Espumas Flutuantes (1913)/A Maciel Pinheiro

Wikisource, a biblioteca livre
< Espumas Flutuantes (1913)(Redirecionado de A Maciel Pinheiro)
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Maciel Pinheiro
por Castro Alves
Poema publicado em Espumas Flutuantes (1913).
A MACIEL PINHEIRO




Dieu soit en aide au pieux pélerin.
   (Bouchard.)



Partes, amigo, do teu antro de aguias.
Onde gerava um pensamento enorme,
Tingindo as azas no levante rubro,
Quando nos valles inda a sombra dorme...
Na fronte vasta, como um céo de idéas,
Aonde os astros surgem mais e mais...
Quizeste a luz das boreaes auroras...
Deus acompanhe o peregrino audaz.

Verás a terra da infeliz Moema,
Bem como a Venus se elevar das vagas;
Das serenatas ao luar dormida,
Que o mar murmura nas douradas plagas.

Terra de glorias, de canções e brios,
Sparta, Athenas, que não têm rivaes...
Que á voz da pátria deixa a lyrae ruge...
Deus acompanhe o peregrino audaz.

E quando o barco atravessar os mares
Quaes pandas azas, desfraldando a vela,
Ha de surgir-t′esse gigante immenso,
Que sobre os morros campeando vela...
Symb′lo de pedra, que o cinzel dos raios
Talhou nos montes, que se alteam mais...
Atlas com a fórma do gigante povo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.

Vai nas planicies dos infindos pampas
Erguer a tenda do soldado vate...
Livre... bem livre a Marselhesa aos echos
Soltar bramindo no feroz combate..
E após do fumo das batalhas tinto
Canta essa terra, canta os seus geraes,
Onde os gaúchos sobre as egoas voam...
Deus acompanhe o peregrino audaz.

E n′esse lago de poesia virgem,
Quando boiares nas subtis espumas,
Sacode estrophes, qual do rio a garça
Perolas solta das brilhantes plumas.

Pallido moço — como o bardo errante —
Teu barco vôa na amplidão fugaz.
A nova Grecia quer um Byron novo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.

E eu, cujo peito como uma harpa homerica
Ruge estridente do que é grande ao sopro.
Saúdo o artista, que ao talhar a gloria,
Pega da espada, sem deixar o escopro.
Da caravana guarda a arêa a pégada.
No chão da historia o passo teu verás...
Deus, que o Mazeppa nos steppes guia...
Deus acompanhe o peregrino audaz.

Recife, 1863.