A Nova Jerusalém

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As Religiões no Rio por João do Rio
A Nova Jerusalém


A sede da Nova Jerusalém, anunciada pelo Apocalipse, fica na rua Maria José, n.0 10. É uma casa de dois pavimentos, muito alta, pintada de vermelho-escuro, que assenta à beira da rua Colina como uma fortaleza.

De longe parece formidável aos reflexos do sol, que queima todas as vidraças, e reverbera nas escadas de pedra; de perto é solene. Abre-se um portão, sobe-se uma das escadas, abre-se outro portão, dá-se num pátio que termina para a frente em estreitas arcarias ogivais e perde-se ao fundo num jardim obumbroso. Desse pátio vê-se o declive das ruas que descem, e vagos trechos da cidade.

Antes de bater, olhamos ainda a casa alta. Detrás daqueles muros viceja a religião de Swedenborg, a nova igreja, a verdadeira compreensão da Bíblia; detrás daqueles muros, iluminados da luz da tarde, guarda-se a chave com que tudo se pode explicar neste mundo. "Eu sou o Deus - disse Jesus a Swedenborg -, o Senhor, o Criador e o Redentor, e te elegi para explicares aos homens o sentido interior e espiritual das Escrituras Santas. Ditar-te-ei o que escreveres!"

Subimos mais uma escada de pedra nua, no patamar da qual nos recebe o Sr. Frederico Braga. Esse cavalheiro amável é uma espécie de "diletante" dos cultos. Dizem que já foi até faquir, fazendo crescer bananeiras de um momento para outro. Neste momento, porém, limita-se a fazer-nos entrar para uma sala simples e, enquanto nós vagamente o interrogamos, passeia da porta para a janela.

- O pastor está aí - diz de repente. - Ninguém melhor do que ele pode informar.

O pastor é o Sr. Levindo Castro de la Fayette, que aparece logo. Homem de fisionomia inteligente, falando bem, com o ar de quem está sempre na peroração de um discurso interrompido por apartes, o pastor agrada. Há decerto nos seus gestos um pouco de morgue, o íntimo orgulho de ser profeta de uma religião de intelectuais, de espalhar pela terra a palavra do maior homem do mundo, que tudo descobrira na ciência terrestre e vira Deus na terra celeste.

O Sr. la Fayette consulta o óculo brilhante, fala da conquista da Nova Igreja através do mundo, fala torrencialmente. É a história do swedenborgismo desde a morte de grande visionário, desde a defesa de Tomás Wright e Roberto Hindmarsh, que demonstraram o perfeito estado mental do mestre, até à reunião dos adeptos de Swedenborg em Londres em 1788, donde começou a expansão do culto novo que agora aumenta diariamente na Áustria, na França, na Inglaterra, na Austrália, nos Estados Unidos, com igrejas novas e novos adeptos. Pode-se calcular em cento e vinte mil o número de crentes.

O Sr. Frederico Braga mostra-nos as revistas alemãs e inglesas, o New Church Messenger a New Church Review, onde vêm reproduzidas em fotogravura as fachadas dos novos templos através do mundo.

- A verdade caminha! - diz o pastor -, e leva-nos à sala onde se realizam as reuniões dos swedenborgeanos. É no 1.º pavimento, na frente, uma sala nua. Ao centro uma grande mesa, rodeada de cadeiras com uma cadeira mais alta para o pastor. Ao lado a biblioteca, onde se empilha a obra interminável de Swedenborg desde os Arcania Ca'lestia até o Tratado do Cavalo Branco do Apocalipse.

