A Mandinga/IX

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Mandinga por João Simões Lopes Neto
Capítulo IX


Alguns dias depois das cenas que acabamos de narrar, conversavam plácida e beatificamente, após um alegre jantar, na bela e bem iluminada varanda, que já conhecemos, o Cirilo, sua mulher Nham Pombinha e seu enteado Hilário.

Em verdade, dos três era o Cirilo quem tinha menos razão para achar alegre o jantar. Nada se lhe alterara no físico exteriormente. As cores não eram de todo más, os olhinhos brilhavam sempre sobre as sobrancelhas copiosas e crespas, dormia bem e levantava-se cedo.

Todavia, ele não passava escorreito, precisamente como um abade.

Após a ingestão do cálice de conhaque, que lhe oferecera Pombinha, naquela belíssima manhã, tão clara, tão pura e tão fresca, o Cirilo sentira despertar nele um apetite de lobo para a mesa.

Mas aquilo era uma coisa verdadeiramente sardanapalesca infernal, extraordinária.

O Cirilo comia muito, comia de tudo, comia sempre, não enjeitava qualquer manjar dos que, variadamente, vinham à mesa, regava toda essa massa bem mastigada com uma bojuda garrafa de vinho de Bourgogne em mistura com Vichy do hábito. Mas nada o saciava.

Apenas levantando da mesa, a mastigar a ponta do charuto, após o café, sentia-se logo apto para o novo sacrifício, à moda dos de Lucullo. Por mais que enchesse o estômago, havia lá dentro uma sensação de vácuo, que reclamava, imperiosamente, ser preenchido.

O fato era tanto mais extraordinário, quanto, até então o Cirilo era um sujeito muito sóbrio à mesa, e em toda a sua vida tivera apenas uma indigestão, verdade é que de conseqüências um tanto tristes, pois, ocorrera no dia do casamento e prolongara-se, em seus fatais efeitos, por oito a dez dias.

Nham Pombinha, por seu lado, a princípio, quando o viu atirar-se assim tão denodamente aos chorumentos pratinhos que o cozinheiro Calixto tão caprichosamente preparava, teve um sobressalto denunciador de pecaminosa alegria.

Infelizmente, para ela, muito pouco viveram as suas esperanças, e muito pronto emudeceram os seus lábios, em entoar hinos de louvor e gratidão à misteriosa ciência do Caboclo.

A mandinga propinada ao Cirilo, em matéria de excitação de apetites, tinha se limitado aos do estômago, e ainda assim, imperfeitamente, porque o velho no crescendo em que, a esse respeito avançava, era muito capaz devorar os trastes ou estourar, se antes uma doença prolongada não o viesse amarrar ao leito ou à cadeira preguiçosa.

Em suma, para Nham Pombinha, nunca o marido fora tão velho. Havia de ser bonito, se em vez de uma ressurreição, a sombra da qual, o seu derriço com o Hilário poderia marchar em mar de leite, lhe coubesse em sorte aturar muitos meses um inválido.

Era essa a única preocupação de Nham Pombinha, porque, nem de leve, lhe passava pela mente que o que ela tinha praticado com o marido era um crime, nem mais nem menos.

Nham Pombinha extenuava-se, improficuamente, em despertar qualquer fagulha sob as cinzas.

Afinal, era uma consumição, e para acabar com aquilo tinha resolvido, na manhã do dia seguinte, forçar a nota, juntando ao conhaque matinal do Cirilo mais umas dez gotas do licor maravilhoso do Caboclo. Em último caso, pensava ela, inocentemente, o velho morre e... assunto concluído.

Afinal, ela tinha razão. O que estava sucedendo era fatal, e se alguém tinha a responsabilidade do drama cujos primeiros quadros começavam a delinear-se, na imaginação escaldada de Nham Pombinha, eram aqueles que haviam amarrado as suas poucas e floridas primaveras à carcaça do Cirilo, por causa do seu dinheiro.

O mundo está cheio disto.

Terminara, pois, o jantar. Cirilo, como de costume foi reclinar-se na preguiçosa para terminar o charuto, enquanto Pombinha e Hilário, afastando as cadeiras, tomavam cômoda posição para palestrar alguns instantes.

