A Linha da Cor

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A Linha da Cor
de Frederick Douglass
Artigo publicado em 1 de junho de 1881, na The North American Review, Volume 132. Na publicação original o artigo tinha dez páginas (páginas 567 a 577 do volume — pág. 29-39 do número 295 da revista).
Tradução por: André Koehne


Cartum racista ataca Douglass em 1884 por seu casamento interracial.

Poucos males são menos acessíveis à força da razão, ou mais tenazes em vida e poder, do que o preconceito de longa data. É uma desordem moral, que cria as condições necessárias para a sua própria existência, e que se fortalece, recusando toda contradição. Ele pinta um retrato odioso de acordo com sua própria imaginação doentia, e distorce as características do original imaginando-as para se adequar ao retrato. Como aqueles que acreditam na visibilidade de fantasmas podem facilmente vê-los, assim é sempre fácil enxergar qualidades repulsivas naqueles que desprezamos e odiamos.

O preconceito de raça tem, em algum momento da sua história, afligido todas as nações. "Eu sou mais santo que tu" se vangloriam as raças, como faziam os fariseus. Muito tempo depois da invasão normanda, e do declínio do poder normando, muito depois que os resistentes saxões tinham sacudido a poeira de sua humilhação e de forma grandiosa afirmou suas qualidades por todas as direções, os descendentes dos invasores continuam a considerar seus irmãos saxões como feitos de uma argila mais grosseira do que a deles mesmos, e não ficaram satisfeitos quando alguém da raça anterior veio junto deles ao sol e sua nobreza. Habituados a ver o saxão como um criado, um cavalariço, e um trabalhador braçal comum, oprimido e subalterno por séculos, foi fácil investi-lo com todos os tipos de peculiaridades odiosas, e negar-lhe todos os predicados viris. Apesar de oitocentos anos se passarem desde que o poder normando entrou na Inglaterra, os saxões durante séculos terem oferecido sua educação, sua literatura, sua linguagem e as suas leis ao mundo mais do que qualquer outro povo no planeta, os homens naquele país ainda se vangloriam de sua origem e perfeição normandas. Esta superstição da antiga grandeza serve para preencher os lados definhados de um orgulho racial sem sentido que se manteve quando o seu poder desapareceu. Com uma lição muito diferente daquela que este artigo foi concebido para impressionar, o grande Daniel Webster certa vez disse do povo de Massachusetts (cujos preconceitos neste caso específico eram corretos) que eles "tinham conquistado o mar, e tinham conquistado a terra" mas que "lhes restava conquistar seus preconceitos". E uma vez fomos informados que as pessoas de algumas vilas de Yorkshire alimentavam um preconceito tão forte e violento contra estrangeiros e forasteiros que se um deles se aventurasse a cruzar suas ruas seria apedrejado.

De todas as raças e variedades de homens que penaram com esse sentimento, as pessoas de cor deste país são as que mais o têm sofrido. Eles não podem recorrer a disfarces que lhes permitam escapar ao seu destino fatal. Eles carregam diante de si a evidência que os marca para a perseguição. Estão no ponto extremo de diferença com a raça caucasiana, e sua origem africana pode ser instantaneamente reconhecida, mesmo que esteja bem distante da raça africana típica. Eles podem até protestar, como Shylock[1] — "Não têm os olhos como um judeu? Como um judeu, não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afetos, paixões? Não se alimentam com a mesma comida, são feridos com as mesmas armas, sujeitos às mesmas doenças, e são curados pelos mesmos meios, aquecidos e resfriados pelos mesmos verão e inverno, que os cristãos?" — mas tal eloquência é inútil. Eles são negros — e isso é suficiente, na ótica desse preconceito irracional, para justificar a indignidade e violência. Quase todos os setores da vida estadunidense estão impregnados por essa influência insidiosa. Ela enche o ar. Os espera nas oficinas e nas fábricas, quando se candidatam ao trabalho. Ela os aguarda na igreja, na hospedaria, nas urnas e, o pior de tudo, ela os espera na bancada do júri. Sem crime ou ofensa contra a lei ou contra os evangelhos, o homem de cor é o Jean Valjean[2] da sociedade estadunidense. Ele saiu das galés e, portanto, todas as presunções são contra ele. O mercado lhe nega trabalho, a pousada lhe nega abrigo; a urna não lhes dá votação justa, nem os jurados um julgamento justo. Ele deixou de ser escravo da sociedade. Ele agora não pode mais ser comprado e vendido como um animal na feira, mas ele é a constrangida vítima do preconceito, bem calculado para reprimir sua ambição viril, para refrear suas energias, e fazer dele um homem abatido e sem espírito, ou então um intratável inimigo da sociedade, apto a depredar a vida e a propriedade e para criar problemas em geral.