A Nova Jerusalém do Brasil data de 1898. Foi seu fundador o próprio Sr. de la Fayette, e isto devido a revelações que recebera em Paris alguns anos antes. É o caso que o pastor, nesse tempo simples professor de português num instituto parisiense, foi nomeado chanceler do consulado-geral do Brasil na França. Essa função fê-lo desejoso de conhecer a verdade espiritual, e, para que a verdade brilhasse, de la Fayette observou logo um rigoroso regime de temperança em todas as coisas... Swedenborg, cavaleiro da ordem eqüestre da Suécia, que de tudo escrevera e falara, só em 1745 teve a revelação de que estava talhado para explicar os símbolos da Bíblia. Mas Swedenborg comia muito. A primeira vez que os espíritos invisíveis lhe falaram foi durante um jantar. O filósofo engolia vorazmente no quarto reservado de um hotel, onde à vontade devorava e pensava, quando sentiu a vista se lhe empanar e répteis horríveis arrastarem-se pelo soalho. Os olhos pouco tempo depois recobraram a visão perfeita e Swedenborg viu, distintamente, no ângulo da sala, um homem com o seio em luz que lhe dizia, paternalmente:

- Não comas tanto, meu filho!

De la Fayette não precisou desse celeste conselho. Praticou-o antes da revelação; - e foi por isso que meses depois, começou, durante o sono, a receber ensinamentos do mundo espiritual a respeito da palavra de Deus. Desde esse tempo o Sr. Levindo foi guiado pelo céu, e chegou até à Biblioteca Nacional.

- Que livro hei de pedir? - interrogou aos seus botões o homem feliz.

- Pede Swedenborg! - bradaram os espíritos bons de dentro do Sr. Levindo.

O iluminado pediu os Arcania Caelestia, em latim, porque além de cinco línguas vivas, lê correntemente a língua em que Catulo escreveu tão belos versos e tão sugestivas patifarias. Leu os Arcania, foi à igreja da rua Thouin, conversou com Mme. Humann que o recebeu inefavelmente doce, e meses depois, era batizado na nova igreja.

Em agosto de 1893, o Sr. de la Fayette, que é mineiro, veio para o Rio, mas quando aqui chegou a revolta estalara, havia estado de sitio, e não teve remédio senão abalar para as montanhas do seu Estado. A cidade de Lamim, em Minas, foi onde primeiro se falou no Brasil da Nova Jerusalém.

De volta ao Rio, o pastor fez um adepto, o Sr. Carlos Frederico Braga, também mineiro. A adesão foi rápida. O Sr. Carlos concordou logo com o Sr. de la Fayette, como concordava naquele instante em que eu os ouvia. Daí por diante Levindo foi o texto do credo e Carlos Frederico o comentário entusiasmado. Esses dois homens atiraram-se pela cidade a explicar a Nova Jerusalém, a fazer compreender pelos homens inteligentes as sagradas interpretações do prolixo Swedenborg, escritas sob as vistas de Cristo Deus, que é só. Quatro anos depois reuniram na rua Minervina cinqüenta swedenborgianos, fundando duas sociedades: - a Associação de Propaganda da Nova Jerusalém, pela imprensa, conferência e leitura das obras do mestre, e uma sociedade de beneficência para auxiliar os irmãos brasileiros.

Um jornal, a Nova Jerusalém, foi logo publicado e existe há oito anos; o círculo da propaganda aumentou, amigos em viagem levaram a notícia ao Pará, ao Rio Grande do Sul, à Minas e, afora esses adeptos, cerca de duzentos swedenborgianos reúnem-se aos domingos para ouvir de la Fayette narrar o símbolo de Adão, explicar o sentido único de cada palavra em todos os livros da Bíblia e louvar Swedenborg.

- Swedenborg! eu não preciso dizer-lhe quem foi esse extraordinário espírito que tudo descobriu da terra e do céu. Na sua época, chamou a atenção de grandes cérebros como Goethe, Kant, Wesley, de Wieland, Klopstock...

Nós batemos as pálpebras, gesto que Swedenborg considera sinal de entendimento e sabedoria. Goethe pusera o filósofo no Fausto com o pseudônimo de Pater Seraphicus, Kant falando dele recorda o cumprimento do seu cocheiro a Tycho Brahe: "o Sr. pode ser muito entendido nas coisas do céu, mas neste mundo não passa de um doido". Os outros não tinham sido mais amáveis. Mas para que discutir? O ministro da Nova Jerusalém continuava contando a atenção e curiosidade dos povos modernos pelo extraordinário profeta do Norte. Depois parou.

- O que é, em síntese, a Nova Jerusalém? - perguntei.

