A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro/VIII

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A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro por Artur de Azevedo
Capítulo VIII


Os conselhos do Pimenta foram fielmente observados. D. Firmina e os rapazes concertaram-se para a conquista da moça por meio de meiguices, candongas e lamúrias A mãe, que tinha a lágrima fácil, fez ver à filha que estava nas suas mãos salvar o futuro da família. Alexandre lembrou-lhe que esse casamento o faria sócio da casa comercial do barão de Moreira, e o estudante empregou todos os argumentos para convencer a irmã de que devia ser baronesa. D. Firmina estabelecia a todo o momento um paralelo entre o barão e o amanuense: de um lado opulência, luxo, conforto, alta sociedade, teatro lírico, Petrópolis, Paris; do outro pobreza, privações, luta pela vida, etc.

Fadinha não se deixou abalar por essa catequese impertinente, e resolveu escrever ao Remígio uma carta desesperada, que terminava por estas palavras: "Peço-te que me tires desta casa, deste inferno, pois só assim poderei ser tua. Sairei daqui no momento em que o entendas, e ficarei em casa de alguma família do teu conhecimento, até que se efetue a nossa união. Não te demores em satisfazer ao meu pedido, porque já vou perdendo as forças com que tenho resistido até hoje. Não quero ser de outro homem que não sejas tu, porque te amo, e desejo ardentemente cumprir a vontade de meu pobre pai."

Esta carta sobressaltou o Remígio, cujo caráter vacilante não se podia conformar com um ato de violência, como fosse raptar uma donzela. Assustava-o a perspectiva de um escândalo, aterrorizava-o a grave responsabilidade que tomaria sobre os ombros, satisfazendo o imperioso desejo da sua amada.

Dizem que o verdadeiro amor não reflete; reflete, sim; tanto reflete que o Remígio estabeleceu mentalmente aquele mesmo paralelo que tinha sido o grande argumento de d. Firmina e pela manhã, depois de uma noite de lágrimas e de insônia, estava convencido de que o seu dever era sacrificar-se. Mas para sacrificar-se inteiramente, precisava mentir, mascarar os seus sentimentos, dar ao sacrifício todas as aparências de uma resolução comum, que nada lhe custasse.

Foi nessas disposições que pegou na pena e escreveu esta carta:

'Fadinha - O que me pedes faria o desespero de tua família; seria um escândalo, que a memória sagrada de teu pai me não perdoaria. Lamentei sempre a tua excepcional beleza como um obstáculo erguido contra a minha felicidade e, como tua mãe e teus irmãos, penso que não tens o direito de recusar um título de baronesa e uma fortuna sólida, para te lançares nos braços de um funcionário público subalterno. Seria para mim motivo de eterna mágoa não te poder dar o luxo, o conforto, o simples bem-estar que não te faltarão no palacete do barão de Moreira. Os teus parentes maldiriam o meu egoísmo, e - tu mesma - quem sabe? - quando mais tarde passasse o que se chama lua-de-mel, te arrependerias de haver trocado um rico titular por um pobre-diabo como eu. Consente no consórcio que te propõe a tua família; sofrerei muito porque te adoro, mas consolar-me-ei com a certeza de que serás mais venturosa com esse homem do que o poderias ser comigo."

Essa carta, que o Remígio assinou com o mesmo sentimento com que assinaria a sua sentença de morte, produziu o desejado efeito.

Na noite em que a entregaram a Fadinha, o barão de Moreira estava na sala em companhia de d. Firmina e dos filhos. Era a terceira visita que o negociante fazia à família.

A moça correu pressurosa para o seu quarto e abriu a carta. Leu-a, e segurou-se a um móvel para não cair fulminada por aquele desengano terrível.

Teve uma crise de lágrimas, chorou abundantemente, mas veio logo a reação e, reanimada pelo despeito e pelo orgulho, enxugou os olhos, compôs o penteado e foi para a sala.

O barão de Moreira levantou-se e correu ao seu encontro. Ela estendeu-lhe a mão, dizendo:

— Eu sei que o senhor barão deseja ser meu esposo. Poupo-lhe o trabalho de pedir a minha mão. Aqui tem! Sou sua!...