Quando este espírito maligno é o juiz, o júri e o promotor, nada menos do que a evidência esmagadora é suficiente para superar a força de presunções desfavoráveis.

Tudo contra a pessoa com a cor odiada é prontamente tomado como certo; por outro lado tudo em seu favor é recebido com suspeita e dúvida.

Um garoto com esta cor é achado amarrado em sua cama, mutilado, e sangrando, então imediatamente toda experiência ordinária é posta de lado, e presume-se que ele foi o culpado por ultrajar a si mesmo; por semanas e meses ele é mantido em julgamento por tal ofensa, e todos os esforços são feitos para enredar o pobre nas teias confusas do testemunho de peritos (a menos confiável de todas as provas). E este mesmo espírito que tão prontamente admite tudo contra nós, bem rapidamente nega ou refuta qualquer coisa a nosso favor. Não temos, como raça, sequer a permissão para nos apropriarmos das virtudes e realizações de nossos representantes individuais. O valor, a capacidade, o aprendizado, a ambição louvável, o serviço heroico, por qualquer de nossa gente, é facilmente levado ao crédito da raça superior. Uma gota de sangue alemão é suficiente para explicar todas as boas e grandes qualidades ocasionalmente presentes junto a uma pele de cor; e, por outro lado, uma gota de sangue negro, embora nas veias de um homem de brancura teutônica, é suficiente para antever todas as ofensivas e ignóbeis qualidades. Na presença deste espírito, se um crime é cometido e o criminoso não é conhecido de forma positiva, um homem de cor de aparência suspeita com certeza foi visto no bairro. Se um homem de cor desarmado é alvejado e morre em seu caminho um júri, sob a influência deste espírito, não hesitará em encontrar no homem assassinado o verdadeiro criminoso, e o assassino restará inocente.

Agora vamos examinar este assunto um pouco mais de perto. Isto é alegar um trabalho miraculoso para o preconceito — ter a magia moral de mudar a virtude em vício, e a inocência em crime; transformar o homem morto no seu assassino, e manter o homicida vivo inocente — é um atributo natural, instintivo e invencível da raça branca, que não pode ser erradicado; nem a própria evolução pode nos levar para além ou acima dele. Uma infelicidade para este pobre mundo de sofredores (os quatro quintos da humanidade que são de cor), caso esta afirmação seja verdadeira! Nesse caso homens serão para sempre condenados à injustiça, à opressão, ao ódio e à discórdia; e o sentimento religioso do mundo, com sua grande ideia de uma fraternidade humana, com sua máxima de "paz na terra aos homens de boa vontade" como sua regra de ouro, deve ser levado como sonho, ilusão, como um embuste.

Mas é este preconceito de cor a coisa natural e inevitável que afirma ser? Se é assim, então é totalmente ocioso escrever contra ela, pregar, orar ou legislar contra ela, ou aprovar emendas constitucionais contra ela. A natureza seguirá seu curso e se poderá pregar e orar a um cavalo contra o galope, a um peixe contra a natação ou a um pássaro contra o voo. Felizmente, contudo, existe um bom fundamento para pôr em cheque esta alta pretensão da vulgar e cruel ideia preconcebida.

Se eu pudesse falar com todos os meus compatriotas brancos sobre este assunto, eu lhes diria, na linguagem das Escrituras: "Venham e vamos raciocinar juntos". Agora, sem ser demasiado elementar e formal, pode-se afirmar que há pelo ao menos sete pontos que os homens sinceros serão suscetíveis de admitir mas que, se admitirem, será fatal para o pensamento popular e para a prática ao longo dos tempos.