O assnto escolhido foi a freqüencia e a franqueza das visitas que a Doricélia, com a capa de vizinha, dera agora em fazer à casa de Pombinha, às vezes até em horas impróprias.

— Aquilo era demais, exclamava Pombinha escandalizada. Não lhe saía da porta. Era desde pela manhã até a noite um sair e entrar que não tinha fim. Credo! A mulherzinha não teria o que fazer em casa da mãe? E que modos? Mexia em tudo, entrava em todos os quartos, queria meter o nariz em todas as gavetas. Que espevitamento! Pois a gasguita não tivera a protuberância de pedir-lhe para mostrar o quarto do seu Hilário? Queria ver como era um quarto de moço! Ora dá-se? O Hilário se tinha alguma coisa com a espevitada, bem podia arranjar-se para longe. Pois não!

O Hilário fazia-se muito grave, abarrotado de sisudez, olhando de soslaio para o velho, que chupava pachorrentamente, o seu charuto, namorando uma compoteira a transbordar de damascos em conserva.

— Que não, desculpava-se. Não era nada com ele, nem pensava nisso. Era natural. Aquilo era amizade de raiz com a Nham Pombinha. Pois se ela era tão boa, tão amável, e recebia todos tão bem!...

Mas a Pombinha, insistia querendo, deixar o negócio bem aclarado para saber a que ater-se. Citava certas circunstâncias, apurava a significação de certas frases e olhares.

— Que eu, concluiu ela, com um largo gesto de desprendimento, não tenha nada com os teus negócios com a Doricélia. Aqui é que não.

O Cirilo estava aborrecido com a palestra.

— Que zanga Deixa o rapaz. Olha: se não for com a Doricélia será com outra, é claro. Escuta lá: Manda servir-me meia dúzia daqueles damascos. Estou com apetite.

Era aquilo, comer e mais comer. Daquela maneira, qualquer dia engulia um boi.

Por fim, o Cirilo levantou-se resolvido a sair para esticar as pernas.

— Menina, vou dar um salto até a Ponte de Pedras.

E saiu, puxando o pigarro, encostado à bengala e meio pesado, como quem leva linguados de chumbo aos pés.

Na varanda, faziam-se já as trevas.

O Hilário, porém, e Nham Pombinha não se mexeram. Continuaram a palestrar, em coisas insignificantes, até que os criados vieram acender os bicos de gás do lustre de cristal dependurado no teto de estuque.

Uma claridade crua inundou a sala de jantar, de cuja mesa do centro eram levantados os pratos, a toalha, os mil acessórios do ato principal da vida, como, gongoricamente, afirmava a Nham Pombinha, numa azáfama de criados, que estão mortos por se mandarem mudar.

Depois, tudo caiu em silêncio.

O Hilário, afinal aborrecia-se.

— Agora que as coisas encaminhavam-se, é que a Doricélia havia de meter-se-lhe ali pelos olhos como um trambolho.

O Hilário desconhecia ainda as artimanhas da madrasta, e esta, naquela tarde, dispunha-se a contar-lhe tudo.

E, insensivelmente, como se houvesse ali coisa que os trai-se, que os pretendesse empolgar, ambos dirigiam-se para o vão da janela próxima a a qual Pombinha zelava os seus opulentos jarrões de flores exóticas.

E sentaram-se, um em frente ao outro, entre as pesadas cortinas de damasco com pendurezas douradas, numa compostura de missa fúnebre, a ver quem primeiro rompia o fogo.

— Enfadou-se? Nham Pombinha.

— Acha?

O Hilário enfiou mas não desistiu.

No fim de contas, era uma tolice. Que diabo! A Doricélia não era nenhuma beldade por quem a gente deixasse apanhar assim sem mais nem menos. E ele olhava para cima. Sim. Não queria nenhuma princesa, é verdade, mas também não podia esperar coisa melhor.

E esbofava-se em apontar-lhe os defeitos, os modos, o espevitamento, que não podia deixar de ser ensinado pela mamã. Aquilo via-se.

— E depois, concluiu, andadota, em anos. Não é o meu ideal.

