A Parcimônia do Coronel

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A Parcimônia do Coronel
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


Nada encantou mais os provincianos que vieram ao Rio para as festas do Centenário, do que as mulheres que os tentavam nos cafés, nos cinemas, nas esquinas. Milhares deles ficaram depenados na primeira semana, vendo-se obrigados a tornar à província antes, mesmo, da abertura da Exposição. Em compensação, outros mostraram-se espertíssimos e econômicos, destacando-se, entre eles, o coronel Agostinho Nogueira, proprietário e um pequeno engenho em Pernambuco.

Solto, uma noite, na cidade, o coronel pôs-se a andar pela Avenida, indo ter ao ponto dos bondes, à Rua Santo Antônio. Adivinhando-lhe a origem e o pensamento, uma francesinha aproximou-se, o olhar petulante, o sorriso perverso, o gesto desafiador.

— Meu benzinho, por quanto você dá um beijinho na gente? — aventurou o velhote, com a cara mais sem-vergonha deste mundo.

— Cinqüenta mil-réis, "mon cheri!"

A essas vozes, o coronel meteu o guarda-chuva debaixo do braço, e continuou a andar, tomando pela Treze de Maio. À esquerda da Evaristo da Veiga, sofreu outro assalto. Fez a mesma pergunta.

— Vinte mil-réis, "mon p'tit!"" — informou a aventureira.

Parcimonioso e ajuizado, o "centenário" nortista não deu resposta. Pôs-se a caminhar, de novo, guarda-chuva em punho, até que, na praia da Lapa, novamente abordado, ouviu a terceira resposta.

— Dez mil-réis, "p'tit cochon"!

Ia o coronel, já de caminho, refletindo nessa redução de preços, obtida à proporção que avançava, quando se encontrou com o seu amigo, patrício e compadre, o capitão Teneredo Bordallo.

— Ó compadre, por aqui?

— É verdade, compadre!

— Aonde vais?

Agostinho meditou rapidamente sobre as economias a fazer, e informou:

— Homem, eu mesmo não sei.

E após um instante, pensando nas reduções já conseguidas:

— Mas, pelo que vejo, compadre, eu vou a Copacabana!