Swedenborg, ao morrer em casa de um barbeiro, achava desnecessário receber os sacramentos por ser de há muito cidadão do outro mundo. A respeito dessa região o cidadão escreveu enormes volumes ex auditis et visis, isto é, sobre o que vira e ouvira.

Os Arcania, o tratado do Céu e do inferno, o tratado das Representações e Correspondências, a Sabedoria Angélica sobre o divino Amor e a divina Sabedoria, a Doutrina Novae Hierrosalymae, as terras do nosso mundo solar e no céu astral, até o Amor Conjugal, com umas máximas arriscadas sobre o amor escortatório, explicaram bem as suas extraordinárias viagens.

Swedenborg esteve no inferno e conversou com tanta gente que Mater para simplificar fez uma lista cronológica desde os deuses gregos até os contemporâneos; teve relações íntimas com os espíritos de Júpiter, de Mercúrio, de Marte e até da Lua, apesar de não simpatizar muito com esses que eram pequenos e faziam barulho. Não foi só. O extraordinário homem viu o paraíso, ouviu os anjos, esteve com Deus em pessoa. Era natural que compreendesse o sentido das correspondências entre os espíritos dos planetas e o máximo homem, que revelasse ao mundo o sentido íntimo espiritual ou celeste das revelações que até então ficara ignorado.

"A doutrina da Igreja atual é viciosa, deve desaparecer" e Swedenborg, com os olhos espirituais abertos, não inovou, elucidou os textos sagrados.

A nova igreja tem um catecismo que explica e resume a Nova Jerusalém e a sua doutrina celeste. Assim o homem foi criado por Deus para amar a Deus e fazer o bem ao próximo. Quem faz mal, vai para o inferno, quem faz bem, vive com luxo e conforto no reino do céu que, segundo Swedenborg, tem edifícios magníficos, parques encantadores e vestidos bonitos. O homem aprende a fazer o bem nos dez mandamentos. É simples e fácil.

O Senhor, deve o homem julgá-lo o único Deus, em que está encarnada a Santíssima Trindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A trindade perfaz numa só pessoa a alma, o corpo e o ato da obra. Na Trindade Divina, o Pai é a alma, o Filho o corpo, o Espírito Santo a operação condensados numa só pessoa: - Jesus. É esta a divergência capital do Catolicismo. A Nova Jerusalém é o cristianismo primitivo. Os seus membros não têm ambições e ajudam-se uns aos outros, praticando a caridade, o único amor capaz de nos desprender de nós mesmos para nos aproximar de Deus. A regeneração vem da oração. O homem ora só a Jesus, porque o mais é idolatria. Todas as ciências e religiões nada são sem o conhecimento de Deus. Possuidores desse conhecimento, os swedenborgeanos têm a chave da interpretação exata de tudo e explicam com harmonia espiritual todas as ciências e todas as religiões.

- Não se podia voltar ao Cristianismo, ao tempo em que começou a ser falsificado - diz-nos o Sr. de la Fayette. - Seria desconhecer as leis da ordem divina, que teria desse modo perdido quinze séculos, quando esse período serviu para a execução das suas obras sempre misericordiosas. O Senhor anunciou que, na consumação dos séculos, isto é, no fim da igreja atual, viria, "nas nuvens do céu, com poder e glória" fundar outra igreja que não terá fim. Esta igreja é a Nova Jerusalém, que o Senhor instaurou, retirando o véu que ocultava o Verbo...

Escurecia. As trevas entravam pela sala onde o Verbo é revelado. Em derredor, quanto abrangia o olhar, via-se a cidade reclinada por vales e montes, preguiçosamente. No céu puríssimo as estrelas palpitavam devagar; pela terra estrelavam os combustores um infinito recamo de luzes.

- Vou aos Estados Unidos - disse o ministro - comprar livros, editar obras minhas para franquear a biblioteca ao povo. A regeneração far-se-á!

E nós descemos o monte, onde, naquela casa de pedra, duzentos homens, compenetrados do secreto sentido das correspondências, louvam todos os domingos Swedenborg que gozou o Céu, e Jesus que é a caridade e o supremo Amor.