontro desse desastre. Tinha obrigação de prevê-lo. Talvez o desejasse... Que somos nós todos? Poços de mistério! Que pode esperar uma mulher que se aluga – por mais que te repugne a expressão, ela é corrente aqui – para tomar conta e governar a casa de um homem só? O teu egoísmo explica-se; tu pagas esse direito; agora, a sua sujeição, meu Argemiro, é que não tem duas faces por onde possa ser encarada. Para mim, ela é, única e simplesmente, uma especuladora.

– Não digas isso!

– Por que te indignas?

– Não...

– Acaba...

– Sem ter posto os olhos nunca em cima desta pobre moça, parece-me que a conheço já há muito... Ela fiava-se naturalmente na sua altivez para defender-se de qualquer assalto. Por que não acreditar que tenha, como tu disseste, vindo acossada pela miséria, estonteadamente, até a minha porta? A única impressão que tive dela, no dia em que a contratei, foi a de lhe ver as botinas esfoladas... Não lhe vi o rosto, que o trazia velado; mas vi-lhe os pés. Caprichosa como revela ser em tudo, bem vês que só por grande necessidade se sujeitaria a andar assim...

– Por que só uma pobre se sujeita a tal posição, naturalmente; mas as pobres honestas têm outros meios de ganhar o pão, menos suspeitos e sobretudo menos arriscados... Tua sogra tem uma certa pontinha de razão na insensatez do seu ciúme... De fora ninguém pode acreditar que esta situação seja senão uma fantasia.

– Mas que têm com isso?

– Nós outros, nada; mas tua sogra talvez tenha alguma coisa, por causa da tua filha!

– Não é por causa de Maria... é por mim! Minha sogra é uma sentinela sempre alerta na defesa do meu coração. Ela não se importa que me roubem os haveres ou que eu esbanje a minha fortuna; que eu tenha ou não tenha amigos, que eu trabalhe ou que descanse, que eu sofra ou me divirta; o que ela não quer, absolutamente, é que eu ame! Maria há de viver eternamente diante dos meus olhos, como vive diante dos seus, e hei de manter até o meu último alento a promessa que lhe fiz de não tornar a casar-me...

– Tolice...

– Que queres!

– Maria era um anjo... mas hoje é um fantasma; e um homem não pode viver abraçado a uma sombra...

– Dize-lhe isso...

– Na primeira ocasião.

– Não a mortifiques. Eu, bem o sabes, estou perfeitamente de acordo com ela.

– É o que te parece. Em todo o caso, dou-te um conselho: despede a tua governanta, ou dá um piparote nestas convenções românticas em que te embaraças e trata-a como toda a gente trata as governantas... Parece-me que nos temos ocupado demais com uma criatura que talvez não mereça tanto...

– Ou talvez mais...

– É o que eu digo!

– Não te entendo.

– Não admira, visto que nem te entendes a ti! Só te direi outra coisa, para concluir: a imaginação é uma amiga perigosa, e tu estás abusando dela.

– Estás tolo e sibilino. Na tua, queres dizer que acabarei apaixonado por uma mulher que vive em minha casa e que me obstino em não conhecer, julgando, talvez, que me ocupo em pensar nisso! Mas, nada! Eu penso tanto na minha governanta, que talvez seja picada de bexigas, ou desdentada, como penso na Sinhá, que tem os olhos que sabes e a pele lindíssima. Fiel à minha morta, não por virtude, mas porque não encontro no mundo mulher que se lhe compare, eu deleito-me no sacrifício de viver abraçado a sombras... É a minha esquisitice...

– Faze-te espírita.

– Nunca.

– Como espectador, eu estou gostando do caso. O que te peço é licença para conquistar a menina...

– Tens toda...

– E se ela aceitar a corte?

– Tanto melhor para ti...

– Não impões condições?

– De não ser em minha casa...

– Sabes onde é a dela?

– Não sei de onde veio, nem presumo para onde irá!

– Como um sonho!

– Tal qual!

O relógio do escritório marcava seis horas quando o dr. Teles e o padre Assunção entraram em casa de Argemiro. Teles resplandecia. Tinha falado nessa quarta-feira na Câmara. Via-se-lhe na cara, nua de pelos, a vaidade, e todo o corpo emproado num terno de sobrecasaca cor de avelã, parecia empertigar-se com mais satisfação. De vez em quando, ele olhava com um sorrisinho para as unhas reluzentes, como se relesse nelas o seu discurso famoso e sensacional...

Assunção vinha triste, com um ar fatigado, que mal dissimulava, dizendo-se amolecido por uma grande caminhada a pé. Enquanto os outros, com o cálice de vermute na mão, discutiam o último escândalo da Câmara, ele, recostado no divã, levantou o olhar para o retrato de Maria, suspenso na parede em frente, com o seu doce perfil de loura a esvair-se já no embranquecimento das tintas.

A beleza... a bondade... a juventude... tudo com o tempo se esvai, como o fumo delével. Na curta passagem da vida, confundem-se à distância todos os traços, os que marcam os caminhos da alegria, como os que vêm da tristeza... A saudade do passado é o nevoeiro que envolve tudo na mesma claridade enganadora e opaca...