A Missa-Negra

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As Religiões no Rio por João do Rio
A Missa-Negra


Atravessamos uma aléia de sapucaias. O terreno enlameado pegava na sola dos sapatos. Justino ia à frente, com um preto que assobiava, dois cães sujos e magros. Por entre os canteiros incultos crescia a erva daninha, e os troncos das árvores, molhados de luar, pareciam curvar-se.

- Entramos no inferno?

- Vamos ao sabbat moderno.

Tínhamos chegado ao velho prédio, que emergia da sombra. O negro empurrou a porta e todos três, misteriosamente, penetramos numa saleta quase escura, onde não havia ninguém. Justino lavou as mãos, respirou forte e, abrindo uma outra porta, sussurrou:

- Entre.

Dei numa vasta sala cheia de gente. Candeeiros de querosene com refletores de folha pregados às paredes pareciam uma fileira de olhos, de focos de locomotiva golpeando as trevas numa pertinaz interrogação. A atmosfera, impregnada de cheiros maus de pó de arroz e de suor, sufocava. Encostei-me ao portal indeciso. Remexia e gania entre aquelas quatro paredes o mundo estercorário do Rio. Velhos viciados à procura de emoções novas, fufias histéricas e ninfomaníacas, mulatas perdidas, a ralé da prostituição, tipos ambíguos de calças largas e meneios de quadris, caras lívidas de rôdeurs das praças, homens desbriados, toda essa massa heteróclita cacarejava impaciente para que começasse a orgia. Os velhos tinham olhares cúpidos, melosos, os tipos dúbios tratavam-se entre si de comadres, com as faces pintadas, e a um canto o empregado dos Correios, esticando o pescoço depenado de condor, fixava na penumbra a presa futura. Não era uma religião; era um começo de saturnal.

Senti que me tocavam no braço. Voltei-me. Era um poeta muito vermelho, que cultivara outrora, numa revista de arte, o satanismo literário. Desequilibrado, matóide, o Carolino estava ali em parada íntima de perversão poética.

- Também tu? - fez apertando-me a mão entre as suas viscosas de suor. - Curioso, hein? Mas palhaçada, filho, palhaçada. É a segunda a que eu assisto. Uma missa-negra de jornal de Paris com ilustrações ao vivo... Imagina que nem há padres. O oficiante é o degenerado que anda à noite pelas praças.

- E as hóstias?

- As hóstias, essas ao menos são autênticas, roubadas às igrejas. Dizem até... - esticou-se, colocou a boca ao meu ouvido como quem vai fazer uma espantosa revelação: - dizem até que há um sacristão na cidade a mercadejá-las. É para quem quer... hóstias a dez tostões. É boa!

Mas que diferença, meu caro, da missa antiga, da verdadeira!

- Não se mata ninguém?

- É lá possível! E a polícia? Já não estamos no tempo de Gilles de Rais nem de Montespan... Bom tempo esse!

Pousou os dedos no peito, revirou os olhos saudosos. Era como se tivesse tido relações pessoais com o Gilles e a Montespan.

A turba entretanto continuava a piar. Todas as janelas fechadas faziam da sala um forno. Carolino encostou-se também e deu-me informações curiosas. Estava vendo eu uma rapariga loura, com uma fístula no queixo e óculos azuis? Era uma troteuse da praça Tiradentes. Certo homem pálido, que corcovava abanando-se, era artista peladanista, outro gordo e flácido fazia milagres e intitulava-se membro da Sociedade de Estudos Psíquicos. Havia de tudo... Uma senhora, vestida de negro, passou por nós grave, como cansada.

- E esta?

- É a princesa... Uma mulher original, estranha, que já adorou o fogo...

- Mas você está fazendo romance. Isso é literatura.

- Tudo é literatura! A literatura é o mirífico agente do vício. Porque estou eu aqui? A literatura, Huysmans, o cônego Doere do Là-Bas, os livros enervadores. Os que arranjaram estas cenas, o rapaz dos Correios, o Justino, o Bode...

- O Bode?

É o nome satânico do sacerdote... tem o cérebro como um sanduíche de literatura.

- Mas o resto, estas quarenta pessoas que eu vejo, tenho a certeza de ver e que encontrarei talvez amanhã nas ruas?

- Em ruas más... São depravados, pervertidos, doentes, endemoinhados! Satã, meu amigo, Satã, que os padres arrancam dos corpos das mulheres no Rio de Janeiro, a varadas.

- É sempre o melhor meio.

- O único eficaz - mas que nos tira a ilusão e a fantasia... Confesse. É um gozo a descida ao abismo da perdição como Deus do Mal, este banho de gosma em que, de irreais as cenas, não as acreditam os nossos olhos, ao vê-las, nem os nossos ouvidos ouvindo-as. Começa a cerimônia... Entremos. Só falta aqui o falecido coronel...

Abrira-se uma porta, a da casa de jantar, e a crápula entrava aos encontrões dando-se beliscões, com o olhar guloso e devasso. Entramos também.