Nham Pombinha, remoia em silêncio.

— Então!

— Hilário. Tu entendeste mal. Já te disse que não me ocupo dos teus negócios. Era o que me faltava. Mas é dos meus. Irrita-me esta sem cerimôna da Doricélia, uma presumida que nem ao menos sabe vestir. Não vês como ela anda sempre cheia de fitas? E até me entra em casa sem bater. Já se viu uma coisa assim?

— Entre moças...

Entre moças que se dão, sim, concedido. Mas eu conheço-a,apenas, há uns vinte dias, Não. A coisa não pode ser comigo. Isso entra pelos olhos.

— E continuaram a discutir: ele procurando dissuadí-la das suas desconfianças, ela insistindo em atirar-lhe para os ombros a responsabilidade dos avanços rápidos da intimidade de Doricélia.

Afinal, foram enervando-se,amolentando-se, engolfando-se naquele silêncio feliz que os rodeava, que os comprimia, e ameaçava arrancar-lhe confissões perigosas para o futuro sossego do Cirilo.

Por último, Nham Pombinha, já concidia que o Hilário nada tivesse com o caso. Que, de resto, também pouco lhe importava.

E uma das mãos de Pombinha lá ficou esquecida sobre os joelhos, muito rosadas, uns dedozitos finos, aguçados, terminando em unhas aparadas em bico, muito vermelhas, brilhando aos reflexos ondulados do gaz tremeluzente...

E o Hilário tentado, muito cheio de preconceitos, de receios, e da salada de pepinos que comera ao jantar, ia avançando com a sua mão em busca da outra, como quem não quer a coisa, sorrateiramente...

As duas mãos já se tinham encontrado, e quem sabe se uma delas, talvez mais áspera, teria levantado a outra, por descuido, à altura dos lábios, se, nesse momento, a cabeça de Doricélia não tivesse emergido das cortinas da porta do corredor da rua, e a sua voz esganiçada não disparasse esta bombarda.

— Não te encomodes, Nham Pombinha eu sou de casa. Estejam ao gosto

E foi puxando uma cadeira para o vão da janela.

Nham Pombinha mastigava a sua raiva batendo com a ponta da botina no chão, freneticamente.

O Hilário apepinado deveras não sabia como sair da entaladela...

Doricélia, porém, com os modos francos e bruscos do costume, excitada ainda pela evocação da cena que surpreendera, não lhes deu tempo a pensarem num modo a encetar a palestra, estabelecendo uma dispensável solução de continuidade entre a distração inocente das mãos de Hilário e o seu imprevisto aparecimento na varanda.

E foi logo disparando o morteiro das novidades do dia, as corridas do prado, em que tinha havido um gancho escandaloso, a briga da senhora F. com a sua modista, porque esta era uma besta, fazia tudo mal e cobrava sem calcular, a prisão do N. que andava metido em barafundas políticas... uma avalanche de coisas assim interessantes.

— Ah! É verdade! um escandolozinho. O marido da Zezinha deitou casa à Marquesa. Sabes? Aquela figorona espanhola que traz pelo beiço todos os homens casados, o que nós temos visto! E a Zezinha a se fazer fina, querendo impigir-nos o marido como um abismo de santidade!

Que ela lastimava-lhe a sorte, e condenava o procedimento do doutor. Lá isso condenava. Mas os homens são assim mesmo. É preciso manha para domá-los.

E embora frustrava em largas considerações sob os projetos que executaria, quando se casasse e fosse para a sua casa. Trataria o maridinho como um alfinin, os seus ovinhos quentes, o seu vinhinho do Porto, o seu chocolate... tudo.

— Que eles, menina, o que querem é mimo. E desculpa-me falar assim. Mas estou em casa. Somos todos da família. Mas também, fidelidade, a minha; lá isso de namoros e coquetismos com todo o mundo, não: isso é que não.

E falava, falava sempre, sobretudo, de todos, atordoando o seu pequeno auditório, impedindo-o de dar a réplica, olhando demoradamente para o Hilário, pondo o pé muito fora do vestido.

Continua...
D. Salústio
Correio Mercantil, 12 de novembro de 1893.