Primeiro. Se o que chamamos de preconceito contra a cor for natural, ou seja, uma parte da própria natureza humana, conclui-se que ele deve ser amplamente integrado à natureza humana, pode e deve se manifestar quando e onde duas raças forem colocadas em contato. Não iria variar em qualquer latitude, longitude ou altitude; mas tal como fogo e pólvora, sempre que se reúnem, haverá uma explosão de desprezo, aversão e ódio.

Segundo. Se puder ficar demonstrado que exista em qualquer lugar do globo um país considerável onde o contato entre africano e caucasiano não se distinga por essa explosão de ira racial, não há razão para duvidar de que o preconceito é uma parte indelével da natureza humana.

Terceiro. Se este pretensamente natural e instintivo preconceito puder ser explicado por fatos e considerações totalmente à parte das características de cor das respectivas raças, colocando-a assim entre as coisas subordinadas à vontade e controle humanos, podemos nos aventurar a negar a reivindicação de que faz parte da natureza humana.

Quarto. Se um número considerável de pessoas brancas superou em si mesmos este preconceito, expulsando-os de si como um sentimento indigno, e tiverem sobrevivido a tal operação, o fato mostra que esse preconceito não é de qualquer forma uma parte vital da natureza humana, e pode ser eliminado da raça sem qualquer dano.

Quinto. Se este preconceito deve, ao final, para se revelar em sua essência e natural manifestação, ser simplesmente contra uma determinada condição, e não contra uma raça ou cor, e que desaparece quando esta ou aquela condição esteja ausente, então o argumento elaborado de que faz parte da raça caucasiana cai por terra.

Sexto. Se o preconceito racial e de cor é natural no mesmo sentido de que a ignorância, a superstição, a intolerância e o vício são naturais, então ele não tem melhor defesa do que eles, e deve ser desprezado e extirpado das relações humanas como um inimigo da paz, boa ordem e felicidade da sociedade humana.

Sétimo. Se, finalmente, esta aversão ao negro surge do fato de que ele é como o vemos, pobre, sem espírito, ignorante e degradado, então será humano, nobre e superior, na mente da superior e mais afortunada raça, desejar que todas as barreiras arbitrárias contra seu valor, inteligência e elevação devam ser removidas, e uma chance justa na corrida da vida seja dada a ele.

A primeira dessas proposições não requer discussão. Ela leva ao entendimento de forma imediata. Qualidades naturais são comuns e universais, e não mudam sua essência na montanha ou no vale. Passo então para o segundo ponto — a existência de países onde esse preconceito maligno, tal como o conhecemos nos Estados Unidos, não prevale; onde o caráter, não a cor, é o passaporte a ser considerado; onde o direito do homem negro ser um homem, e um homem entre os homens, não é questionado; onde ele pode, sem ofensa, até pretender ser um cavalheiro. Que tais países existem no mundo há bem grandes evidências. Viajantes inteligentes e observadores, desprovidos de qualquer teoria de apoio, homens cujo testemunho seria recebido sem questionamentos em relação a qualquer outro assunto, e não devem ser questionados neste, dizem-nos que não encontram nenhum preconceito de cor na Europa, exceto entre os estadunidenses que residem ali. Na Inglaterra e no Continente, o homem de cor não é mais um objeto de ódio do que qualquer outra pessoa. Ele se mistura na multidão sem ser questionado, sem que ofensas sejam feitas ou recebidas. Durante os dois anos que este escritor passou no exterior, embora na maior parte entre membros da sociedade, e por vezes acompanhados por damas e cavalheiros, ele não se recorda de uma palavra, olhar ou gesto que indicasse a menor aversão a ele por causa da sua cor. Sua experiência não foi sobre isto nada excepcional ou singular. Os Srs. Remond, Ward, Garnet, Brown, Pennington, Crummell e Bruce, todos eles pessoas de cor, e alguns deles negros, prestam igual testemunho. Se o que estes senhores dizem (e isto é corroborado por milhares de testemunhas) é verdade que não existe preconceito contra a cor na Inglaterra, senão quando para lá é levado por estadunidenses — levado para lá como uma doença moral de um país infectado. Ele [o preconceito] é estadunidense, não europeu; local, não geral; limitado, não universal, e deve ser atribuído a condições artificiais, não a qualquer lei fixa e universal da natureza.