Como era razoável a desilusão de Carolino! A missa-negra a que eu assisti, era uma paródia carnavalesca e sádica, uma mistura de várias missas com invenções pessoais do sacerdote. Havia frases do ofício da Observância, trechos sacrílegos do abade Guibourg, a missa de Vintras, esse doido formidável, aparatos copiados aos Ansanés da Síria e um desmedido deboche, o deboche do teatro São Pedro em noite de carnaval, se à polícia não contivesse o desejo e as portas se fechassem. Carolino tinha razão.

O erotismo ambicioso de outrora devia ser mais interessante. Guibourg aspergindo de água benta o corpo nu da Montespan deitada nos evangelhos dos reis, os pombos queimados, a paixão de Nossa Senhora lida com os pés dentro de água, o cibório cheio de sangue inocente no centro das sensações, tinham um fim. A missa de Ezequiel, o ofício supremo em que, além de Satã, aparecem Belzebu, Astarob, Asmodeu, Belial, Moloch e Baal-Phagor, era religiosamente terrível. A que os meus olhos viam, não passava de fantasia de debochadas e histéricas necessitando do rifle policial e do chicote.

A casa de jantar estava transformada numa capela. Ao fundo levantava-se o altar-mor, ladeado de um pavão empalhado com a cauda aberta - o pavão simbólico do Vício Triunfal. Nos quatro cantos do teto, morcegos, deitados em corações de papelão vermelho, pareciam assustados. Panos pretos com cruzes de prata voltadas cobriam as janelas e as portas.

Do altar-mor, que tinha três degraus cobertos por um pelego encarnado, descia, abrindo em forma de leque, um duplo renque de castiçais altos, sustentando tochas acesas de cera vermelha. Era essa toda a luz da sala. O bando tomou posições. Alguns riam; outros, porém, tinham as faces pálidas, olheirentas, dos apavorados. Nós, eu e o poeta, ficamos no fim. Um silêncio caiu. Do alto, pregado a cruz tosca, uma escultura infame pretendia representar Cristo, o doce Jesus! Era um boneco torpe, de bigodes retorcidos, totalmente excitado, que olhava os fiéis com um olhar trocista e o beicinho revirado.

- É horrendo.

- Se estamos na casa do horrendo! Guarde a sua emoção. Tudo isso é religião. O mesmo fazem com Iscariote no sábado de Aleluia os meninos católicos.

Guardei. Vinham aparecendo aos saltinhos, num andar de marrecos presos, quatro sacristãos com as sotainas em cima da pele. Esses efebos diabólicos, de faces carminadas e sorrizinhos equívocos, passeavam pela sala como ménagêres preocupadas com um jantar de cerimônia, dando a última de mão à mesa. Depois surgiu um negrinho de batina amarela, com os pés nus, e as unhas pintadas de ouro. Trazia os braseiros para o incenso e quando passava pelos homens erguia devagar o balandrau cor de enxofre. A princesa, adoradora do fogo, olhou-o com gula e ia talvez falar, quando apareceu o sacerdote acompanhado de um outro sacristão exótico. À luz dos círios que estalidavam, nessa luz vacilante e agônica, o mulato era teatral. Alto, grosso, com o bigode trincado, as olheiras papudas, os beiços sensuais pendentes, fez a aparição de capa encarnada e báculo de prata, com os símbolos de Shiva potente.

- Esse homem é doido?

- Um sádico inteligente. Tem como prazer único o crime de um príncipe que há um ano agitou a moral arquiduvidosa de Londres... Ainda não conversou com ele? Muito interessante. Há tempos inventou a divina junção dos sexos num tipo único, o andrógino satânico. É admirável...

- A literatura! - fiz.

- O Mal! retrucou o poeta cínico, e apontou o Dr. Justino.

O pobre médico encostado a uma das cruzes batia palmas clamando.

- Satanás! Satanás! Nosso Senhor! Acode!

O sacerdote virou-se. A cauda estrelada de um pavão cobria-lhe o peito da túnica.

Curvou-se, juntou as mãos, e a paródia da missa católica começou, em latim, mudando apenas Deus pelo Diabo. Era tal qual, curvaturas, gestos, toques de campainha, resposta de sacristãos, tudo. De repente, porém, o homem desceu os três degraus, Os sacristãos surgiram com turíbulos enormes, e ele, despregando a casula surgiu inteiramente nu, com o cavanhaque revidado, a mão na anca, cruel como o próprio Rebelde. As mulheres, os pequenos equívocos, o ocultista arrancaram as roupas, rasgaram-se enquanto o seu dorso reluzente e suado curvava-se diante dos incensos. Depois de novo, com uma voz do metal bradou:

- Senhor! Satã! Glória da terra! Tu que aclaras os pobres homens, Fonte de ouro, misterioso Guarda das criptas e dos antros; Tu que moras na terra onde o ouro vive; Causa dos pecados; Amparo da carne; Delírio único; Fim da vida; - deixa que te adoremos! Não te exterminaram as sotainas baratas, não te perdeu o Outro, não se acabará nunca o teu poderoso império, ó Lógica da Existência! Satanás, estás em toda a parte, és o Desejo, a Razão de Ser, o Espasmo! Ouve-nos, aparece, impera! Não vês na cruz o larápio que roubou a tua lábia e o teu saber?

