A Mortalha de Alzira/I/I

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A Mortalha de Alzira por Aluísio Azevedo
Primeira Parte, Capítulo I: A cela misteriosa


No ano de 17**, Paris então muito governado pela Pompadour e um pouco por Luís XV, palpitava de entusiasmo com um escândalo original.

Por um instante, a grande cidade libertina distraía-se dos seus desregramentos habituais e esquecia a ordem dos Aphrodites e dos Hermaphrodites, e esquecia as picantes palhaçadas de Taconnet e o obsceno macaco de Nicolet e os expressivos fogos de vista de Torré, e esquecia Ruggieri com a sua exibição de pernas e colos importados da América, e esquecia les spetacles pyrrhiques e o Wauxhall, e esquecia as velhacas e célebres representações do barão d'Esclapon e da duquesa de Mazarin, e esquecia-se até de ouvir as pilhérias da magra, feia e adorada Guimard, para só ter atenção para o novo escândalo que acabava de surgir inesperadamente.

Era o caso que o famoso pregador La Rose tinha como todos os anos, de pregar o seu sermão da quinta-feira santa na capela real, e fora acometido por um formidável ataque de asma, justamente na véspera desse dia. Escreveu logo ao vigário-geral, seu amigo particular, dando-lhe parte do fato e pedindo-lhe que, sem perda de tempo, tratasse de descobrir alguém que o substituísse.

Ora, o caso era deveras apertado! Quem teria a coragem de ir, à última hora substituir La Rose no púlpito da capela real, num dos sermões mais importantes da quaresma?. . .

Substituir La Rose!... La Rose, "o segundo Bossuet", como lhe chamavam seus inúmeros admiradores! La Rose, o amimado pregador da corte, o protegido de Antoinette Poisono insubstituível, o querido tanto por parte dos Molinistas como por parte dos Jansenistas, o aclamado por todo o alto e baixo público de Paris! La Rose, o indispensável! La Rose, o— insubstituível!

E era preciso que ele com efeito estivesse deveras doente, para faltar ao sermão de quinta-feira santa, porque La Rose prezava muito aos seus triunfos na tribuna sacra, e não esperdiçaria facilmente uma boa ocasião de orar perante o rei e toda sua corte de fidalgos e toda a sua corte de letrados.

Entretanto, sabia-se também que La Rose, desde que sentisse a menor alteração na voz, não seria capaz de falar em público, nem à mão de Deus Padre, porque era precisamente na maneira especial de jogar com a sua bela e sedutora voz, que consistia o grande segredo dos seus incomparáveis triunfos.

É inútil dizer que, por melhores esforços empregados, nenhum pregador se descobriu, bom ou mau, que quisesse ir tomar o lugar do querido mestre. Davam-se todos por igualmente atacados da garganta, como se a asma de La Rose, à semelhança do que sucedia com o seu estilo oratório, se estendesse de improviso por todos eles, desde o mais pretensioso até ao mínimo dos numerosos pregadores sagrados, que nesse piedoso e alegre tempo enchiam os púlpitos de Paris com as suas frases retumbantes e com os seus eloqüentes e artísticos soluços.

O rei aborreceu-se e chegou a franzir as sobrancelhas. Luís XV, se era folgazão, era também devoto. E se era devoto era também homem de gosto exigente; não compreendia uma quinta-feira santa sem La Rose. Além disso, tinha na véspera abusado da sua suntuosa adega, e a melhor água de Selters para as suas ressacas era ainda La Rose.

Que diabo! O caso era sério.

Empregaram-se os últimos recursos para descobrir alguém que, sem grande escândalo, fosse capaz de improvisar um sermão digno da real ressaca; ofereceram-se bonitas somas, fizeram-se as mais lindas promessas. O cabido inteiro agitou-se, remexeu-se, sorveu consecutivas pitadas, esfregou mil vezes o lenço encarnado no nariz, mas ninguém teve coragem para aceitar a espinhosa missão.

As salas do palácio arquiepiscopal pareciam formigueiros; as batinas esfervilhavam irrequietas, entrando e saindo, trazendo e levando recados. Cochichava-se daqui, cochichava-se dali, bichanava-se por todos os cantos e recantos do palácio, sem nada se resolver que aproveitasse.

E, no entanto o tempo fugia e era preciso tomar uma resolução.