O terceiro ponto é: pode este preconceito contra a cor, como é chamado, ser explicado por circunstâncias alheias e independentes da cor ou raça? Se isso pode assim ser explicado, um íncubo pode ser removido do peito de ambos, negros e brancos, deste país, bem como daquela grande parte da população intermediária que surgiu entre esses dois extremos alegadamente irreconciliáveis. Isto vai nos ajudar a ver que não é necessário que o etíope mude a sua pele, nem é preciso que o homem branco altere elementos essenciais de sua natureza, a fim de que o respeito mútuo e consideração possa existir entre as duas raças.

Agora é fácil explicar que as condições fora de raça ou de cor das quais podem surgir sentimentos semelhantes ao que chamamos preconceito. Um homem sem a capacidade ou a disposição de pagar uma simplesmente não ficará à vontade na presença de seu credor. Ele não quer se encontrar com ele na rua ou no mercado local. Esse encontro o deixará desconfortável. Ele prefere encontrar algum defeito na sua conta do que pagar a dívida, e o próprio credor em breve aos seus olhos irá desenvolver qualidades que ele absolutamente não goste.

Alguém já disse, com acerto, que podemos facilmente perdoar aqueles que nos ferem, mas é difícil perdoar aqueles a quem ferimos. A grande ofensa deste lado da morte que um ser humano pode fazer a outro, é escravizá-lo, degradar sua humanidade, e descê-lo à condição de um animal de carga; e somente isso tem sido feito aqui durante mais de dois séculos. Nenhum outro povo debaixo do céu, de qualquer tipo ou talento, poderia ter sido tão escravizado sem cair em desonra e desprezo por parte daqueles que os escravizaram. Sua escravidão, por seu lado, os marcaria com traços odiosos, e daria a seus opressores argumentos em favor da opressão. Além dos longos anos de injustiças e ofensas infligidos à raça de cor neste país, e dos efeitos desses erros sobre essa raça moral, intelectual e fisicamente, corrompendo sua moral, escurecendo suas mentes, alquebrando seus corpos e afastando seus membros da perfeita simetria, tem havido uma montanha de ouro — incontáveis milhões de dólares — descansando sobre eles com um peso esmagador. Durante todos os anos de seu cativeiro, o senhor de escravos tinha interesse direto em desacreditar a personalidade daqueles que possuía como sua propriedade. Todo homem que tinha mil dólares para investir tinha mil razões para retratar o homem negro como apto apenas para a escravidão. Tendo-os colocado como companheiros de cavalos e mulas, procurou naturalmente justificar-se assumindo que o negro não era muito melhor do que uma mula. Os possuidores de vinte milhões de dólares em propriedade de bens humanos procurou meios para influenciar a imprensa, o púlpito e o meio político, e através destes instrumentos menosprezaram nossas virtudes e exacerbavam nossos defeitos, e nos fizeram odiosos aos olhos do mundo. O sistema escravocrata tinha poder para de uma só vez fazer e tirar presidentes, de interpretar a lei, ditar a política, definir a moda dos usos e costumes nacionais, interpretar a Bíblia, e controlar a igreja; e, naturalmente, os antigos senhores ergueram-se a si mesmos tão alto quanto fixaram a humanidade do negro bem baixa. E das profundezas da escravidão brotou este preconceito e esta linha da cor. Isto é muito amplo e obscuro o bastante para explicar todas as influências malignas que assaltam os milhões de emancipados nos dias de hoje. Em resposta a este argumento se poderá dizer que o negro agora não tem de enfrentar nenhuma escravidão, e que tendo sido livre nos últimos dezesseis anos ele deveria por essa altura contraditar as qualidades degradantes que a servidão anteriormente lhes atribuía. Tudo isso é muito verdadeiro na escrita, mas totalmente falso quanto ao espírito. A escravidão realmente se foi, mas a sua sombra ainda paira sobre o país e envenena mais ou menos a atmosfera moral de todos os setores da república. O motivo financeiro para criticar o negro que a escravidão possibilitava realmente está ausente, mas o apego ao poder e à dominação, reforçada por dois séculos de poder irresponsável, isto ainda permanece.

