A Novella Semanal/O Avô

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O A V Ô

Parecia-se com todos os vovôs. Seu maior prazer era brincar com os netinhos, principalmente com os bem pequeninos que ainda não aprenderam a rir-se delle e a desprezal-o.

Quando elle chegava arcadinho, auxiliando os passos tropegos com o bengalção de cabeça de cachorro esculpida no cabo, a miuçalha alvoroçava-se e recebia-o com um só grito :

— O vovôzinho !

Precipitavam-se, soffregos, arrebatando-lhe a mão para a beijar.

Interesseirozinhos! não o faziam por affeição apenas; é que sabiam ser essa uma cerimonia preliminar indispensavel e procuravam libertar-se della o mais depressa possivel.

O essencial era o que vinha depois, isto é, a repartição das balas.

Isso era infallivel e mysteriosamente inexplicavel.

Como caberem tantas balas num só bolso?

E havia-as sempre, nunca os netinhos viram esgotada a provisão.

Como queriam bem aquelle velhinho, cuja imagem se lhes associava no espirito á idéa, de boas guloseimas!

Além disso, vovô não era como todos os homens; era mais «complicado», carregando comsigo maior numero de coisas que lhes serviam de brincos: a boceta de rapé, o bengalão, o relógio, os óculos...

Os netinhos amavam-no e elle os adorava.

Era de ver o gosto com que tomava nos joelhos um delles!

Fosse embora a mais disforme das criaturas elle o contemplava absorvido em êxtase, exclamando :

— Como é galantezinho!

— Tão bondoso o vovô! e tão esquecido!

Ao sahir deixava sempre qualquer coisa e essa qualquer coisa eram quasi sempre os óculos.

Ao afastar-se, gritava um dos petizes:

— Vovôzínho ! os oculos!

E emquanto a criançada abria um côro de risos, elle os tomava com mão tremula murmurando:

— Esta minha cabeça! Tudo me esquece.

*

Um dia não houve repartição de balas.

E' que o vovôzinho morrera.

Tão-frágeis essas criaturas amadas, cujos cabellos o inverno da vida embranqueceu ! Um sopro as leva, e, preenchendo o espaço da casa onde havia uma creatura animada, resta somente uma recordação melancolica.

Foi a primeira vez que não houve repartição de guloseimas.

Levaram os netinhos o vel-o.

Quanta coisa a estranhar naquelle dia!

O vovô que nunca acordava, estirado na marqueza da sala da visitas; pessoas que choravam, outras que entravam e sahiam, pisando de mansinho.

A Dusica, netinha de três annos, arregalava os olhos candidos, sem comprehender.

Sua sô-impressão nitida era a inveja que lhe causava o canivete novo do Mello, único meio encontrado de consolal-o da magua inconsolavel que lhe causava aquella desgraça.

No mais, em sua cabecita de anjo, tudo era confusão.

Por quê mettiam o bom avô num longo caixão negro ? E depois, por que o levavam ?

Muitos homens descobertos sahiram da casa, carregando-o comsigo.

Dusica, sorprehendida, vagueava em torno o olhar candido.

Viu então sobre a mesa um objecto esquecido; e como de costume, correu á porta gritando :

— Vovôzinho ! os óculos !

GODOFREDO RANGEL.

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