O arcebispo, já desesperado, ia estender o braço para tomar ao acaso o primeiro dos seus sufragâneos, e ordenar-lhe que subisse ao púlpito e despejasse, com um milhão de raios! um sermão qualquer, quando de improviso rasgou-se o reposteiro da sala, em que ele se achava entre uma negra nuvem de batinas, e viu-se surgir a veneranda figura de frei Ozéas, com as suas grandes barbas brancas e a sua enorme calva de profeta.

Encaminhou-se diretamente para o arcebispo e disse-lhe, depois das reverências do estilo:

— Comprometo-me, se mo permitirem, a apresentar hoje no púlpito da capela real alguém a que irá dignamente substituir o padre La Rose.

Fez-se em torno destas simples palavras um profundo silêncio de pasmo e de desabafo.

Bastava só, porém, a presença do frei Ozéas naquela sala do paço arcebispal para levantar a surpresa do cabido inteiro, porque todos lhe conheciam a vida obscura e solitária, e todos sabiam que era muito e muito raro vê-lo fora do seu modesto convento a não ser para algum ato de caridade.

Frei Ozéas era um homem singularíssimo, como mais adiante apreciará o leitor. Havia vinte e tantos anos que em torno dele se formara, de dia para dia a mais sólida reputação de virtude e santidade.

De quem disporia o singular frade para fazer substituir La Rose?...

E começou logo o sussurro dos comentários.

O arcebispo, entretanto, tomara-o avidamente pelo braço, e desaparecera com ele pela porta que conduzia ao interior do palácio.

Pouco depois, descia frei Ozéas as escadas do paço, metia-se no carro que o esperava à entrada do jardim, dizia ao cocheiro que tocasse depressa para o convento de S. Francisco de Paulo, e daí a meia hora, atravessava o longo pátio ladrilhado de pedra e subia a pesada escada do claustro, em que ele se havia condenado a viver para sempre em dura penitência.

Apesar do tremor dos seus setenta anos, venceu ligeiro os extensos corredores abobadados, galgou uma estreita escada que conduzia a um sombrio mirante, e, tendo várias vezes volvido os olhos para trás, como se temesse ser acompanhado por alguém, chegou-se a uma pequena porta inteiriça, e bateu três pancadas secas com as falanges dos seus dedos ossudos e pálidos.

A porta abriu-se sem ruído. Ele entrou, e a porta fechou-se de novo, silenciosamente.

O lugar em que o venerando religioso acabava de penetrar, era uma triste cela, sombria e espaçosa, com uma janela gradeada e fechada, e apenas frouxamente esclarecida por uma clarabóia do teto. As paredes, nuas de alto a baixo, tinham uma cor sinistra de osso velho. Em uma delas havia um grande nicho com a imagem da Virgem da Conceição, quase de tamanho natural; a um dos cantos, uma negra estante toscamente feita, pejada de grossos alfarrábios amarelecidos pelo tempo; no centro, uma mesa de madeira escura com um breviário em cima, ao lado de uma candeia de azeite, um pedaço de pão duro e um cilício cru; junto à mesa, um banco de pau

Ozéas fora recebido à porta por um mancebo de uns vinte anos, muito pálido, ainda imberbe, vestido com uma esfarrapada batina de seminarista.

Não havia mais ninguém na cela.

O mancebo beijou-lhe a mão. Ozéas abraçou-o e disse-lhe depois, tocando-lhe carinhosamente no ombro:

— Meu filho, vais hoje pela primeira vez atravessar as ruas de Paris e entrar na capela real.

— Para que, meu pai?

— Para pregar o sermão de quinta-feira santa.

— Eu? mas o que vou dizer?. . .

— Vais dizer pura e simplesmente o que sabes e o que sentes a respeito da paixão de Jesus Cristo. . . Não te preocupes com a multidão que lá encontrares, não te preocupes com o que vires. Fecha-te contigo mesmo e fala como se conversasses com o teu anjo da guarda. Abre o teu coração, quando abrires os teus lábios, e deixa dele sair, imperturbável e cristalina, a tua alma de bem-aventurado.

— Bem, meu pai.

— Daqui a pouco virá a roupa com que tens de ir. Dentro de uma hora virei buscar-te.

— Estarei pronto e às suas ordens, meu pai.

— Reza a Nossa Senhora enquanto me esperas. Adeus.

— Sua bênção, meu pai.

— Deus te abençoe.

E frei Ozéas tornou a sair, fechando-se de novo sobre ele a porta, silenciosamente.