Uma vez mostrado como a escravidão criou e sustentou o preconceito de raça e cor, e o poderoso motivo para esta invenção, os outros quatro pontos ditos contra ele não precisam ser discutidos em detalhes e com profundidade, bastando então uma referência de modo geral.

Se o que é chamado de aversão instintiva da raça branca para com os de cor, quando analisada, é vista ser a mesma que os homens sentem ou sentiram a outros objetos totalmente além da cor; se ela deve ser a mesma que, por vezes, é a exibida pelo rico e arrogante para com os humildes e pobres, o mesmo que o brâmane sente com relação a alguém de casta inferior, o mesmo que os normandos sentiram com relação aos saxões, o mesmo que consideram os turcos contra os cristãos, o mesmo que os cristãos sentiram com relação aos judeus, a mesma que mata um cristão na Valáquia, o chama de "cão" em Constantinopla, oprime e persegue um judeu em Berlim, persegue um socialista em São Petersburgo, dirige um hebreu para um hotel em Saratoga,[3] que despreza um irlandês em Londres, o mesmo que os católicos sentiram certa feita pelos protestantes, a mesma que insulta, abusa e mata os chineses na costa do Pacífico — então poderemos afirmar com bastante segurança que esse preconceito realmente não tem nada a ver com a raça ou a cor, e que tem seu motivo e mola-mestra em outra fonte com a qual os simples fatos de raça e cor nada podem fazer.

Afinal de contas, algumas pessoas muito bem informadas e muito bem intencionadas vão ler o que eu disse agora, o que me parece tão justo e razoável, e ainda irão insistir que a cor do negro tem algo a ver com o sentimento que lhe devotam; que o homem branco naturalmente estremece ao pensar em ter contato com alguém que é negro — que este impulso é daqueles que não se pode resistir nem controlar. Vejamos se essa conclusão é sólida. Um argumento não é firme quando se prova muito pouco ou prova demais, ou quando não prova nada. Se a cor é uma ofensa, então é totalmente além da humanidade que isto envolve. Deve haver algo na cor em si mesma que acenda a raiva e inflame o ódio, e deixe o homem branco em geral desconfortável. Se o homem branco fosse realmente constituída para a cor ser, em si mesma, um tormento pra ele, esta nossa grande e velha Terra não seria lugar para ele. Objetos de cor o confrontam em todos os pontos da bússola. Se ele for se encolher e tremer cada vez que vir algo escuro, ele teria bem pouco tempo para fazer qualquer outra coisa. Ele exigiria um mundo incolor para viver — um mundo onde as flores, os campos e alagados devem todos ser da brancura da neve; onde rios, lagos e oceanos devem todos ser brancos; onde todos os homens, e mulheres, e crianças deve ser da cor branca; onde todos os peixes do mar, todas as aves do céu, todo o "gado sobre as milhares de montanhas",[4] devem ser brancos; onde os céus no alto e a terra abaixo devem ser brancos, e onde o dia e noite não serão divididos por luz e trevas, mas o mundo será um cenário de luz eterna. Em um mundo tão branco, a entrada de um homem negro seria saudada com alegria pelos habitantes. Qualquer pessoa ou qualquer coisa seria bem-vinda por quebrar a opressiva monotonia atormentadora do branco predominante.

Resumindo, não há preconceito contra a cor. Nenhum homem diminui o outro porque ele está vestido de um terno preto, nem se dá por ofendido com suas botas porque elas são pretas. Fomos informados por aqueles que lá residiram que um homem branco na África vem a pensar que o ébano é a cor adequada para um homem. O bom e velho Thomas Whitson[5] — um nobre ancião Quaker — homem de aparência muito bizarra — costumava dizer que ele mesmo seria bonito caso pudesse mudar a opinião pública.