- Deus! - murmurei.

- Guarde a sua emoção, meu amigo. É do rito. Eles dizem que Jesus foi a principio, de Lúcifer.

- É preciso encarnar o mágico - continuava o homem - neste pedaço de pão; é preciso magoá-lo, fazê-lo sofrer, mostrar-lhe que és único, impassível e admirável. Que seria da humanidade se não fosse o teu Auxílio, ó Portador dos gozos, ó Desmascarador das hipocrisias? Todo o mundo soluça o teu Nome, a Pérsia, a Caldeia, o Egito, a Grécia, a Roma dos roubadores da tua Pompa. Olha pelo mundo a vitória, os filósofos, os sábios, os médicos, as mulheres. Os filósofos desviam o amor do Outro, os sábios alugam a crença, os médicos arrancam dos ventres a maternidade, fazem as assexuadas delirantes, esmagam as crianças, as mulheres escorrem a lascívia e o ouro! Nós todos prostrados adoramos-te, diante do impostor, do mentiroso, desse que aconselha a renunciar à Carne! Que venha o dinheiro, que venha a Carne! que se esmague os seios das mulheres e se lhes crave o punhal da luxúria em frente ao impostor... Jesus há de descer à hóstia; tu queres!

Deixou cair o braço. Na face dos erotômanos a loucura punha ritos de angústia.

O sacerdote espumava, e a fumaça dos incensários de tão espessa parecia envolver-lhe a indecorosa nudez numa clamide de cinza, estrelada de círios.

- Ó Rei poderoso das satisfações, os que te acreditam, abandonam as cobardias da vergonha, as pregas do pavor e a estupidez da resignação. Envia-nos Astaroh, dá-nos o amor, faze-nos gozar o prazer, faze-nos.

Um palavrão silvou, sagrado como a Bíblia. Houve um complexo de urros e guinchos.

- Amém! - cacarejavam os pequenos.

- Tu que és o Vício Amplo, ajuda-nos a violar o Nazareno para a glória imensa.

Outro palavrão estalou. Metade do grupo não compreendia o galimatias blasfemo, mas as frases indignas eram como varadas acendendo a lubricidade, e a gentalha então, como o gesto lúbrico dos macacos, cuspinhava impropérios.

O sacerdote não descansou. Atirada a palavra, trepou os degraus, colocou uma mitra imoral no crânio, e, estendendo entre os dedos uma hóstia branca de neve, encostou-se ao altar vacilante.

- Que vai ele fazer?

- Vai ao sinistro banal...

Que Deus seria esse? Ia perguntar ao poeta, mas não tive tempo. Um dos sacristãos trepara ao altar, com o cálice na mão. Como coroado pelos pés do Cristo, o pequeno com tremores pelo corpo, tiques bruscos, garrões de nervos, o olhar embaciado sujeitava-se à estripação do batismo da hóstia, e enquanto o braço do sacerdote num movimento cruel sacudia-o, a sua voz ia dizendo:

- Que Satã o faça encarnar.

De repente o braço estacou. O pequeno tombara babando. Houve então a apoteose. Com a hóstia poluída, o homem nu desceu gritando; os braseiros caíram por terra, os homens ambíguos com gargalhadas infames rolavam; mulheres estrábicas trepavam pelo altar de quatro pés, querendo comer as migalhas da hóstia úmida. A rapariga de óculos azuis com os cabelos presos a um círio estendia o corpo convulsionado; o ocultista gordo gania, em torno do malandro nu, o sacerdos; uma teoria de sátiros e fúrias hidrófobas mastigava enojada os pedaços de hóstia que o rapaz de pescoço de condor cuspinhara. A fumaça dos círios sufocava, alguns castiçais tinham caído.

- Hein? - fez o poeta, por pose. Mas tinha os olhos injetados e tremia.

Então, agarrei-o, passamos à sala em que os corpos redemoinhavam promiscuamente no mais formidável dos deboches entre os círios tombados. Dois sinetas puxaram-no. Claudino amparou-o no pedestal do pavão, o Vício Triunfal rolou. Demos na sala dos refletores, desesperados. A sala parecia na sua solidão uma gare de crime deserta. Entramos na outra em que Justino rolava num canapé sob a pressão de incubos suficientes e reais. O negro abriu meia porta:

- Não querem a água maldita?

- Não.

- V. S. vai assustado. Não diga nada, meu senhor. Deus lá em cima é que lhes dá esse castigo.

Deixei-o falar, deitei a correr como um doido, na noite enluarada. Ouro, prostituição, infâmia, canalhice, sacrilégio, vergonha! Mas que é tudo isso diante da castidade imaculada dos elementos? Dos altos céus imensos que as estrelas cravejam de glória, a lua derramava por sobre a calma da noite um manto inconsútil de cristal e ouro, e a terra inteira, cheia de paz e doçura, abria em perfume sob o sudário de luz, infinitamente casta...

E foi como se, arrancado ao inferno de um pesadelo lôbrego de nojo e perversão, eu voltasse à realidade misericordiosa de bondade da vida.