Além do curioso contraste consigo mesma, a criança branca não sente nada à primeira vez que vê um homem de cor. Curiosidade é seu único sentimento. A função da cor na linha da cor é algo muito simples e secundário. Isto simplesmente anuncia os objetos a sofrer opressão, insulto e perseguição. Isto não é uma bebida alcoólica que enlouquece, mas as letras pretas na tabuleta que dizem ao mundo onde isto pode ser alcançado. Não é o Quaker que é odiado, mas seu aba larga e vestes simples. Não se odeia a Caim, mas ao sinal que o torna reconhecido. A cor é inocente demais, mas as coisas com as quais a ela se acoplam a tornam odiosa. Escravidão, ignorância, estupidez, servilismo, pobreza, dependência, são condições indesejáveis. Quando estas coisas deixam de ser acopladas à cor, não haverá nenhuma linha da cor desenhada. Isto pode ajudar no sentido de observar algumas das inconsistências do sentimento da linha da cor, pois isto não é nem uniforme no seu funcionamento nem consistente em seus princípios. Suas contradições em relação a este último ponto seriam até divertidas se o sentimento em si não fosse tão merecedor do absoluto repúdio. Nossos irmãos da Califórnia, descendentes da Irlanda, odeiam os chineses, e os matam, e quando perguntados por quê fazem isso, sua resposta é a de que o chinês é muito laborioso e irá fazer todo o trabalho, podendo viver com salários que fariam outras pessoas morrerem de fome. Quando essas mesmas pessoas e outras são perguntadas por que odeiam as pessoas de cor, a resposta será porque eles são preguiçosas e depravadas, e não podem cuidar de si mesmas. Os políticos do Sul irão lhe dizer que o negro é muito ignorante e estúpido para exercer o voto livre, e já agora vemos que a sua maior ofensa é que agem como se fossem o único partido inteligente o bastante aos olhos da nação para legislar ao país. De um só fôlego nos dizem que o negro é tão fraco no intelecto, e portanto destituídos de humanidade, que ele é apenas um eco do astuto homem branco, e ainda em outro [fôlego] eles irão virtualmente afirmar que o negro é tão claro na sua percepção moral, tão firme nos propósitos, que não podem ser persuadidos por argumentos ou intimidados por ameaças, e que nada além de uma arma de fogo os poderá impedir de votarem nos homens e medidas que eles aprovam. Eles recuam com horror ao contato com o negro como um homem e como um cavalheiro, mas o aceita bem como barbeiro, garçom, cocheiro ou cozinheiro. Como um escravo, ele podia andar por toda parte, lado a lado com o seu senhor branco, mas como um homem livre ele deve ser empurrado para o vagão esfumaçado. Como escravo, ele podia ir para a primeira cabine; como homem livre ele não tem permissão para seguir em melhor posição.[6] Antigamente se dizia que ele era incapaz de aprender, e ao mesmo tempo que era um crime contra o Estado se qualquer homem o ensinasse a ler. Atualmente, diz-se que ele é original e permanentemente inferior à raça branca, e ainda expressam uma selvagem apreensão de que seis milhões de pessoas desta raça inferior, de uma forma ou outra, iriam conseguir dominar mais de trinta e cinco milhões da raça superior. Se a inconsistência pode provar a falsidade de alguma coisa, certamente o vazio desta pretensão de que a cor não tem nenhum receio é facilmente exibido. O problema é que a maioria dos homens, e especialmente os homens maldosos, querem ter algo sob si. O homem rico teria o pobre, o branco teria o preto, o irlandês teria o negro, e o negro teria um cão, se ele não puder obter nada mais elevado na escala de inteligência para dominar. Esse sentimento é uma das vaidades que o esclarecimento dissipará. Um abolicionista bom, mas simplório, disse-me que não tinha vergonha de caminhar comigo pela Broadway de braços dados, à luz do dia, e evidentemente achava que ele estava a dizer algo que seria muito agradável à minha autoestima, mas me ocorreu, naquele momento, que aquele homem jamais sonharia que houvesse qualquer motivo para que eu sentisse vergonha de andar lado a lado com ele pela Broadway à luz do dia. Montado numa carruagem saindo de Concord, em New Hampshire, rumo a Vergennes, Vermont, há muitos anos, me achei nas condições bem agradáveis como todos os demais passageiros durante a noite, mas a luz da manhã veio sobre mim como faz com as estrelas; eu era como a descrição do Dr. Beecher ao descrever o primeiro incêndio que ele testemunhou, quando um balde de água fria foi derramado em suas costas — "o fogo não foi apagado, mas ele foi". O fato é que, quanto mais um homem de cor sobe na escala social, menos preconceito ele encontra.

O autor se encontrou e se misturou livremente com os grandes homens que lideravam em seu tempo, — em sua terra ou no estrangeiro, em salões públicos ou em casas particulares, no palco ou junto à lareira, — e não se recorda de nenhum caso quando entre tais homens ele foi levado a se sentir como objeto de aversão. Os homens que são verdadeiramente grandes são grandes demais para serem pequenos. Isto foi gloriosamente verdadeiro com os falecidos Abraham Lincoln, William H. Seward, Salmon P. Chase, Henry Wilson, John P. Hale, Lewis Tappan, Edmund Quincy, Joshua R. Giddings, Gerrit Smith e Charles Sumner, e muitos outros dentre os que já morreram. O bom tom não me permite falar agora dos vivos, exceto para dizer que o número daqueles que se erguem superiores ao preconceito é grande e crescente. Aqueles que desejam ver como será o futuro dos Estados Unidos, frequentem, como eu já frequentei durante a administração do presidente Hayes, às grandes recepções diplomáticas na mansão executiva, e veja lá, como eu já vi, em seu esplêndido Salão Leste, a riqueza, a cultura, o refinamento e a beleza da nação reunida, e com ela os representantes de outras nações, — o turco moreno com o seu "fez", o inglês brilhando em seu ouro, o alemão, o francês, o espanhol, o japonês, o chinês, o caucasiano, o mongol, o ilhéu de Sandwich, e o negro, — todos se movendo livremente, cada qual a respeitar os direitos e a dignidade do outro, sem receber ou fazer nenhuma ofensa.[7]

"Então oremos para o que vier,
Como isto vier será por sobre tudo isso,
Esse o sentido e o que vale a pena, sobre toda a terra,
Suportar a posição social, e tudo mais;
"Esse homem para o homem, noutro mundo,
Serão irmãos, por sobre todas as coisas."

Notas e referências[editar]

  1. Shylock, o judeu personagem central da peça de Shakespeare, "O Mercador de Veneza".
  2. Jean Valjean: personagem simplório e injustiçado que é retratado na obra "Os Miseráveis", de Victor Hugo.
  3. Nota: não foi possível apurar qual o sentido histórico desta frase ("drives a Hebrew from an hotel at Saratoga", no original); Saratoga, no estado de Nova York, foi o local em que as tropas estadunidenses venceram os colonizadores britânicos durante as lutas pela independência do país; no lugar depois foi fundada uma cidade.
  4. Menção que Douglass faz ao Salmo 50:10, que diz: "Porque meu é todo animal da selva, e o gado sobre milhares de montanhas"
  5. Thomas Whitson foi um dos fundadores da Sociedade Clarkson e, em 1833, foi quem primeiro introduziu as mulheres nas reuniões da American Anti-Slavery Society em 1833, na Filadélfia.
  6. Foi feita uma livre tradução para o original: "he was not allowed abaft the wheel", que literalmente seria algo como "ele não tinha permissão para a ré do volante" ou a parte de trás da locomotiva; neste trecho Douglass faz referência aos vagões dos trens de ferro que possuem as melhores posições próximas à locomotiva e, quando a fumaça que esta solta finalmente desce, cai sobre os vagões esfumaçados.
  7. Douglass conclui seu artigo com os versos finais de uma canção do famoso poeta escocês, Robert Burns, de 1795, num poema intitulado "A Man's A Man For A' That" — que pode ser traduzido como "Um homem é um homem acima de tudo".